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Plano de Aula

Gerundismo? Nonada!

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Reportagem de Veja

Objetivos
Esclarecer sobre a variedade lingüística do português falado no Brasil

Introdução
O poeta Ferreira Gullar observou certa vez: "A crase não foi feita para humilhar ninguém". E o gerúndio muito menos. Herdado do latim, essa forma clássica da língua portuguesa é usada por todos os falantes do idioma de Camões. A começar pelo próprio. Como observa a reportagem, o sufixo "ando" está no início do poema mais famoso do nosso idioma, Os Lusíadas: "Cantando espalharei por toda parte". Por outro lado, o gerúndio tampouco foi feito para ser humilhado, demitido por decreto, como se fosse o responsável pela tendência da burocracia brasileira de "estar adiando" a solução de problemas.

A reportagem explica as razões que levaram o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, a banir o emprego do gerúndio nos documentos oficiais, "acusando-o oficialmente de leniente e enrolador". Focaliza também o cacoete lingüístico difundido pelos operadores de telemarketing, que repetem frases como "vou estar transferindo sua ligação", num emprego abusivo que fere os ouvidos. O texto ainda indica por que essa forma verbal mostra tanta vitalidade no Brasil, enquanto em Portugal tende a predominar o infinitivo gerundivo: é que o nosso falar está mais próximo de Camões, enquanto o idioma contemporâneo de Portugal é mais moderno.

Será que o uso generalizado do gerúndio é o único exemplo de fidelidade às raízes quinhentistas no falar brasileiro? Use a reportagem como ponto de partida para o exame das transformações da última flor do Lácio, inculta e bela - e cheia de gerúndios.

Atividades
1ª aula - Faça uma leitura compartilhada do texto. Comente a linguagem metafórica utilizada pelo jornalista André Petry. Aponte aos alunos a ironia de algumas passagens e o tom de exagero em outras. Conclua que o autor da reportagem fez uso de recursos próprios da linguagem literária. Proponha que a classe reflita sobre o uso dela, que não é comum em textos jornalísticos, e os efeitos de sentido que ela provoca no leitor.

Observe que o texto inclui dois conceitos importantes para quem quiser entender a formação e a evolução de uma língua:
o As línguas se interpenetram - "uma influi no vocabulário de outra".
o Elas estão em contínua transformação - "Como todo idioma vivo, o português, em terras brasileiras, portuguesas ou africanas, está em permanente mudança".

Ilustre o conceito expresso na afirmação "uma influi no vocabulário de outra". Conte que na Língua Portuguesa do Brasil encontramos vocábulos de origem indígena e africana, além de alguns trazidos pelos imigrantes, como o "tchau", que veio do italiano. Assinale a relação com a nossa história e a influência dos índios e dos escravos vindos da África sobre o português do Brasil. Sugira uma rápida pesquisa sobre os vocábulos herdados dessas e de outras línguas.

2ª aula - Localize num mapa-múndi os países que falam a Língua Portuguesa: Brasil, Guiné-Bissau, Portugal, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Timor Leste. Peça que a classe pense que um idioma não é o mesmo sempre, em qualquer tempo ou lugar. Existem palavras fora de uso que ainda são empregadas em alguns lugares. Há expressões antigas e novas que coexistem. Conte que, como todas as línguas transplantadas, o Português do Brasil oferece um grande número de traços antigos. Isso aconteceu exatamente devido à colonização: os portugueses no Brasil, e seus descendentes, conservaram a língua utilizada em seu país de origem, enquanto na metrópole o idioma evoluía por outros caminhos. Não é por acaso que os arcaísmos são encontrados na linguagem popular do Nordeste, onde teve início a exploração da América portuguesa. Em apoio a essa idéia, distribua cópias do quadro "Português Castiço" (abaixo) e solicite que a garotada execute a atividade prevista.

Para seus alunos  

Português castiço
Examine com os colegas as imagens deste quadro. Elas foram tiradas da versão para a TV do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e do filme O Auto da Compadecida, inspirado no romance de Ariano Suassuna. As duas obras são consideradas clássicos do regionalismo - do interior mineiro, no caso de Rosa, e do Nordeste, na peça de Suassuna -, mas ambas têm fortes laços com a literatura e o falar de Portugal. Pesquise com a turma esses vínculos. Vocês vão verificar que Guimarães Rosa, além de criar muitas palavras, recuperou termos portugueses arcaicos, até hoje usados nos sertões de Minas e do Centro-Oeste. Por exemplo, a palavra "Nonada", que abre o romance, é um sinônimo do século XVI para "ninharia, insignificância".

Ariano Suassuna, por sua vez, retomou uma das formas clássicas do teatro popular medieval de inspiração religiosa: o auto. Esse gênero já havia sido enriquecido no século XVI por Gil Vicente, autor de Auto da Barca do Inferno, Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória. Poucas décadas depois, no Brasil, o padre José de Anchieta usou essa modalidade de teatro popular em seu trabalho de catequese dos indígenas. Suassuna estava, portanto, em boa companhia. A exploração do falar nordestino feita pelo autor também tem raízes na terrinha. Afinal, a colonização portuguesa começou pelo Nordeste e muitas expressões até hoje habituais entre os sertanejos foram usadas por Camões, Gil Vicente e outros autores clássicos do idioma.

Fotos: Divulgação

Fotos: Divulgação

3ª aula - Ensine que o conceito de arcaísmo refere-se a palavras que deixaram de ser atuais na norma atual de uma língua. Muitas delas, esquecidas em Portugal, ainda se mantêm vivas no Brasil. Para comprovar esse ponto, exponha à turma a ilustração deste plano de aula, com um diálogo imaginário entre um português quinhentista e um nordestino. Explique aos estudantes que a frase do sertanejo contém termos portugueses que não se usam mais em Portugal, porém permanecem no Brasil. Assim, reinar tem a acepção de "fazer travessuras"; função significa baile popular; e faceiro é sinônimo de garboso, bem vestido - o que os gajos chamam de "petimetre". O luso quinhentista, por sua vez, responde com um "Arre, égua!" - uma interjeição bem nordestina, mas que é encontrada nos textos de Gil Vicente.

Para concluir, sugira que os alunos façam uma pesquisa, nos dicionários, de expressões características de cada região do país, procurando identificar termos locais e arcaísmos.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa, Ed. Nova Fronteira, tel. (21) 2537-8770

FILMOGRAFIA
O Auto da Compadecida, Guel Arraes, Globo Filmes, tel. (11) 3131-250

Consultora Heloísa Cerri Ramos
Autora de livros didáticos de Língua Portuguesa , de São Paulo

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