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A arte de planejar

A programação serve para definir prioridades e objetivos. Nela, o educador deposita seu conhecimento em favor de um ano produtivo

Marques Casara

Quase não trafegam veículos na rua de terra batida em frente à Escola Municipal Amélia Rabelo, localizada na base de uma das montanhas que formam a Serra dos Órgãos, em Petrópolis, Rio de Janeiro. Vez ou outra, o ônibus que vem do centro, ruidoso, passa levantando poeira e assusta as crianças que jogam amarelinha no meio da rua, à espera da sineta que anuncia o início das aulas da tarde. Assim que ele se afasta, a garotada retoma as obrigações infantis.

A Amélia Rabelo é uma escola pobre e pequena. Do lado de dentro, o calor da primavera ganha ares insuportáveis por causa da cobertura de amianto e da ausência de janelas em quase todas as salas. Quem pode fica do lado de fora, debaixo de uma árvore, ou no salão que serve de refeitório e espaço de reuniões, um pouco mais arejado.

Sentada diante da longa mesa de madeira que decora o ambiente, alheia à gritaria da garotada, a professora Ana Lúcia Alves, da 3a série, almoça. Uma gota de suor corre por sua testa, embaça os óculos de aro muito fino. Ela olha o prato de comida como se contemplasse um universo imaginário, sem estrelas, recheado de dúvida e escuridão.

Aos 31 anos de idade e treze de Magistério, com um curso de pós-graduação em andamento, Ana Lúcia vê um dilema ocupar boa parte dos momentos de reflexão. "As escolas e os professores não conseguem ou não querem mudar", diz. "Tento trabalhar com projetos, avaliar a classe de maneira diferente, mas tudo parece conspirar pela acomodação e a falta de compromisso com um ensino que faça do aluno um participante da construção do próprio conhecimento."

Ela pensa sobre isso, pois sabe que muita coisa precisa mudar para levar o ensino ao encontro dos novos paradigmas educacionais. Ela também sabe que muitas escolas conseguiram pôr em prática essa mudança, mas percebe que tantas outras (a sua inclusive) ainda sofrem com as resistências e falta de estrutura e de interesse.

O caminho para acabar com a inquietação é bem conhecido. Se chama planejamento, a etapa mais importante de qualquer projeto pedagógico. É ele que define os objetivos, as prioridades, as estratégias. E é nele que o educador deposita seu conhecimento em favor de um ano produtivo. Em outras palavras, a chance de colocar as primeiras estrelas no universo imaginado por Ana Lúcia.

Vitor Paro, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), mora no 14º andar de um grande edifício no bairro paulistano de Moema, a uns 500 quilômetros da rua de terra onde os alunos jogam amarelinha. Autor de diversos livros sobre administração escolar, ele tem a extraordinária capacidade de surpreender seu interlocutor nos primeiros 30 segundos de conversa.

"Um dos aspectos mais preocupantes quando refletimos sobre a escola é a constatação de que, hoje, ela está sem objetivos", afirma, em sintonia com Ana Lúcia. "O ensino deveria ser o espaço para as pessoas se realizarem como cidadãos e se tornarem sujeitos do próprio conhecimento." Na vida real, porém...

Paro conta que 10000 anos atrás, quando todos eram analfabetos, já se nascia atualizado historicamente. Ao longo dos séculos, a sociedade foi ficando cada vez mais complexa. A essa evolução foi dado o nome de bagagem cultural. "Atualmente", continua ele, "você nasce analfabeto e tem de incorporar milênios de História. Isso é papel da escola e do educador, mas nem sempre acontece." Da varanda de seu apartamento, o horizonte é cinza, recortado pelo concreto e pela poluição da cidade. Uma visão bem diferente da que se tem na Serra dos Órgãos. As escolas de lá e de cá, contudo, costumam ser muito parecidas, tanto nos defeitos quanto nas qualidades.

Apesar das críticas, Paro está longe de ser um cético. Ele acredita piamente que é possível desenvolver uma nova mentalidade e mudar. "A escola é um reflexo da sociedade", teoriza. "Só haverá transformações verdadeiras quando tivermos metas diferentes das atuais, quando a realização humana estiver acima do trabalho."

Esta reportagem vai tratar dessas questões e pretende atender aos seguintes objetivos:

• Traçar um panorama de como será a escola do novo século e de que maneira o professor deve incorporar essas mudanças ao planejamento;

• Dar indicações sobre a melhor maneira de conduzir o ano letivo;

• Mostrar por que o planejamento individual deve dar lugar ao trabalho em equipe, no qual participam também diretores, coordenadores, pais e alunos.

Colaboraram: Berta Schubert, de Blumenau; Bibiana Nunes, de Porto Alegre; Cristiana Andrade, de Belo Horizonte; e Roberta Bencini, de São Paulo

A escola do século XXI

Em milhares de escolas espalhadas pelo país, professores sonham com um futuro melhor para seus alunos porque têm consciência de seu papel na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. No entanto, muitas vezes falta ação conjunta, estratégia. "Não existe planejamento", reclama Ana Lúcia, resumindo esse sentimento. "Não existe proposta, vontade política, projeto. Eu quero alguém que traga idéias, métodos que ajudem a aplicar o que está nos livros, dêem subsídio técnico para ensinar essas crianças a se tornar agentes transformadores."

Ler o índice de um livro didático de sua discplina e distribuí-lo pela grade de aulas não tem nada a ver com planejar.

"O ensino tradicional trata o aluno como mero receptor de informações, um ser passivo. Ao professor cabe o lugar de único detentor do saber", diz Jorgina de Fátima, coordenadora-geral do Colégio Parthenon, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Ali, toda a energia é canalizada no sentido oposto a esse. "Nossa meta é formar indivíduos mais autônomos e o planejamento é o instrumento que nos conduz a esse ideal", emenda Mirca Bonano, coordenadora de Arte, refletindo o pensamento das outras duas orientadoras pedagógicas, Patrícia Diaz e Simone Pannocchia.

