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Plano de Aula

No compasso do poder

Planeta Sustentável

Objetivos
Examinar as relações entre produção musical, cultura e ideologia

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Reportagem da Veja:

Reportagem:

Introdução
Acordes dissonantes emitidos por cinco mil alto-falantes incomodam muita gente. Mas até a mais erudita das melodias, quando manipulada demagogicamente, incomoda muito mais - como sugere a reportagem de VEJA. Quem, por exemplo, consegue ouvir a introdução da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, sem associá-la à apresentação de A Voz do Brasil, informativo que o governo federal obriga todas as rádios do país a veicular desde 1935?

O binômio música-política ultrapassa questões superficiais como incomodar ou agradar nossos tímpanos. O tema é amplo e envolve também o estudo de composições criadas com objetivos doutrinários.

Ruídos cotidianos
Sons e ruídos impregnam tanto o nosso cotidiano que, muitas vezes, nem tomamos consciência deles. Apesar da presença constante da música, não é fácil perceber as ligações entre ela, a política e a ideologia.

Os sons, carregados de subjetividade, proporcionam diversas relações simbólicas com as sociedades. Senão, como explicar a importância musical nos rituais místicos primitivos? Ou a presença imprescindível dos cantos que embalavam os trabalhos rurais - como os que originaram o blues nos Estados Unidos?

Sons caóticos e irregulares, controlados pelo homem adquirem certa periodicidade e ordem, criando ondas vibratórias sinuosas e constantes. Quando sobrepostas umas às outras de maneira harmônica e aliadas aos ritmos e timbres, as ondas são denominadas música. A escolha das escalas e melodias não é aleatória, mas produto de opções, relações e criações culturais e sociais que fazem sentido para nós. Tal sentido somente alcança um valor concreto no tempo e na cultura. A música pode existir apenas social e historicamente.

Assim, não é à toa que as composições do alemão Richard Wagner serviram como uma luva aos propósitos nazistas. A Cavalgada das Valquírias, trecho da ópera O Anel do Nibelungo, evoca o espírito guerreiro dos povos nórdicos. Seu ritmo marcial, quase ríspido, criou o ambiente ideal para a dança macabra de Goebbels e Hitler. Já a interpretação de Jimi Hendrix para Star-Spangled Banner, o hino nacional norte-americano, executada no lendário Festival de Woodstock, demonstrou rebeldia. Os compassos foram quebrados por improvisações anárquicas, estridentes, desafiadoras.

Samba e Estado
No Brasil, as relações entre música e política são complexas: a produção cultural nessa área é rica, principalmente quando vinculada à canção popular. Durante o Estado Novo, Getúlio Vargas usou a música como instrumento de formação e mobilização das massas. O "ingênuo" canto coral para crianças, com repertório do folclore nacional e comandado por Heitor Villa-Lobos, tornou-se uma ótima ação política do Estado. Do mesmo modo, o poder central tentou impor, sem muito sucesso, os "sambas da legitimidade", exaltando o trabalho e combatendo a malandragem.

Mas, na maioria das vezes, essas relações se revelam na luta política fora do Estado ou contra a ordem social. Para entendê-las, é preciso ter uma concepção mais abrangente que a tradicional. Com essa percepção pode-se notar as atitudes políticas dos compositores malandros das décadas de 10 a 30, das obras apoteóticas e nacionalistas de Ary Barroso, das atitudes dos tropicalistas e até de gêneros tidos como alienados, como a Bossa Nova e o rock.

Atividades
1. Leia com os alunos as afirmações abaixo, do professor e compositor José Miguel Wisnik e, a partir do texto de apoio, discuta como a música se transforma no tempo e nas diferentes culturas e, portanto, é profundamente marcada pela História: "[O som] é vazado de historicidade não há nenhuma medida absoluta para o grau de estabilidade e instabilidade do som, que é sempre produção e interpretação das culturas (...)".

2. Examine a letra do samba É Negócio Casar, de Ataulfo Alves e Felisberto Martins, lançado em 1941. Debata com a classe a influência do Estado getulista sobre a obra: "Veja só/ A minha vida como está mudada/ Não sou mais aquele/ Que entrava em casa alta madrugada/ Faça o que fiz/ Porque a vida é do trabalhador/ Tenho um doce lar/ E sou feliz com seu amor/ O Estado Novo veio para nos orientar/ No Brasil não falta nada/ Mas precisa trabalhar/ Tem café, petróleo e ouro/ Ninguém pode duvidar/ E quem for pai de quatro filhos/ O presidente manda premiar/ É negócio casar!"

3. Peça à turma que pesquise os Festivais da Canção dos anos 60. Mostre que a oposição entre compositores, divulgadores e público quanto a valores estéticos, ideológicos, políticos, pessoais e comerciais gerou radicalismos.

Trilha sonora de chumbo
No início da década de 70, o sabão em pó Minerva brindou seus consumidores com um compacto do grupo Os Incríveis, que emprestou um arranjo moderninho ao Hino Nacional Brasileiro. Sinal de patriotismo? Não foi bem assim que o mercado recebeu o presente, afinal corriam os anos de chumbo da ditadura militar, tempo em que a obra de Francisco Manoel da Silva e Joaquim Osório Duque Estrada se confundia com a propaganda oficial do presidente Garrastazu Médici. Nas escolas públicas, pelo menos uma vez por semana, os estudantes eram forçados a se perfilar no pátio para entoar o Hino enquanto era hasteada a Bandeira.

Na mesma época, a dupla Don e Ravel emplacou nas paradas o sucesso brega-ufanista Eu Te Amo Meu Brasil, enaltecendo nossas praias ensolaradas e "a mão de Deus", que teria abençoado as terras nacionais. "Meu coração é verde, amarelo, branco e azul-anil", pintavam os autores.

Apesar da censura e da repressão, os inconformados protestavam. Geraldo Vandré sofreu torturas ainda nos anos 60, por conta de Pra Não Dizer que Eu Não Falei das Flores, uma chamada à revolução. "Quem sabe faz a hora/ Não espera acontecer", conclamava Vandré. Menos explícitos, Chico Buarque e Francis Hime burlaram a vigilância dos quartéis em 1976, ao gravar o chorinho Meu Caro Amigo, mensagem cifrada que tentava remeter notícias frescas para os exilados: "Aqui na terra tão jogando futebol/ Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll/ Nuns dias chove, noutros dias bate sol/ Mas o que eu quero é lhe dizer/ Que a coisa aqui tá preta".

Veja também:

Bibliografia
O Som e o Sentido Uma Outra História das Músicas, José Miguel Wisnik, Cia. das Letras, tel.: (011) 866-0801

 

 

Consultoria Geraldo Vinci de Moraes
Professor de História da UNESP

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