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Cada arraial, um São joão

O folclore brasileiro é riquíssimo. Nas festas juninas, explore as diferenças regionais

Roberta Bencini

Mês de junho é mês de pular fogueira, dançar quadrilha e comer pamonha e pipoca. Uma gostosa tradição que anima as cidades — e as escolas. Organizar uma comemoração com conteúdo pedagógico inovador, sem cair na mesmice de todos os anos, é um desafio para os professores. Quer uma sugestão? "O país é muito grande e os festejos não são iguais em todos os lugares", lembra Flávio Trovão, historiador do Paraná. Essa é uma ótima oportunidade para o aluno descobrir as diferenças regionais e identificar a realidade em que vive como apenas uma entre as muitas que compõem nosso Brasil.

"O desconhecimento é que dá origem a estereótipos e preconceitos", adverte Flávio. Por isso, mostre aos estudantes que em muitas festas juninas se dança quadrilha, mas é o forró que esquenta os bailes nordestinos. Na Região Sul, não pode faltar pinhão. No Norte, todos se deliciam com cuscuz de tapioca.

Quebrar preconceitos

A Escola Estadual Tristão de Barros, de Currais Novos (RN), e a Escola Carlitos, de São Paulo, fizeram dos festejos juninos o mote para estudar a tradição das manifestações populares. No colégio potiguar, a cultura local foi explorada em um trabalho multidisciplinar. Nas aulas de Português, a 5ª e a 8ª séries pesquisaram a história das festas de junho e criaram rimas populares que foram dramatizadas no Dia de São João. Para Marcos Bagno, escritor e lingüista, esse é um bom momento de quebrar preconceitos em relação à língua. "É a chance de mostrar que existem regras gramaticais na fala popular, como sugerem os Parâmetros Curriculares Nacionais", diz. "Apontar erros na linguagem típica da cultura rural é um preconceito decorrente de sua desvalorização."

Em História, foram pesquisados o figurino e a origem da dança da araruna (pássaro preto, na língua indígena), típica da região. O trabalho serviu até mesmo para melhor integrar os alunos portadores de deficiência auditiva e mental ao restante da turma. "Eles não faltaram a nem um ensaio e aprenderam todos os movimentos da dança", conta a professora de educação especial Lindalva Dantas Cortez.

Já os professores da Escola Carlitos escolheram como tema de estudo as danças juninas típicas de cada canto do Brasil. Os ensaios aconteceram nas aulas de Educação Física. "Desenvolvemos a coordenação motora e o ritmo", conta o professor Tadeu Mendes. A atividade não se resumiu ao trabalho corporal. A pré-escola e a 1ª série, que dançaram a típica quadrilha da roça, compararam os costumes da zona rural e da urbana. As crianças da 2ª série ficaram responsáveis pela apresentação do boi-bumbá. Pesquisaram a cultura do Norte e do Nordeste e construíram um boi com caixas de papelão nas aulas de Educação Artística.

A dança do caroço, típica do sertão nordestino, foi apresentada pelos estudantes da 3ª série, que também pesquisaram o folclore regional. A dança-de-fitas, tradicional no Sul, inspirou a 4ª série a conhecer melhor como se deu a imigração européia. "A experiência valorizou o respeito pela pluralidade cultural do país", conclui a orientadora pedagógica Maria Isabel Dandrade Muniz.

Origem está nos rituais  

São João Batista: o mais popular dos três santos cultuados em junho, Foto: reprodução
São João Batista: 
o mais popular 
dos três santos 
cultuados em junho, 
inspirou os festejos 
do mês. 
Foto: reprodução

Quem pensa que festa junina recebe esse nome apenas porque acontece no mês de junho sabe apenas metade da história. A comemoração, como hoje conhecemos, se originou nos países católicos da Europa no século IV e era conhecida como festa joanina, em louvor a São João Batista. A celebração de caráter religioso, em que estão incluídos também São Pedro e Santo Antônio, é resquício da festa da colheita pagã. A fogueira, erguida para reverenciar a fertilidade da terra, ganhou o poder de espantar as pragas agrícolas na simbologia católica. Os balões, que colorem os céus em noite de arraial, também têm cunho religioso.
"Eles eram soltos para enviar pedidos aos santos", explica o historiador Flávio Trovão.

Quer saber mais?

Contatos
Escola Carlitos, R. Engenheiro Edgar Egídio de Sousa, 500, CEP 01233-020, São Paulo, SP, tel. (11) 
824-9591

Escola Estadual Tristão de Barros, R. Albani Salustino, 183, CEP 59380-000, Currais Novos, RN, 
tel. (84) 431-1851

Bibliografia
Dicionário do Folclore Brasileiro, Luís da Câmara Cascudo, 930 págs., Ed. Ediouro, 
tel. (11) 5589-3300, 24,50 reais

História da Alimentação no Brasil, Luís da Câmara Cascudo, dois volumes, Ed. Itatiaia, 
tel. (11) 3105-0929, 90,20 reais  

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Publicado em Junho 2000.
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