Objetivos
Debata com os alunos sobre liberdade de imprensa e sobre o uso de humor como instrumento político de resistência
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Reportagem:
Introdução
Uma aula sobre a liberdade de imprensa e de comunicação pode recorrer a várias citações emblemáticas. Uma delas, apresentada no último número da revista Pif Paf - e na abertura da reportagem "Pequena Abusada" -, avisa que um governo, ao permitir a circulação de revistas irreverentes, corre o risco de "cair numa democracia". A outra frase é do humorista e jornalista brasileiro Apparício Torelly, o Barão de Itararé. Em 1934, quando trabalhava no Jornal do Povo, ele foi espancado por oficiais da Marinha por ter publicado a história de João Cândido, líder da revolta dos marinheiros de 1910. Depois da surra, Torelly voltou à redação do jornal e afixou uma placa na porta: "Entre sem bater".
Essa mensagem irônica poderia ser subscrita pelos protagonistas da chamada "imprensa nanica" brasileira durante o regime militar. E também pelos iranianos e chineses autores de blogs, mencionados no texto "Café e Liberdade". Eles provavelmente têm consciência de que suas intervenções críticas podem gerar alguma repressão em seus países - mas gostariam que os truculentos agentes de segurança "entrassem sem bater". Porque, afinal, o humor e o jornalismo crítico são práticas culturais e de comunicação, e não ações revolucionárias - embora preocupem os ditadores. Use as duas reportagens e as citações para balizar a trajetória da imprensa de humor e do jornalismo alternativo no Brasil.
Conte à turma que, no Brasil, o jornalismo de contestação político-cultural tem uma longa história. Desde o final do Império, quando criticava a elite política do Antigo Regime e a vida mundana no Rio de Janeiro, a chamada imprensa independente funcionou como uma espécie de consciência crítica do país, mesmo nos momentos em que escrever um artigo era colocar a vida em risco. Paradoxalmente, essas revistas e jornais tinham tiragens pequenas, mas um amplo poder de influência. Marcaram época, apresentaram novas formas de comportamento político e social e revolucionaram o mercado editorial brasileiro. Devido às dificuldades de sobrevivência econômica, todos esses veículos acabaram fechando e muitos de seus colaboradores foram para a "grande imprensa". Mesmo trabalhando em empresas de porte, por tabela, também transformaram paulatinamente essas publicações.
Atividades
Proponha uma pesquisa sobre os órgãos de imprensa apresentados no quadro "Tamanho não é documento: a imprensa alternativa brasileira" (abaixo), associando esses meios à época em que circularam. Explique que todos abrigaram humoristas gráficos, a começar por Angelo Agostini, pioneiro da caricatura no Brasil e animador da Revista Ilustrada. Na contextualização da República Velha, peça que os alunos focalizem não apenas O Malho, mas também a revista Careta, fundada em 1908 e que circulou até 1960.
Lembre que tanto a internet como a imprensa alternativa - ou nanica - criaram e criam novas formas de comportamento. No caso nacional, O Pasquim, semanário carioca, é o melhor exemplo desse papel transformador. Com seções originais, além das entrevistas, dos artigos sobre política e cultura, o autoproclamado jornaleco criou um espaço em que gírias e palavrões acabaram se popularizando e se incorporaram ao cotidiano da língua portuguesa falada e escrita no país. No campo comportamental, figuras como Leila Diniz, musa da contracultura e capa do jornal em 1969, transformaram-se em referências para uma geração. Encomende um amplo estudo sobre O Pasquim. Peça que a classe, dividida em grupos, monte um painel com reproduções de textos, charges, cartuns, caricaturas e fotos. Encarregue cada equipe de escolher uma reportagem ou entrevista, que deve ser lida e comentada em aula. Sugira também que os grupos destaquem as novidades lingüísticas, as expressões coloquiais e as gírias presentes no texto. Por fim, estimule a produção de dissertações individuais sobre o discurso dO Pasquim.
A censura à revista Pif Paf foi uma das primeiras demonstrações de violência, no campo da cultura, por parte da ditadura militar. Dali em diante, peças de teatro, romances, poemas, filmes, músicas e exposições de artes plásticas tiveram a mesma sorte. No campo musical, diversos compositores usaram metáforas para descrever o período, algumas vezes chegando até a esconder a autoria das obras. Foi o caso de Chico Buarque, que criou o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Encarregue os jovens de pesquisar alguns compositores das décadas de 1960 e 1970 que trataram de temas políticos, driblando ou enfrentando abertamente a censura. Se possível, promova audições de CDs de Chico Buarque, Edu Lobo, Aldir Blanc e João Bosco, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros. Cada grupo deve analisar uma ou duas faixas para os colegas - por exemplo, as canções Acorda Amor, Roda Viva, Jorge Maravilha, Meu Caro Amigo, Pra Não Dizer que Eu Não Falei das Flores, É Proibido Proibir, Apesar de Você, Irene e O Bêbado e a Equilibrista. As letras podem ser distribuídas para as demais equipes ou escritas no quadro. Ao final, peça que os grupos apresentem um relatório por escrito comentando o debate.
"Café e Liberdade" informa que, "assim como a internet ajuda a tirar o país do atraso tecnológico e comercial, também força a população a sair do atraso político". Ou seja, é impossível "aderir à modernidade", em determinado aspecto, e manter as formas tradicionais nas demais esferas da vida social. Isso acontece apenas em nossos dias? Incentive a garotada a investigar a difusão dos projetos liberais na América Latina no início do século XIX. Todos vão perceber, por exemplo, que Portugal admitiu a liberdade de comércio no Brasil desde 1808, mas não tinha a menor intenção de diminuir seu controle sobre a colônia. No entanto, os navios britânicos, e as mercadorias produzidas em massa que eles transportavam, pela própria presença veiculavam a imagem do poderio econômico e da democracia parlamentar da Inglaterra.
O humor pode corroer um regime autoritário? De que forma? Analise a questão com os estudantes. Lembre que cartunistas e jornalistas nem sempre atuam na clandestinidade - mas as ditaduras temem a influência deles.
Para saber mais
Tamanho não é documento: a imprensa alternativa brasileira
Desde o século XIX, jornais e revistas independentes mostraram novas formas de comportamento sociopolítico e revolucionaram nosso mercado editorial
Consultoria Marco Antonio Villa
Professor de História da Universidade Federal de São Carlos, SP