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Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:
Objetivos
Perceber a presença de temas filosóficos num texto jornalístico
Introdução
Na peça O Burguês Fidalgo, Molière criou um personagem, Monsieur Jordain, que "fazia prosa sem saber", ou seja, falava e escrevia. O caso de Millôr Fernandes é bem diferente: no artigo de VEJA, ele envereda conscientemente pelo terreno da Filosofia, levantando temas que há milênios mobilizam os pensadores, até chegar à epifania do Royal-Straight-Flush, jogada máxima do pôquer. O texto é ideal para você examinar com os alunos essas duas criações do espírito humano: o pensar rigoroso a que se convencionou chamar Filosofia e os jogos, tão emocionantes quanto a vida.
Atividades
1ª aula - Explique à turma que o texto de Millôr atravessa séculos da história da Filosofia de maneira engenhosamente simples. Convidando o leitor a alçar o pensamento ao inimaginável, ele mostra de que modo os objetos físicos, que nos cercam, auxiliam-nos no processo do conhecimento metafísico. Aproveite-se desse lance e peça que a garotada exponha o que considera inconcebível. Nesse momento, coloque no foco da discussão o binômio existência sensível ser. Costuma-se dizer que tudo o que é, existe na natureza. Será mesmo verdade? Lembre que existem objetos matemáticos, como o triângulo ou os números, que não existem fisicamente, mas são.
Prossiga no rastro das questões filosóficas presentes no artigo. Se, hoje, a investigação espacial pode abrir fronteiras, outrora a compreensão dos fenômenos do mundo foi o principal objetivo das investigações de homens descontentes com as explicações que tinham em mãos. Assim, quando se fala em fogo, terra, água e ar, implicitamente enumeram-se os elementos constituintes do nosso planeta. Ora, o conhecimento desses elementos essenciais tornou-se possível graças às investigações de filósofos gregos, tais como Tales, para quem todas as coisas eram feitas de água, Anaxímenes, que via o início de tudo no ar, Heráclito, o filósofo do fogo, e Xenófanes, que deu um lugar de destaque à terra.
Ensine que esses filósofos dos séculos VII e VI a.C., também chamados de físicos, conseguiram, por meio de suas investigações, libertar, em certo sentido, os fenômenos do rótulo de efeitos das vontades dos deuses, ao propagarem que eram obra da própria natureza. Assim, o arco-íris não é um deus, mas a conseqüência da união do Sol com a chuva. Nessa etapa, levante a questão da influência das pesquisas científicas para a superação de preconceitos e de mitos. Observe se a moçada está a par das questões referentes às oposições religiosas e científicas acerca de temas como a pesquisa com células-tronco de embriões e de que modo lida com isso.
Seguindo o texto, quando há referência à busca de elementos inconcebíveis, vemos o deslocamento do plano físico, ou seja, do plano em que tudo pode ser explicado de modo natural, pois está presente na natureza, para algo além da Física, isto é, para o plano metafísico.
De fato, imaginar sentidos tais como Millôr os descreve é imaginar sensações insensíveis e, ainda por cima, confabular a existência de um ser que nada tenha de semelhante a nós: isso seria esboçar um ser que não é. Contudo, a única exigência é justamente esta: que esse ser seja! Aqui vale à pena trazer à baila a idéia da permanência aristotélica. Como podemos estar seguros de que somos os mesmos que éramos ao nascer? Embora todos os dados sensíveis apontem para a constatação de que não nos assemelhamos ao bebê que fomos há tempos passados, ainda assim temos certeza de que somos o mesmo.
No entanto, é com Platão que as questões filosóficas se deslocam do que é físico e, portanto, sensível, para o que é alcançado apenas pelo pensamento. Enquanto os primeiros filósofos preocupavam-se em pesquisar o mundo em que vivemos, Platão voltou-se para a investigação do próprio pensamento e, em última instância, para a compreensão do íntimo humano. Para isso, é preciso ao homem elevar o pensar, desprendê-lo das inúmeras ocorrências mundanas, conhecendo o que está adiante do mundo físico.
2ª aula - Conte que, com as cartas de pôquer, Millôr nos insere no mundo metafísico: sua grande questão é saber o que explica a criação de tais cartas. Com efeito, a Física nos dá o mundo para que, com nossas sensações, nós o experimentemos. Mas ela não nos conduz à invenção de algo que nada tem a ver com sua matéria. O que nos impulsiona à criação está no pensar, na vontade de ir além do que temos à disposição dos sentidos. Ora, isso nada mais é que metafísica.
O bicho-papão, aparentemente impossível de se explicar aos adolescentes, torna-se menos ameaçador por esse caminho: a vontade de atingir pela imaginação o que é inconcebível ao pensamento. Não é à toa que essa paixão leva os homens a deixar de lado os amores carnais; suas idéias são capazes de arquitetar um mundo exclusivo e completamente novo e não há nada mais sublime do que se apoderar e se aprofundar nele, que acaba por se tornar um grande jogo da vida.
Para terminar, chame a atenção para o título do artigo. Nele estão as palavras Homo ludens, o homem que joga. Explique que é o título de um livro do holandês Johann Huizinga. O pensador europeu percebe várias dimensões no jogo, até mesmo a do sagrado. Trata-se, em resumo, de uma atividade cultural sujeita a regras perceptíveis inclusive nas brincadeiras dos animais com elementos de imprevisibilidade e até de loucura contida. No entanto, brincadeiras e jogos ajudam os homens a relaxar e a conservar a sanidade, talvez por reproduzirem em pequena escala os desafios do cotidiano. Peça que a turma pesquise e discuta as dimensões apontadas por Huizinga. Acima de tudo, os jogos são criações do homem, um ser social - o que também pode ser dito da Filosofia.
Consultoria: Cristina Agostini
Mestranda em História da Filosofia Antiga pela USP