O Parthenon fica numa rua tranqüila do bairro Bom Clima. Suas instalações são amplas e aconchegantes: sofás confortáveis, vasos com plantas ornamentais, paredes decoradas com reproduções de Claude Monet, Henri Matisse, Vincent van Gogh. A sensação é de que o aluno está no centro do processo de aprendizagem (veja exemplo no quadro abaixo). Por isso, a grade não se limita às disciplinas do currículo, mas inclui cursos que ajudam a ampliar o universo cultural dos estudantes. Todo final de tarde, por exemplo, é possível ouvir a melodia de um violino ou de uma flauta doce nos corredores: são alunos do Ensino Fundamental ensaiando para a orquestra escolar.

Ivone Domingues, coordenadora pedagógica da Escola da Vila, de São Paulo, endossa esse caminho. "O fator decisivo é a importância que se dá à atividade mental construtiva, não mecânica." Todo o trabalho que ela coordena valoriza a interação. É raro, em todas as disciplinas, ver estudantes trabalhando sozinhos. O normal é encontrá-los em grupos ou dois a dois, um ajudando o outro, perguntando, trocando idéias. A escola do futuro, com certeza, será mais parecida com esses dois últimos exemplos do que com os pesadelos da professora de Petrópolis. Para começar, o desejo de mudar é essencial. Depois, que tal seguir as dicas de Ivone sobre como deve atuar o professor? Segundo ela, o bom mestre precisa:

• Ser um guia para ajudar o estudante a explorar, reconstruir e situar-se no meio cultural onde vive;

• Criar situações que facilitem a aprendizagem de procedimentos que contribuam para a construção da autonomia pessoal;

• Oferecer métodos de organização para o trabalho que possibilitem a construção de uma disciplina pessoal mais rígida;

• Dar indicações de atitudes e responsabilidades que lancem as condi- ções para o desenvolvimento do sentido de justiça;

• Apoiar atitudes de companheirismo e solidariedade que estimulem o respeito mútuo.

Todos os especialistas ouvidos por NOVA ESCOLA garantem que esses princípios são um excelente ponto de partida para quem pretende começar uma transformação em sua escola, porque estão em sintonia com o que se espera da educação neste novo século que está começando. Mas isso não é tudo. Tão importante quanto é saber conduzir o ano letivo, coordenar o dia-a-dia, garantir a execução das grandes metas. O que nos leva ao nosso segundo capítulo.

Colégio Parthenon

Aprendizagem compartilhada

O ano seguinte começa a ser pensado em outubro, quando os projetos em andamento são avaliados. O livro didático foi abolido

Instituição: Colégio Parthenon
Cidade: Guarulhos, SP
Fundação: 1979
Categoria: privado
Nº de alunos: 1337
Nº de professores: 85
Salário médio dos professores: 2400 reais
Valor da mensalidade: entre 314 e 357 reais

O posto de dono do saber está vago no Colégio Parthenon. Fiel ao construtivismo, ele nega essa hierarquia e faz do aluno agente do próprio conhecimento. O professor assumiu o lugar de mediador e o livro didático foi abolido. Tudo passou a ser organizado para trabalhar por meio de projetos.

A Semana Pedagógica, que se realiza no início do período letivo, é a hora de rever e modificar as atividades. Até porque, antes desses encontros, o desempenho de cada projeto já foi avaliado em reuniões realizadas em outubro do ano anterior. "De outubro a dezembro, trabalhamos com um pé no próprio ano e o outro no ano seguinte", diz a coordenadora de Arte, Mirca Bonano.

Quatro são os objetivos buscados pela comunidade escolar:

• Decidir por que é bom trabalhar com esse ou aquele projeto;

• Definir conteúdos;

• Traçar metas;

• Escolher fontes bibliográficas.

Ao longo do ano, tudo é constantemente revisto. Cada coordenador se reúne semanalmente, por uma hora e meia, com os professores de sua disciplina. "Avaliamos o andamento e o que precisa ser repensado", conta Patrícia Diaz, coordenadora de 1a a 4a série.

O planejamento vira um instrumento de trabalho em mutação, de acordo com as necessidades da classe. Também uma vez por semana os coordenadores se encontram para avaliar o desempenho geral.

No Parthenon, duas questões são primordiais:

• Que conhecimento prévio os estudantes têm sobre o assunto. Uma cuidadosa avaliação servirá de ponto de partida para todo o trabalho;

• Tudo deve ser previamente estudado pelo professor. Acabou a conversa de que "não preciso planejar porque sou bom de sala de aula".

• As coordenadoras aconselham trabalhar com projetos porque o estudante deixa de ser um mero receptor e passa a atuar ativamente.

O planejamento propriamente dito

Como você viu, é essencial ter um bom planejamento inicial para definir objetivos. Daí para a frente, o desafio é implantá-los. Sônia Penin, vice-diretora da Faculdade de Educação da USP, está na universidade há mais de vinte anos e é uma pesquisadora muito respeitada. Ela e outra professora dividem uma pequena sala com duas escrivaninhas e uma estante para os livros. Acredita que existem duas palavras-chave para que a mudança chegue a bom termo: autonomia e valorização.

Autonomia é, segundo ela, a grande questão. A escola precisa exercê-la em sua plenitude ao definir um projeto e executá-lo. Para isso, precisa ter liberdade para escolher a melhor maneira de atuar. Tudo, é claro, dentro dos limites impostos pela própria aprendizagem. Se os alunos estão aprendendo, ótimo, o caminho é esse mesmo.

Valorização é uma ação fundamental para atrair (e manter motivados) os bons mestres. "Todos os colégios têm de buscar as melhores cabeças, pessoas competentes", defende Sônia. Alcançar essa meta, segundo ela, fica muito mais fácil quando toda a equipe está segura de que pode crescer tanto intelectualmente quanto financeiramente no ambiente escolar — quando sabe que, ao se capacitar e melhorar suas condições de trabalho, será melhor remunerada.

O vizinho de sala de Sônia é José Fusari, que tem 35 anos de experiência em pesquisas na área de educação.

"Nunca o momento foi tão propício para criar um ensino emancipador, com um planejamento voltado para a heterogeneidade, não para a homogeneidade", diz.

