Objetivos
Entender os critérios de incorporação de novas palavras a uma língua
Introdução
O texto de Millôr Fernandes sugere uma reflexão sobre a questão lingüística das palavras que têm direito a residir em dicionários e de outras destinadas a continuar sem teto. A decisão de dar ou não abrigo a um vocábulo num idioma é complexa e envolve critérios rígidos, chegando ao âmbito da unidade nacional e da preservação cultural. O tema vai além das acepções do verbete mencionado por VEJA e merece ser examinado com a turma.
Atividades
1ª aula - Peça que todos leiam atentamente o artigo da revista. Comente que as línguas estão submetidas ao desgaste e à transformação pelo uso dos falantes. Então, pergunte se havia alfenins nas festas de aniversário dos alunos quando eles eram crianças. Em qual freguesia ficava a escola que freqüentavam? Diante do estranhamento geral, sugira que consultem um dicionário para esclarecer as dúvidas. Mostre que as línguas são organismos vivos e, como tal, substituem células mortas por novas que atendem às mudanças de contexto, situação, valores etc.
Mas o descuido acadêmico e o descaso dos governos permitem que a Língua Portuguesa do Brasil se torne um espaço propício à proliferação de parasitas, invasores oportunistas que, ocupando a posição de vocábulos vivos, promovem a submissão cultural e reforçam ideologias de interesse. Para ilustrar essas adoções desnecessárias, indague que expressões do nosso léxico, embora não estejam mortas, deram lugar a basquete, conforto, caubói, fairplay, magazine, manager e sex-appeal. As respostas são, respectivamente, bola ao cesto, comodidade, vaqueiro, jogo limpo, revista, administrador e atrativo sexual.
Em seguida, explique que as línguas são aprendidas por imitação. A influência do lar, nessa função, é essencial para a vida coletiva. Proponha que os estudantes busquem, na memória, palavras e frases usadas em família e que retratam uma forma peculiar de ver o mundo e as coisas. Discuta as estruturas reveladas e ajude-os a perceber o que há de retrato cultural e de vínculo por trás de cada significado. Por exemplo, se entre os parentes é comum dizer que está um calor de tirar pica-pau do oco, isso não quer dizer apenas que o dia está muito quente. Desvela algo mais importante: a sabedoria rural nordestina, que conhece o comportamento do pássaro e denota a relação desse núcleo familiar com um recorte regional da realidade, denunciando-lhe a origem.
Apimente a discussão contando que décadas de negligência com os estudos da política do idioma fazem com que as crianças, antes de aprenderem a ler e escrever, sofram pesada e livre influência da televisão, do rádio, do cinema, de cartazes e folhetos - enfim, de um elenco com forte poder doutrinário. Frases inteiras penetram na memória, de modo que acaba sendo impossível deletar seus valores ideológicos ocultos. Vale a pena mencionar a confusão proposital que os atores da ditadura militar criaram entre os termos rebelde, comunista, assassino e terrorista. A bagunça levou as parcelas mais simples da população a crer no militarismo como salvação única da pátria.
2ª aula Diga que nossa cultura, por causa de uma política inexistente para o idioma que oficialmente se diz nacional, sucumbe a barbarismos, solecismos e outros ismos.
Por que Millôr não encontrou o registro do vocábulo factóide no Dicionário Houaiss e lá estava o termo, no Aurélio? Se a língua não é propriedade dos dicionaristas, um dos dois errou - pois não se faz ciência da linguagem segundo o que nós mesmos estabelecemos como método. Conte que nosso idioma não é objeto de análise das reuniões da Academia Brasileira de Letras (ABL) nem configura preocupação do Ministério da Educação. E os milhões de usuários da língua, como ficam? Tornam-se órfãos ou livres para decidir o que fazer?
Toda palavra que ronda um léxico é presença declarada de um dado inédito, até então ausente daquela cultura. Trata-se de um neologismo, expressão nova ou sentido novo de um vocábulo. É o caso de factóide. Antibiótico, radar e prospecção, entre vários termos, já tiveram esse status. Estimule a garotada a descobrir mais alguns.
Ensine que essas palavras, quando provenientes de outras línguas, são chamadas barbarismos ou empréstimos lingüísticos e, como todos os empréstimos, nunca são gratuitos. A cultura que os absorve paga caro por eles. Veja-se camping, marketing, shopping e congêneres. Nesse sentido, é produtivo elaborar com os adolescentes um elenco das insensatezes da informática no país.
Reforce a noção de que neologismos e barbarismos não são inclusos quando a língua já possui palavras para indicar os fenômenos a que eles se referem. Não se acata o novo só pela novidade. É preciso comprovar sua legitimidade e necessidade no contexto. Se aceitos, esses vocábulos devem ser aclimatados - e o recurso empregado para isso é a adaptação morfológica. Por meio dela, carnet, chalet dribling e shoot viraram, pela ordem, carnê, chalé, drible e chute. Então, por que short, show e pizza não se transformam em xorte, xou e píteça?
Em qualquer país que se considera sério, o emprego de neologismos e barbarismos é responsabilidade de exame da academia de letras, que os aceita ou refuta de acordo com critérios específicos da ciência da linguagem e da legislação sobre o idioma pátrio. São usados e incorporados os vocábulos que figuram no dicionário da academia da língua, resultado de um trabalho de importância ímpar frente à identidade nacional. A ABL, porém, nem dicionário tem. O último esforço de coleta que efetuou data de 1943 e foi uma cópia, com adaptações, do Vocabulário Ortográfico da Academia de Ciências de Lisboa. Para piorar, um só encarregado executou a tarefa - o filólogo José de Sá Nunes. Ficou lá atrás, no último parágrafo da introdução do Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, a promessa de outro mais copioso e perfeitamente adaptado às múltiplas manifestações da vida contemporânea .
3ª aula Organize uma pesquisa em fontes diversas com o objetivo de levantar os trabalhos científicos sobre a Língua Portuguesa do Brasil feitos pela ABL nos últimos 64 anos. Não culpe os jovens se lhe trouxerem uma folha de papel em branco.
Comente que dicionários não são entes criadores de palavras, nem os dicionaristas têm tal direito. Dicionários são coletores dos vocábulos em vigência num dado período de vida do idioma. Eles não vão atrás da língua: são espelhos que refletem o que dizem as pessoas. Coletam e definem palavras, conforme regras definidas. Por curiosidade, solicite que os alunos busquem no Aurélio e no Houaiss a descrição desse método - para que tomem pé de nosso desamparo. Uma das regras internacionais dá conta de que um termo, para figurar num dicionário, deve perdurar em uso pelos falantes por, no mínimo, duas décadas. Esse é o prazo estimado para que ele cristalize sua demanda e forma na língua que o adotou. Portanto, a academia deve acompanhar o desempenho e o comportamento da palavra. Para evidenciar isso, a turma pode procurar as gírias da Jovem Guarda num dicionário. Elas não estão lá porque foram um modismo passageiro.
Por fim, faça ver que não é imperativo seguir os dicionários como bíblias. Aliás, os dois mais populares do Brasil registram o verbete salchicha...
Consultoria Angelo Masson Neto
Professor de Lingüística da Uniban e das FIAM, ambas de São Paulo