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Millôr Fernandes: descubra o gênio do humor, desenho e literatura

VEJA na Sala de Aula

Conteúdo relacionado

Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

Faça uma viagem pela obra de Millôr Fernandes e aproveite para analisar o papel do humor como um elemento de análise e crítica social em classe

Objetivos
- Apresentar a obra múltipla e diversificada de Millôr Fernandes, que transitou entre a literatura, as artes gráficas, a charge, o jornalismo e as publicações de humor.
- Analisar o papel do humor como elemento de análise e crítica social em sua obra.
- Demonstrar a existência de uma tradição humorística na literatura.
- Analisar alguns textos e desenhos de Millôr.
- Produzir textos, utilizando como modelos os aforismos, máximas, ditos populares, pequenos poemas, em que sejam retratadas situações de humor.

Millor Fernandes

Conteúdos
- A obra humorística de Millôr Fernandes.
- A literatura de humor.
- Charge política.
- Aforismos.

Tempo estimado
Duas aulas 


Materiais necessários
- Cópias da reportagem "O gênio que se explica", publicada em VEJA (edição 2263, de 4 de abril de 2012).
- Trechos selecionados da obra de Millôr Fernandes.
A obra de Millôr é extensa e diversificada. Ao longo de sua carreira, o autor publicou poemas, desenhos, narrativas, fábulas, contos, marcados por humor inteligente e sutil ironia contra os descalabros de nosso tempo. No livro "Millôr definitivo - A Bíblia do caos", (Editora L&PM pocket), encontram-se mais de 5 mil aforismos e pensamentos, sobre os mais diversos assuntos, apresentados por temas em ordem alfabética. Outra obra interessante para o trabalho é "A verdadeira história do Paraíso" (Editora Desiderata). O livro, que contém ilustrações do próprio autor, é uma narrativa bem-humorada a respeito da origem da vida e o papel (nem sempre edificante) da humanidade no planeta terra.
- Além dos livros, os textos de Millôr Fernandes podem ser acessados em www.millor.com.br. Há vários desenhos, poemas, aforismos, fábulas, narrativas, charges, entrevistas, entre outros trabalhos, que usa da ironia até para nomear seu "saite".
- Computador e Data-Show para exibição de desenhos, charges, imagens e textos.

Introdução
Millôr Fernandes foi, além de um intelectual de extensa produção, um artista de múltiplas facetas. Ao longo de quase sete décadas, seu nome esteve atrelado aos mais diversos tipos de publicações. Como escritor, jornalista, humorista, cartunista, artista plástico, blogueiro, editor, tradutor, dramaturgo, Millôr foi, sobretudo, um homem contemporâneo, multimídia antes mesmo de a palavra ser incorporada ao vocabulário contemporâneo.

Atento aos principais acontecimentos de seu tempo, dono de um humor refinado, suas anedotas, ideias, frases, charges e desenhos faziam rir, ao mesmo tempo em que proporcionavam a reflexão sobre as distorções, mentiras e paradoxos da política, sociedade, religião. Registrado "Milton" quando nasceu, chamado de "Miltinho" pela família, por conta de uma confusão na leitura do seu registro de nascimento (o "t" parecia um "l" seguido de um acento circunflexo sobre o "o"), passou a assinar Millôr.

Entronizado Guru do Meyer (título de que jamais renunciou, mesmo depois de ter ido para Ipanema), Millôr viveu acontecimentos inusitados, em que seu senso de humor esteve sempre presente. Mesmo sendo agnóstico, pediu para ser batizado no Rio Jordão, tendo como padrinho um diplomata brasileiro (sobre o acontecimento, ele afirmaria: "Cada um tem o João Batista que merece"). Foi vice-campeão mundial da pesca do atum, em uma competição internacional acontecida no Canadá, e que consagrou campeã a equipe da Argentina - mesmo tendo pescado apenas um único peixe em toda sua vida, e isso depois do título recebido. Gabava-se de ter sido um dos inventores do frescobol, esporte de praia bastante popular em todo Brasil.

Em 1956, dividiu com Saul Steinberg (1914-1999) o primeiro prêmio na Exposição Internacional do Museu de Caricatura de Buenos Aires. Nascido na Romênia e consagrado nos EUA, Steinberg tem uma trajetória comparável à de Millôr: ambos publicaram seus desenhos e ilustrações periodicamente em jornais e revistas, em Nova York e no Rio de Janeiro, e foram reconhecidos por suas impressões muitas vezes sagazes, críticos e mordazes, mas sempre repletas de um humor ímpar, sobre o cotidiano de seus respectivos países.

