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Formação

Edição 216 | Outubro 2008

A origem do sucesso (e do fracasso) escolar

De todos os fatores que influenciam a qualidade da escola, o professor é, sem dúvida, o mais importante. Por isso, a formação (inicial e continuada) faz tanta diferença - para o bem e para o mal. No Brasil, infelizmente, para o mal

Thais Gurgel

O jogo de dominó tem uma dinâmica peculiar: cada movimento leva a outro e completar a sequência sobre a mesa ou derrubar as peças depende dessa reação em cadeia para funcionar. Essa representação vale, de forma metafórica, para a qualidade da Educação. Para atingi-la, ou seja, garantir a aprendizagem de todos os alunos, é preciso começar com uma "jogada" que define todo o processo: a formação inicial dos professores. Se ela for boa, todos saem ganhando. Se, no entanto, ela for ruim... 

Há um ano, NOVA ESCOLA publicou o resultado de uma pesquisa que mostrava que 64% dos educadores brasileiros avaliam o curso em que se graduaram como excelente ou muito bom, mas 49% dizem que esse mesmo curso não os preparou para a realidade da sala de aula. Ou seja, não é tão bom quanto deveria - afinal, a finalidade do trabalho docente é justamente ensinar. Para entender melhor essa questão, foi encomendada uma nova pesquisa, dessa vez à Fundação Carlos Chagas. A análise de 71 currículos de cursos oferecidos por instituições de ensino públicas e particulares de todo o Brasil aponta para um descompasso preocupante entre o que as faculdades de Pedagogia oferecem aos futuros professores e a realidade encontrada por eles nas escolas.

"Há uma ênfase muito grande nas questões estruturais e históricas da Educação, com pouquíssimo espaço para os conteúdos específicos das disciplinas e para os aspectos didáticos do trabalho docente", resume Bernardete Gatti, diretora de pesquisas da Fundação Carlos Chagas e coordenadora do estudo, que é apresentado em primeira mão nesta edição (confira no quadro abaixo alguns dos principais indicadores do trabalho). "As universidades parecem não se interessar pela realidade das escolas, sobretudo as públicas, nem julgar necessário que seus estudantes se preparem para atuar nesse espaço", diz ela.

Repensar a realidade
Para entender esse cenário, NOVA ESCOLA dividiu esta reportagem em mais quatro blocos. Na página 32, o ministro da Educação, Fernando Haddad, explica por que a questão passou a ser prioritária para o Ministério e conta que planeja lançar, ainda no mês de outubro, o Sistema Nacional de Formação do Magistério, para estimular as universidades públicas a criar cursos mais voltados para o exercício da profissão. "É possível e necessário atrair os jovens mais brilhantes para a carreira docente", acredita ele.

Na página 50, você encontra um panorama da formação inicial no Brasil. Descobre, ainda com base nos dados da análise feita pela Fundação Carlos Chagas, que apenas 28% das disciplinas dos cursos de Pedagogia abordam o "quê" e o "como" ensinar - e por que essa falta de conhecimento didático está na raiz do fracasso escolar brasileiro.

Em seguida, repórteres que acompanharam as melhores experiências de formação continuada mostram por que a maior parte dos programas que levam esse nome não passa, na verdade, de tentativas de remendar os furos deixados pela má qualidade dos cursos de graduação. "Faltam programas contínuos, de longa duração, e principalmente a capacitação dentro da própria escola, sob a liderança do coordenador pedagógico", afirma César Géglio, especialista no tema.

Finalmente, na página 58, estão os caminhos adotados pelos países que mais se destacam nas avaliações internacionais de desempenho - e de que maneira a experiência deles pode nos inspirar na busca por uma Educação com mais qualidade. Em comum, todos investem na formação docente por saberem que é ela que pode dar início a uma reação em cadeia que leve ao resultado desejado. 