Formalizar um plano anual de trabalho se torna, assim, apenas o primeiro passo. "O professor tem de incorporar essa nova concepção do conhecimento", ensina Fusari. "E o processo é vivo, porque o conhecimento é vivo, está permanentemente em construção."

Dois pontos devem ser trabalhados à exaustão para garantir um planejamento de qualidade:

• Diagnóstico: professores, coordenação e direção analisam todas as intenções e ações desenvolvidas pela escola. Ele costuma ser feito em reuniões de avaliação no final do ano letivo anterior ou no começo do novo período escolar. Um diagnóstico preciso, baseado em informações seguras, é o que consegue identificar corretamente os problemas — grande passo para solucioná-los.

• Ação: é o planejamento colocado em prática. Nenhuma experiência consegue ser bem-sucedida sem muitas reuniões. De preferência, semanais, para estabelecer consensos relativos ao uso e manutenção do espaço, do tempo, dos recursos financeiros e didáticos, além de discutir como implementar a interdisciplinaridade, a contextualização e a organização dos conteúdos.

Antes de mais nada, cada escola precisa determinar um ou mais objetivos. O Colégio Bandeirantes, de São Paulo, escolheu como principal meta conduzir os alunos por um caminho seguro (confira no quadro abaixo) até o vestibular — bem ao gosto de sua clientela, de classe média alta. "Nossa proposta pedagógica visa capacitar os jovens e fazê-los chegar às provas seguros e sem estresse", explica Rita Vazquez, professora de História e orientadora educacional.

Colégio Bandeirantes

O objetivo é o vestibular

Planejamento de longo prazo, com definição de metas a cada cinco anos, norteia o dia-a-dia de uma das melhores escolas do país

Instituição: Colégio Bandeirantes
Cidade: São Paulo, SP
Fundação: 1934
Categoria: privado
Nº de alunos: 2750
Nº de professores: 150
Salário médio dos professores: 4570 reais
Valor da mensalidade: entre 735 e 800 reais

O principal objetivo do Colégio Bandeirantes é preparar o aluno para o vestibular. Por isso, ele se mantém firme no modelo de ensino hoje considerado tradicional ou conteudista. Adota duas estratégias de planejamento:

• Plano diretor: feito a cada cinco anos, traça as linhas estratégicas e metas de longo prazo. "Discutimos que tipo de sociedade nossos alunos encontrarão daqui a cinco anos", explica Roberto Nasser, coordenador de História. "O texto de 1995, por exemplo, previa um forte crescimento da informática.

Por isso, trabalhamos para que todos os estudantes tivessem seu próprio computador. Hoje, 100% deles têm um em casa." O plano diretor é construído em reuniões no final do último ano de vigência do documento anterior.

• Plano anual: o planejamento para o ano seguinte começa em outubro, quando é definido um calendário de atividades.

"Aulas, programação cultural, esportiva, provas, orçamento, tudo é definido nessa data", diz Nasser. Durante o ano, os coordenadores pedagógicos se reúnem semanalmente, por uma hora e meia, com os professores. "Acertamos pequenas mudanças, de olho nas necessidades de cada turma", afirma Rita Vazquez, que leciona História e é orientadora educacional.

Alguns educadores criticam o modelo de ensino e avaliação da escola por sua excessiva atenção ao vestibular. "Em tese, é antieducativo preparar apenas para um exame", pondera Vitor Paro, da Faculdade de Educação da USP. "Mas isso ocorre porque não há vagas para todos nas faculdades." Izeti Torralvo, coordenadora de Português do Bandeirantes, concorda com o princípio de que há uma supervalorização do teste para entrar na universidade. "Infelizmente, essa é a cara do nosso país, que não reconhece a educação como deveria." Administrado de maneira empresarial, o colégio atende aos interesses de seus clientes e é considerado, com razão, um dos melhores do Brasil.

Conheça no final da página outros exemplos de como planejar o ano letivo, com relatos bem diferentes entre si.

No Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que leva a sério o caráter experimental e aplica, simultaneamente, três linhas pedagógicas distintas. Já a Escola Dentinho de Leite, de Goiânia, só dá o pontapé inicial no projeto pedagógico depois de conhecer, em detalhes, a realidade dos alunos. A Escola Municipal Aurélio Pires, de Belo Horizonte, por sua vez, dá ênfase à formação de professores em serviço. inalmente, o infográfico ao lado mostra em detalhes como organizar e decorar a sala de aula para torná-la um espaço mais confortável e eficiente.

A história da Escola Estadual Augusto do Amaral, em São Paulo, também merece atenção. Seus 1260 alunos são filhos de pais pobres, muitos deles semi-analfabetos, subempregados e moradores de uma imensa favela localizada a poucos quarteirões de distância, no bairro do Jaguaré. Leontino dos Santos, o diretor, diz que não pode pensar em vestibular. "Nossas crianças e adolescentes vivem em situação social de risco. Muitos deles têm família desestruturada, pais alcoólatras ou envolvidos em problemas com a polícia." Ele conta que, em 1999, 10% das alunas entre 11 e 16 anos ficaram grávidas. Sem falar na evasão, sempre um grande problema.

Para enfrentar esse quadro, a Augusto do Amaral volta seu planejamento para o resgate da dignidade, a melhoria da auto-estima e a construção da cidadania. Ela prioriza três pontos:

• A sociedade em que vivemos. Para isso, faz um diagnóstico da realidade dos alunos;

• A escola que temos na sociedade em que vivemos. Toda a avaliação questiona se a maneira de trabalhar se enquadra no perfil da clientela;

• A escola que queremos na sociedade em que vivemos. É o espaço para executar mudanças e planejar atividades que levem à aprendizagem e ao resgate da auto-estima das turmas.

E o livro didático?

Em uma manhã fria desta primavera, Santos caminhava pelo pátio, mãos nas costas. Mal escutava a mistura de vozes que vinham das salas de aula, alinhadas ao longo do grande corredor externo. Introspectivo, observava os muros repletos de grafites feitos pelos estudantes. Apesar de não compreender muito bem a excentricidade dos traços, contentava-se com eles. Afinal, foi a maneira encontrada para evitar as pichações que exigiam constantes pinturas.

