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Prata, estanho, coca e sangue

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Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

Conteúdos
História e conflitos políticos atuais da Bolívia

Habilidades
Contextualizar alguns momentos decisivos na história e na política bolivianas

Tempo estimado
Três aulas

A entrevista com o índio aimará Victor Hugo Cárdenas, vice-presidente da Bolívia de 1993 a 1997 e um dos líderes da oposição ao governo do também aimará Evo Morales, oferece um bom ponto de partida para seus alunos entenderem melhor os conflitos políticos no país andino. E o fato de um eventual confronto se dar entre dois indígenas, num contexto democrático, sugere que alguma coisa mudou na Bolívia. Afinal, antes os choques políticos opunham os militares a operários e camponeses, e terminavam em massacres. Convide os jovens a examinar alguns momentos decisivos da trajetória de um país de enormes riquezas minerais, mas que é um dos mais pobres da América do Sul.

Atividades
1ª aula - Cárdenas menciona na entrevista as línguas aimará e quíchua. Informe que elas são faladas pelas duas maiores etnias indígenas da Bolívia: os quíchuas correspondem a 30% da população boliviana, e os aimarás, a 25%. Esses dois povos nativos entraram em contato no século XV, quando os aimarás foram dominados pelos incas e passaram a integrar o império sediado em Cuzco, no qual os quíchuas eram majoritários.

A partir de 1532, o Império Inca foi conquistado pelos espanhóis - e a atual Bolívia começou a revelar suas riquezas. Em 1545 foram descobertas enormes jazidas de prata na montanha de Potosí. Formou-se uma cidade que três décadas depois tinha 150 mil habitantes: a maior e a mais rica da América. Desde essa época foram estabelecidas formas distintas de exploração da força de trabalho indígena, que esteve vinculado às atividades extrativas e agrícolas.

Depois dessa introdução, proponha um levantamento sobre a exploração de prata em Potosí, enfatizando as características do sistema de extração, entre elas as longas jornadas de trabalho e a enorme mortandade de trabalhadores. É importante que a garotada pesquise também as diversas formas de servidão indígena. Deve ser ressaltado que algumas delas já existiam no Império incaico (como a mita, por exemplo). Recorde que a escravidão negra foi quase inexistente nessa região. Ou seja, a força de trabalho indígena mostrou-se suficiente para manter o sistema de exploração colonial, diferentemente do que ocorreu no Brasil.

2ª aula - Sugira o exame da tempestuosa história boliviana, desde a independência, em 1825, até meados do século XX. Exponha que a libertação final do território, que então era chamado de Alto Peru, foi assegurada pelas tropas do general Antonio José de Sucre (1795 - 1830). Ele era o braço direito de Simón Bolívar (1783 - 1830), considerado o libertador da América espanhola e que deu seu nome ao país.

Nas décadas seguintes, a Bolívia envolveu-se numa série de conflitos desastrosos. O mais grave foi a Guerra do Pacífico (1879-1883), que opôs o Chile ao bloco Bolívia-Peru. Peça que os estudantes investiguem as razões do confronto; eles vão encontrar referências às companhias mineradoras internacionais interessadas nas jazidas de salitre do deserto de Atacama. Conte que o Chile logo ocupou a província litorânea de Antofagasta, pertencente à Bolívia, e prosseguiu na guerra contra o Peru, derrotado em 1883. Destaque que a perda do acesso ao mar é um fato de enorme significado histórico-político, que até hoje traumatiza os bolivianos.

No início do século XX houve o conflito com o Brasil em torno do Acre, solucionado por um tratado diplomático que resultou em outra perda territorial. Em 1932-1935, a Bolívia sofreu nova derrota militar, desta vez na Guerra do Chaco. O termo designa uma região pantanosa de cerca de 1.280.000 km² que se estende pelo Paraguai, Bolívia, Argentina e Brasil. Vitorioso, o Paraguai ficou com 75% do território disputado pelas armas.

Depois passe para os anos 1950 e proponha que a turma pesquise a Revolução de 1952, suas causas e desdobramentos. Deve ser indicado que a questão agrária foi uma das principais motivadoras desse movimento e que os "governos revolucionários" realizaram uma ampla reforma agrária. Além de receberem terras, os camponeses (indígenas em sua maioria) ganharam o direito ao voto. Outros dois importantes pontos foram a nacionalização de vários setores da economia - a começar pelas minas de estanho, que havia substituído a prata como principal produto boliviano - e a criação de um novo exército (o antigo foi derrotado e extinto). Nas décadas seguintes, os militares voltaram a reprimir as mobilizações populares. A partir de 2003, porém, estas mostraram sua força, conseguindo a renúncia do presidente Sánchez de Losada e de seu sucessor, o vice-presidente Carlos Mesa, em 2005. A crise entraria num novo patamar com a eleição, no final do mesmo ano, de Evo Morales.

Encomende a criação de uma linha do tempo do período 1820 - 1960, ilustrada com gravuras e mapas referentes aos conflitos abordados neste plano de aula. Se a moçada quiser, pode avançar com a linha do tempo e incluir episódios como a prisão e a morte de "Che" Guevara em 1967, quando tentava organizar uma guerrilha no país.

Para seus alunos Processo de encolhimento

Brasil, Chile e Paraguai tomaram quase metade do território e deixaram a Bolívia sem litoral. Ilustração Robles/Pingado
Brasil, Chile e Paraguai tomaram quase metade do território e deixaram 
a Bolívia sem litoral. Ilustração Robles/Pingado

3ª aula - Chame a atenção para os vários pontos de conflito entre a oposição e o governo boliviano mencionados na entrevista. Proponha que os alunos pesquisem o noticiário sobre a votação da Constituição. É importante que eles notem que há sérias divergências sobre a organização do Estado, a distribuição dos impostos e a participação política das diversas etnias que fazem parte da sociedade boliviana. Também são citadas as plantações de coca. Trata-se de um ponto polêmico e que merece uma reflexão especial. O entrevistado ressalta o crescimento da área plantada, muito acima do que ele considera necessário para o uso tradicional. É interessante buscar dados sobre o plantio de coca e a distinção entre a cocaína, utilizada no tráfico de entorpecentes, e a coca, cujas folhas tradicionalmente são mascadas ou utilizadas no preparo de infusões. Para contrapor, é importante encontrar algum discurso ou entrevista do presidente Evo Morales tratando do mesmo tema. Proponha, finalmente, que cada um escreva uma redação tratando da questão referente ao plantio da coca. Selecione algumas delas para serem lidas para toda a classe.

Aula sugerida por Marco Antonio Villa
Professor de História da Universidade Federal de São Carlos (SP)

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