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Plano de Aula

A poesia de Ferreira Gullar

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Conteúdo relacionado

Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

Objetivos
Conhecer algumas etapas da trajetória poética de Ferreira Gullar

Conteúdos
A poesia de Ferreira Gullar

Tempo estimado
Uma aula

Material necessário
Cópias dos cinco poemas citados neste plano de aula

Introdução
A resenha sobre o lançamento de Em Alguma Parte Alguma, do maranhense Ferreira Gullar, traça o perfil de um mestre das palavras. O Prêmio Camões, com que ele foi agraciado em 2010, confirma essa condição. Como observa o texto, o estilo atual do poeta, expresso nos versos do livro, é o fio que interliga todas as suas fases anteriores e lhes dá nexo. Aproveite a revista e este plano de aula para examinar tais fases e prepare os alunos para ouvir essas muitas vozes de Ferreira Gullar.

Desenvolvimento
Comece a aula perguntando se a turma conhece o poeta Ferreira Gullar. Aguarde que os alunos respondam e peça que leiam a reportagem "O Fio da Memória", publicada em VEJA.

Em seguida, proponha que a turma aprofunde os conhecimentos sobre a trajetória de Ferreira Gullar por meio da análise de cinco poemas dele, pertencentes às principais fases de sua poesia. Para começar, peça que os alunos se coloquem em duplas e entregue a eles cópias do texto "As peras". Peça que leiam atentamente.

Texto 1 - As peras

As peras, no prato,
apodrecem.
O relógio, sobre elas,
mede
a sua morte?

Paremos a pêndula. De-
teríamos, assim, a
morte das frutas?
Oh as peras cansaram-se
de suas formas e de
sua doçura! As peras,
concluídas, gastam-se no
fulgor de estarem prontas
para nada.
O relógio
não mede. Trabalha
no vazio: sua voz desliza
fora dos corpos.
(...)

(A Luta Corporal, 1954)

O que os alunos entendem do texto? O que representa o apodrecimento das frutas? Dê um tempo para que as duplas discutam e apresentem suas respostas.

Em seguida, explique à classe que o poema "As peras" faz parte de A Luta Corporal, o primeiro livro de Ferreira Gullar. Como indica a reportagem de VEJA, o apodrecimento das frutas é uma representação da passagem do tempo e da morte - e está presente em toda a obra de Gullar. O título do livro faz referência à luta consigo mesmo e à luta com palavras - o desafio permanente do poeta. O que a turma entende por tal afirmação?

Acrescente à classe que muitos críticos veem nesse livro, por sua preocupação com a linguagem, a ponte entre a obra drummondiana e o concretismo. Apresente aos alunos mais informações sobre essa guinada estética, que transformou o poema em objeto visual, a ser ao mesmo tempo lido e visto. (Veja sugestões de sites para pesquisar ao final deste plano).

Em seguida, apresente à moçada o segundo poema, "Mar Azul".

Texto 2 - Mar Azul

mar azul
mar azul
mar azul marco azul
mar azul marco azul barco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul

(Poemas Concretos/Neoconcretos, 1957-1958)

Pergunte aos alunos se as duas obras se parecem. O que eles entendem deste segundo texto? Conte à classe que "Mar azul", com sua sucessão de substantivos ao lado de um único adjetivo, bem diferente dos demais poemas apresentados neste plano de aula, representa um momento de busca de caminhos pelo qual Ferreira Gullar passou, dividido entre o concretismo e o neoconcretismo. (saiba mais sobre esses dois movimentos nos links disponíveis ao final deste plano). Em 1956, o poeta participou da Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna, em São Paulo, ao lado de figuras como os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, ícones do concretismo. Três anos depois, em 1959, lançou com Lígia Clark, Hélio Oiticica e outros o movimento neoconcretista, que criticava o dogmatismo e o formalismo excessivos dos concretistas.

Passe para o terceiro poema:

Texto 3

Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho,
só mata cabra da peste,
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.
Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.
João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa,
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais,
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro."
Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram,
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço".
(...)
Já vão todos compreendendo
como compreendeu João,
que o camponês vencerá
pela força da união.
Que é entrando para as Ligas
que ele derrota o patrão,
que o caminho da vitória
está na revolução.