Sua preocupação, contudo, era a mesma de sempre: como aprimorar a qualidade do ensino. "Aqui, o livro didático não serve para muita coisa. Os alunos só querem saber de rasgar as páginas para fazer aviõezinhos."

Como parte de seus professores ainda não desenvolveu competências para deixar de lado esse material, o planejamento precisa tê-lo como referência. "Cada escola deveria preparar seu próprio material", analisa Santos. "O livro é universal e, muitas vezes, nada tem a ver com a realidade. Para nós, vale mais estudar a História e a Geografia do bairro, planejar a construção do conhecimento a partir do que está à nossa volta."

Sem dúvida, isso pode funcionar. Mas não se trata de imaginar que, agora, vamos todos fazer grandes fogueiras de livros didáticos. Nada disso. Maria Tereza Campos, consultora da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, acredita que eles vão continuar sendo muito importantes para alunos e professores. Segundo ela, sua utilização é que está errada.

Maria Tereza argumenta que o ideal para tornar as atividades mais dinâmicas é o professor mesclar esse recurso com outros, como vídeos, computadores, cartazes, fotos, programas de TV, artigos de jornais e revistas.

Colégio de Aplicação

Salada pedagógica

Nessa escola de Florianópolis, a opção foi aplicar simultaneamente três linhas diferentes e misturar construtivismo com ensino tradicional

Instituição: Colégio de Aplicação
Cidade: Florianópolis, SC
Fundação: 1961
Categoria: público federal
Nº de alunos: 870
Nº de professores: 100
Salário médio dos professores: 1000 reais

Localizado no campus da UFSC, o Colégio de Aplicação é sui generis. As idéias circulam com incomum agilidade, já que centenas de educadores usam o espaço para criar projetos e aprimorar experiências.

Desde 1997, uma mudança na proposta pedagógica vem produzindo grandes transformações. O colégio fez uma avaliação e montou um cronograma: quarenta pessoas, entre professores, alunos, pais e funcionários, se reuniram durante três dias para pensar a escola. Foram criadas cinco equipes de estudos:

• Reestruturação, regime de ensino e organização didática;

• Comunicação;

• Resgate histórico;

• Fórum permanente de discussão;

• Reestruturação do espaço físico e organograma.

Os grupos se encontram até hoje para discutir estratégias.

Por ser um colégio experimental, o Aplicação adota o princípio de que a aprendizagem pode ser alcançada de várias maneiras. Com isso, convivem entre si três linhas pedagógicas: as turmas "A" seguem o construtivismo, as "B" continuam no método tradicional e as "C" atuam com projetos inspirados nas idéias do pesquisador espanhol Fernando Hernández. Essa mistura é condenada por muitos especialistas, que vêem falta de coerência no uso de métodos tão diferentes.

Ada Fontes, supervisora escolar das séries iniciais, diz que a experiência vale pela integração entre as tendências. "Os professores avançam mais quando trocam experiências." O planejamento é feito no começo do período letivo. Durante quinze dias, reuniões conjuntas definem a programação para o ano. Como há três jeitos de ensinar, os encontros são divididos em duas partes: por série (misturando os três métodos) e por corrente pedagógica (independentemente das séries).

Ao final do trabalho, cada professor tem dois meses para detalhar suas metas. Para isso, eles dispoem de um horário semanal de estudos e de uma reunião quinzenal de avaliação.

Dentinho de Leite

Jovens humanistas

A regra número 1 é conhecer a realidade dos alunos. A medida evita um planejamento medíocre e, em conseqüência, uma educação idem

Instituição: Escola Dentinho de Leite
Cidade: Goiânia, GO
Fundação: 1977
Categoria: privada
Nº de alunos: 630
Nº de professores: 58
Salário médio dos professores: 822 reais
Valor da mensalidade: 170 reais

A base filosófica da Escola Dentinho de Leite está na evangelização e na formação de um jovem crítico, pensante e humanista. Conhecer a realidade dos alunos para depois planejar é a regra número um. O conteúdo só é trabalhado depois desse diagnóstico. "É nossa obrigação atender à clientela", diz Joana D’Arc Elias, coordenadora pedagógica. "Planejamento medíocre é sinal de aula medíocre. Ele precisa ser funcional para provocar mudanças de atitude." Isso é feito por meio de reuniões, que são divididas em três etapas.

Semestral: duas vezes por ano, geralmente em fevereiro e agosto, a comunidade escolar se reúne para selecionar conteúdos, projetos e trocar experiências. "Dois encontros por ano deixam o planejamento mais vivo. Não funciona fazer um só em dezembro", diz Joana D’Arc.

Semanal: os professores montam blocos de atividades programadas para durar quinze dias. Uma vez por semana, e divididos por séries, eles se reúnem com o coordenador pedagógico. Revêem os planos quinzenais e sugerem atividades. "Se estamos estudando as vogais na 1a série, discutimos estratégias para passar o conteúdo, exercícios que podem ser explorados", comenta Joana D’Arc. "Também aproveitamos para repassar questões do dia-a-dia e ler algum texto de interesse, como um artigo de jornal." Segundo ela, o método adotado funciona bem porque há boa vontade por parte de todos os envolvidos.

Mensal: aqui sim as reuniões são coletivas e se realizam num sábado, entre 8 e 12 horas. Professores, diretores e coordenação tratam de assuntos gerais, o que inclui as áreas administrativa e pedagógica.

Às vezes, um especialista é convidado para debater questões previamente combinadas. "O encontro mensal é sempre proveitoso porque aprofunda os grandes temas", conclui Joana D’Arc.

As reuniões também resultam na criação de projetos que envolvem várias turmas e visam preparar o aluno para uma relação de respeito com o meio ambiente.

E.M. Aurélio Pires

Formação em serviço

Para cada dez turmas existem quinze docentes, um dos segredos que garantem a capacitação contínua e aulas melhores

Instituição: Escola Municipal Aurélio Pires
Cidade: Belo Horizonte, MG
Fundação: 1946
Categoria: pública
Nº de alunos: 1200
Nº de professores: 70
Salário médio dos professores: 780 reais

Disciplinas optativas, planejamento por competências e um método inovador de formar professores em serviço. Essas são as três pontas do projeto que deu um caráter bastante dinâmico à preparação do ano letivo na Escola Municipal Aurélio Pires, em Belo Horizonte. Cada turma tem um professor e meio, trabalhando da seguinte maneira.

