Objetivos
Esclarecer sobre a formação e transformação das palavras e do nosso vocabulário
Introdução
Millôr Fernandes discorre sobre a origem da expressão o.k. e, depois de especular, deixa a última palavra para um especialista. O artigo dá o mote para você explorar com a turma os meandros da etimologia. Que tal relembrar o que Monteiro Lobato escreveu a respeito?
Atividades
1ª aula - Leia o texto de VEJA com os alunos e comente que, na Encyclopédie de Diderot e DAlembert, publicada na segunda metade do século XVIII, etimologia é definida como "o estudo da origem de uma palavra. Ao que dá origem a outros vocábulos, chamam-no primitivo e, aos que dele derivam, derivado". Daí para Millôr, percebemos que as palavras têm apenas uma relação de arbitrariedade com o que exprimem. É com base numa convenção formal e fixada, invariavelmente, entre seres de um mesmo grupo social que certos sons evocam em nós determinadas idéias. Esse hábito - formado nos primórdios da humanidade - de repetir os mesmos sons em situações mais ou menos similares se cristaliza no espírito dos homens sem que, necessariamente, pensem nisso.
Estimule os jovens a lembrar a forma como seus familiares se referem coloquialmente a circunstâncias, coisas, pessoas... e proponha que relacionem com o que e como eles próprios falam. Mantenha o bate-papo e conte que as condições em que a repetição determina, no espírito de cada indivíduo, o sentido de um vocábulo não são jamais as mesmas para outro ser e são ainda mais diversificadas de uma geração para a seguinte. Um exemplo: o aprendizado de água, pelo excesso, às margens do Rio Negro, e pela privação, no polígono da seca.
Cada língua tem, em si, um princípio de variação. A pronúncia se altera ao passar de pai para filho, as acepções das expressões se multiplicam e se substituem e novas idéias se acrescentam à riqueza do espírito humano. Para entender o processo, é necessário analisar e remontar as composições ou os derivados às palavras-matrizes ou radicais e devolver as metáforas ao sentido primitivo. De onde vem cabeça de alho? E pé de mesa? Por que vinagre?
Assim foi que os gregos fizeram para buscar o que chamam de etimologia: o real sentido de uma palavra, porque etumos, para eles, significa verdadeiro. Então, aprendemos a encontrar as origens de nosso idioma em outros mais antigos. Decompondo os termos, aprendemos a decompor línguas e podemos enxergar como elas se misturam e se sucedem. E como os falantes as usam.
A história nos transmite algumas etimologias - é o caso de cidades e lugares a que os fundadores deram o próprio nome. Encarregue a garotada de pesquisar a razão da denominação de bairros ou locais próximos de sua comunidade.
2ª aula - Mostre que, no exercício de suas funções, o etimólogo faz conjeturas, parte de fatos desconhecidos e transita por línguas diversas. Ainda assim, o resultado de seu trabalho é uma suposição, verdadeira ou falsa.
Deixe claro que, em matéria de etimologia, a invenção não tem regras bem determinadas. Às vezes, é preciso observar e deduzir (o que torna imenso o campo das suposições) para achar a única explicação legítima. Leve a classe a experimentar essa preocupação, investigando as raízes de machucho e macaxeira.
E os empréstimos lingüísticos? É natural não procurar longe de nós o que temos debaixo do nariz. Mencione os verbos deletar, inicializar e digitar e discuta de quem, como, quando e por que os tomamos emprestados.
Não raro, decompondo palavras e expressões, chegamos a vocábulos em desuso e temos de recorrer a outra língua para compreendê-los. Veja o que colhe ao percorrer com a turma os escritos de José de Alencar e Machado de Assis, com seus alfenins, borzeguins e pitéus.
Nas línguas em seu estado atual, tudo é formado da mistura ou alteração de idiomas mais antigos, nos quais devemos encontrar boa parte das origens das formas novas de dizer. Nesse sentido, oriente a criação de pequenos parágrafos em que todos julguem empregar termos totalmente contemporâneos. Aí, você entra em ação e explica de onde vem o quê.
Diga que as relações comerciais são material importante para a etimologia. Com as mercadorias e os serviços que compramos de outros povos, adquirimos também idéias e ideologias. Desse modo, a bússola, italiana, vem para o português com registro de imigrante. A mineralogia é cheia de palavras alemãs e a arte e a ciência são território grego. O etimólogo deve conhecer tais fontes para direcionar suas conjeturas, segundo tais observações. Por isso, espalhe pela sala livros de Biologia e organize um levantamento de expressões aparentemente derivadas do latim e do grego. Aproveite para, na correção, enriquecer a experiência, falando sobre a nomenclatura latina das ciências.
Então, distribua cópias do quadro abaixo e promova a leitura coletiva do encontro dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo com a Senhora Etimologia. Forme grupos e atribua a todos a tarefa de preparar, para a aula seguinte, uma discussão sobre o texto de Monteiro Lobato. É uma boa oportunidade para demonstrar a extensão e a utilidade desse estudo que, ao contrário do que muita gente pensa, não é mero verniz de erudição.
3ª aula - Concluído o debate sobre o trecho de Emília no País da Gramática, ensine que a etimologia pode ser recurso da tirania. Isso se deu com a expressão judeu branco enquanto imperou o nazismo de Hitler. E com a seqüência subversivo- comunista-terrorista, formada por vocábulos sem nenhum vínculo e transformada na mais poderosa arma dos golpistas de 1964 contra as linhas de pensamento divergentes.
Para seus alunos
A Senhora Etimologia
"Os incultos influíram e ainda influem muitíssimo na língua", disse a Senhora Etimologia. "Os incultos formam a grande maioria e as mudanças que a maioria faz na língua acabam ficando."
"Engraçado! Está aí uma coisa que nunca imaginei..."
"É fácil compreender isso", observou a velha. "As pessoas cultas aprendem com professores e, como aprendem, repetem certo as palavras. Mas os incultos aprendem o pouco que sabem com outros incultos e só aprendem mais ou menos, de modo que não só repetem os erros aprendidos como perpetram erros novos, que por sua vez passam a ser repetidos adiante. Por fim, há tanta gente a cometer o mesmo erro, que o erro vira uso e, portanto, deixa de ser erro. O que nós hoje chamamos certo já foi erro em outros tempos. Assim é a vida, meus caros meninos. Tomemos a palavra latina speculum", continuou a velha. "Essa palavra emigrou para Portugal com os soldados romanos e foi sendo gradativamente errada até ficar com a forma que tem hoje: espelho."
"E os ignorantes de hoje continuam a mexer nela", observou Narizinho. "A gente da roça diz espeio."
"Muito bem lembrado", concordou a velha. "Essa forma, espeio, é hoje repelida com horror pelos cultos modernos, como a forma espelho deve ter sido repelida pelos cultos de dantes. Mas, como os cultos de hoje aceitam como certo o que já foi erro, bem pode ser que os cultos do futuro aceitem como certo o erro de hoje. Eu, que sou muito velha e tenho visto muita coisa, de nada me admiro."
Trecho adaptado de Emília no País da Gramática, Monteiro Lobato, Ed. Brasiliense, tel. (11) 6675-0188