Conteúdo relacionado
Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:
Objetivos
Refletir sobre as reações humanas diante de desastres e catástrofes naturais;
Discutir o surgimento de comportamentos solidários e altruístas após acontecimentos que têm grande impacto sobre a sociedade.
Conteúdos
Ciências Sociais; Sociologia; Antropologia; Psicologia; Estudos de desastres.
Tempo estimado
Três aulas
Material necessário
Cartolinas, tesouras, tubos de cola e canetinhas para a confecção de cartazes.
Jornais e revistas que contenham reportagens sobre catástrofes que ocorreram no Brasil e no mundo, recentes ou não. Algumas sugestões são:
- As enchentes e os deslizamentos de terra em Santa Catarina, em 2008, em Alagoas e Pernambuco, em 2010, e no estado do Rio de Janeiro, em 2010 e 2011;
- Os tsunamis que atingiram a Indonésia, em 2004, e o Japão, em 2011;
- As enchentes na Austrália, em 2010 e 2011;
- Os terremotos no Haiti e no Chile, em 2010;
- O furacão Katrina em New Orleans, em 2010.
Introdução
VEJA desta semana traz um interessante artigo de Betty Milan chamado Contenção e repressão, que possibilita uma breve comparação entre brasileiros e japoneses - em especial no que se refere à conduta dos dois povos em momentos de emergência e insegurança social e material. O artigo nos motiva a refletir sobre como as pessoas se comportam de maneira diferente em situações extremas e os motivos disso.
Desenvolvimento
1ª aula
Converse com os alunos sobre desastres naturais. Fale sobre causas e consequências, mecanismos de prevenção e previsão e formas de ajudar as pessoas atingidas. Pergunte à turma:
- De quais desastres naturais os alunos se lembram?
- Eles já foram atingidos por algum evento desse tipo? (No caso do Brasil, é provável que algumas cidades já tenham passado por períodos de seca ou de enchentes e inundações).
- Como é possível prever os desastres naturais?
- É possível evitá-los? Se sim, quais os meios?
- O que pode ser feito para minimizar os efeitos das catástrofes naturais?
- A turma já participou de programas de treinamento para situações de risco? (Por exemplo, treinamento sobre como agir em incêndios.)
Em seguida, mostre à classe que existem não só os desastres naturais de proporções catastróficas, mas também os de menor repercussão - que afetam o dia a dia dos estudantes ou de parcelas específicas da população.
Com base no artigo Contenção e repressão, escrito por Betty Milan para a VEJA, e no texto abaixo, faça uma breve exposição oral sobre as relações entre desastres naturais, cultura, políticas públicas de prevenção e comportamento. A exposição deve durar aproximadamente 30 minutos.
Texto de apoio ao professor
Após os desastres naturais que atingiram o Japão em março de 2011, um fato chamou a atenção do mundo ocidental: a inexistência (ou existência mínima) de saques, violência, crimes e caos no comportamento dos japoneses. O fato contribuiu para elevar os valores típicos da cultural oriental - como a moral, o comprometimento social e a perseverança - ao patamar de modelos a serem seguidos pelo ocidente. Sem dúvida, as especificidades da cultura japonesa ajudam a explicar a maneira como a população reagiu após o país ser devastado por um terremoto, um tsunami e um vazamento nuclear. Esses valores, no entanto, não são os únicos fatores explicativos de tal comportamento. Outros elementos - como a experiência da população em lidar com situações de emergência, a infraestrutura do país e os estudos sobre o comportamento humano em situações de emergência - ajudam a expandir a compreensão do fato.
Em seu livro "O Crisântemo e a Espada", a antropóloga americana Ruth Benedict (1887 - 1948) apresenta um estudo sobre as diferenças entre a cultura japonesa e a americana. A obra foi encomendada pelos Estados Unidos e tinha como objetivo prever o comportamento do Japão durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O texto mostrava que a cultura japonesa era moldada primeiramente por uma extrema obediência à hierarquia social, à honra, à virtude e ao dever. Esses valores condicionavam todas as ações sociais da população.
As ideias de Benedict são importantes, mas não podem ser usadas como a única explicação para o comportamento dos japoneses. O país, assim como o restante do planeta, está inserido no processo de globalização e recebe influências externas. Como explica o sociólogo e antropólogo Renato Ortiz, esses legendários códigos de conduta japoneses estão passando por um processo de declínio.
Quais são, então, as explicações para a postura japonesa diante das catástrofes? Para além das predições morais, boa parte da resposta está no fato de o país sofrer com catástrofes naturais há muito tempo. As pessoas que ali vivem, portanto, estão psicologicamente preparadas para reconstruir o que perderam - e o conhecimento tradicional os faz compreender que todas as coisas, inclusive a vida, são passageiras e é preciso seguir reconstruindo-as.
A exposição constante a inúmeras catástrofes naturais também fez com que o Japão desenvolvesse conhecimento técnico e científico capaz de reduzir o impacto delas em construções, prédios, rodovias, viadutos etc. A superioridade da engenharia japonesa nesse aspecto é mundialmente reconhecida. Aliado a isso, existe no país um trabalho constante de preparação da população para situações de emergência. Planos de evacuação de prédios, escolas e cidades fazem parte do cotidiano, assim como treinamentos sobre o que fazer quando a terra começa a tremer.
No Chile, país em que os tremores também são relativamente constantes, há um preparo semelhante. O mesmo não pode ser dito do Haiti. Parte dos impactos do grande tremor que atingiu o país em 2010 se deve ao pouco preparo da população para lidar com o problema.