(João Boa Morte, Cabra Marcado para Morrer, cordel, 1962)

Como a turma interpreta o poema? Há algum viés político nele? Certamente, os alunos vão perceber que o cordel João Boa Morte, Cabra Marcado para Morrer assinala a fase mais abertamente política da obra de Gullar. Explique à classe que, neste período, o poeta se envolveu com os Centros Populares de Cultura - CPCs da UNE. Após o golpe de 1º de abril de 1964, ele enveredou pelo teatro, escrevendo em 1966, em parceria com Oduvaldo Viana Filho, a peça "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Também foi coautor de "A saída? Onde fica a saída?", encenada em 1967 pelo Grupo Opinião, e de "Dr. Getúlio, sua vida e sua glória" (1968), escrita em parceria com Dias Gomes.

Passe, então, para o quarto texto:

Texto 4 - O açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

(Dentro da Noite Veloz, 1975)

Quando terminarem a leitura, questione se os alunos percebem alguma mudança clara em relação do texto anterior. O viés político continua forte em "O açúcar"? Dê um tempo para que as duplas respondam.

Explique a eles que a década de 1970 viu Ferreira Gullar depurar sua poesia do engajamento diretamente político, embora permanecesse fiel a uma perspectiva de crítica social. "O açúcar" é um exemplo dessa fase mais madura. Chame a atenção para a oposição "usina escura/vida amarga e dura" e o açúcar "branco, puro e doce", expressão da desigualdade na vida brasileira.

Conte aos alunos que o poema consta do livro Dentro da Noite Veloz, publicado em 1975. No ano seguinte, Gullar lançou Poema Sujo, seu escrito mais célebre. Nele, experiências com a linguagem, aliterações e contestação política se fundem de maneira harmoniosa. Apresente um trecho do poema à turma.

Texto 5

          (...) 
          bela bela
          mais que bela
          mas como era o nome dela?
          Não era Helena nem Vera
          nem Nara nem Gabriela
          nem Tereza nem Maria
          Seu nome seu nome era...
          Perdeu-se na carne fria
perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
          constelações de alfabeto
          noites escritas a giz
          pastilhas de aniversário
          domingos de futebol
          enterros corsos comícios
          roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
          perdido comigo
          teu nome 
          em alguma gaveta
(...)

(Poema Sujo, 1976)

Encomende a leitura completa do texto, considerado um dos marcos da lírica brasileira. Conte à classe que as décadas seguintes veriam a consagração de Ferreira Gullar como um dos mais importantes e ativos intelectuais do país. Ele publicou livros de poesia como Muitas Vozes (1999) e de crônicas como Resmungos - agraciado com o Prêmio Jabuti de 2007 para a melhor obra de ficção. Também colaborou em produções para a televisão como Irmãos Coragem e Dona Flor e Seus Dois Maridos. O Prêmio Camões - atribuído pelos governos do Brasil e de Portugal aos autores que tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa - e, agora, o lançamento de Em Alguma Parte Alguma vêm coroar, mais que uma obra, uma vida de extraordinária riqueza.

Para finalizar, pergunte aos alunos se é possível identificar aspectos comuns entre os cinco poemas lidos. Qual é a proposta básica de Ferreira Gullar, contida em toda sua obra? Ouça as hipóteses da classe e conclua com eles que a base da obra do poeta maranhense é a luta com as palavras e contra a desigualdade social.

Tendo claro o fio condutor de sua obra, é possível entender a brevidade de sua incursão pelo concretismo e até mesmo o neoconcretismo - que ele próprio lançou e descartou pois poderia levar a um fetichismo da palavra, colocando em segundo plano a dimensão poética e a vida real. Também podemos entender porque não foi muito extensa a fase diretamente política: a preocupação com a linguagem contribuiu para que depurasse de sua poesia os chavões e clichês.

Avaliação
Observe se a turma consegue analisar os poemas e perceber as diferenças e semelhanças entre eles, identificando as diferentes facetas de Ferreira Gullar.

Quer saber mais?

Internet
O endereço http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/ dá acesso ao site oficial de Ferreira Gullar.
Concretismo
Neoconcretismo
Carlos Drummond de Andrade

Bibliografia
GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.  

Consultoria Carlos Eduardo Matos
jornalista e editor de livros didáticos e paradidáticos

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