Objetivos
Compreender a evolução dos tipos de guerra e as relações entre terrorismo e globalização
Mais sobre o tema
Plano de aula
Reportagem
Introdução
James Bond, o agente 007, tinha autorização para matar os inimigos de Sua Majestade Britânica. Os norte-americanos deveriam se inspirar nesse personagem para a guerra contra o terrorismo? Sir John Keegan, historiador militar britânico, não hesita em responder que sim. Na entrevista das Páginas Amarelas de VEJA, ele afirma: "A única saída é eliminar os terroristas. Ou os prendemos pelo resto de suas vidas, ou os matamos". Em seguida, ele delineia um cenário das "guerras irracionais" futuras, travadas por um número reduzido de combatentes: tropas altamente adestradas contra um punhado de inimigos bem treinados e inteligentes, que logo conseguirão "colocar as mãos em armas biológicas e nucleares". Esse quadro inquietante é inevitável? Os grandes exércitos nacionais deixarão de existir? Foram descartadas as concepções estratégicas que arrastaram milhões de combatentes a dois conflitos mundiais? Use o plano de aula a seguir para examinar com os alunos essas questões de uma preocupante atualidade.
Atividades
Após a leitura da entrevista, chame a atenção para algumas concepções de John Keegan. Ele parte de uma visão geopolítica que considera a guerra como uma forma de solução de conflitos entre Estados. E vê na razão de Estado a bússola que define a justeza de uma guerra: certo ou errado, meu país (isto é, o Estado, o governo) vem em primeiro lugar. Empreenda um breve exame desses conceitos.
Explique aos alunos que só existe geopolítica no mundo moderno, pois trata-se de uma ação centrada no Estado-nação moderno. Assim, não se pode falar de geopolítica na Idade Média, embora tenham ocorrido nesse período ações político-militares internacionais, como as Cruzadas. A restrição ao termo geopolítica também vale para as atitudes de grupos contemporâneos que não visem conquistas associadas a Estados-nações, como parece ser o caso dos terroristas responsáveis pelos ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos. A ideologia geopolítica (sim, trata-se de uma ideologia) apregoa que a forma civilizada por excelência de organizar a vida de uma sociedade é o Estado-nação, que encarnaria o caráter e o destino de um povo. Esse conjunto de valores acaba por superar qualquer preceito moral, religioso ou político. Isso é a razão de Estado.
A geopolítica é, portanto, a ação política em escala internacional, legitimada pela razão de Estado e que objetiva estrategicamente aumentar o poder do nosso Estado. Osama Bin Laden não visa aparentemente ao fortalecimento de nenhum Estado, ainda que islâmico. Logo, suas ações estão fora da esfera geopolítica. John Keegan chamou isso de irracional, talvez porque seus olhos se voltem para a razão do Estado.
Proponha uma pesquisa sobre o desenvolvimento da estratégia e das instituições bélicas dos Estados nacionais. Lembre que, na Idade Média, os combates eram travadas por milícias de servos dos senhores feudais. As tropas profissionais, pagas pelos cofres públicos, permitiram justamente aos reis submeter a nobreza. Mas só com a Revolução Francesa é que os exércitos ganharam caráter nacional, chamando todos os cidadãos às fileiras.
Que fatores levariam os jovens a considerar justa uma guerra na qual o Brasil se envolvesse? Anote as respostas e depois sugira estudos sobre conflitos recentes como o de Kosovo e a Guerra do Golfo. Os aspectos que assegurariam o apoio da turma à participação do Brasil estão presentes nesses casos?
Proponha um exame das ações do Exército Republicano Irlandês (IRA), na Irlanda do Norte: trata-se de uma organização fundamentalista que luta em apoio à religião católica, ou o grupo age segundo razões de Estado, tais como a tomada do poder em certo território? Lembre que o fundamentalismo é a tentativa de integrar as escrituras religiosas e as leis de um Estado. É isso que o IRA deseja para a Irlanda? Pode-se imaginar que, até o final do século XX, a lógica nacional da geopolítica permeou até mesmo as instituições de oposição a determinado Estado nacional?
O novo terrorismo obedece à lógica do IRA? Esses grupos provavelmente são fundamentalistas: a aceitação da morte nas missões é uma indicação do sagrado da causa. Caso eles sejam independentes dos Estados nacionais e visem objetivos outros que não a sedimentação de um Estado, de um território, não estaríamos diante de algo que vai além da geopolítica? Não estaríamos vivendo um período de enfraquecimento da razão de Estado e, portanto, do Estado-nação? Pergunte à classe.
Em nome da razão de Estado, John Keegan prevê uma limitação das liberdades civis no Ocidente. Se, numa "guerra irracional", a razão de Estado precisa enfraquecer os direitos civis e confrontar os cidadãos, ela própria não é irracional? O entrevistado compara a situação com as medidas repressivas dos governos latino-americanos na década de 1970. Trata-se de um quadro que os brasileiros conhecem bem: durante a ditadura militar, as razões de Estado da geopolítica serviram de pretexto para a violência contra a população. Não é irracional defender a nossa civilização contra o terrorismo independente do Estado, ao mesmo tempo que fechamos os olhos para outras forças sem controle? Explique que o sistema financeiro especulativo afeta a soberania de todos os Estados e atua segundo uma lógica tão particular quanto a dos guerreiros fundamentalistas.
Consultoria Jaime Oliva
Geógrafo e autor de livros didáticos