Descompasso entre o curso e a escola

O raio X da Pedagogia
Número de cursos*
1.562 (7% do total do país)
Número de alunos*
281 mil (6% do total no país)
Evasão*
24%** (13 pontos percentuais maior que a média nacional)
Concluintes*
62.044

O que mostra a pesquisa 

Pouco valor à prática
Apenas 28% das disciplinas do currículo tratam sobre o "quê" e "como" ensinar.

Segmentos desvalorizados
Somente 11% das disciplinas se referem a modalidades de ensino, como Educação de Jovens e Adultos ou Educação Infantil.

Currículo sem foco
Não há clareza sobre os conhecimentos básicos para a formação do professor: 56% das disciplinas são oferecidas por apenas uma instituição.

Estágio pro forma
Os estudantes apenas observam aulas nas escolas, sem orientação adequada e conhecimentos sobre didáticas específicas.

Longe da realidade
A palavra "escola" é citada em 8% das ementas de disciplinas, mostrando que a universidade está alheia à sala de aula.

Seleção ineficiente
Nos concursos públicos, apenas 31% das questões tratam do "quê" e "como" ensinar.***

Fonte INEP
* Em 2006
** Estimativa com base em dados do Inep
*** O dado se refere à pesquisa com base em 35 concursos distribuídos por todo o país

 

 

 

Comente

Giovanna da Silva - Postado em 08/02/2010 15:49:10

Acredito que o problema é bem mais complexo que julgamos, estou cursando 5º periódo do curso de pedagogia e não tenho experiência em sala de aula, e fico assustada só em saber que irei para o estágio e se for preciso facar com a turma sozinha terei que ficar.... e como vou assumir, o que fazer, como fazer, como lidar com a turminha?

marcos gonçalves rodrigues - Postado em 14/01/2010 03:53:55

Olha realmente desde quando estudo são as mesmas coisas, mas levanto uma questão: Porque hoje se tem tantos programas que incentivam alunos e entidades e as escolas e a educação nacional continuam a mesma? Concordo plenamente que a nossa classe e desvalorizada mesmo e como disse isto e desde quando eu estava numa sala de aula, e até em tempos atrás o meu coordenador pedagogico na faculdade nos perguntava se era isso mesmo que queriamos. A teoria é muito boa mas quanto a vivência em sala de aula? Não temos professores preparads em enfrentar o que temos em sala de aula hoje e não vai ser um aumento salarial que vai fazer com que melhore e sim atitude mas temos muitos professores que são feras e bem preparados mas temos alunos que não estão nem ai com o contéudo, será que o problema não tem uma ponta na sociedade também? São muitos os aspectos a serem falados, o fato de não se reprovar mais ajudou e muito, eu vim de uma escola que se não estudasse era retido e nem por isso morri de estudar. E pra finalizar, e triste mas muito de nossos colegas em fim de carreira só pensam em aposentadoria e pronto esquecendo que se cumpriu um bom trabalho a vida inteira não se pode afrouxar só porque esta faltando alguns anos para se aposentar.

Valeria F Pereira - Postado em 29/07/2009 07:39:25

Venho durante algum tempo me perguntando qual é a melhor maneira, ou quais são as melhores maneiras para favorecer e garantir uma educação de qualidade nas escolas públicas.Sinceramente estou chegando a conclusão que não é a boa formação dos professores que vai garantir um bom trabalho em sala de aula.Existem muitos professores que altamente qualificados e no entanto,desenvolvem um péssimo trabalho,suas aulas são de baixissima qualidade e seu desempenho está a baixo da média.Dias desses enquanto aguardava para ser atendida em fila uma de um hospital público aproveitei para conversar com um senhor que dizia que a melhor forma de conseguir a tão sonhada qualidade educacional estaria no valor do piso dos professores,ou seja,na opinião desse senhor quanto maior o sálario mais desempenho os professores vão ter em sala de aula.Devo confessar que discordo desse fórmula matemática, é claro que os professores precisam e devem ser bem remunerados, mas tb ñ é isso que vai garantir o sucesso.Acredito que estejamos distantes dessa possiblidade.O que temos que continuar fazendo?É continuar caminhando em busca desse sonho.



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