Com a implantação das optativas, muitos horários foram flexibilizados.

Os alunos podem escolher atividades como capoeira, fotografia, música, oficina de leitura e cultura estrangeira. Para atender a essa demanda, instituiu-se a figura do professor-referência, que se dedica a maior parte do tempo à turma. Junto dele está um professor de projetos, que é o encarregado pelo desenvolvimento de tarefas que priorizem as competências e o apoio aos exercícios em classe.

"Para cada dez turmas temos quinze professores", explica a diretora, Maria Cristina Lauar. Isso permite que haja, todo ano, um revezamento entre os professores de referência e os de projetos. "Essa é a lógica que garante a formação em serviço e a realização de reuniões de planejamento sem atropelo."

A escola realiza encontros semestrais, por ciclos, em março e julho. Neles, são tratados objetivos gerais e discutido o que será posto em prática. Os pais são convidados a ouvir e opinar sobre os métodos utilizados.

Por causa do currículo aberto, as reuniões semanais de planejamento assumem uma importância ainda maior. Às quintas-feiras, direção e coordenação pedagógica se encontram para avaliar as atividades, a melhor maneira de aproveitar o tempo, o espaço a ser usado, a idade das crianças que vão trabalhar juntas. "Se você não se sentar toda semana e colocar no papel as metas, não dá certo", ensina Maria Cristina. Os professores também se reúnem, por ciclos, durante duas horas às sextas-feiras. Na pauta, a definição de métodos e estratégias de atuação.

Tão aconchegante quanto a nossa casa

Explore cada canto da sala de aula e adapte os móveis para tornar o ambiente mais alegre, dinâmico e organizado

1. Cantinho da ecologia 
Plantas ficam muito bem na decoração da sala. Melhor ainda quando cultivadas pelos "moradores", os alunos. Exponha trabalhos de Ciências e de todas as séries, de pés de feijão a estufas de plantas carnívoras.

2. Aquário
Peixes e plantas aquáticas se desenvolvem bem em ambientes fechados e podem ensinar de forma divertida os fenômenos da vida animal e vegetal. A partir da 4ª série, a turma vai adorar ter um bicho de estimação na classe.

3. Feliz Aniversário!
Todos gostam de ser lembrados em seu aniversário. Para os pequenos, produza um cartaz bem colorido destacando a data de nascimento de cada um. Depois da 5a série, basta um aviso com os aniversariantes do mês.

4. Brinquedos
Brincadeiras infantis auxiliam na alfabetização das crianças. Por isso, bonecas, carrinhos e bichos de pelúcia são um ótimo complemento nas classes de Educação Infantil e nas primeiras séries do Ensino Fundamental.

5. Sucata
Tampas de garrafa, caixas de fósforos e embalagens plásticas viram materiais didáticos que ajudam a desenvolver a criatividade das crianças até a 4a série.Mas cuidado: sucatário não é sinônimo de um monte de lixo.

6. Cartazes
Divulgue campanhas de sáude e de direitos humanos. Pôsteres de Ciências e assuntos diversos são ótimos materiais de conhecimento e conscientização de crianças e jovens. Promova debates sobre esses temas.

7. Painel
Os trabalhos realizados pela garotada não podem ficar trancados em armários ou esquecidos em pastas. Valorize o esforço de todos expondo cartazes e desenhos nas paredes da sala, tal qual obras de arte.

8. Leitura
Gibis, revistas e jornais devem fazer parte do cotidiano dos estudantes. Desperte o gosto pela leitura deixando sempre à mão um material variado e de interesse da turma. Essa, aliás, é uma dica que vale para todas as séries.

9. Música
É unanimidade: não há criança ou adolescente no mundo que não "curta um som". Monte um cantinho com revistas especializadas, partituras, letras e fotos de ídolos. Libere o rádio no recreio e nos horários livres.

10. Livros
Mantenha livros didáticos e paradidáticos sempre à disposição dos alunos para consulta. Almanaques, atlas e dicionários são ótimas fontes de pesquisa. Às vezes, dá uma preguiça ir até a biblioteca tirar uma dúvida....

11. Mapas
Eles não servem apenas para as aulas de Geografia, mas também de Matemática, Ciências e História. Não deixe que eles virem enfeites. Sempre que possível, coloque-os no chão ou na mesa com os alunos ao redor.

12. Boas-vindas
Quem não gosta de ser bem recebido depois de um tempo fora? Um sorriso no rosto, palavras de boas-vindas e cartazes com mensagens positivas coladas antes do primeiro dia de aula antecipam o bom astral para o resto do ano.

13. Carteiras
Tudo depende da aula: se for mais teórica, o ideal é colocar as carteiras na forma da letra U. No centro, o professor pode ser visto claramente por todos. Se quiser fazer um debate, disponha-as em fileiras frente a frente.

 

 O trabalho em equipe

Ok, você está pronto para discutir o projeto pedagógico e participar de todas as reuniões de planejamento. Já percebeu como todas essas tarefas envolvem outras pessoas? Esse é o terceiro ponto fundamental da história. Ninguém vai a lugar nenhum sem um bom entrosamento entre professores, direção, coordenadores, funcionários e pais. Não há mais espaço, na escola que queremos construir no século XXI, para o educador egoísta, que não troca informações permanentemente com os colegas.

O trabalho em conjunto começou a tomar forma no início dos anos 80 e chega a 2001 como uma importante ferramenta de melhoria do ensino. Chega de pensar nas salas isoladamente. A perspectiva certa é a do todo. "Trabalhar assim é ampliar a participação da coletividade", afirma Beatriz Hanff, professora de supervisão escolar do Centro de Educação da UFSC. Segundo ela, o modelo dominante ainda é o que está assentado numa prática individualista e fragmentada, "baseado em conteúdos preestabelecidos, com métodos de avaliação excludentes, e numa gestão que dispensa o trabalho em grupo". Mas nem tudo está perdido. Há bons exemplos, diz ela. Um deles é o da rede municipal de Porto Alegre, que conta com a consultoria da pesquisadora Elvira de Souza Lima.

