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Reportagem de Veja

Objetivos
Analisar a função semântica dos verbos dicendi

Introdução
A reportagem assinada por Bel Moherdaui, elaborada em tom irônico e, por vezes, sarcástico, brinca com os exageros tropicalistas da moda folclórica do "país dos papagaios". O texto apresenta depoimentos de diversos estilistas da nova geração e, após as aspas de cada citação, abusa dos verbos dicendi, agregando julgamentos de valor. Examine esse recurso lingüístico com os estudantes. Ao identificar e compreender seu alcance, eles estarão mais preparados para usá-lo nas próprias redações. 

Para seus alunos

Atividades
1ª aula - Antes de promover a leitura coletiva de VEJA, pergunte quem sabe conceituar os verbos dicendi. Ouça as intervenções dos alunos e, se for o caso, explique que a expressão vem do latim e significa dizer. Também conhecidos como ilocutórios, esses verbos precedem ou sucedem transcrições de falas. No discurso jornalístico, tais palavras costumam acompanhar as declarações de entrevistados. A utilização de testemunhos diretos em textos informativos geralmente revela a preocupação do autor em fornecer a versão de quem presenciou os fatos reportados ou participou diretamente deles. Deixe bem claro que os dicendi podem oscilar da quase neutralidade até formas bem mais opinativas e sugestivas. Escreva um exemplo no quadro-negro:
• "Eu te amo", falou o namorado.

Depois, substitua o verbo falou por segredou, provocou, declarou-se, desmanchou-se, insistiu, berrou, gaguejou, desabafou e mentiu.

Agora, divida a turma em pequenos grupos e partilhe o conteúdo de "Alegres Trópicos". Mostre que as aparentemente ingênuas informações sobre novos parâmetros da moda brasileira não se esforçam em ocultar uma crítica ácida a quem faz a moda e, desavisado, serviu de suporte para o que a jornalista queria dizer e de fato disse.

Proponha que as equipes assinalem os verbos dicendi encontrados. Enquanto isso, comente o caminho do texto. Apesar de querer dar a impressão de que apenas escreveu as palavras dos entrevistados - exatamente como foram ditas -, a autora responde por essa seleção quando as recorta e cola na estrutura de seu relato. Ela escolheu cada fragmento a ser "emoldurado" por sua reportagem, assim como o ponto preciso de encaixe para evocar cenas de comédia de pastelão.

Busque com a classe o que se esconde sob a suposta objetividade jornalística. Deixe que os grupos procurem passagens do texto que contaminam, pela manipulação, as falas dos entrevistados, bem de acordo com a intencionalidade autoral. Com o exemplário colhido, faça ver que a situação de enunciação foi reconstruída pela relatora, cujo recorte da realidade delimita o campo de percepção do leitor. Por mais que seja fiel, o discurso-matriz, recheado de fragmentos de imagens e textos alheios, dispõe de todos os meios para dar um enfoque personalístico à teatralização sofrida pelos dados coletados para tal fim. Se possível, demonstre como os dramaturgos fazem isso, com o cuidado de separar o como imaginam os diálogos da movimentação cênica dos personagens, com ênfase no ritmo, no timbre, na intensidade, na velocidade e na melodia da fala, para que ganhem vida no palco. Compare essa técnica com o que ocorre na reportagem. Pergunte até que ponto a estereotipia é empregada ali para retratar os estilistas. 

Para seus alunos

2ª aula - Lembre os adolescentes de seu papel de internautas, questionando quando e por que resolvem clicar nas opções "fala para", "grita para" e "flerta com" dos bate-papos virtuais.

A seguir, examine com eles o que fez a jornalista com os verbos dicendi, despojando-os de sua função de introdutores de discurso direto. De posse do material elencado na aula anterior, destaque momentos de intensa acidez e ironia das descrições de espaço e pessoas, repletos de juízos de valor, e questione se os verbos dicendi deixam transparecer o envolvimento da autora com as declarações citadas. Isso torna o texto didático ou persuasivo?

Reorganize a classe em três grandes grupos. Ocupe o primeiro das relações entre o verbo dizer e a veiculação de informações. O segundo vai tratar do valor descritivo de verbos como responder e concluir. A outra equipe deve estudar as informações modificadas pelos dicendi. Solicite exemplos extraídos de conversas habituais entre colegas, para provar que não se trata apenas de um fazer jornalístico ou literário.

Conduza a percepção dos adolescentes sobre o julgamento atribuído à narradora das ações dos falantes registradas em seu texto. Peça que separem, na reportagem, os verbos que denotam a força da enunciação (do tipo suplicar, prometer, socorrer...), os que especificam o modo de enunciação (murmurar, gritar, suspirar...) e os que indicam o tipo de discurso (demonstrar, contar, comentar...). Outra forma de verbo dicendi sugere um ver de pensamento: acreditar, querer, desejar. Isso se dá no texto de VEJA? Por quê?

Saliente que o emprego de dicendi pouco comuns cria, nesse contexto, situações interessantes. Exiba as ilustrações deste plano de aula e proponha que os estudantes procurem explicar os mecanismos que as promoveram.

Por fim, desafie os alunos a reescreverem "Alegres Trópicos" com outros verbos dicendi, alterando o tom da mensagem da crítica para o elogio. A brincadeira pode ser replicada tomando como matéria-prima quaisquer textos desta edição de VEJA.

Para seus alunos

Consultor Angelo Masson Neto
Professor de Lingüística das Faculdades Integradas Alcântara Machado (Fiam), de São Paulo

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