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Plano de Aula

Uma aula sobre a trajetória da vigorosa pintura flamenga

Planeta Sustentável

Objetivos
Perceber a importância da pintura de Bosch e da escola flamenga na história da arte

Introdução
Talvez alguns de seus alunos pensem que arte flamenga é uma referência a algum gol de placa do time de maior torcida do Brasil. Mas não é bem assim. Para corrigir essa noção, coloque a turma em contato com a pintura de Hieronymus Bosch (1450-1516), objeto da reportagem "Inferno e Paraíso", que serve de base para esta aula. Trata-se de um bom ponto de partida para os estudantes conhecerem a arte da velha Flandres - a terra dos flamengos -, região européia de grande importância econômica e cultural desde a Idade Média.

Leve para a classe livros de arte que contenham imagens das obras de Bosch, como O Jardim das Delícias e As Tentações de Santo Antônio - detalhes de ambas são apresentados neste plano de aula - e também das pinturas de Bruegel e Rubens reproduzidas abaixo.

Pergunte se os alunos assistiram ao clipe da canção Until It Sleeps, do grupo de rock Mettallica. Talvez muitos respondam que sim. Conte que, nesse caso, eles já conhecem um pouco da obra de Hieronymus Bosch: o vídeo apresenta imagens desse pintor flamengo do século XV que, antes de sonhar em ser guru de grupos de heavy metal, já havia influenciado a estética surrealista e o universo das histórias em quadrinhos underground. Explique à turma que o fascínio e a capacidade de contágio da pintura de Bosch decorrem de sua capacidade de, mais do que nenhuma outra, traduzir ambigüidades e reconciliá-las. Esta aula destina-se justamente a mostrar como Bosch e outros vultos da pintura flamenga expressaram as tensões e conflitos de sua época.

Atividades
Mostre à garotada as imagens de Bosch presentes neste plano de aula, na reportagem de VEJA e nos livros de arte que você puder reunir para a classe. Sugira a elaboração de uma lista dos cenários estranhos e dos seres fantásticos encontrados nessas obras, em especial em O Jardim das Delícias e As Tentações de Santo Antônio.

Explique que cada uma das obras reúne três imagens distintas. Esse tipo de pintura composto de várias partes, comum na época medieval e no âmbito cultural de Bosch, chama-se políptico; no caso, por apresentar três partes, recebe o nome de tríptico. O primeiro painel do tríptico O Jardim das Delícias mostra uma interpretação bastante pessoal do paraíso e de Adão e Eva. Na cena central (veja o detalhe abaixo) observa-se todo tipo de prazer físico, com danças e contatos entre corpos. Esses dois painéis são mais claros e iluminados, o que enfatiza o efeito dramático do terceiro, sombrio, correspondente à visão que o povo da Idade Média fazia do inferno e da condenação eterna imposta pela Igreja.

Proponha que a garotada busque em revistas, fotografias, jornais e outras fontes as mais variadas imagens de seres e objetos. Encomende em seguida a formação de "bancos de imagens", catalogados por tipos - por exemplo, uma caixa com figuras de mulheres, uma com imagens de homens, outras de peixes, pássaros, instrumentos de informática e assim por diante.

Divida a turma em três grupos e sugira que procurem nos "bancos de imagens" algumas figuras que possam ser combinadas, de maneira a criar seres e objetos fantásticos, no estilo das imagens geradas por Bosch. Em seguida, utilizando como base uma caixa de papelão desmontada, as equipes podem construir três painéis para, posteriormente, formar um tríptico. Cada painel deve ser estruturado por um dos grupos com a inclusão de seres fantásticos. Além da colagem, é bom utilizar nesta atividade também a pintura - na elaboração das paisagens e/ou do fundo das representações.

Para concluir o exercício, proponha uma comparação entre o tríptico feito pelos alunos e aqueles criados por Bosch. Que elementos da obra do pintor flamengo traduzem as contradições e ambigüidades de seu tempo, de transição entre a Idade Média e o período moderno? Existem aspectos específicos da cultura da Flandres, de forte conteúdo popular, tanto na esfera rural quanto na urbana? De que maneira a religiosidade de Bosch expressa a visão sombria do período medieval? E no tríptico dos alunos, quais imagens correspondem às tecnologias e aos valores da sociedade contemporânea, que mergulha na globalização? A referência às semelhanças e diferenças entre os valores de cada época é importante para a turma perceber as transformações morais, religiosas e sociais que são causadas pelo desenvolvimento histórico.

Sugira que a garotada faça um levantamento das condições socioeconômicas e culturais da Flandres na época de Bosch. Chame a atenção para as características desse trecho dos Países Baixos, predominantemente urbano, enriquecido pelo comércio e pela atividade têxtil, dividido entre populações que falavam o valão (variante do francês) e o flamengo (o holandês). Hoje, a maior parte da Flandres corresponde à Bélgica. Durante a vida de Bosch, a região passou a integrar os vastos domínios dos Habsburgos, que chegaram a incluir a Áustria, os Países Baixos, os territórios alemães do Sacro Império Romano Germânico e a Espanha (com suas possessões ultramarinas). Lembre que Bosch viveu durante a segunda metade do século XV e o início do século XVI, sendo, portanto, contemporâneo de fenômenos artísticos, históricos e científicos como o Descobrimento da América; o início da Idade Moderna; o Renascimento e os conflitos no seio da Igreja Católica que viriam à superfície em 1517 com a divulgação das teses de Lutero, marco inicial da Reforma protestante. O fascínio do trabalho de Bosch decorre em larga medida de sua capacidade de sintetizar todas essas contradições.

Proponha que os alunos tracem uma linha evolutiva e temporal da pintura flamenga, com base nas obras de Hieronymus Bosch, Pieter Bruegel (1525?- 1569) e Pieter Paul Rubens (1577-1640) apresentadas no quadro abaixo. Pode-se perceber a influência de Bosch na pintura de Bruegel? E na de Rubens? Qual era a situação da Flandres na época de Bruegel e Rubens? Lembre que Bruegel e Rubens nasceram depois da divisão religiosa dos Países Baixos em territórios católicos e protestantes, que se superpôs às diferenças entre as populações de idioma valão e flamengo. Em termos políticos, Bruegel assistiu ao início da repressão espanhola nos Países Baixos, em 1567 - que, segundo analistas, retratou dissimuladamente em algumas telas -, enquanto Rubens, apesar de protestante, foi embaixador a serviço da Espanha e expressou em seus quadros a influência do Barroco, o estilo da Contra-Reforma católica.

Consultoria: Milene Chiovatto
Professora da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), de São Paulo

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