Na capital gaúcha, foi criado o projeto Constituinte Escolar, que se tornou referência para dezenas de cidades.

"Procuramos fugir do conceito de que planejar é dar receitas",conta Ana Freitas, coordenadora pedagógica adjunta da Secretaria Municipal de Educação. "Ou seja, não estabelecemos tudo antes. Deixamos um espaço para resolver questões imprevistas. Para nós, a organização da escola tem a ver com o cuidado de não engessar o processo." O que dá uma importância ainda maior à equipe, que precisa estar coesa.

É o que ocorre na Escola Municipal Chico Mendes. Localizada na periferia de Porto Alegre, ela tem em suas classes filhos de trabalhadores de baixa renda. Periodicamente, os educadores fazem entrevistas com pais e moradores, que servem de inspiração para o planejamento — um jeito muito bom de tomar decisões em conjunto. Além das reuniões semanais de professores, existe um espaço fixo de discussão com os alunos chamado de "rodinha". Com isso, as famílias se sentem co-responsáveis — e os docentes retribuem com atividades ligadas à vida das crianças. Nas turmas iniciais, por exemplo, um dos trabalhos preferidos pelos pequenos é construir letras de argila para escrever os nomes de pessoas da comunidade que visitam a escola.

Em Blumenau, no interior de Santa Catarina, a rede municipal opera de forma semelhante. A aprendizagem é reforçada pela interação. Logo na entrada do pátio da Escola Básica Municipal Rodolfo Hollenweger, Marina, de 6 anos, Thiago, de 9, e Cíntia, de 14, modelam flores coloridas de papel crepom para enfeitar uma carroça e um cavalo. Vão fazer, juntos, um carro alegórico. Bem perto, outro grupo com gente de todos os tamanhos recorta retalhos coloridos, cola e costura bonequinhos de pano, batizados de Frida e Fritz. A experiência tem por objetivo integrar alunos e professores de diferentes ciclos (a cidade aboliu a classificação por séries). Os grupos são montados aleatoriamente, para que menores e maiores se ajudem, aprendam uns com os outros.

A reorganização das turmas é uma das situações de aprendizagem com inspiração sociointeracionista usadas como parte da proposta de trabalho por ciclos. Em Blumenau, eles são apenas três, nos quais as crianças são agrupadas por faixa de idade. Os conteúdos viram um meio para desenvolver competências, o que começa pelos próprios professores. Nesse dia, por exemplo, Nilto Lehmkuhl, professor de Matemática, teve de pensar numa atividade simultânea para estudantes dos 6 aos 14 anos. "Às vezes, tenho a impressão de que vou perder o fio da meada", diverte-se. A garotada adora. "Os pequenos reclamam um pouco, mas nós, maiores, sempre podemos ajudar", diz Karina Luisa David, de 13.

"No início, havia um temor de que os professores do 3º ciclo (12 e 14 anos) não soubessem lidar com os estudantes do 1º (6 a 8) ou de que os maiores se desentendessem com os menores", lembra a diretora, Lucimara Rodrigues da Silva. "As experiências vêm mostrando que o resultado é maravilhoso", comemora ela. O motor desses encontros é a possibilidade de proporcionar situações novas de aprendizagem, além de incentivar o trabalho em equipe. Na prática, eles servem para balançar os alicerces da formação rígida e segmentada dos docentes (só Ciências, Matemática ou Língua Portuguesa) e fazer com que as crianças se conheçam melhor.

O planejamento individual virou peça de museu em Blumenau e vários outros lugares retratados nesta reportagem. De olho no futuro, essas escolas já incorporaram conceitos como interdisciplinaridade, respeito às diferenças, gestão participativa e avaliação eficiente. "O professor precisa ver a importância de levar o aluno a querer aprender", completa Vitor Paro. "Perceber como é glorioso pegar um ser humano cru e elevá-lo culturalmente. Essa é a função do educador: passar o gosto pelo saber. E ninguém nasce com isso." Em resumo, o desafio que está colocado é buscar a melhor maneira de lidar com o conhecimento. Para ajudar a construir um mundo melhor.

Improvisação ao contrário - Entrevista com José Cerchi Fusari

José Cerchi Fusari, 56 anos, mestre em Filosofia Educacional e doutor em Didática, é um especialista na formação de professores em serviço. Nessa luta para melhorar a qualidade do profissional de educação, ele já deu cursos em quase todos os Estados do país e conhece, como poucos, as necessidades do nosso ensino.

NOVA ESCOLA > Qual é a importância do planejamento?
José Cerchi Fusari
- Para desenvolver o currículo e atingir o objetivo de promover a aprendizagem, é indispensável um bom planejamento. E digo que isso é o contrário da improvisação. No Magistério, a improvisação é importante e necessária, mas só pode ocorrer como exceção, não como regra. Em alguns casos, porém, a situação da escola é tão complicada que o planejamento não vinga.

NE - Como evitar o improviso?
Fusari - O planejamento deve ser uma tarefa permanente desde a formação inicial do professor, quando ele aprende a organizar o próprio trabalho. Existe uma condição técnica, que é a de dominar objetivos educacionais. O docente precisa ver o objetivo como um ponto de chegada e trabalhar a questão do conhecimento em função dele. Isso acontece quando se dá um novo significado tanto na formação inicial quanto na formação em serviço. O educador deixa de ser um mero executor e transforma-se em alguém capaz de dar sentido a seu trabalho.

NE - O professor está preparado para as mudanças?
Fusari - Se a formação inicial foi deficitária, provavelmente não. Mas não adianta ficar sentado em cima da má formação, se queixando e denunciando. O mais importante é que o professor precisa despertar para a importância de reivindicar o direito de melhorar, de ter um contrato de trabalho que garanta tanto seu momento de docência quanto o período de planejamento e avaliação. Isso posto, ele vai procurar recursos bibliográficos, recorrer aos cursos oferecidos pelas secretarias, fazer um curso de pós-graduação. Também é muito importante buscar a formação individual e coletiva dentro da própria escola.