Na década de 1960, junto com Jaguar, Ziraldo, Fortuna, entre outros, funda o jornal "O Pasquim", que marcaria o humor político num período obscuro da história nacional. Colaborou com vários periódicos, entre eles a revista Veja, em dois períodos, entre 1968-1982 e 2004 -2009.

Ao longo de sua vida, publicou mais de 40 livros de prosa, poesia, reflexões, teatro, traduções, crítica e desenhos. Sem jamais deixar de produzir - afirmou, no fim da vida, que continuava a fazer "dez coisas ao mesmo tempo", todos os dias - mesmo com problemas de saúde, manteve na internet a página "Millôr Online". Publicado desde 2000, o site era um canal de acesso periódico ao seu pensamento e humor peculiares.
Seu falecimento, em março de 2012, deixou uma grande lacuna na produção intelectual brasileira.

Desenvolvimento
O artigo de VEJA destaca a vida e a obra de Millôr Fernandes, e presta uma homenagem à longa trajetória deste artista que usou de seu perspicaz senso de observação e de seu estilo debochado como modo de analisar, apontar e refletir sobre a sociedade brasileira, ao longo das últimas 7 décadas. O texto é um bom ponto de partida para se analisar algumas características do gênero humorístico na literatura e nas artes, a partir da obra do Guru.

Antes de iniciar a aula, pesquse a trajetória do gênero humorístico na literatura. Cultuado desde o período clássico, por Aristófanes, em peças como "As nuvens" ou "A revolução das mulheres", o humor sempre foi uma forma fazer críticas e provocar reflexões sobre a sociedade e o comportamento das pessoas.

Autores de diversas épocas e estilos cultuaram o humorismo. Entre os mais destacados, podemos citar: Cervantes, Bocaccio, Gregório de Matos, Swift, Voltaire, Edgar Allan Poe, Gogol, Machado de Assis, Oscar Wilde, Bernard Shaw, Lima Barreto, Artur Azevedo, Sérgio Porto, Ziraldo e Luís Fernando Veríssimo.
Selecione excertos ou passagens de alguns desses autores e apresente à turma. Faça-os observar que humor não é sinônimo de superficialidade: com o riso de aparência banal, é possível denunciar as grandes mazelas da sociedade, os preconceitos e tabus.

Alguns exemplos consagrados: o conto "Um homem célebre" e o romance "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis; a obra satírica de Gregório de Matos; os aforismos de George Bernard Shaw e Oscar Wilde; as crônicas e personagens de Sérgio Porto e Luís Fernando Veríssimo.

Para ilustrar a aula, use os recursos de multimídia disponíveis, para apresentação dos textos e imagens. Faça uma seleção de textos, frases e charges e apresente à turma. Se tiver acesso à internet na sala de aula, você pode usar mostrar o próprio site de Millôr Fernandes, onde se tem acesso à quase totalidade de sua obra.

Aula 1
Inicialmente, pergunte aos alunos o que eles entendem por humor. Questione se conhecem humoristas, programas ou publicações de humor. Pergunte o que, na opinião deles, leva as pessoas a se interessarem pelo humor. Demonstre o humor está presente na literatura, histórias em quadrinhos, charges e cartuns, cinema e TV, páginas de revistas e jornais, programas de rádio e letras de música.

Após essa introdução, distribua cópias do texto "O gênio que se explica",  de VEJA, e peça para que os alunos o leiam. Aponte no texto, em conjunto com os alunos, característica multifacetada da produção artística e intelectual de Millôr Fernandes. Enfatize que Millôr foi um dos principais intelectuais brasileiros, que colaborou com diversos veículos da imprensa, e acabou por consagrar sua obra como uma análise bem humorada, mas nem por isso menos crítica, da realidade brasileira.

Contextualize a vida e a obra de Millôr. Ele foi uma das figuras centrais na produção de humor no Brasil, a partir dos anos 1950. Destaque a forma por vezes irônica e ácida que fez da realidade social, política e cultural da sociedade brasileira. Seu trabalho não poucas vezes expôs de maneira impactante a realidade do país, e algumas vezes acabou desautorizada, censurada e até questionada. Assim mesmo, Millôr manteve, ao longo da vida, uma produção gigantesca e quase diária.

