Conteúdo relacionado
Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:
Objetivos
Levar os alunos a analisar criticamente a maneira como a mídia aborda e veicula temáticas sensíveis, como a tragédia ocorrida em Realengo, possibilitando, desta maneira, uma reflexão sobre o papel social dos meios de comunicação.
Conteúdos
Ciências Sociais, Sociologia, Mídia, Jornalismo, Comunicação.
Tempo estimado
Quatro aulas
Material
Vários jornais e revistas que contenham reportagens sobre temáticas delicadas e sensíveis. Por exemplo, sobre os massacres em escolas nos EUA, sobre os massacres no Rio de Janeiro, a pacificação de favelas cariocas, o caso Eloá Cristina (2008), entre outros.
Introdução
A revista VEJA desta semana traz uma detalhada cobertura sobre o massacre em Realengo, no Rio de Janeiro, que apresenta inúmeros aspectos do caso. As diversas abordagens nos motivam a refletir sobre a responsabilidade e a ética nos meios de comunicação, os pontos positivos e negativos da divulgação de informações em tempo real, os efeitos e razões da veiculação de inúmeros dados e informações em reportagens dessa natureza.
Desenvolvimento
1ª Aula
Fale sobre o tema da aula e reserve um momento para quebrar o gelo na sala de aula. Para isso, permita que os alunos discutam por aproximadamente 15 minutos. Garanta que os alunos se sintam à vontade para compartilhar opiniões. Questione os alunos sobre os conhecimentos a respeito do caso do massacre em Realengo. Indague-os sobre as fontes de conhecimento. Pergunte como eles se sentiram ao ver e ler as reportagens. Faça-os refletir sobre como iriam se sentir se uma tragédia dessa natureza ocorresse na sua escola e eles tivessem que dar depoimentos e, eventualmente, aparecer na televisão, em revistas ou jornais, falando sobre o medo e os momentos de terror presenciados.
Em seguida, faça uma breve apresentação (aproximadamente 20 minutos) sobre a importância dos meios de comunicação, a ética e a responsabilidade na comunicação de massas e os eventuais exageros cometidos em busca de mais audiência. Se for preciso, use o texto de apoio ao professor como base para esta apresentação.
Finalize com uma provocação para o trabalho: Nossa escola sofreu um ataque, houve mortos e feridos e o jornal da escola ficou responsável por elaborar uma reportagem sobre o caso. Colocando os alunos na posição de jornalistas, pergunte como seria essa publicação, o que eles mostrariam e o que evitariam e quais motivos guiariam as escolhas.
2ª Aula
Chegou a hora de coordenar a redação do jornal da escola. Os alunos ficaram responsáveis pela reportagem mais importante do ano. O jornal da escola é composto por quatro alunos. Divida a turma em grupos (mínimo de quatro alunos) e solicite que eles se organizem para começar a planejar a pauta.
Para tanto, eles devem observar como casos semelhantes foram abordados por diferentes meios de comunicação. Reserve um tempo para os alunos lerem e discutirem as reportagens nos grupos. Eles podem seguir ou não a linha da reportagem que estão lendo, mas devem justificar a escolha na redação do trabalho final.
Dica: Seria interessante, organizar o prêmio de melhor reportagem da sala (ou de todas as salas, caso esteja realizando este mesmo trabalho simultaneamente). Os trabalhos podem ser votados por uma comissão de professores ou pelo público. Uma opção para motivar os alunos seria oferecer prêmios como livros.
Onde for possível, o exercício pode servir de motivação para a elaboração de uma atividade extracurricular e multidisciplinar: um jornal escolar. A atividade pode ser coordenada por professores de Língua Portuguesa, História, Geografia, Sociologia e Filosofia. Além disso, o jornal pode ter seções destinadas à divulgação de conhecimentos e curiosidades científicas e tecnológicas, atividade orientada por professores de Biologia, Química, Física e Matemática. Ainda há espaço para uma seção de saúde e bem estar, orientada por algum professor de Educação Física.