NE - O aluno pode se dar por satisfeito com o ensino que lhe é oferecido?
Fusari - A escola brasileira está se estruturando. Foi democratizada na perspectiva da quantidade ao garantir o acesso a todos. O mesmo, no entanto, não ocorre com a qualidade. Nesse sentido, o planejamento é um instrumento de articulação muito importante entre quantidade e qualidade. É o meio para atender às necessidades de crianças, jovens e adultos que estão na escola e lá permanecerão durante anos. Isso dá ao planejamento uma dimensão política muito importante.

Os planos de ação para o novo ano 
(reportagem de Nova Escola de fevereiro de 1998)

Esta é para você, diretor: com um pouco de organização e espírito de equipe, dá para transformar os tediosos rituais de início de ano em desafiantes momentos de aprendizagem

Imagine a seguinte cena: durante uma guerra, um grupo de adultos aceita o desafio de salvar a vida de centenas de crianças e jovens viajando com eles por alguns meses até chegar a um país seguro. A equipe tem à disposição veículos de transporte — em estado apenas razoável —, pequeno pessoal de apoio e o estritamente necessário para as despesas básicas. Em contrapartida, deve definir o roteiro a ser seguido, o ponto final da viagem e as alternativas para escapar dos perigos, a fim de que todos cheguem sãos e salvos a seu destino.

O primeiro encontro desses aventureiros é explosivo. Cada um sugere um país diferente como abrigo e apresenta boas razões para sua escolha. Quando porventura concordam com um local, apontam caminhos diferentes para atingi-lo. Por uma questão de ordem, uma ou duas pessoas assumem a liderança. Ajudam a negociar posições conflitantes e a chegar a consensos. No final das contas, o planejamento acaba sendo tão emocionante quanto a própria viagem.

Sentiu o clima? Ele é parecido com o de sua escola na semana que antecede o início das aulas? Então, parabéns! A equipe tem claro que, nessa época, começa uma nova aventura pedagógica, que exige entusiasmo e organização. Agora, se em sua experiência o planejamento das aulas é uma cópia fiel e improdutiva de antigas fórmulas, saiba que é possível ser diferente. Para isso, porém, a direção da escola precisa assumir a iniciativa e mobilizar professores e funcionários para que cooperem em ações coletivas, que melhorem a qualidade do ensino-aprendizagem. A seguir, algumas sugestões para quem está querendo inovar — ou simplesmente aprimorar — essa viagem a mais um ano letivo.

O testemunho de quem completou a viagem

Para incrementar o planejamento das aulas na Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau Dona Luíza Macuco, em Santos (SP), a diretora Maura Chezzi Dallan busca primeiro estimular professores e funcionários. Como? "Ouvindo suas necessidades numa reunião da qual todos participam", explica. O objetivo é saber o que funcionou ou não no ano anterior. Essa avaliação acaba por definir a missão da escola.

Maura explica uma das técnicas para integrar o grupo. "Distribuo folhas de papel em branco aos participantes", diz. Nelas, cada um faz uma reflexão por escrito respondendo à pergunta "Como estou me sentindo hoje?". As folhas são colocadas num envelope que só será aberto no ano seguinte, na época de planejamento. Nesse dia, cada um constata o que mudou em relação a suas expectativas. "Essa técnica ajuda a quebrar o gelo, facilitando o envolvimento do grupo", explica a diretora.

A partir daí, Maura procura criar consensos sobre novas metodologias, formas de avaliação, disciplina. No segundo dia de reunião, agora só com os professores, o grupo avalia o que deu certo ou não em cada disciplina. Então, na segunda semana de aula, todos os docentes fazem uma prova-diagnóstico com seus alunos e confrontam o resultado com o planejamento, revisto a cada bimestre. "Assim, não perdemos de vista que o plano de ação deve estar sempre de acordo com a realidade da classe", enfatiza a diretora.

Por Yara Malheiros

1. Bússola e relógio na bagagem
Comece preparando minuciosamente as reuniões que terá com sua equipe. Com a ajuda de auxiliares, desenhe um plano de ação realista, que leve em conta o tempo disponível para as discussões. Estabeleça, como objetivo, conseguir envolver a maior parte da escola no processo de planejamento que se inicia. Para tanto, estabeleça os seguintes pontos: Quais as etapas do processo? Que procedimentos serão usados em cada uma? Quais recursos materiais a equipe terá à disposição (cartazes, transparências, vídeos, livros, CD-ROMs, documentos, programas de computação)? Quanto tempo cada atividade irá demandar? Que indicadores concretos mostrarão a você que o objetivo foi atingido?

2. As estratégias de ação
Seria maravilhoso apenas dizer aos participantes "Integrem-se!", para que tudo saísse conforme o figurino. Mas, na prática, não é bem assim. Se quiser obter os resultados esperados, você precisa utilizar procedimentos que definam as regras do jogo e orientem as ações do grupo. Boas táticas criam condições para que os profissionais envolvidos aprendam uns com os outros e se sintam seguros o bastante para errar e aprender com os próprios erros. Em geral, esses procedimentos apresentam três características básicas. Veja. 
Simplicidade. Seis etapas são mais que suficientes no seu plano de ação para o novo ano. Procedimentos muito complicados fazem com que os participantes se confundam e percam o interesse.
Objetividade. As técnicas precisam conduzir a algum resultado observável, como uma declaração, um pôster, um cartaz, um vídeo.
Transparência. Todo mundo deve perceber com clareza oque está acontecendo e pedir maiores explicações, se necessário.

3. Modelo para toda a equipe
Lembre-se: é seu papel convidar e até mesmo desafiar os professores a experimentar novas atitudes em relação aos alunos — e você deve ser capaz de demonstrá-las na prática. Se quiser, por exemplo, que professores e funcionários recebam calorosamente os estudantes no primeiro dia de aula, faça o mesmo com eles. Prepare uma acolhida entusiástica para sua equipe nessas reuniões de planejamento. Mostre o quanto você a valoriza. Preveja dinâmicas de integração. Crie um ambiente agradável, de respeito mútuo e confiança. Os professores certamente levarão essa atmosfera para a sala de aula.

