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ESCREVENDO COM... MARCELO DUARTE

A Mulher Que Falava Pára-Choquês

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Cada um tinha um jeito de fazer o tempo passar mais depressa. Dirce ficava seis horas espremida em uma das cinco cabines do pedágio no quilômetro 54. A rodovia não era das mais movimentadas. Às vezes, havia intervalos de meia hora entre um veículo e outro. Valia tudo para se distrair: walkman, romances bem melosos, palavras-cruzadas... A moça preferia criar passatempos. Quando o carro se aproximava, lá longe, ela tentava adivinhar quantas pessoas havia dentro. Em dias de pouco movimento, ficava empilhando as moedinhas de troco. Apesar da reclamação dos motoristas, torcia para nunca arredondarem o preço do pedágio. Essa era a rotina dela.

A vida mudou mesmo no dia em que foi escalada para ficar na cabine que atendia os veículos mais pesados. Quando o primeiro caminhão passou, ela reparou na frase escrita na parte de trás: "Nas curvas do teu corpo, capotei meu coração". Dirce achou aquilo engraçadinho. Deu um sorriso e ficou repetindo mentalmente a frase. Veio outro caminhão com outra frase. Mais um e mais um pára-choque. Ao chegar em casa, porém, só conseguiu se lembrar de duas ou três. Foi assim que teve a idéia de levar um caderno de brochura para a cabine do pedágio no dia seguinte.

Ela começou a anotar as frases dos caminhões que atendeu naquele dia: "Marido de mulher feia tem ódio de domingo e feriado", "Ladrão em casa de pobre só leva susto", "70 me passar, passe 100 atrapalhar". Com o tempo, todos já a esperavam com as anotações, que ia lendo durante o jantar. Ninguém sabe precisar o dia em que as frases começaram a ser incorporadas nas conversas de Dirce como se fossem dela. Primeiro com as amigas:
- Sabia que a Mirtes está de caso com o filho do dono da mercearia?
- "As mulheres perdidas são as mais procuradas".

Na fila do supermercado:
- "Pobre só come carne quando morde a língua".

Ao abrir o contra-cheque no trabalho:
- "Dinheiro de pobre parece sabão; quando pega, escorrega da mão".

No começo, as frases de pára-choques de caminhão eram colocadas no meio da conversa. Depois passaram a ser as únicas coisas ditas por Dirce. Até em momentos românticos, como na tarde em que ficou a sós com o noivo:
- Decidi: quero me casar com você. Aceita?
- "O amor é como a guerra: depois de declarado, não há mais paz". Era o jeito de dizer sim.

Os dois se casaram algum tempo depois (o padre quase parou a cerimônia, pois, no altar, a noiva soltou: "Se casamento fosse bom, não precisaria de testemunhas"). Tiveram três filhos. "Casamento é o fim das criancices e o começo das criançadas", comentou. Dirce ganhou fama. Ficou conhecida como "a mulher que falava pára-choquês". Uma emissora de TV da capital veio entrevistá-la. E não havia pergunta que ela não respondesse com uma frase de pára-choque.
- Você nunca pensou em ter um caminhão? - perguntou a repórter.
- Não, não... "Motorista é igual bezerro: só dorme apertado".

E assim, de frase em frase, ela virou uma celebridade. Até que...

(SEGUNDA PARTE)


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