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Os padrões de beleza ao longo do tempo

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Conteúdo relacionado

Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

No decorrer da história o corpo passou por diversos ideais de representação. Das cheinhas de Botero às magérrimas modelos atuais, discuta com a turma a construção da beleza com o passar dos anos.

padroes de beleza na historia

 

 

Objetivos

  • Discutir aspectos às construções sociais e filosóficas em torno dos "padrões de beleza" ao longo do tempo.


Conteúdos

  • História social da estética/beleza.
  • História do corpo.

Anos
Ensino Médio

Tempo estimado
Três aulas

Flexibilização
Para deficiência visual

A estética é essencialmente um conceito do campo visual, mas que pode ser entendido também como um conjunto de ideias que formam opiniões a respeito da vida.
Desse modo, o deficiente visual pode construir uma estética a partir das interações psicológicas com o grupo social que o cerca. Para ampliar esse plano aos deficientes visuais, sugere-se uma dinâmica em que cada aluno diga, por exemplo, que sentimento tem em relação às cores, ou seja, o que representa o azul, o amarelo, o preto etc. Todavia, no campo da estética concreta, sugere-se uma dinâmica em que os alunos, vendem os olhos e tentem descobrir pelas formas dos rostos dos colegas a diferenças entre as fisionomias - tipos de nariz, bocas, olhos, cabelos etc.

Material necessário

  • Cópias de excertos das obras A História da Feiúra, de Umberto Eco; e Corpo a corpo com a mulher, de Mary Del Priore, anexados ao plano;
  • Cópias da reportagem A beleza sem bisturi e sem exageros (Veja, 6 de junho de 2012).


Introdução
Cotidianamente os meios de comunicação nos bombardeiam com consideram o atual padrão de beleza humana. Mesmo sendo a ideia de beleza carregada de subjetividade, daí a famosa expressão "gosto não se discute", ao longo do tempo foram construídos diferentes discursos em torno da beleza do corpo humano (particularmente o corpo feminino) que resultaram na delimitação de modelos estéticos e serem perseguidos e mesmo impostos. O objetivo central desde plano de aula é justamente oferecer a possibilidade de refletir sobre a forma como os "padrões de beleza" foram construídos ao longo do tempo e como foram/são interpretados pelas sociedades.

Leia mais: Padrões de beleza na sociedade de consumo
Leia mais: Corpo: aberto para reformas
Leia mais: Em busca do corpo perfeito

Desenvolvimento
1ª aula
Inicie a aula solicitando aos alunos que indiquem pessoas que seriam os modelos da beleza humana na contemporaneidade. A partir da lista apresentada pela turma, tente observar e chamar atenção de todos para a forma como os nomes indicados podem apresentar características físicas ou fenótipos semelhantes, representando assim um padrão. Iniciada essa primeira discussão, informe que o tema central da aula será justamente a discussão da construção desses padrões visuais em torno do corpo humano ao longo do tempo.

Siga explicando para a turma que o conceito de "belo" é extremante mutável e subjetivo, obedecendo muitas vezes, a o que os filósofos chamam de "juízo estético", que seria a nossa capacidade de julgar a beleza de um objeto, um argumento, e, claro, as próprias pessoas. De forma geral, o "belo" é entendido contemporaneamente como algo que agrada, satisfaz os sentidos e gera diferentes percepções de prazer. No entanto, esse "consenso" pode se desfazer diante do julgamento de beleza emitido a respeito de um objeto específico, percebido de forma diversa por cada pessoa. Daí a suposta validade da expressão: "gosto não se discute". Entretanto, informe aos alunos que esse caráter subjetivo da beleza foi alvo de tentativas (bem sucedidas ou não) de padronização, pelo menos desde a antiguidade clássica. De forma a ilustrar essas padronizações da beleza, divida a turma em pequenos grupos e distribua cópias de um excerto do livro A história da feiúra, do autor italiano Umberto Eco, realizando sua leitura:

Dizer que belo e feio são relativos aos tempos e às culturas (ou até mesmo aos planetas) não significa, porém, que não se tentou, desde sempre, vê-los como padrões definidos em relação a um modelo estável. Pode-se sugerir também, como Nietzsche no Crepúsculo dos ídolos, que "no belo, o ser humano se coloca como medida da perfeição;" (...) "adora nele a si mesmo. (...) No fundo, o homem se espelha nas coisas, considera belo tudo o que lhe devolve a sua imagem. (...) o Feio é entendido como sinal e sintoma da degenerência (...) Cada indício de esgotamento, de peso, de senilidade, de cansaço, toda espécie de falta de liberdade, como a convulsão, como a paralisia, sobretudo o cheiro, a cor, a forma da dissolução, da decomposição (...) tudo provoca a mesma reação: o juízo de valor ‘feio’. (...) O que odeia aí o ser humano? Não há dúvida: o declínio de seu tipo".

