Objetivos
Perceber que os mapas são formas de apreensão e representação do mundo que expressam múltiplos valores
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Reportagem da Veja:
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Introdução
No artigo "Senso de Observação", Stephen Kanitz observa que tendemos a ver o Brasil com os olhos dos outros. Ele focaliza essas distorções de perspectiva tomando como exemplo os mapas do Brasil, fiéis ao padrão europeu. E conclui: "Vamos virar nossos mapas para o Cruzeiro do Sul. Vamos criar nosso jeito de ver o mundo. Essa é a única forma de criar uma nação". Por que modificar um mapa pode ter, como deseja e sugere Kanitz, um significado transformador? O plano de aula vai auxiliá-lo a mostrar a seus alunos que as representações cartográficas não são neutras. Mesmo os mapas contemporâneos, mais objetivos e científicos, expressam determinados valores e interesses.
Atividades
1. Depois de os alunos lerem o artigo de Kanitz, lembre a eles que a linguagem cartográfica usa símbolos que todos podem reconhecer. Por exemplo, se olharmos a representação de um rio ou de uma ilha num mapa japonês, vamos identificar o acidente geográfico. Acrescente que, como toda linguagem, a cartografia permite mudar os significados das mensagens transmitidas, dando maior ou menor destaque a um país ou a uma região. Será que o uso de símbolos gráficos e cores pode expressar juízos de valor, formas de dominação e preconceitos, como faz a linguagem verbal?
2. Sugira que os alunos leiam e discutam a notícia publicada na Folha de S. Paulo do dia 02/09/98, com o título Brasil Fica no Centro do Mundo em Mapa Que Será Usado no Rio.
O jornal informava que o prefeito do Rio de Janeiro, Luiz Paulo Conde, pretendia equipar as 1003 escolas da rede municipal com mapas-múndi nos quais o Brasil estava situado no centro do mundo. Com isso, as autoridades pretendiam inverter a idéia, difundida pelos mapas tradicionais, de que o Brasil ocupa uma posição periférica no planeta. No mapa, o território brasileiro aparece marcado em um tom forte de amarelo, o que o destaca ainda mais em relação aos outros países. Um dos responsáveis pelo projeto afirmou: "Esse movimento lança à sociedade o convite para identificar a virada do milênio e do século e a ocorrência dos 500 anos de civilização brasileira com oportunidade única de transformação do país".
Pergunte aos alunos o que eles acham da iniciativa do prefeito carioca. Colocar o Brasil no centro do planisfério realmente passa a impressão de que não estamos mais na periferia do mundo? Nos mapas convencionais, a América do Sul (e o Brasil, por conseqüência) está à esquerda, no extremo Ocidente, enquanto o Japão aparece à direita, no extremo Oriente. Essa posição periférica transmite uma idéia da pouca importância do Japão no contexto mundial?
3. A discussão sobre a não-neutralidade dos mapas pode ser encaminhada a partir do exame das projeções cartográficas de Mercator e de Peters. Lembre à turma que os mapas são sempre planos, enquanto a Terra tem forma esférica. Ou seja, quando se faz um mapa, projeta-se no plano o que tem forma esférica. A superfície terrestre, que recobre uma forma esférica, é sempre curva. A tradução do curvo para o plano exige uma técnica geométrica conhecida como anamorfose, operação que realiza os deslocamento dos pontos da esfera até que haja coincidência com o plano. Mas isso não pode ser feito sem deformações: um mapa nunca representa a exatidão formal do que está sendo representado. As soluções para minimizar essas diferenças são as diversas projeções. Quer dizer: ao escolher um tipo de projeção, estamos escolhendo ao mesmo tempo um tipo de deformação. E essa escolha corresponde a interesses de vários tipos.
A partir dessas informações, encomende pesquisas sobre as projeções de Mercator (que podem ser encontradas facilmente nos Atlas) e de Peters (veja quadro). Os alunos vão verificar que a projeção de Mercator mostra-se mais útil para a navegação. Ela surgiu no século XVI, época dos descobrimentos marítimos, e serve mais aos navegadores, porque representa com maior exatidão os trechos litorâneos, embora deforme as áreas continentais. Já a projeção de Peters, criada em 1967, é muito mais fiel ao verdadeiro tamanho dos territórios, mas deforma o contorno das costas.
Planisfério dos pobres
Um Mapa para um Mundo Solidário foi o nome dado pelo alemão Arno Peters ao mapa-múndi produzido a partir de uma nova projeção, também concebida e calculada por ele. Nela, cada centímetro quadrado representa exatamente 63550 km2. Se a África e a América do Sul parecem crescer em detrimento da Europa, é porque estamos acostumados com a projeção tradicional de Mercator, que superdimensiona as terras do Hemisfério Norte mais distantes do Equador (a Groenlândia, por exemplo, parece maior que o Brasil).
Identificou-se no trabalho de Peters um conteúdo político favorável aos países pobres. A projeção dele foi entendida também como uma busca de igualdade entre os povos do mundo.
Peça que os alunos leiam e discutam esses dados, procurando evidenciar as diferenças e as semelhanças entre as concepções de Peters e de Stephen Kanitz.
O Velho Mundo
Elaborado no século II, o mapa do astrônomo e geógrafo de Alexandria (Egito) Cláudio Ptolomeu representava Europa, Ásia e África. Nele não havia ligação, no sul da África, entre o Atlântico e o Índico, apresentado como um mar fechado. Séculos depois, na Idade Média, surgiram os mapas circulares designados como "T. O.". Neles, o "O" corresponde a um oceano mítico que rodeia as regiões habitáveis. A barra horizontal do "T" (a letra fica invertida) é o Mar Mediterrâneo, e a barra vertical separa a Europa da África. A Ásia fica na parte superior, pois nela se encontra o paraíso.
Consultoria Jaime Oliva
Geógrafo
Consultoria Fernanda Padovesi Fonseca
Professora de cartografia da UniFEO, de Osasco