Revista do mês
Nova Escola
Assine Nova Escola
publicidade

Ler o que o corpo produz

Ao interpretar esportes, jogos, lutas e danças, a turma consegue entender como essas manifestações se inserem na cultura e cria diferentes maneiras de adaptá-las ao ambiente escolar

Paulo Gama

Página de > >|
=== PARTE 1 ====

À primeira vista, a necessidade de abordar a leitura em uma aula de Educação Física pode causar estranheza: será que o professor tem de trocar a ênfase no movimento e na vivência das práticas corporais pelos cadernos de esporte dos jornais e textos instrucionais próprios da área (regulamentos, súmulas e esquemas táticos)? "Muito pelo contrário", defende Marcos Garcia Neira, professor de Metodologia do Ensino de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP). "A ideia de ler na disciplina deve ter como foco as práticas corporais e a compreensão de seus gestos, que são o texto do corpo. Os gêneros verbais também têm seu lugar, mas como apoio ao entendimento do que os grupos produzem com o corpo." 

Sim, o corpo fala. Quando nos movimentamos, expressamos uma série de significados da cultura em que estamos inseridos. A interpretação desses sinais corporais é o eixo da leitura em Educação Física (leia o quadro abaixo). Alguns deles, com o passar do tempo, se tornam práticas organizadas e sistematizadas, obedecem a regras e são transmitidos de geração em geração. Transformam-se no que conhecemos como esportes, danças, lutas e brincadeiras. 

É a essas manifestações que você deve convidar a turma a lançar um olhar atento. O começo do trabalho passa pela escolha do texto - no caso da disciplina, uma prática corporal - a ser lido, como uma partida de vôlei (leia o infográfico). Segundo a perspectiva cultural, tendência dominante hoje no ensino da Educação Física escolar, todas as manifestações corporais expressam traços relevantes de uma cultura. Assim, atividades costumeiramente deixadas de lado pelas aulas tradicionais, como brincadeiras, danças e jogos praticados pelas famílias, se igualam aos esportes dominantes (leia a sequência didática). 

Uma opção interessante para essa eleição inicial é o chamado diagnóstico do patrimônio de cultura corporal da turma. Pergunte aos alunos que tipos de prática estão acostumados a fazer e quais jogos, esportes e danças são os preferidos de amigos e parentes. Para aprofundar a investigação, vale verificar o equipamento esportivo existente na comunidade (ginásios, academias, campos ou parques) e relacioná-lo às modalidades levantadas pela classe. 

A professora Jacqueline Martins lançou mão desse passo a passo com suas classes na EE Alcides da Costa Vidigal, na capital paulista. Observando a garotada do 5º ano durante os intervalos, percebeu que uma das brincadeiras mais populares na escola era o "três corta", em que os alunos em roda tocam entre si uma bola de vôlei e cortam no terceiro lance. Foi o gancho para explorar diversas formas da modalidade. No levantamento do conhecimento da turma, apareceu um rico repertório corporal: vôlei de praia, de quadra, biribol, "três corta", vôlei de terceira idade.

Gêneros privilegiados em Educação Física 

Linguagem Corporal
Na disciplina, o corpo é encarado como um suporte textual, que carrega a história e a cultura de um grupo social. Os gestos característicos de cada manifestação são o texto a ser lido, atividade realizada por meio da interpretação de uma série de códigos - não só biológicos mas também sociais e culturais. Além da leitura de movimentos em atividades reais à vista da garotada, você pode lançar mão de vídeos e filmes, usando sempre os recursos que a tecnologia oferece: retroceder ou congelar imagens, por exemplo, pode ser muito útil para a turma tirar dúvidas ou captar nuances da prática.

Texto Instrucional
Gêneros como regulamentos e regras de modalidades podem servir como apoio à leitura do movimento corporal, fornecendo elementos significativos para sua compreensão - o próprio fato de a prática ter um conjunto de normas formais já dá indícios sobre sua organização. Se o foco for o trabalho sobre a origem e as mudanças em uma modalidade, um bom recurso é recorrer a textos de sites da respectiva federação. Além do conjunto completo de regras, as entidades costumam oferecer também relatos históricos, possibilitando pesquisas sobre o surgimento da prática, o gênero e a classe social predominante na atividade.

Da tela ao caderno

Foto: Marcos Rosa
Foto: Marcos Rosa
Na EE Alcides da Costa Vidigal, a garotada do 5o ano analisa e registra as principais características do vôlei

PONTUAÇÃO 
Nos quatro primeiros sets, o time precisa de 25 pontos para vencer. No quinto e decisivo, bastam 15

UNIFORME
A cor distingue as equipes e o líbero, que pode trocar de lugar com outro jogador
 
JARGÃO
A nomenclatura usada pelos comentaristas da TV ("rali", "ace", "tie-break") é anotada e, depois, explicada à classe pela professora

RODÍZIO
O deslocamento obrigatório em sentido horário a cada ponto levanta a dúvida: "Na escola, devemos usar a mesma regra?"

TIPO FÍSICO
Características como a altura da rede e jogadas como a cortada fazem com que os jogadores altos e fortes levem vantagem

LISTA
A enumeração dos aspectos mais importantes em frases curtas é o recurso para registrar o essencial do jogo e compará-lo, posteriormente, com variações da modalidade

• O tempo técnico serve para o técnico orientar o time e para os jogadores descansarem;

• Os jogadores que estão na defesa não podem pisar na linha dos 3 metros quando forem atacar;

=== PARTE 2 ====
=== PARTE 3 ====
=== PARTE 4 ====
 

Continue lendo a reportagem

Gostou desta reportagem? Assine NOVA ESCOLA
e receba muito mais em sua casa todos os meses!

Comentários
Página de > >|

 

Publicado em , Janeiro 2010,
Assine já a sua revista!
Nova Escolar
  Patrocínio     Edições SM

Fundação Victor Civita © 2013 - Todos os direitos reservados.