O argumento de Nietzsche é narcisicamente antropomórfico, mas nos diz, justamente, que beleza e feiúra são definidas em referência a um modelo "específico" - e a noção de espécie pode se estender dos homens a todos os entes, como fazia Platão na República, aceitando definir como bela uma panela construída segundo as justas regras artesanais, ou Tomás de Aquino, para quem o belo é dado, além de uma correta proporção e da luminosidade ou clareza, pela integridade e, portanto, uma coisa (seja ela um corpo humano, uma árvore ou um vaso) deve exibir todas as características que a sua forma deve impor à matéria.

Neste sentido, não se considerava feio somente aquilo que fosse desproporcionado, como um ser humano com uma cabeça enorme e pernas curtíssimas, mas eram ditos feios também os seres que Tomás definia como "torpes", no sentido de "diminuídos", ou seja - como dirá Guilherme de Alvernia (Tratado do bem e do mal) -, aos quais falta um membro, que têm apenas um olho (ou até três, pois é possível apresentar um defeito de integridade também por excesso). Portanto, eram impiedosamente definidos como feios os erros da natureza, que os artistas tantas vezes retrataram sem nenhuma compaixão - e, para o mundo animal, os híbridos, que fundem inadequadamente os aspectos formais de duas espécies diversas.
(...)

O feio é também um fenômeno cultural. Os membros das classes "altas" sempre consideraram desagradáveis ou ridículos os gostos das classes "baixas". Poderíamos dizer, é certo, que os fatores econômicos sempre pesaram nestas discriminações, no sentido em que a elegância sempre foi associada ao uso de tecidos, cores e pedras caríssimos. Mas muitas vezes o fator discriminante não era econômico, mas cultural. É uma experiência habitual destacar a vulgaridade do novo-rico que, para ostentar sua riqueza, ultrapassa os limites que a sensibilidade estética dominante estabelece para o "bom gosto".


ECO, Umberto. História da feiúra. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2007, pp.15-16; 394.

Feita a leitura do texto, procure chamar a atenção dos alunos para a forma como os modelos ou padrões de beleza foram tecidos ao longo do tempo tendo como componente (quase indispensável) a discriminação física e/ou social daquilo que não se enquadrava nos padrões pretendidos. Discuta a forma como a beleza foi indicada como sinônimo de vigor, saúde, e mesmo de valores morais respeitáveis, por diferentes pensadores, o que resultou na exclusão social de parcelas importantes de diversas sociedades (especialmente no Ocidente), por não se encaixarem no padrão de beleza vigente.

Como exemplo, indique aos alunos a perseguição às pessoas portadoras de deficiências físicas e mentais durante a Idade Média, tidas muitas vezes como vítimas de castigos divinos. Comente ainda que, conforme indica a obra de Umberto Eco, a ideia de "feio" foi muitas vezes criada com o objetivo de indicar o "outro", ou seja, povos de culturas diferentes, considerados feios e indesejáveis apenas por não serem "iguais", portanto fora dos padrões estabelecidos. Não obstante, procure discutir o componente econômico da construção dos ideais de beleza, identificando a forma como o poder monetário ainda é associado ao "belo", antítese do "feio", supostamente encontrado entre as classes populares. Discuta como as noções de "erudito" e "popular", muito utilizadas em relação às artes, ainda refletem as tentativas de padronização e preconceitos.

Os padrões do corpo ao longo do tempo
Pergunte à classe: a beleza do corpo humano foi encarada ao longo da história variou muito? Como eram retratadas as mulheres nos quadros renascentistas? Elas se parecem com os padrões de beleza dos nossos tempos? Quem poderíamos considerar como padrões de beleza dos nossos tempos? O que estas pessoas têm em comum?