4. Um passinho à frente, por favor!
A maior parte dos professores adoraria sentir-se parte de uma verdadeira equipe. Ao mesmo tempo, cada um deles poderia fazer uma lista com mil razões para explicar por que o trabalho coletivo na escola parece um sonho impossível: "sobrecarga", "falta de tempo", "dinheiro curto"... Tudo bem. Muitos professores realmente estão até aqui de trabalho, o tempo é precioso e, em educação, sempre há recursos a menos. Mas, exatamente por isso, colaborar é fundamental. Cooperação gera eficiência e, portanto, economiza tempo e dinheiro. Só tem um detalhe: boas intenções, apenas, não produzem opiniões compartilhadas. Você deve recorrer a estratégias que possibilitem o consenso. O primeiro passo é romper o isolamento. Em muitas escolas, os docentes mal conhecem os valores pedagógicos, educacionais e didáticos do vizinho de sala. Mostre a eles que, no grupo, há muitas diferenças sim — e isso é saudável. Mas também existem vários pontos em comum.

5. O mapa da mina
A partir dos resultados da avaliação do ano passado, situe a equipe em relação a temas como desempenho dos alunos, recuperação das dificuldades de aprendizagem, trabalho interdisciplinar, convivência, interação com a comunidade, orçamento, manutenção do prédio e dos equipamentos. O uso de gráficos e transparências poderá tornar sua exposição mais objetiva e dinâmica. Importante: enfatize os avanços e as realizações. As dificuldades devem ser apresentadas não como fracassos, mas como desafios a enfrentar.

6. Escola unida: a missão
Tendo como pano de fundo a realidade da escola e seus desafios, e considerando os valores comuns previamente identificados, os profissionais devem ser estimulados a explicitar, em uma declaração sintética, seus principais objetivos em relação aos alunos. E mais: devem ser capazes de dizer que intenções, valores e crenças nortearam a escolha desses objetivos, o que deve ser feito para atingi-los e quem poderá ajudar na caminhada (veja quadro à direita). Elaborar coletivamente a declaração da missão é essencial para que o grupo compreenda qual a razão de ser da escola. Quando direção, professores e funcionários têm clareza do propósito de seu trabalho e quando todos compartilham desse propósito, a escola conquista uma identidade, uma imagem que pode ser exibida e defendida diante da comunidade. Todos expressam o mesmo objetivo, a mesma atitude. A equipe, unida, pode visualizar o futuro desejado e as trilhas que levam a ele.

7. Estão todos de acordo?
A partir da declaração da missão elaborada em conjunto, faça uma lista das decisões que a equipe precisa tomar e procure garantir o máximo possível de consenso sobre elas. Mas não espere unanimidade. Concentre-se nas pessoas que estão dispostas a colaborar e por um momento deixe as demais em segundo plano. A cooperação, como qualquer fenômeno novo, só gradualmente poderá envolver a todos. Eis alguns pontos-chave na tomada de decisões.

• Se a equipe se convenceu, por exemplo, de que pouco adianta ensinar o aluno de forma mecânica, como ela pretende se capacitar para utilizar um outro tipo de metodologia?

• Para quê, como e quando deve-se avaliar os alunos e o próprio desempenho?

• Que regras de convivência o grupo concorda em demonstrar e passar adiante?

• Como devem ser as reuniões com os pais e as mães dos alunos

8. Vocês aqui, vocês acolá
Em vez de solicitar o preenchimento de uma série de formulários, estimule os professores de cada área a refletir sobre o que é essencial ensinar em suas disciplinas durante o ano. Nas reuniões por série, convide os docentes a decidir as atividades culturais, artísticas e esportivas que irão desenvolver de forma interdisciplinar. É o momento de pensar como integrar ao currículo os temas transversais que constam dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN): meio ambiente, pluralidade cultural, orientação sexual, saúde e ética.

9. Enfim, a estréia
Junto com os professores e funcionários, organize uma recepção calorosa aos alunos no primeiro dia de aula. Programe a chegada deles por série, dando destaque especial aos calouros da quinta. Outras dicas oportunas você encontra na reportagem "O primeiro dia de aula é uma festa", nas páginas 10 e 11 desta edição.

Por Boudewijn van Velzen, sociólogo e coordenador de assuntos internacionais
do Centro Nacional pelo Aperfeiçoamento das Escolas, em Utrecht, na Holanda;
e Madza Ednir, assessora da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo

Um por todos...

Definir a missão da escola é o clímax do planejamento. Para evitar devaneios e perda de tempo em sua elaboração, o passo-a-passo a seguir pode servir como roteiro de trabalho.

• Forme pequenos grupos, com quatro a cinco elementos.

• Os grupos devem produzir um mote que expresse a essência do trabalho na escola. O mote deixará claro o que a equipe faz, de que forma e com que objetivo.

• Terminado o trabalho, cada grupo apresenta sua frase aos demais.

• Durante a apresentação, levante os temas comuns e os mais aprovados.

• Esses temas são palavras-chave que devem constar na elaboração da missão.

Lembretes

"Planejar o ano letivo pode ser tão interessante quanto planejar uma viagem."

"Mobilize a equipe, de forma a envolvê-la em todas as atividades de planejamento."

"Uma acolhida calorosa a funcionários e professores influenciará a recepção deles aos alunos"

"É melhor exercitar o diálogo nos dias de planejamento que ouvir discursos sobre a necessidade dos mesmo."

"A equipe deve ter bem claro o objetivo de seus esforços."

"Partindo do que a escola é agora, defina coletivamente como deverá ser seu futuro."

"Boas intenções não produzem consenso e cooperação. Boas estratégias, sim."

"Não espere unanimidade para deflagrar ações."

"Todos os funcionários, indistintamente, devem ser envolvidos na definição da missão da escola."

"Planejar é um processo que percorre o ano letivo do comço ao fim."

"O planejamento deve dizer respeito a ações concretas."

"Reflexão - verdadeira reflexão - produz ação." (Paulo Freire)

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Publicado em Dezembro 2000.
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