Estabeleça uma relação entre o trabalho de Millôr e a realidade sócio-política contemporânea. Utilize as imagens pré-selecionadas para ilustrar a aula.

A partir dos trechos da obra de autores pré-selecionados, demonstre que a obra de Millôr está presente em uma tradição literária que tem em Aristófanes, Cervantes, Gregório de Matos, Machado de Assis, George Bernard Shaw, Oscar Wilde, Sérgio Porto, Luís Fernando Veríssimo, alguns de seus nomes mais importantes.

Por meio de recursos como releituras, ambiguidades, duplo-sentido, metáfora, referências políticas, o humor é um gênero questionador dos tabus e preconceitos sociais, através da contestação como forma de expor a realidade. O humorista é antes de tudo um observador crítico de seu tempo.

É interessante, após a exposição desta parte, reservar um tempo para que os alunos expressem seu entendimento sobre as relações entre o humor e a crítica social na literatura, especialmente na obra de Millôr, a partir das explicações do professor e dos trechos de obras/ imagens apresentados.

Como trabalho para casa, divida a turma em duplas e peça que pesquisem sobre frases, aforismos, textos ou desenhos de Millôr. Oriente-os para que observem o questionamento e a crítica presentes no humor que marca sua obra. Peça que cada dupla apresente oralmente na aula seguinte as características observadas.

Sugestão de charges e textos de apoio (outros podem ser encontrados no site do Millôr ou na bibliografia indicada):

Arte


Aula 2
Inicie a aula retomando os conteúdos da aula anterior.
Peça que os grupos apresentem os trechos das obras analisadas, e que explanem brevemente sobre suas conclusões. O objetivo é deixar evidente a forma como Millôr Fernandes fazia uso do humor na apresentação de uma crônica da realidade brasileira.
Observe que o texto de Millôr é construído com extrema concisão, o que traz uma grande expressividade aos seus textos.

Lembre que Millôr foi o principal nome de uma geração de humoristas, ficou marcada, entre outras coisas, crítica social profunda. A ambiguidade, a ironia, a acidez, além do riso franco e puro, eram argumentos usados em publicações como "O Pasquim" como forma de demonstrar as contradições da sociedade brasileira, muitas vezes distorcidas e mascaradas pelo governo e as instituições. A postura livre e quase anarquista de "O Pasquim" acabaria por render censura ao jornal e prisão de vários colaboradores, pela Ditadura Militar. Sugira aos alunos que, em duplas, produzam pequenos comentários sobre estes pensamentos de Millôr:

"Brasil, país do faturo".
"Os horários para os candidatos políticos na TV visam a uma total liberdade de expressão. Mas tudo que vimos, até agora, foi uma absoluta dificuldade de se exprimir".
"A diferença entre existir e viver é mais ou menos dez salários mínimos"
"Antigamente, para ser um grande escritor, era preciso saber ler e escrever. Hoje, basta ser adotado nas escolas".
"Quem não lê é mais analfabeto do que quem não sabe ler".
"Certos dias tem 100 anos".
"Toda regra tem exceção. Uma frase que carrega sua própria contradição".
"O político profissional jamais tem medo do escuro. Tem medo é da claridade".

Observe se os alunos compreenderam a tradição de humor na literatura, a presença do crítica social e política no texto de humor, a grande diversidade da obra de Millôr Fernandes, a importância de sua produção para a crítica social e o humor na produção artística brasileira. Caso considere pertinente, peça aos alunos que produzam, em grupo ou individualmente, frases, trocadilhos, pensamentos, à maneira dos textos analisados, sempre buscando o humor como elemento de reflexão.

 

Quer saber mais?

A verdadeira história do Paraíso. Millôr Fernandes. Editora Desiderata, 2004.
Os cem melhores contos de humor da literatura universal. Vários autores. Organização de Flávio Moreira da Costa. Ediouro, 2001.
Millôr definitivo: a Bíblia do caos. Millôr Fernandes. L&PM pocket, 2009.
Pigmaleão. George Bernard Shaw. Tradução de Millôr Fernandes. Editora L&PM, 2006.
Poemas. Millôr Fernandes. Editora L&PM, 1998. 

 

 

 

André Luis Rosa
Professor de Literatura e Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), PR.

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