Mostre então à classe diversos retratos da beleza no decorrer da história. Algumas sugestões encontram-se nos links abaixo.

http://farm3.static.flickr.com/2288/3534027832_6d16d10d5a_o.jpg - Vênus de Willendorf, cerca de 25.000 anos atrás

http://www.milos-island.gr/history/venus.jpg - Vênus de Milo (não há datação precisa, mas especula-se que pertença ao período Helenístico)

http://www.brasilescola.com/imagens/artes/monalisa1000.jpg, Mona Lisa, Leonardo da Vinci, 1503-1507

http://www.brasilartesenciclopedias.com.br/mobile/internacional/images/nu08.jpg - Nu, As banhistas de Renoir, 1887

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/a/a6/Coronet_Corset_Co.gif/352px-Coronet_Corset_Co.gif - Ilustração do Ladies Home Journal, Outubro de 1900

http://3.bp.blogspot.com/-AfJpaJQ29gg/Tm5vGXGr89I/AAAAAAAAB28/1jw3yiYyGw4/s1600/brigitte_bardot_en_ballerine_dor_.jpg - A atriz Brigitte Bardot, nos anos 90

http://1.bp.blogspot.com/_SFxyjL83p_A/S_LwcZIrhDI/AAAAAAAAAig/f3issOf_Bt0/s400/susan.jpg - A cantora Madonna nos anos 80

http://gotsin.files.wordpress.com/2012/02/angelina-jolie-got-sin.jpg?w=600&h=867 - A atriz Angelina Jolie, anos 2010

Pergunte à classe: O que mudou na representação de cada mulher ao longo destes períodos? Ficaram mais magras? Mais gordas? Mais "masculinizadas"? A atriz Angelina Jolie é considerada um padrão de beleza? Ela é parecida com as mulheres brasileiras que vemos nas ruas? Ela é parecida com o que as mulheres vêem nas capas das revistas?

Conte então para a classe que a antiguidade clássica, entre os gregos, talvez tenha presenciado a primeira tentativa de padronização e idealização da forma humana. A beleza humana era tema de reflexão de filósofos como Pitágoras, para quem o modelo de beleza ideal deveria seguir um padrão matemático, um corpo perfeitamente simétrico e proporcional, assim como nas "justas regras artesanais" preconizadas por Platão. Assim, as belas esculturas produzidas pelos artistas helenos tinham como meta a perseguição da beleza idealizada, em nada relacionada com as imperfeições dos corpos do mundo real.

Durante a Idade Média, a nudez tão presente nas representações da antiguidade desapareceu sob as mais duras interpretações religiosas. Sob ótica cristã medieval, o corpo (sobretudo o feminino) estava intimamente ligado às concepções em torno do que seriam as virtudes morais adequadas. Nesse sentido, o próprio conceito de beleza estava atrelado ao plano espiritual, representando a criação divina, portanto sem qualquer autonomia. As imperfeições naturais do corpo eram relacionadas às imperfeições da alma, ligadas ao que seriam os pecados cometidos.

Em um tempo de sacralização e vigilância do corpo, as figuras de Eva e Maria foram adotadas como símbolos de um paradoxal ideal de beleza. A primeira das mulheres seria um símbolo de beleza ligado ao pecado, à tentação e à constante ameaça de danação eterna. Eva seria a "beleza mentirosa", uma das formas de representação do próprio mal. Já a Virgem Maria seria a antítese da beleza tida como demoníaca, representando a pureza contida em sua virtude virginal. Essa oposição entre Eva e Maria indicava às mulheres medievais que o padrão de beleza a ser perseguido deveria ser o mais absoluto recato, o que resultou em representações artísticas que apresentavam as mulheres completamente vestidas, com rostos marcados pela passividade, sofrimento e resignação, uma representação do caminho a ser seguido por todas.

Já no Renascimento, as representações em torno do corpo, especialmente o feminino, têm sua liberdade devolvida. Nesse período também ocorreu um retorno à perseguição às medidas perfeitas do corpo, representada em obras como o Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci. No caso da obra aludida, explique para a turma que Da Vinci, seguindo os passos de seu mestre Marcos Vitrúvio, estudou profundamente a anatomia humana, aplicando as medidas e proporções consideradas ideais em suas obras. No entanto, ao contrário da rigidez existente na antiguidade clássica, os artistas renascentistas somaram às fórmulas e proporções idealizados a própria realidade ao retratarem os corpos, principalmente os femininos.

