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Pequenos biólogos: investigação científica sobre insetos na pré-escola

Educadora Nota 10 de 2007 usa a curiosidade das crianças da pré-escola pelos insetos em projeto de iniciação científica.

Cristiane Maragon, de Rio Branco, AC

Bernadete ensina a turma a pesquisar, capturar os bichos e montar um insetário. Foto: Ricardo Labastier

COMO OS CIENTISTAS Bernadete ensina a turma a pesquisar, capturar os bichos e montar um insetário.
Fotos: Ricardo Labastier

 

O vai-e-vem das joaninhas no jardim da escola. As filas formadas pelas formigas no pátio. Os bichos voadores estranhos que de vez em quando cismam de entrar pela janela e perturbar o trabalho feito em sala. As crianças adoram os animais, que estão presentes em seu dia-a-dia, ao vivo ou no imaginário na forma de personagens de histórias ou desenhos animados. Por isso, querem sempre saber mais sobre eles. Formiga é inseto? Do que os cupins se alimentam? Onde moram os besouros? Perguntas como essas, feitas pela turma de 6 anos da EM Francisca Aragão Silva, em Rio Branco, motivaram Bernadete Rocha da Silva a desenvolver o projeto Bichos Esquisitos, em 2006. Trabalhar esse conteúdo com os pequenos da pré-escola não era novidade. Mas a professora queria que eles descobrissem mais do que os hábitos alimentares dos insetos: ela tinha certeza de que sairiam ganhando se aprendessem a observar, a pesquisar e a ter uma postura investigativa frente às questões que se colocavam.

Pelos objetivos claros e a condução bem feita dos procedimentos, Bernadete foi uma das vencedoras do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 de 2007. Conheça o trabalho de Bernadete, avaliado pela selecionadora Silvana Augusto, no quadro Palavra da especialista no final desta reportagem.

Revistas de Ciências deram suporte à busca de infoarmações sobre os pequenos animais. Foto: Ricardo Labastier
MATERIAL TEÓRICO
Revistas de Ciências deram
suporte à busca de infoarmações
sobre os pequenos animais

Aprofundamento teórico

Desde que começou a trabalhar em escola, aos 19 anos (leia mais sobre ela no final da reportagem), Bernadete acreditava que poderia oferecer propostas diferentes para os alunos. Foi o que ela fez com o projeto Bichos Esquisitos, mesmo sem ter formação em Ciências.

Primeiro, Bernadete precisava descobrir o que a turma já sabia sobre o tema. Reunidas em roda, as crianças deram diversas pistas: algumas afirmaram que a aranha era inseto e outras ficaram em dúvida sobre a borboleta, já que antes da metamorfose ela se apresenta como lagarta. Ela pediu então que todos desenhassem os bichos citados na conversa. Em algumas representações, as baratas surgiram com quatro pernas e as abelhas com duas. A professora observou então que faltava conhecimento sobre as características de alguns invertebrados.

Bernadete pediu ajuda à colega e bióloga Regiane Estevam de Souza para eleger quais seriam estudados. Os escolhidos foram abelha, barata, besouro, cigarra, cupim, formiga, grilo, libélula, mosca e piolho, por serem fáceis de capturar e não oferecerem perigo aos pequenos. Para guiar o estudo, Bernadete levou revistas especializadas, com muitas ilustrações, e dividiu a classe em agrupamentos produtivos, considerando os diferentes níveis de aprendizagem. Também criou fichas para serem preenchidas com dados sobre cada inseto. As atividades de leitura foram fundamentais na busca de informações.

Ao mesmo tempo em que recorria à especialista para pedir orientações, Bernadete pesquisava na internet e em livros científicos. Após 15 dias de estudos, as crianças sabiam que todos os insetos têm seis pernas e que o corpo é composto de cabeça, tórax e abdômen. Com esse conhecimento já era possível resolver a dúvida sobre a aranha. "Se ela tem oito pernas, então não é inseto", disse o menino Pedro Henrique Menezes de Oliveira. Assistir a desenhos animados e ler livros de literatura infantil na sala de aula ajudou a turma a perceber que nem sempre as ilustrações são fiéis à realidade. Geison Alves Arantes, por exemplo, notou que o desenho da abelha colado na porta da escola estava errado: "Ela não tem quatro pernas. O certo são seis".

A bióloga Regiane ensina como coletar insetos. Foto: Ricardo Labastier
AJUDA PROFISSIONAL
A bióloga Regiane ensina como
coletar insetos com o puçá

Pesquisa de campo

Em seguida, todos coletaram espécimes em casa e caçaram outros na escola com a ajuda de uma puçá - rede ou peneira em forma de cone usada na captura. Regiane ensinou a usar o objeto e alertou que é preciso pegar os animais com cuidado, pois muitos deles picam. A garotada recebeu doações de funcionários da escola, também envolvidos com a experiência. Cada amostra era colocada em potes de vidro com tampa furada e catalogada com o nome, a identificação de quem a caçou, a data e o local. A hora de fazer o insetário foi a mais entusiasmente. Regiane mostrou como matar os bichos, jogando algodão embebido em álcool no frasco: "Eles morrem com a evaporação do líquido". Apesar da expectativa, os pequenos não participaram da etapa da secagem. A professora, por sua vez, se deparou com algo inesperado. "Perdi a primeira leva por deixar tempo demais no forno", contou. Mas nada de desânimo! Outra caçada e novo processo de secagem. Na hora de transferir um por um para uma placa de isopor, muito cuidado para não danificar a estrutura física deles. Ela foi colocada dentro de uma caixa de papelão, pronta para ser exibida.

