Vira pó

FINAL

Fui tropeçando em tudo: chinelo, tapete, sapato, tudo que tinha pela frente. Não encontrei as canetas em lugar algum. Corri para a minha tia, que não percebia a gravidade da situação. Respondeu na maior calma.

Eu estava tirando o pó da mesinha e as canetas estavam atrapalhando, por isso as tirei de lá e coloquei no... na... xiiii...

Ela não lembrava onde. Parecia que o mundo tinha desabado sobre meu tio, pois agora que ele tinha tido uma ideia, não havia com o que escrever. E eu falei:

– Por que não vamos comprar canetas novas na papelaria da esquina?

Meu tio me pegou pelo braço e fomos correndo até lá, quando, outra bomba: a papelaria tinha fechado para reforma. Mas eu não desanimei. Essa letra ia sair a qualquer custo. Ficamos procurando outro lugar para comprar a bendita caneta. Só fomos achar no supermercado. Chegamos em casa rapidinho.

Meu tio foi para mesa e, ao se sentar, olhou para mim e disse:

– Esqueci o que eu ia escrever.

Ai, ai, ai... Tudo que é bom dura pouco. Fui para a cozinha e percebi que minha tia já tinha saído. Voltei e perguntei ao meu tio para onde ela tinha ido, mas ele ficou olhando para mim e nada disse. Então fui para o quarto ler um livro. Depois de uma hora escutei um grito e quase caí da cama:

– Consegui!!!

Antes de ler, imaginei que a letra seria parecida com o samba que eu fiz meu tio escutar durante seu sono pesado na praça, mas que nada! O que ele escrevia não era copiado de nenhuma música do meu MP4, eram versos diferentes. Ele tinha feito algo que eu nunca imaginaria, um samba incomum, incrível, inimaginável. Era assim:

Você se vai, se esvai, vira pó...Vê minha dor, meu choro e meu pedido de socorro, não tem dó. Te ligo, lhe digo, o que de mal lhe tenho feito? Me dê um sinal, me responda direito... Estou na maior agonia, fico acordado todo dia na inocente esperança de você se lembrar da nossa aliança e pra mim voltar... mas você não vem e mais uma vez fico completamente sem ninguém. Mas, fazer o quê? Nasci assim, sou seu adeus até o fim.. Desde cedo vi cada um seguindo seu devido caminho, sendo que de mim só ficou um pedacinho e novamente a história se repete. Você se vai, se esvai, vira pó.

Imaginei meu tio conhecido mundialmente como o melhor compositor de sambas, e quando perguntassem a ele "Como você consegue escrever essas coisas tão bonitas?", ele responderia: "Minha inspiração demorou para aparecer, mas depois de muita teima do meu sobrinho acabei descobrindo que inspiração vem de qualquer lugar. Ele salvou a minha carreira. Ele, que nunca desistiu de mim."

E não é que aquilo de fato aconteceu? Poucos meses depois minha tia telefonou dizendo para ligarmos a TV. E lá estava meu tio, de camisa de seda e um sorrisão estampado no rosto. Ele falava sobre seu caótico processo criativo.

– A verdade é que eu não crio nada sozinho. Se não fosse pelas colaborações das pessoas, e em particular do meu sobrinho querido, eu ainda estaria empacado.

E daí ele contou a história toda. Falou do passeio no parque, da letra que surgiu misteriosamente depois de uma soneca, do perigoso contratempo das canetas que sumiram e do breve momento de branco total. E a entrevistadora lá, com pose de pensadora, só concordava com acenos de cabeça, impressionada pelos conturbados bastidores do Vira Pó.


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