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Bruna Elena Giacopinni: "Cada criança é um indivíduo"

Coordenadora pedagógica de Reggio Emilia, na Itália, diz que os pequenos devem ser considerados construtores de conhecimento

Márcio Ferrari

BRUNA ELENA GIACOPINI
BRUNA ELENA GIACOPINI "Mesmo
as crianças muito pequenas produzem
saber e merecem ser ouvidas"

As escolas da cidade de Reggio Emilia, no norte da Itália, são sinônimo de excelência em Educação Infantil. Tanto que em 1994 a prefeitura decidiu fundar a instituição Reggio Children para administrar as atividades de intercâmbio com todo o mundo. Não se trata de exportação de um método. "Deixamos claro que não somos um modelo e que cada comunidade deve achar seu caminho", diz a coordenadora pedagógica do projeto, Bruna Elena Giacopini. "Ajudamos os educadores a olhar a própria realidade para melhor identificar a experiência que acumularam." Entre os princípios adotados em Reggio Emilia estão o trabalho com projetos, pesquisas contínuas, a valorização do processo e não apenas do resultado, a formação permanente dos professores e o contato com as famílias, que recebem relatórios diários sobre os filhos. Bruna esteve no Brasil em agosto para uma série de encontros e trocas de experiências, acompanhada do atelierista Lanfranco Bassi, responsável pelas atividades que estimulam a criatividade. Na entrevista a seguir, ela descreve a experiência de Reggio Emilia e suas duas referências teóricas principais, a Pedagogia da Escuta e a Teoria das Cem Linguagens, ambas desenvolvidas pelo pedagogo Loris Malaguzzi (1920-1994).

Em que se baseia a proposta pedagógica para a Educação Infantil em Reggio Emilia?
BRUNA ELENA GIACOPINI
Nossa experiência parte de um sentimento de comunidade. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, um grupo de mulheres se reuniu com o intuito de criar uma concepção educativa, posta em prática na rede particular da cidade. No início dos anos 1960, ela havia se tornado tão interessante que a administração municipal a encampou. Loris Malaguzzi, um jovem pedagogo muito curioso, se interessou pela experiência e decidiu desenvolvê-la conceitualmente. Foi ele quem introduziu o trabalho com diversas linguagens. Há uma dimensão social muito forte nas escolas de Reggio Emilia e o princípio fundamental é valorizar a criança como construtora de conhecimento: cada uma individualmente e não em termos gerais.

Como se chega ao conhecimento dessa individualidade?
BRUNA
Sempre em relação aos outros e ao mundo. Procuramos pôr em evidência o sujeito único, mas capaz de descobrir as próprias qualidades no momento em que encontra o outro. O saber que um grupo constrói junto é superior ao individual, em volume e importância, e leva o aprendizado mais longe. Há melhores condições de avançar quando se enfoca desse modo o processo de conhecimento.

O que são a Pedagogia da Escuta e a Teoria das Cem Linguagens?
BRUNA
Trata-se, sobretudo, de dispor-se a escutar os outros e a si próprio. Mesmo as crianças muito pequenas já estão construindo conhecimento e todas merecem ser ouvidas sobre isso. É preciso ter capacidade de interpretar e deter os instrumentos de observação. Pode ser um registro em vídeo ou simples anotações, contanto que se possa compartilhar com os demais professores. A Teoria das Cem Linguagens nasce da Pedagogia da Escuta, que lançou uma luz sobre as linguagens dos pequenos. Eles aprendem por meio dos cinco sentidos e de todos os instrumentos possíveis - o corpo, a palavra, o pensamento. Tudo isso opera de forma entrelaçada no processo de construir a identidade e o conhecimento e de interpretar o que está em volta. Por isso não trabalhamos com as habilidades das crianças isoladamente.

De que modo é feita a documentação no dia-a-dia?
BRUNA
Dou um exemplo. Vamos propor a um grupo de meninos, separados em duplas, que construam uma ponte com pedaços de madeira. Podemos observar se trabalham primeiro com as peças pequenas ou com as grandes, de que forma as dispõem, como definem a altura da ponte e onde ela se localizará, que tipo de tentativa fazem, se trocam materiais entre si. Essa atividade, corriqueira em nosso cotidiano, já é uma micro-história a documentar e traz fortes elementos para perceber como as crianças aprendem e se relacionam.

Como é o planejamento das atividades a longo prazo?
BRUNA
No início do ano, redigimos uma espécie de declaração de intenções e desenhamos grandes linhas de ação. Depois definimos uma estratégia de abordagem dos assuntos. Mas os projetos não são preestabelecidos. Eles se estruturam oportunamente. Estimular o gosto pela leitura e pela escrita ou saber arrumar a mesa do almoço estão sempre entre nossos objetivos, mas não há previsão de horários determinados. A rotina é muito ligada à organização do espaço, totalmente diferente de uma sala tradicional com mesas e cadeiras. Quando se chega, já há o que fazer porque o ambiente convida. Não faz sentido elaborar um planejamento diário: as atividades se desenvolvem com certo grau de espontaneidade.

A experiência de Reggio Emilia é conhecida por enfatizar as artes. Por que essa escolha?
BRUNA
Talvez por culpa nossa, damos a impressão de que nossa proposta dá prioridade ao trabalho artístico, mas é um equívoco. O foco central é o processo de conhecimento. Isso se refere à Matemática tanto quanto às Artes. Nosso trabalho nessa área resulta da escolha de explorar a comunicação visual. Muitas vezes as crianças obtêm resultados estéticos muito bons, mas não é esse o objetivo. Um exemplo: a atividade de observação de uma rã, com a proposta final de representá-la em argila. A criança se dota de um repertório de conhecimento sobre o assunto e manifesta o que aprendeu de forma artística.

Como se conciliam os dois eixos tradicionais da Educação Infantil, cuidar e ensinar?
BRUNA
As atenções pessoais ocupam grande parcela do tempo e estão inseridas no processo pedagógico. Os mesmos professores fazem as duas coisas. Os cuidados correspondem a momentos delicados e íntimos que dizem muito sobre o vínculo entre crianças e adultos. Não há por que tratar os dois eixos em nível diferente.

Terminada essa fase, as crianças têm como continuar os estudos seguindo a mesma abordagem?
BRUNA
O ensino elementar na Itália é mantido pelo governo federal e obedece a moldes tradicionais. Não costuma ocorrer uma ruptura traumática porque fazemos um trabalho de transição. Mostramos que haverá uma passagem de um esquema mais informal para outro disciplinar, que também começa uma fase importante. Claro que gostaríamos de uma modernização geral, mas não vemos o atual sistema como uma ameaça.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
As Cem Linguagens da Criança, Carolyn Edwards, Lella Gandini e George Forman, 340 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-7033-444, 49 reais 

INTERNET
No site Reggio Emilia (em italiano e inglês), você encontra informações sobre as escolas de Educação Infantil de Reggio Emilia e as atividades promovidas m todo o mundo por seus especialistas


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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 197, Novembro 2006.
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