Bernadete ensinou a preparar os insetos com cuidado antes da secagem no forno. Foto: Ricardo Labastier
MOSTRUÁRIO REAL
Bernadete ensinou a preparar
os insetos com cuidado
antes da secagem no forno.

Muitos conhecimentos

Para avaliar a aprendizagem, Bernadete utilizou vários instrumentos. Um deles foi uma brincadeira parecida com a batata-quente: com o grupo em roda, um pote com diversas perguntas sobre os temas estudados passava de mão em mão. Quando a música parava, quem estava com ele pegava um papel e respondia à questão. Se não acertasse, tentava novamente. Outra estratégia era anotar os comentários feitos durante as aulas.

Com o insetário pronto e tantas informações novas reunidas, todos estavam aptos a apresentar o projeto na 8ª Mostra de Conhecimentos da escola. Para o evento, a turma foi dividida em grupos. Cada um adotou o nome de um dos animais estudados e elaborou cartazes explicativos, com muitas ilustrações. Bernadete organizou um livro coletivo com os desenhos e as produções escritas da garotada, que ficou em exibição durante o evento e foi consultado pelos pais e colegas, convidados para a exposição.

Comparação de desenhos feitos no início e no fim do projeto mostram a aprendizagem. Foto: Ricardo Labastier
SABER ADQUIRIDO A comparação de desenhos feitos no início e no fim do projeto mostram a aprendizagem

Quem é Bernadete

Bernadete Rocha da Silva nasceu em Sena Madureira, a 177 quilômetros de Rio Branco, mas com 5 anos mudou-se com a família para a capital do Acre. Começou o curso de Pedagogia aos 19 anos. Nessa mesma época, ingressou numa escola como auxiliar de limpeza e lá observava atentamente os professores e suas práticas. Ao terminar o Ensino Superior, foi aprovada em um concurso para a rede municipal de ensino.

Fez especialização em Educação e Trabalho e está na EM Francisca Aragão Silva há dez anos. De manhã, é coordenadora pedagógica. À tarde, assume uma sala de pré-escola, onde aplica a idéia de que não é preciso simplificar o conhecimento para ensinar crianças. Adora ficar em casa com a mãe, cozinhando ou lendo. Nas férias, sempre que pode, visita a irmã, a sobrinha e o cunhado, que moram na Holanda.

Palavra da especialista

Silvana Augusto, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, afirma que a disposição de Bernadete em pesquisar sobre um tema que não dominava foi fundamental para o sucesso do projeto. "Ela foi aprendendo ao mesmo tempo em que ensinava", afirma Silvana. Além disso, buscou ajuda de uma colega bióloga. "O trabalho de parceria revela que a professora tem consciência de que não é a detentora do saber, mas uma profissional disposta a crescer sempre." Durante todo o projeto, Bernadete colocou as crianças em contato com textos informativos e científicos, facilitando a aquisição de vocabulário a que elas dificilmente teriam acesso fora do contexto escolar.

Quer saber mais?

CONTATOS
Bernadete Rocha da Silva, bernadeterocha@uol.com.br
EM Francisca Aragão Silva, R. Conquista, 217, 69914-690, Rio Branco, AC, tel. (68) 3227-7744
Silvana Augusto, silvana_augusto@uol.com.br

BIBLIOGRAFIA
A Cigarra e A Formiga, Paul Beaupère e Valérie Videau, 32 págs., Ed. Escala Educacional, tel. (11) 3855-2201, 13,90 reais
Entomologia para Você, Messias Carrera, 185 págs., Ed. Nobel, tel. (11) 3706-1466 (edição esgotada)
A Joaninha, Eliardo e Mary França, 16 págs., Ed. Ática, tel. (11) 3990-2100, 16,90 reais

INTERNET
Em www.insecta.hpg.com.br/documentarios/voo.html, assista ao vídeo Vôo Unido, de Roberto Eizemberg

 

Nome não registrado - Postado em 09/04/2012 07:54:34

Realmente, devemos te em mente, quais insetos preservar?? É melhor preservar nossa saúde e nossa vida do que preservar alguns insetos que nos causam doenças e podem nos levar a morte... ...mas parabéns pela aula, é como vc diz é ensinando e aprendendo! Boa sorte e sucesso pra vc!

Fred Lima de Araujo - Postado em 02/03/2012 09:18:26

Minha Cara. Priscila!Claro que quando se trata de "matar os bichos" é algo muito delicado para se tratar com as crianças,precisa-se fazer uma contextualização encima do tema! Mas com relação a matança desses animais em si acho de suma importância para o conhecimento desses alunos,assim como entender melhor sua importância ecológica e evitar que ocorra uma matança em massa dessa biodiversidade!Abraços

Elisa Sampaio de Faria - Postado em 06/05/2011 20:03:37

Priscila, também tenho questões sobre a coleta de seres vivos. Mas devemos pensar também que esses alunos irão conviver com insetos de maneira totalmente diferente depois desse trabalho, no sentido da preservação!

Publicado em NOVA ESCOLAEdição 209, Janeiro 2008,

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