Durante a aula, os grupos devem começar a redigir a reportagem. O texto deve conter: o que aconteceu, quantas pessoas foram feridas, menção a casos semelhantes no Brasil e no exterior, dicas para aumentar a segurança da escola e para evitar que casos semelhantes voltem a ocorrer e, por fim, quais ações a comunidade escolar está realizando para dar apoio emocional aos familiares das vítimas e para reerguer o cotidiano da escola. A redação final da reportagem precisa ter no mínimo 900 e no máximo 1500 palavras, sem contar cabeçalho.
3ª Aula
Reserve a terceira aula para a continuidade dos trabalhos de redação da reportagem. Visite os grupos e ofereça apoio para a elaboração do texto.
4ª Aula
Destine a aula para a apresentação das reportagens. Os alunos podem imaginar que estão apresentando um jornal televisivo, lendo uma matéria ou mesmo que os repórteres estão relatando o acontecido de dentro do local do massacre. O tempo de apresentação deve ser dividido igualmente entre os grupos de acordo com o tempo da aula.
Avaliação
Os alunos devem ser avaliados quanto à sua organização e comprometimento na elaboração do trabalho; pela apresentação do trabalho e pela redação final da reportagem.
Quanto à organização e o comprometimento dos alunos, observe o envolvimento deles na elaboração, discussão e redação da reportagem. Dê apoio aos grupos que tiverem dificuldades.
Quanto à apresentação do trabalho, os alunos devem ser avaliados quanto ao domínio sobre o tema que estão apresentando, a criatividade da apresentação e a disciplina quanto ao tempo de apresentação.
Quanto à redação final, os textos devem ser avaliados de acordo com:
- Adequação do texto à atividade proposta;
- Encadeamento de ideias;
- Clareza dos argumentos;
- Pertinência da redação em relação à discussão promovida pelo professor em sala de aula;
- Abordagem sobre os pontos propostos;
- Criatividade e outros critérios que julgar mais adequados para a sua realidade em sala de aula
Texto de apoio O massacre ocorrido na escola municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, no dia 07 de abril de 2011 e a cobertura que o mesmo teve nos meios de comunicação do país nos levam a refletir sobre a responsabilidade e a ética na mídia. Mesmo sendo um acontecimento sem precedentes na história brasileira, a atenção que recebeu por parte da mídia muito se assemelha ao caso Eloá Cristina (2008) e da iniciativa de pacificação do complexo do alemão (2010). Os casos se assemelham por terem sido noticiados praticamente em tempo real, as informações foram difundidas de forma massiva, e aparentemente muito pouco se refletiu acerca dos impactos destas informações sobre o transcorrer dos acontecimentos sendo noticiados. Por fim, argumenta-se que este comportamento está associado à forma de ser de uma parte dos meios de comunicação, que há muito tempo vem se esquecendo da sua responsabilidade social e da ética inerente à sua atividade, priorizando a quantidade à qualidade das informações. Três casos distintos, o massacre em Realengo, o caso Eloá Cristina e a pacificação do complexo do Alemão, possuem um elemento em comum. Os três foram quase que exaustivamente explorados pelos mais diversos meios de comunicação. O furo de reportagem, a entrevista exclusiva, o detalhe que passou despercebido e outros elementos estratégicos promovem o aumento da audiência e motivam os profissionais e os meios de comunicação a buscarem e explorarem os mais diversos aspectos das matérias jornalísticas. Por conta desta cacofonia de depoimentos, fotos e matérias, as reportagens perdem a capacidade de informar a sociedade. Este tipo de informação, altamente detalhada e precariamente articulada está longe de proporcionar uma melhor compreensão para a população sobre os fatos ocorridos.
Buscando o aumento da audiência, apela-se à emoção causada pelos depoimentos de crianças psicologicamente abaladas, cenas chocantes de um sequestrador apontado uma arma para a cabeça de um refém e de traficantes escapando durante uma operação militar. Imagens de idosos em filas de hospitais, pessoas em situações precárias de saúde, higiene e alimentação, que perderam suas casas em catástrofes etc. também são constantemente alvo deste modo de se produzir notícias. Por estes motivos, é crucial refletir sobre o valor jornalístico desta forma de cobertura.
