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Plano de Aula

A ação como arte

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Conteúdo relacionado

Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

Objetivos
Conhecer e compreender os meios de expressão presentes na arte contemporânea, Conhecer a obra de Wesley Duke Lee e alguns dos movimentos artísticos no Brasil e no mundo na década de 1960,
Reconhecer e valorizar a relação entre arte e realidade

Conteúdos
A obra de Wesley Duke Lee e os happenings

Tempo estimado
Quatro aulas

Introdução
Reportagem de VEJA trata de um dos mais importantes nomes da arte brasileira da segunda metade do século 20, Wesley Duke Lee. Polêmico, arrojado, inventivo, esse artista, que recebe destaque na 29ª edição da Bienal de São Paulo, já teve seu trabalho bastante questionado pela crítica e pelo público. Aproveite a oportunidade para apresentá-lo à turma e discutir a relação entre arte e realidade.

Desenvolvimento

1ª e 2ª aula - Conhecendo a obra de Wesley Duke Lee e o universo do happening

Comece a aula pedindo que os alunos leiam a reportagem "Rebelde até o fim", publicada em VEJA. Pergunte à turma quem conhecia a obra de Wesley Duke Lee. Ouça as respostas e, em seguida, detalhe para a turma a trajetória desde importante artista brasileiro. Como apoio, use o texto abaixo.

Texto de apoio ao professor Wesley Duke Lee

Wesley Duke Lee sempre foi ligado às artes, começando por estudos sobre desenho em São Paulo e mais tarde passando por uma formação na área de artes gráficas e tipografia em Nova York. Sua experiência o levou a dominar diferentes meios expressivos que foram do desenho a lápis ao computador, passando por experimentos com xérox, pela criação de objetos e até mesmo por experimentos que envolviam o corpo na realização de obras efêmeras, os chamados happenings.

Trabalhou como publicitário, mas foi a pintura que o levou a abraçar definitivamente as artes. Já radicado em São Paulo, conheceu o pintor italiano Karl Plattner, com quem aprendeu técnicas tradicionais como a têmpera e o afresco e com quem viajou à Europa, para trabalhar como ajudante na realização de uma grande pintura mural na Áustria.

Muitas foram as vivências desse artista até que se estabeleceu definitivamente na capital paulista para dedicar-se à sua produção. O conhecimento das diferentes linguagens e técnicas, bem como a sintonia com as grandes transformações que ocorriam naquele momento no mundo das artes, levaram Weley Duke Lee a se transformar em uma referência para a arte brasileira do século 20.

A reportagem de VEJA destaca a participação de Duke Lee no polêmico grupo Rex, que surgiu em 1966. Explique aos alunos que, no século 20, era muito frequente a formação de grupos de artistas que se uniam em torno de um ideal e seus desdobramentos no campo da estética. Esses grupos muitas vezes questionavam a sociedade e a política, e alguns deles deram origem a movimentos. Esse processo mundial se deu em várias partes do mundo e se estendeu por toda a Arte Moderna, chegando até a Arte Contemporânea.

No caso do grupo Rex, além de Duke Lee, faziam parte artistas como Geraldo de Barros e Nelson Leirner. Eram todos muito incomodados pelo modo como a arte vinha sendo tratada pelo mercado, como uma simples mercadoria, um objeto de consumo. Isso fazia com que as galerias levassem ao público somente aquilo que representasse um valor comercial, deixando de lado muitas das novas experiências que vinham sendo realizadas. Em razão disso, o grupo criou a "Rex Gallery & Sons", um espaço alternativo que expunha obras que outras galerias recusavam, além de realizar projeções de filmes e atividades culturais. A Rex Gallery possuía também o seu próprio jornal, o "Rex Time". O grupo Rex durou pouco, mas foi uma das mais intensas e questionadoras ações realizadas no Brasil na década de 1960 em relação ao debate artístico e ao mercado de arte no país.

Durante a década de 1970, Wesley Duke Lee, por opção, se ausentou por seis anos do universo das galerias, dedicando-se apenas aos museus e espaços públicos (salões e outros), retornando ao circuito comercial somente no final da década.

Feita essa explicação inicial, chame a atenção para o trecho da reportagem que informa que Duke Lee foi o primeiro a realizar um happening no Brasil. Pergunte à moçada: o que isso significa?

Ouça as respostas e conte à turma que, nos anos 60, Duke Lee foi bastante influenciado pela Pop Art norte-americana, sobretudo por artistas como Andy Warhol e Robert Rauschemberg, o que o levou a diversos experimentos ligados às novas propostas artísticas que estavam surgindo naquele país - muitas delas com tendências que remetiam ao surrealismo e ao dadaísmo. Aproveite para detalhar estes eventos com a turma.

