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A elaboração de um bom currículo para o Ensino Fundamental de 9 anos

A matriz curricular deve focar o ensino dos conteúdos das diversas disciplinas ao mesmo tempo em que preserva a infância, como mostra a proposta de Rio Branco

Arthur Guimarães e Bianca Bibiano

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Apesar de todo o esforço para garantir a infraestrutura necessária à ampliação do Fundamental, é na área pedagógica que a entrada das crianças de 6 anos gera os maiores dilemas. O eixo da polêmica está na organização do currículo e na alfabetização inicial. Um letramento sistemático nessa fase é prematuro? Ou a faixa etária já oferece condições para entrar a fundo em atividades de leitura e escrita? E os conteúdos das demais disciplinas, como ficam?

Em Rio Branco, o problema foi enfrentado da forma mais indicada pelos especialistas. Antes da implementação do Ensino Fundamental de 9 anos, em 2006, a prefeitura, em conjunto com o governo estadual, iniciou um programa de formação. "Chamamos todos os que trabalhavam com crianças de 6 e 7 anos para uma jornada de estudos. Tínhamos consciência de que a mudança demandaria alterações profundas e de que precisaríamos misturar o modo de trabalhar na Educação Infantil com os do início do Fundamental", diz Lígia Ferreira Ribeiro, diretora do Departamento de Ensino da Secretaria Municipal de Educação da capital acriana.

Na mesma época, a prefeitura submeteu todos os alunos dos dois níveis a uma avaliação para detectar os pontos problemáticos. "Os exames tinham como objetivo identificar as capacidades leitoras e escritoras básicas. O resultado não foi positivo. Estávamos em um nível baixo", lembra Lígia. O diagnóstico guiou os trabalhos dos grupos de formação, que posteriormente passaram a incluir também os coordenadores pedagógicos. "Ao discutir conjuntamente os resultados dos testes, percebemos que as dúvidas não estavam apenas em como construir o currículo, mas igualmente no que é um bom currículo", argumenta a gestora. 

É essencial estabelecer expectativas de aprendizagem 

Como lembra Lígia, mesmo professores com curso superior confundiam objetivo, conteúdo e atividade. "Por isso, muitos treinamentos não davam resultado e os professores saíam sem saber planejar." Duas atitudes foram tomadas para reverter o quadro. Primeiro, os temas desconhecidos viraram alvo das capacitações. Segundo, com a ajuda financeira do governo estadual, uma consultoria foi contratada para montar a nova matriz curricular para todo o Estado. Nessa parceria, ficou decidido que a rede precisava de um documento que detalhasse as expectativas de aprendizagem e as tarefas necessárias para alcançá-las.

Ao acompanhar trechos da proposta de Rio Branco publicados nestas e nas próximas páginas, você pode notar que ela segue alguns preceitos básicos. Para começar, os objetivos traduzem capacidades a serem adquiridas pelas crianças.

Depois, os conteúdos a serem ensinados são necessários ao cumprimento dos objetivos. Além disso, as atividades ou as situações de ensino e aprendizagem trabalham os conteúdos propostos e são privilegiadas as metodologias que envolvem a resolução de problemas e em que a exploração, a experimentação e o uso do conhecimento disponível servem de base para uma posterior sistematização. Também não há atividades que peçam a simples memorização ou o acúmulo de conhecimentos não provados em situações de uso. Por fim, têm destaque as situações em que é possível avaliar a aprendizagem dos temas vistos.

Definida uma estrutura básica nesses moldes e superados os obstáculos iniciais com relação à equipe, a rede começou a trabalhar em uma nova perspectiva. "Percebemos que era possível unir leitura e escrita à iniciação matemática, respeitando a infância", explica Rosaura Soligo, coordenadora de projetos do Instituto Abaporu, responsável pela elaboração da proposta da capital acriana.

A especialista faz uma conta que ajuda a entender o peso a ser dado pelo professor a cada atividade no novo 1º ano. "Se você tem 3,5 horas de trabalho diário com as crianças, fora o recreio, não vai ficar o tempo todo trabalhando a alfabetização", recomenda. Se apenas meia hora por dia for destinada a atividades de reflexão sobre a escrita, em 200 dias letivos haverá tempo mais do que suficiente para tratar o tema de forma adequada (leia a reportagem sobre como organizar a rotina diária). Ouça o podcast com a  entrevistada Karina Rizek, da Escola de Formadores. Veja também as propostas curriculares de Rio Branco (Acre) e São Luis (Maranhão).

As adequações não envolvem apenas as turmas de 6 anos 

Nas redes que já aderiram ao novo modelo, foi preciso repensar também as séries seguintes, como fizeram as secretarias municipais de Rio Branco e São Luís e a estadual de São Paulo, as mais bem avaliadas no levantamento feito por especialistas a pedido de NOVA ESCOLA. "Era como se os pequenos estivessem calçando um sapato que estava apertado para os mais velhos, já que muitas das necessidades deles não eram atendidas pelo modelo em vigor", diz Patrícia Corsino, da UFRJ. Quando essa turma que estaria na pré-escola foi chegando e trazendo uma série de demandas, houve um princípio de revolução. Para atendê-las, buscou-se o que havia de melhor na Educação Infantil. "Só que isso não combina com uma escola quadrada, que não oferece espaço para a garotada se movimentar nem tempo para brincar", diz.

Essa reflexão suscitou a sensação de que os outros anos mereciam algo melhor. Mesmo as redes que concluíram as expectativas de aprendizagem para os cinco anos, porém, precisam ficar atentas a outra situação. Durante a transição de modelo, algumas turmas vão "pular de ano". Os alunos da antiga 1ª série, por exemplo, vão para o 3º ano. Para dar conta dessa questão inevitável, o corpo técnico deve discutir como proceder. "É essencial fazer avaliações para saber em que nível eles estão. Na prática, devem ser oferecidas condições para que haja uma continuidade das aprendizagens", defende Telma Leal, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 225, Setembro 2009. Título original: Ajustar a bússola
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