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A triste saga do povo guarani

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Objetivos
Examinar os conflitos entre bandeirantes e jesuítas em torno da mão-de-obra indígena, analisar o cotidiano dos grupos indígenas e sua luta pela sobrevivência

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Reportagem da Veja:

Introdução
A reportagem de VEJA mostra que o "tesouro guarani" - os restos das missões jesuíticas no Brasil, Argentina e Paraguai - é hoje reivindicado pelos governos desses países, herdeiros das administrações coloniais portuguesa e espanhola. Mas existem outros herdeiros, em especial os descendentes diretos dos agricultores e artesãos que fizeram florescer as missões, ergueram suas igrejas e esculpiram as imagens que as adornavam. O plano de aula examina, entre outros aspectos, o cotidiano dos guaranis, criadores desse valioso patrimônio cultural e hoje marginalizados, ameaçados em sua própria sobrevivência.

Catequese ou escravidão
Quando os europeus chegaram à América do Sul, encontraram o litoral atlântico basicamente ocupado por grupos tribais de cultura e idiomas semelhantes entre si, pertencentes ao tronco lingüístico tupi-guarani. Os tupis dominavam a faixa costeira desde a foz do Amazonas até Cananéia, em São Paulo. Seus "primos" guaranis eram encontrados no trecho compreendido entre Cananéia e o Rio Grande do Sul, e avançavam para o interior seguindo o curso dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai e seus afluentes. Guerreiros valorosos, cultivadores da mandioca e do milho, os tupis e guaranis forneceram o material humano para a organização de um Estado jesuítico no sul do continente, que chegou a reunir 200 mil índios em 30 missões e, durante 150 anos, ignorou as autoridades coloniais.

Os primeiros ensaios de catequese (conversão) indígena ocorreram entre os tupis, no século XVI, por iniciativa do padre Manuel da Nóbrega e outros jesuítas que vieram para o Brasil no início da colonização. Os objetivos declarados dos padres eram domar os "índios bravos", diminuindo as resistências à ocupação portuguesa, e difundir a fé católica. Mas logo verificaram que escravizar os nativos e obrigá-los a trabalhar, como faziam os colonos, não ajudava as conversões. Os jesuítas passaram então a reunir os índios em missões, protegendo-os dos maus tratos dos colonos - o que gerou conflitos entre os padres e os proprietários. Também propuseram a escravização do negro africano como alternativa à escravização do indígena.

Mas um africano custava cinco vezes mais caro do que um escravo indígena, o "negro da terra". Assim, a escravidão indígena não desapareceu. Foi praticada nas áreas menos prósperas da Colônia. E possibilitou aos habitantes da pobre capitania de São Paulo um meio de vida, graças ao bandeirismo de preação.

Os índios mansos das missões
Os primeiros povoados jesuíticos surgiram em 1610 e se multiplicaram com rapidez, longe dos núcleos coloniais portugueses e espanhóis. Vinte anos depois, já existiam as missões de Tape e os Sete Povos das Missões do Uruguai, no atual Rio Grande do Sul; de Guairá, no Paraná; e de Itatim, no Centro-Oeste brasileiro.

Outros aldeamentos jesuíticos ocuparam terras do norte, entre os rios Negro e Amazonas. Despontou desse modo uma nova forma de organização política, conduzida por padres vindos de todos os países europeus e obediente apenas à hierarquia dos jesuítas, ao papa e ao rei da Espanha. Nas "repúblicas guaranis", os nativos não eram escravizados nem submetidos a trabalhos forçados, como acontecia nas Américas portuguesa e espanhola. Em vez disso, cuidavam dos rebanhos e plantações e das demais propriedades coletivas das missões, conhecidas como Tupambaé, "a coisa de Deus". Também se tornaram tecelões, músicos e artífices, deixando nas imagens das igrejas as evidências de sua capacidade criativa.

A resistência
Para os paulistas, essas múltiplas aptidões para o trabalho aumentavam o valor dos "índios mansos" das missões. Além disso, eles estavam reunidos num só local: era mais fácil capturá-los. Entre 1619 e 1648, os paulistas aprisionaram milhares de indígenas, só encontrando resistência efetiva a partir de 1640 (veja o quadro).

Nas últimas décadas do século XVII, as missões atingiram o apogeu. Em 1750, porém, o Tratado de Madri, baseado na ocupação efetiva dos territórios, deu a Portugal a soberania sobre parte da região das missões. Os jesuítas se recusaram a partir e lideraram os guaranis na luta contra os portugueses, na chamada Guerra Guaranítica (1754-1756). Em 1768, quando os padres foram afinal expulsos, seus aldeamentos se estendiam dos pampas argentinos ao Uruguai, Paraguai e Bolívia. Os rebanhos missioneiros reuniam um milhão de bovinos, 300 mil carneiros e 100 mil cavalos, que logo passaram às mãos dos hispano-americanos.