Texto de apoio ao professor Happening e performance

Entre o final da década de 1950 e durante toda a década seguinte, no exterior, sobretudo nos Estados Unidos, começaram a surgir manifestações artísticas que envolveram as diferentes linguagens de forma experimental, buscando integração entre elas com o objetivo de reunir diversos artistas buscando novas formas de expressão e a renovação das diferentes linguagens: a música, a dança, a poesia, a pintura...

Em 1952, no Black Mountain College (uma escola de artes da Carolina do Norte - EUA) o compositor John Cage propôs um trabalho que integrasse o teatro, a pintura, a dança e a música, como uma colagem de mídias, porém explorando possibilidades do acaso e da indeterminação. A essa realização Cage denominou Untitled Event. Participaram do grupo o pianista David Tudor, os poetas Mary Richards e Charles Olsen, o pintor Robert Rauschenberg e o próprio Cage. Não havia um roteiro para a apresentação, somente uma partitura que foi distribuída por Cage aos participantes. A apresentação previa a circulação dos artistas entre o público: concomitantemente os artistas liam poemas, escutavam música, observavam as pinturas de Rauschemberg, projeções de slides e filmes, Cage executava uma peça com o uso de um rádio, Tudor tocava piano.

Surgiram aí as bases do happening, evento de estrutura flexível, baseado na ação e na improvisação, prevendo a participação do público, motivando diferentes sentidos. Aproveite a oportunidade para mostrar imagens e/ou vídeos das apresentações de John Cage.

Essa experiência acabou gerando o movimento Fluxus, que envolveu artistas de diferentes partes do mundo: a ideia era realizar ações que apesar de conter uma espécie de roteiro, envolviam também a participação do público e, portanto, a ideia do acaso.

Se, por um lado, em razão do improviso e da espontaneidade, os happenings podem trazer uma sensação de nonsense (sem sentido), por outro, eles são extremamente instigantes e podem conduzir a profundos questionamentos. Por serem efêmeras, as únicas possibilidades de registrar essas obras são a fotografia e a filmagem e é por esses meios que hoje podemos conhecer as ações de artistas como John Cage, George Maciunas, Yves Klein, Yoko Ono e muitos outros.

No Brasil, Wesley Duke Lee foi considerado o primeiro artista a realizar um experimento desse tipo. Em 1963, na inauguração de uma de suas exposições em um bar paulistano, apresentou uma ação que envolvia uma bailarina fazendo um anti-strip-tease, enquanto um ventilador espalhava espuma de sabão, confete colorido e penas de galinha sobre o público, que à luz de lanternas tentava ver as pinturas eróticas da Série Ligas, apresentadas na mostra. Com esse happening, Duke Lee daria início ao Realismo Mágico no Brasil, um movimento com tendências narrativas, influenciado pela arte pop, sobretudo pelo Surrealismo.

O happening tem diversos pontos comuns com a performance, por ambos envolverem a presença da tríade atuante/público/roteiro, essencial para as atividades dramáticas e por estarem ligados ao acontecimento, à contestação. No entanto, encontram entre si diferenças básicas. Se o primeiro está ligado ao momento da contra-cultura, do movimento hippie, prevendo uma ação mais coletiva e social (anos 60 e 70), o segundo volta-se a um niilismo, ao individualismo (anos 70 e 80). A performance não envolve tanto a participação do público quanto o happening e, portanto, permite maior controle da ação.

Os happenings muitas vezes surgem de interferências e vivências do cotidiano, onde os "atores" não são necessariamente profissionais, podendo ser pessoas comuns.

Com essa conversa inicial, proponha aos alunos a realização de um happening. Que tal interferir no cotidiano da escola? Como é a rotina dos alunos na escola? Como é a chegada, o intervalo entre as aulas, a saída?

Proponha uma ação dos alunos da turma que possa interferir nessa rotina. Peça que os alunos observem o dia a dia escolar para que, na próxima aula, conversem sobre a atividade.

Aula 3 - Criando o happening
Retome um pouco da conversa da aula anterior a respeito das ações dos artistas de grupos como o Rex e o Fluxus que pretendiam "chacoalhar" as pessoas, levantando questionamentos a respeito do processo de estagnação no qual estavam mergulhando.

Comente com a turma que uma das questões mais complexas que a contemporaneidade vem enfrentando é a da comunicação. Em um momento em que os meios de comunicação estão cada vez mais desenvolvidos, temos além de todas as mídias tradicionais a internet, os celulares... Mas será que as pessoas conversam? Já são conhecidos os casos de escritórios nos quais os funcionários não conversam pessoalmente com seus colegas, a não ser por meio de e-mails. Será que elas ao menos se conhecem?