No século 19, o romantismo proporcionou a construção de um novo padrão estético do corpo humano no mundo das artes, primando pela harmonia e "naturalidade". As mulheres poderiam ser retratadas com cores pálidas, longos e irrequieto cabelos, e mesmo curvas bem aparentes. Nesse período, bem ao contrário de hoje, as mulheres "volumosas" eram consideradas saudáveis, principalmente em relação ao seu futuro reprodutivo. Comente com a turma que foi também no século 19 que começaram a se disseminar manuais de medicina que indicavam a necessidade da realização de exercícios físicos como forma de se alcançar um corpo considerado ideal, tendo aí o início da relação entre saúde e elegância. Já no século seguinte, o corpo volumoso deixou de ser sinônimo de saúde e de boa aparência. A magreza começava a ser um ideal e, para muitos, verdadeira obsessão, refletida nos filmes que passavam a inundar o mundo a partir de Hollywood.

2ª aula
Procure retomar alguns dos aspectos trabalhados na aula anterior e siga comentando com os alunos que o século 20 observou inúmeras (e rápidas) mudanças em relação aos padrões de beleza do corpo humano. No que diz respeito aos padrões indicados às mulheres, principalmente a partir da metade daquele século, ao lado de conquistas de direitos civis, elas se virão alvo de intensa e quase onipresente imposição de modelos estéticos, sobretudo através dos meios de comunicação. A fim de ilustrar isso, solicite à turma que se divida novamente em pequenos grupos e distribua cópias da matéria A beleza sem bisturi e sem exageros, de Veja, e do excerto da obra Corpo a corpo com a mulher, da historiadora Mary Del Priore (reproduzido logo abaixo), e fala sua leitura com os alunos.

Ela [a mulher] continua submissa. Submissa não mais às múltiplas gestações, mas à tríade de "perfeição física". A associação entre juventude, beleza e saúde, modelo das sociedades ocidentais, aliada às práticas de aperfeiçoamento do corpo, intensificou-se brutalmente, consolidando um mercado florescente que comporta indústrias, linhas de produtos, jogadas de marketing e espaços nas mídias. A intensificação desse modelo corporal é tão grave, que suas consequências na forma de técnicas e práticas vêm sendo largamente discutidas por sociólogos e historiadores. A pergunta que ainda cabe é: que tipo de imagem preside a ligação entre as mulheres e essa tríade? Foi sempre assim? O que mudou? O interesse dessas perguntas é que a imagem corporal da mulher brasileira está longe de desembaraçar-se de esquemas tradicionais, ficando longe, portanto, da propalada liberação dos anos 1970. Mais do que nunca, a mulher sofre prescrições. Agora, não mais do marido, do padre ou do médico, mas do discurso jornalístico e publicitário que a cerca. No início do século XXI, somos todas obrigadas a nos colocar a serviço de nossos próprios corpos. Isso é, sem dúvida, uma outra forma de subordinação. Subordinação, diga-se, pior do que a que se sofria antes, pois diferentemente do passado, quando quem mandava era o marido, hoje o algoz não tem rosto. É a mídia. São cartazes da rua. O bombardeio de imagens na televisão.

PRIORE, Mary Del. Corpo a corpo com a mulher: pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: Senac, 2000, p.15.

A partir da leitura dos textos, discuta com a turma: os padrões de beleza feminina são uma constante em nosso tempo? Como essa forma como se impõe no imaginário social? Quais são os possíveis limites dos padrões e as consequências negativas de sua imposição? (tanto em termos sociais quanto de saúde, pensando, por exemplo, nos transtornos alimentares diretamente relacionados com a perseguição dos ideais de magreza, como a bulimia e a anorexia).

Mostre para a classe como o cinema e as revistas também criam imagens da beleza com partes ideais de corpos. Atualmente, as revistas voltadas para o público masculino, a exemplo de Playboy, exibem em suas páginas corpos considerados perfeitos. No entanto, é sabido do grande público que esses corpos são devidamente maquiados, "cirurgiados" para esconder imperfeições aqui e acolá, e que essas mesmas imagens são retocadas com o auxílio do computador quando outros recursos não conseguem camuflar as "imperfeições" imaginárias.

Por fim, solicite aos grupos que desenvolvam um trabalho a ser apresentado em sala de aula, discutindo os limitas da imposição e recepção dos padrões de beleza atuais, pensando nas discussões desenvolvidas em sala, além de apresentarem exemplos da imposição midiática em relação à padronização estética do corpo humano.

3ª aula
Apresentação dos seminários e debate.

Avaliação
Observe, com base nas apresentações e discussões promovidas em sala, se a turma conseguiu compreender as mudanças dos padrões de beleza ao longo da história, assim como sua presença em seu cotidiano e as principais implicações disso na sociedade atual.

Consultoria Luiz Gustavo Cota
Doutorando em História Social pela Universidade Federal Fluminense

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