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Henri Wallon e o conceito de emoção

Estudo de Henri Wallon indica como saber o que afeta as crianças observando suas emoções

Fernanda Salla

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As emoções dos bebês não são intencionais nem racionais. São geralmente influenciadas  positiva ou negativamente por sensações internas e pelo ambiente em que vivem. Foto: Lily Franey/Gamma-Rapho via Getty Image. Pesquisa iconográfica Josiane Laurentino
PRIMEIRAS REAÇÕES As emoções dos bebês não são intencionais nem racionais. São geralmente influenciadas positiva ou negativamente por sensações internas e pelo ambiente em que vivem

O que quer dizer o choro de um bebê? E quando ele movimenta bruscamente braços e pernas: será que é fome? Sono? Alegria? Cólica? Os espasmos, risos, gritos e outros comportamentos do recém-nascido são demonstrações da sua emoção (leia o resumo do conceito na última página). É por meio dela que o bebê comunica algo que o afeta. Por ter como característica uma ativação orgânica (não controlada pela razão), a emoção altera a respiração, os batimentos cardíacos e até o tônus muscular, sendo a mais visível das expressões afetivas (que incluem o sentimento e a paixão, conforme mostra a reportagem da série Teoria Passada a Limpo, publicada na edição de outubro de NOVA ESCOLA). Ao observar o corpo da criança, como ela reage às sensações internas e ao meio externo, é possível identificar o que a afeta e de que forma (se positiva ou negativamente) e usar essa evidência para aprimorar o processo de ensino e aprendizagem.

Henri Wallon (1879-1962), responsável por investigar a emoção geneticamente, diz que ela é a primeira manifestação de necessidade afetiva do bebê e o elo dele com o meio, tanto biológico como social. Isto é, quando a pessoa nasce, ela é só emoção. "Essa descoberta é muito importante, senão vital, para os que trabalham com os pequenos, pois saber que eles não vão reagir de forma racional às coisas interfere na forma de lidar com as circunstâncias que os envolvem", diz Silvia Rodrigues, docente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Quando uma criança faz birra, por exemplo, e o adulto não entende que essa é uma reação normal, ele pode perder o controle da situação. Mas não adianta tentar argumentar racionalmente com a criança num momento de crise como esse, pois ela tende a não escutá-lo, visto que encontra-se em uma turbulência emocional. "Muitos pais e educadores atribuem uma intencionalidade às ações dos pequenos, como se eles quisessem chamar a atenção propositalmente. Mas não é isso o que ocorre. Essas manifestações emocionais fazem parte da construção do 'eu' da criança, que vai se delineando pouco a pouco", diz Leny Magalhães Mrech, livre-docente pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

A comunicação não é o único papel da emoção. "Wallon atribui a ela também a função de mobilizar o ambiente para suprir o prolongado período de dependência, característico da espécie humana", diz Heloysa Dantas, professora aposentada da Faculdade de Educação da USP e estudiosa da obra de Wallon há mais de 20 anos. A emoção é fonte de sobrevivência do bebê, pois ele depende dos outros e a utiliza para garantir suas necessidades mais básicas (leia o trecho de livro na próxima página). Com o choro, a criança manifesta a sensação de fome, por exemplo, e chama a atenção da mãe, que vai saciá-la. Mais tarde, esse gesto, que a princípio não tinha uma intencionalidade clara, ganha um sentido. Assim a criança vai modelando suas emoções e caminha para a diferenciação. É daí que nasce a razão.

Depois de alguns meses, o bebê tem uma postura própria quando tem medo, quando está alegre ou com raiva. "Uma das leis do desenvolvimento é que ele vai do sincretismo para a diferenciação. Isso em todas as dimensões, inclusive na afetividade. No início, as emoções são desordenadas, confusas e depois vão ganhando sentidos próprios", afirma Laurinda Ramalho de Almeida, vice-coordenadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Porém essa expressão afetiva não aparece somente na fase impulsivo-emocional dos pequenos (até mais ou menos 1 ano de idade). Continua durante todo o processo de desenvolvimento. No ambiente escolar, dependendo de como o professor, o meio e os colegas afetam a criança, seu aprendizado pode ser desenvolvido ou inibido, e a emoção transparecida por ela evidencia isso (leia a questão de concurso na última página). Um lugar repressor ou em que a violência aparece de forma corriqueira gera manifestações mais agressivas. "Uma criança que age de maneira hostil não está plenamente consciente dessa emoção. Ela reage ao meio", diz Leny. O medo, por exemplo, pode inibir a aprendizagem, pois a emoção impossibilita que o racional atue de forma efetiva.

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=== PARTE 3 ====

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 247, Novembro 2011. Título original: O que o corpo fala
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