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Avaliação externa: vilã ou salvadora?

Sozinho, o gestor não garante um bom desempenho dos alunos. Mas reunindo a equipe ele pode melhorar os resultados deles

Fernando José de Almeida

É difícil ouvir críticas a nossos filhos e ao nosso lar. É também complicado conseguir apontar problemas num ambiente querido. Isso vale para nossa casa e também para a escola em que trabalhamos. Afinal, como aqueles que não conhecem as lutas vencidas numa instituição podem falar mal dela? Como as avaliações externas, feitas por agentes desconhecidos e, pior ainda, com critérios não anunciados explicitamente, são consideradas benéficas para as redes de ensino? Na pesquisa Perfil dos Diretores de Escola da Rede Pública, realizada pelo Ibope a pedido da Fundação Victor Civita (FVC), apenas 22% dos gestores citam essas provas como um avanço recente da Educação brasileira. Mesmo aplicadas há dez anos, as avaliações não têm prestígio nem popularidade. Ainda há 36% dos gestores entrevistados que não sabem como sua escola se saiu no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), o indicador nacional de qualidade mais importante.

O primeiro efeito que as avaliações provocam é a rejeição. No passado, era comum ouvirmos que a imensidão do país e a diversidade das escolas impediriam qualquer comparação qualitativa. Além disso, entrava em jogo o desconhecimento que os avaliadores tinham dos objetivos de cada instituição. Também era evidente uma desconfiança sobre um ranking elegendo as melhores, o que levaria à desmoralização daquelas em posição desprivilegiada. Obedecendo a essa lógica, esconder o desempenho dos alunos seria a melhor opção.

Hoje, algumas dessas questões ainda aparecem em vários discursos. Mas o Brasil e a estrutura de sua rede pública começam a dar um segundo passo. Em vez de somente negar a importância das avaliações externas, pensamos nelas como parceiras. União, estados e municípios já se debruçam sobre o conhecimento trazido pelos testes que podem influenciar no planejamento da escola, nas práticas de sala de aula e na formação dos educadores - muitas redes, inclusive, já fazem provas locais.

E onde os gestores entram nesse cenário? Qual a responsabilidade nos resultados que as escolas alcançam? Na pesquisa, apenas 2% atribuíram a si a responsabilidade pelas notas do Ideb. Com esse resultado, temos a impressão de que os grandes problemas da escola não têm dono. Nem mesmo pertencem a quem mora dentro dela! É assim também com a sujeira na nossa rua, com os impostos indevidos, com a violência... Passam a ser só preocupação do governante! Mas, se nos indignamos com tantas questões, por que fugimos da reflexão sobre os resultados das aprendizagens?

É cada vez mais claro que as soluções para problemas complexos como esse só aparecem quando múltiplos atores trabalham, unindo participação e eficiência. E o grande iniciador da discussão no âmbito da escola, da diretoria regional e da associação de classe, na imprensa local e no plano municipal de Educação é o gestor. Cabe a ele tomar a iniciativa de articular todos os interessados para, juntos, mobilizarem a comunidade para analisar o impacto das avaliações nas redes escolares. Sozinho, ele não é capaz de implantar a mudança, mas sem seu esforço pouco acontecerá.

Quem sabe na próxima pesquisa sobre o perfil dos diretores 100% deles atribuam a si a responsabilidade perante o Ideb? Assim, teremos a esperança de que a aprendizagem vai melhorar e de que um dos maiores transformadores da realidade escolar vai reunir toda a sociedade, de alunos a políticos, de educadores a comunidade, de funcionários a organismos internacionais em função de um objetivo comum. Dessa forma, terá mais sentido chamarmos cada escola de nossa. Inteiramente nossa.

Fernando José de Almeida

É filósofo, docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e vice-presidente da TV Cultura - Fundação Padre Anchieta.

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 227, Novembro 2009.
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