Sobrevivência difícil
Hoje, existem grupos guaranis na Argentina, no Brasil e no Paraguai. A presença cultural mais forte ocorre no Paraguai, onde 80% dos habitantes têm san-gue indígena e o idioma guarani - modificado pelos jesuítas como foi a "língua geral" baseada no tupi - é falado por 95% da população. No século XIX, indígenas e mestiços paraguaios apoiaram governos nacionalistas moderniza-dores. Mas o sonho da nova "república guarani" terminou com o massacre quase total do povo na Guerra do Paraguai (1865-1870).

No Brasil, os guaranis eram em 1995 a etnia mais numerosa, com cerca de 30 mil indivíduos. Em áreas indígenas, aldeias e famílias isoladas pontilham um território que se estende do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul e ao Mato Grosso do Sul. Alguns grupos lutam pela delimitação e expansão de suas áreas e procuram afirmar sua identidade cultural. Outros, vítimas do etnocídio (morte da cultura), tratam apenas de escapar do genocídio (morte da raça) e de atos brutais como a morte, num incêndio criminoso, de um índio pataxó em Brasília. E há os que desistem até de viver: é assustadoramente alto o número de suicídios entre os guaranis de Dourados (MS), que perderam suas terras para as lavouras e vêem suas tradições ridicularizadas.

Talvez o "turismo histórico" ajude a resgatar e a preservar o pouco que sobrou da cultura guarani nas áreas do Mercosul. A maioria dos nativos está fazendo a sua parte, prosseguindo na luta por seus direitos. Cabe aos não-índios enfrentar o desafio de olhar e aceitar o outro como alguém que não é melhor ou pior do que eles, apenas diferente. Será esta a melhor maneira de repartir o tesouro guarani entre todos os seus herdeiros.

Atividades
1. Leia com os alunos a reportagem de VEJA e o texto de apoio. A seguir, divida a turma em grupos e encarregue-os de pesquisar alguns temas:
Escravidão indígena - quando desapareceu, por que o trabalho escravo indígena foi substituído pelo do escravo africano nas capitanias mais ricas?
Bandeirismo de preação - por que a União Ibérica favoreceu as incursões dos bandeirantes? Por que as missões foram inicialmente alvos fáceis?
Afirmação cultural - existem, na região onde está situada a sua escola, manifestações da resistência cultural indígena? Quais as principais etnias indígenas encontradas na área?

2. Conduza pesquisas e debates, em sala de aula, sobre a onda de suicídios entre os guaranis de Dourados. Ela está ligada à questão da terra? Quais as condições da área? Ocorrem muitos suicídios entre guaranis de outras regiões?

3. Organize, com os alunos, painéis com imagens e textos dos viajantes europeus que registraram aspectos do cotidiano indígena brasileiro no século XIX: Johann Rugendas (Viagem Pitoresca ao Brasil), Jean Baptiste Debret (Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil), Saint-Hilaire (Viagens ao Interior do Brasil), Spix e Martius (Viagem ao Brasil).

Áreas das missões jesuíticas

Jardim


Entre 1628 e 1648, os bandeirantes destruíram as missões do Guairá, Tape, Uruguai (Sete Povos das Missões) e Itatim, capturando milhares de índios. Mas aos poucos a resistência aumentou. Em 1640 terminaram os 60 anos de domínio espanhol em Portugal, e os bandeirantes passaram a ser vistos como vanguarda da expansão lusa na América espanhola.

A Espanha permitiu então que os guaranis se armassem, e estes chegaram a derrotar os paulistas. Com isso as missões sobreviventes floresceram, só desaparecendo em 1768. Hoje, vestígios preservados de doze missões pontilham o oeste gaúcho (quatro aldeias), a província argentina de Misiones, entre os rios Uruguai e Paraná (cinco aldeias) e o sul do Paraguai, às margens do rio Paraná (três aldeias).
 

Veja também:

Bibliografia
História do Brasil
, Koshiba e Pereira, Ed. Atual, fone: (11) 5071-2288
História dos índios do Brasil, Manuela Carneiro da Cunha, Cia. das Letras, fone: (11) 3707-3500

Filmografia
A missão
, Roland Joffé, 1986

 

 

Consultoria Denise Frayze Pereira
Professora de História da Escola Nossa Senhora das Graças, de São Paulo

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