Abra um debate com os alunos para retomar o que eles observaram no cotidiano da escola e explore a questão da comunicação para dentro do ambiente escolar. Na própria sala de aula, todas as pessoas se conhecem? Todos conversam? E fora da sala de aula, os alunos se comunicam com colegas de outras turmas? O que fazem durante o intervalo? Há uma interação entre alunos, professores e funcionários?

Que tal criar uma ação a ser realizada, por exemplo, durante o horário do intervalo? Algo que possa promover o encontro entre as pessoas.

Divida a turma em grupos e proponha que cada um deles elabore um roteiro para o happening da confraternização, lembrando que a ação deve acontecer só naquele momento, de modo pontual e deve admitir o improviso. É importante que eles entendam que o happening deve ser uma surpresa, algo inesperado e com uma curta duração, ele pode envolver atividade cênica, dança, artes visuais, música...

Por exemplo: os alunos podem promover um momento de confraternização com a comunidade escolar - aparecer no meio do intervalo fantasiados, promover um momento do aperto de mão e convidar as pessoas a se cumprimentarem e se apresentarem umas para as outras, abraçar as pessoas. Podem usar autofalantes, convidando os colegas para participar desse momento. Outra ideia é criar um grande suporte onde as pessoas poderiam registrar com canetas ou tintas uma palavra, uma frase tratando dessa experiência (um grande painel no chão feito com papéis ou com lençóis velhos, por exemplo).

A música pode ser um canal direto de comunicação. Os alunos podem elaborar uma apresentação de dança, a ser desenvolvida no pátio da escola, na qual os diferentes grupos apresentem passos e coreografia, como em um solo, e os demais instiguem toda a escola a participar. Essa "produção" pode envolver coreografia, figurinos, iluminação, cenografia e poesia, havendo muitas tarefas a dividir entre os diversos grupos da classe.

Dê um tempo para que os grupos preparem suas propostas. Ao final da aula, peça que as apresentem aos colegas. Discuta coletivamente as ideias apresentadas e escolham uma para ser realizada.

Em seguida, organizem a ação. Embora o happening envolva o improviso é importante prever o que será necessário. Por exemplo: roupas, equipamentos sonoros, instrumentos musicais, tintas, papéis etc. É importante prever que alguns alunos se responsabilizem por registrar o evento, via fotografia ou vídeo.

Converse previamente com a coordenação, explicando a atividade e informando com clareza os objetivos da ação.

Aula 4 - Realizando a ação

No dia e horário marcados é importante que tudo o que foi previsto em termos físicos para a ação (roupas, som, materiais etc) esteja preparado para a realização.

Agora, é partir para a ação.

Oriente os alunos para, ao término da atividade, recolher tudo e agir como se nada tivesse acontecido.

Depois, reserve um momento para reunir os resultados - fotos, vídeos e outros registros que tenham sido produzidos. Procurem ver juntos esses materiais e discutir como foi a ação e como se sentiram os executantes.

Explique a eles mais uma vez que o happening surgiu em um momento em que o mundo passava por grandes transformações - a contracultura, a revolução sexual, corrida espacial, Guerra Fria... Muitas das tensões que permeavam as relações políticas não eram explícitas, mas tinham profundos reflexos em toda a sociedade. No Brasil, vivíamos o período do governo militar e todas as suas consequências, o que ocorreu poucos anos depois da mudança da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília.

A arte foi um dos espaços encontrados para a reflexão, a discussão e para a expressão dessa realidade.

No ano em que se realiza a 29ª. Bienal de São Paulo, a curadoria da exposição (as pessoas que pensam o que será apresentado), retoma o trabalho do Grupo Rex, um grupo de artistas que resolveu discutir a nossa realidade. E nós, como estamos fazendo isso hoje?

Quer saber mais?

Visite o site da Enciclopédia de Artes Visuais do Itaú Cultural - aqui você poderá consultar textos e imagens a respeito de movimentos, artistas, eventos e outros ligados às artes Visuais no Brasil desde o século XIX até a contemporaneidade.

Visite o site do Museu de Arte Contemporânea da USP e conheça o projeto Arte do Século 20 - visitando o MAC na Web, você poderá encontrar além de gráficos que ilustram os movimentos e grupos artísticos do século XX no Brasil e no mundo, textos e imagens que poderão colaborar para o enriquecimento das aulas.

 

 

Consultoria Maria José Spiteri Tavolar Passos
mestre em Artes pela UNESP - SP, professora de Estética e História da Arte e Linguagem Visual na Universidade Cruzeiro do Sul e Escultura na Universidade São Judas Tadeu.

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