Outro aspecto que deve ser levado em consideração para entender a reação dos japoneses diz respeito à maneira como o ser humano se comporta diante de grandes desastres. Estudos sociológicos mostram que, em situações extremas, emergem comportamentos solidários e altruístas. Em geral, os comportamentos alarmistas e o pânico surgem principalmente por parte dos administradores públicos - por não conseguirem prever como as pessoas irão reagir - e nem sempre tem fundamento. Em New Orleans, por exemplo, após a passagem do furacão Katrina foram vistos alguns casos de distúrbio social. A reação do governo, então, foi isolar a população da cidade, com medo de que as equipes de resgate fossem atacadas violentamente. A ação, posteriormente, foi considerada exagerada. Ao invés de um caos geral, o que se viu ali foram grupos de pessoas que se organizaram solidariamente para garantir as condições de vida dos mais atingidos.
Alguns exemplos dessa postura solidária podem ser vistos também no Brasil. Inúmeras pessoas que perderam família, bens e empregos durantes as enchentes e os deslizamentos de terra em 2008 e 2010 se tornaram heróis. Elas colaboraram incansavelmente com as equipes de busca e ofereceram um conhecimento mais detalhado sobre a região em que estavam as casas antes dos deslizamentos. Como elas, muitos heróis anônimos se dispõem a ajudar voluntariamente pessoas que nem mesmo conhecem.
Em suma, existem sim sociedades que lidam melhor com desastres naturais do que outras. Esse aspecto, no entanto, está mais ligado à maneira com elas se preparam para situações de emergência. Mesmo em sociedades em que os códigos morais de conduta são diferentes dos esperados pelo poder público, é preciso que as autoridades iniciem processos de prevenção, previsão e redução dos danos causados pelos desastres naturais. É fundamental também que as pessoas sejam treinadas e saibam como se comportar em situações adversas.
Finalize com uma provocação sobre como os desastres afetam as vidas das pessoas. Por fim, indague como os alunos reagiriam ao vivenciar situações tão adversas. Dê um tempo para que a turma discuta em sala.
2ª aula
Divida a moçada em seis grupos. Distribua entre os alunos o artigo publicado na VEJA, o texto de apoio ao professor e revistas e jornais sobre diversas catástrofes naturais. Em seguida, peça que cada grupo escolha um dos casos tratados nas reportagens. Busque, dentro do possível, que dois ou mais grupos não trabalhem sobre o mesmo tema.
Proponha que cada grupo discuta o caso escolhido à luz dos textos sugeridos e elabore um cartaz sobre ele. Os alunos devem:
1. Contar qual foi o desastre/catástrofe.
2. Apontar suas causas.
3. Enumerar suas principais consequências.
4. Apontar a ocorrência ou não de comportamentos desviantes devido à catástrofe.
5. Explicar como a população se organizou para superar as dificuldades encontradas.
(Por exemplo, houve organização de grupos de apoio? Quem deu abrigo para os atingidos? Houve casos de heroísmo? Organizações filantrópicas, religiosas ofereceram ajuda?)
6. Apontar sugestões de ações coletivas e/ou individuais para momentos de calamidade pública.
3ª aula
Reserve a terceira aula para a apresentação dos trabalhos. Explique que cada grupo deve contar à turma sobre o caso analisado, abordando os pontos de discussão para a elaboração do cartaz. Para finalizar, faça uma discussão coletiva sobre as reações humanas diante de catástrofes naturais.
Avaliação
Analise a compreensão dos alunos sobre o tema com base nos comentários deles em sala de aula. Observe o envolvimento da turma na elaboração da elaboração do cartaz e atente para a participação de todos na atividade. Dê apoio aos grupos que tiverem dificuldades. Na terceira aula, avalie a apresentação dos grupos prestando atenção aos seguintes critérios:
- Adequação do cartaz à atividade proposta;
- Encadeamento das ideias;
- Clareza dos argumentos;
- Abordagem sobre os pontos propostos;
- Envolvimento dos alunos no projeto;
- Criatividade e outros critérios que julgar mais adequados para a sua realidade em sala de aula
Quer saber mais?
BENEDICT, Ruth. O crisântemo e a espada: padrões da cultura japonesa. São Paulo: Perspectiva, 1997 (Original de 1946)
ORTIZ, Renato. O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo. São Paulo: Brasiliense, 2000.
Cunha, Rodrigo. Cultura e comportamento. In: ConCiência, Revista Eletronica de Jornalismo Científico (LabJor/SBPC), Dossie Determinismos, No. 89 - 10/07/2007. Disponível em: https://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=26&id=295
FARBER, Daniel A., (et al). Disaster Law and Policy. Aspen Publishers, 2009.
MATTEDI, Marcos Antônio. A abordagem psicológica da problemática dos desastres: um desafio cognitivo e profissional para a Psicologia. Psicol. cienc. prof. [online]. 2008, vol.28, n.1, pp. 162-173. ISSN 1414-9893.
SOLNIT, Rebecca. A Paradise built in hell: The Extraordinary Communities That Arise in Disaster. Viking Adult, 2009. (Trad. livre do título: Um paraíso construído no inferno: As extraordinárias comunidades que surgem em desastres).
VELHO, Gilberto. Individualismo e Cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981
Consultoria Rafael Bennertz
Sociólogo, mestre e doutorando em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Pesquisador do Grupo de Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia - Unicamp.