O uso destas imagens é necessário e ele proporciona uma melhor compreensão sobre o fato jornalístico para a sociedade? De que maneira o depoimento de uma criança, veiculado em rede nacional, ajuda a entender o fato ocorrido? Não deveríamos preservar a identidade destes menores? Seria mais ético e mais responsável apenas incorporar o conteúdo deste depoimento em uma reportagem maior, sem veiculá-lo à imagem desta criança! Por outro lado, se faz necessário indagar ainda de que forma este tipo de cobertura pode atuar sobre o fato sendo noticiado. As imagens dos traficantes fugindo auxiliaram ou prejudicaram a ação da polícia na iniciativa de pacificação do morro do alemão? A cobertura em tempo real do sequestro de Eloá e da estratégia da polícia visando o seu resgate não possibilitou ao próprio sequestrador um acompanhamento das ações da polícia? Ele não precisou de um parceiro para vigiar a polícia pela janela, diversas emissoras de TV estavam cobrindo o caso e filmando as operações do lado de fora do apartamento.
Estes não são casos isolados, a violência, os escândalos, o sofrimento alheio, os horrores da guerra, a vida das celebridades, entre outras têm suas imagens difundidas por todos os cantos. Em contrapartida, a reflexão sobre suas causas, seus efeitos, possíveis soluções, enfim, matérias menos superficiais são produzidas cada vez menos. Talvez esta geração que encontra dificuldades em se comunicar com mais de 140 caracteres seja um dos efeitos da superficialidade e da banalidade com a qual tem se tratado os mais diversos assuntos, sejam políticos, culturais, econômicos e, inclusive, policiais.
Surgem cada vez mais soluções simples e imediatistas, a reflexão profunda não é encorajada. Por exemplo, após o fenômeno "Zangief Kid", o bullying se tornou o causador de diversos transtornos psicossociais. No entanto, o bullying é muito mais sério e precisa ser tratado como algo a ser explicado, não apenas como a explicação para comportamentos desviantes. Acima de tudo, é preciso refletir sobre formas de evitar a sua ocorrência, em especial nas escolas. Neste ponto, assim como nos demais assinalados acima, os meios de comunicação de uma forma geral se restringem a reproduzir informações, muitas vezes, pouco confiáveis.
A responsabilidade social e a ética nos meios de comunicação são seriamente prejudicados quando crianças têm seus nomes e imagens divulgados independentemente do valor jornalístico e enquanto os meios de comunicação puderem atuar negativamente sobre o desfecho de sequestros. Além disto, a função social dos meios de comunicação estará seriamente desafiada enquanto noticias e imagens continuarem a ser divulgadas desassociadas de reflexões e interpretações mais compreensivas sobre os fatos noticiados e a sua importância contextual. O motivador das matérias não deve ser apenas a audiência, mas também o esclarecimento da população.
Quer saber mais?
Video documentário:
Tiros em Columbine (Bowling for Columbine, 2002), de Michael Moore.
Textos:
ABRAMO, Cláudio. A Regra do Jogo: o jornalismo e a ética do marceneiro, São Paulo: Cia das Letras, 1988.
Barros Filho, Clovis De. Ética na Comunicação. São Paulo, Summus, 2008
Belloni, Maria Luiza. A formação na Sociedade do Espetáculo: Gênese e Atualidade do Conceito. In: Revista Brasileira de Educação, nº 22, 2003. p. 121-136.
Coelho, Claudio Novaes Pinto; Castro, Valdir José (orgs.). Comunicação e Sociedade do Espetáculo. São Paulo: Paulos, 2006.
The New Journalism: a reportagem como criação literária, Rio de Janeiro: Secretaria Especial de Comunicação Social da Prefeitura do Rio de Janeiro, 2003. Cadernos da Comunicação 7, Série Estudos
Consultor Rafael Bennertz.
Sociólogo, mestre e doutorando em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Pesquisador do Grupo de Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia - Unicamp.