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Televisão: Consumo

A moda é ser ''rebelde''

Novela mexicana sobre grupo de jovens que formam uma banda é a mais nova mania entre crianças e adolescentes - você pode usar isso na escola para provocar boas discussões com turmas a partir da 4ª série

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Ricardo Benichio

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Alunos da Escola Manoel Moratto, vestidos como os ídolos: uniforme é liberado às sextas-feiras

De tempos em tempos, eles aparecem. Velozes e fulminantes, os modismos tomam salas de aula e pátios para depois sumirem sem deixar rastros. Foi assim com os Tamagochis - bichinhos virtuais -, o desenho e os produtos Pokemón, os cards Yu-Gi-Oh e o pião Beyblade. Agora é a vez da novela mexicana Rebelde, veiculada pelo SBT, dominar a atenção de crianças e adolescentes. Professores e pais podem lidar de modo proveitoso com essas manias periódicas e ganhar experiência para quando vier a próxima. Além disso, é bom lembrar que nem tudoo que faz sucesso é necessariamente descartável. Alguns programas conquistam a criança sobretudo pela inteligência (leia o quadro O outro lado da TV ao lado).

No caso de Rebelde, o consumo fala mais alto. As lojas estão atoladas com produtos relacionados à novela e à banda RBD, que saiu da ficção para as paradas de sucesso e shows lotados de fãs. CDs, DVDs e álbuns de figurinhas disputam a atenção da garotada. É claro que tudo acaba dentro da sala de aula. "As crianças só querem saber de trocar figurinhas", conta a professora de 4ª série Sueli Novais, da Escola Manoel Moratto, em Osasco (SP). "Sem falar nos apelidos, que reproduzem na classe os personagens da novela." Já na 6ª série, os reflexos da trama são um pouco diferentes. "Os alunos, principalmente as meninas, querem substituir o uniforme escolar pelo que é utilizado na televisão", diz a diretora pedagógica, Cristiane Semenssato.

Para resolver a situação, a saída foi negociar os pedidos dos estudantes dentro de certos limites. Figurinhas podem ser trocadas, mas só depois das atividades. E os uniformes estão liberados apenas às sextas-feiras, quando cada um pode ir vestido como quiser. Sabrina Canutti, 12 anos, pintou até os cabelos para ficar igual a Roberta, uma das protagonistas de Rebelde. "Eu gosto porque é uma novela jovem, que mostra as situações do dia-a-dia", diz a garota da 6ª série.

Para absorver, em parte, o impacto que o programa vem causando em seus alunos, a EM Dom Pedro I, no Rio de Janeiro, criou uma ponte entre os interesses da turma e o conteúdo escolar. Além de andarem às voltas com figurinhas e CDs, as crianças passaram a se sentir mais atraídas pelas aulas de Espanhol. "Uso as músicas do RBD para treinar pronúncia e vocabulário. Os alunos se mostram mais participativos", diz a professora de 6ª série Vânia Vieira Leite.

Além de negociar tempo e espaço para a diversão com a trama mexicana, é interessante pôr a turma para pensar sobre essa febre. Os temas da televisão podem motivar boas discussões em classe (leia o quadro abaixo). "Vale até levar vídeos curtos para os alunos assistirem e comentarem", aconselha Heloísa Penteado, professora aposentada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Maria Thereza Fraga Rocco, da mesma faculdade, afirma que a reflexão deve partir também dos educadores: "Eles precisam refletir sobre a mídia e conhecer o que faz sucesso entre os estudantes para lidar com os modismos."

Os pais se preocupam

Se na escola o fenômeno Rebelde chama a atenção, em casa a situação é ainda mais impressionante. A paulistana Sônia Maria Barbosa, mãe de Mayara, 10 anos, perde a paciência diante da paixão que a filha sente pela novela. "Além de participar do fã-clube, ela mudou até os gestos e o jeito de falar", comenta. Mayara, aluna de 4ª série da EM Armando de Arruda Pereira, em São Paulo, leva seus CDs para ouvir na aula de Educação Artística. "Acho interessante o jeito dos adolescentes da novela, principalmente como eles agem nos conflitos com os pais", explica.

Não há motivo de preocupação - quem não se lembra do sucesso dos Beatles na década de 1960 e dos Menudos nos anos 1980? "Esse tipo de modismo exerce uma influência rápida e pontual. O que realmente faz a diferença no caráter da criança ou do adolescente é a educação recebida nos grupos sociais aos quais ela pertence", afirma Maria Thereza. E aí entram a família e a escola, que devem estar preparadas para conhecer e discutir o universo dos pequenos. "É essencial compreender por que eles gostam da novela e acham as personagens tão interessantes", completa Heloísa.

Na telinha

Aventuras numa escola de elite

Divulgação

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Com média de 14 pontos de audiência na Grande São Paulo e exibição em 65 países, Rebelde faz o maior sucesso entre a garotada de 9 a 14 anos. Os protagonistas da novela são os integrantes da banda RBD, que chegaram ao estrelato por meio de supostas atitudes de rebeldia, como enfrentar os obstáculos que os pais e a direção da escola tentam impor. Eles se dividem entre a fama e o cotidiano no Colégio Elite Way, no México, onde passam pelos conflitos típicos da adolescência, relacionados a sexo, drogas, relação com os pais eincertezas quanto ao futuro. A fórmula é bem conhecida, com ênfase na aparência dos personagens.

As meninas, vestidas com gravatas desalinhadas e botas de cano alto, têm um toque acentuado de sensualidade.

Como o próprio nome da escola indica, os protagonistas são de classe média alta e vivem às voltas com laptops, celulares de última geração e viagens para o exterior. Um núcleo de bolsistas de origem pobre responde por parte dos conflitos da trama.

Sala de aula

Como usar os modismos a favor da Educação

Busque compreender o que está fazendo a cabeça dos estudantes e, com base nisso, levante tópicos de discussão em classe. Vale mostrar trechos do programa para estimular a reflexão sobre os modismos.

Não rotule os programas. Reflita sobre a questão e vá na contramão do senso comum. Em vez de dizer que a novela é sem sentido, procure identificar os aspectos que atraem a atenção da garotada.

Faça concessões, mas estabeleça limites. Se os alunos querem levar CDs e figurinhas de seus ídolos para a escola, não há problema. É só definir local e horário adequados para utilizá-los.

Ajude os alunos a distinguir a realidade da fantasia. No caso de Rebelde, isso é essencial porque um elemento importante da trama - a banda RBD - transita entre a ficção e a vida real.

Explique a diferença entre consumo e consumismo. Construa os conceitos e mostre que um é positivo e o outro negativo.

Refletir sobre os modismos...

Estimula o senso crítico.

Aproxima o cotidiano do que é ensinado em sala de aula.

Contribui para o aluno se sentir compreendido pela escola.

O outro lado da TV

O programa Cocoricó, da TV cultura de São Paulo, tornou-se um sucesso inesperado entre as crianças em torno de 6 anos.

A emissora vendeu, no ano passado, 216 mil unidades de DVDs do programa, enquanto o mais recente da apresentadora Xuxa atraiu 100 mil compradores.

As histórias de Cocoricó são contadas com bonecos e passam-se numa fazenda.

Os personagens são um menino, Júlio, e vários animais, em destaque para uma animada turma de galinhas.

Por trás das histórias entremeadas de números musicais, há claras intenções educativas, com ênfase nos valores da amizade e da sociabilidade.

Quer saber mais?

Contatos

Escola Manoel Moratto, Av. São José, 279, 06283-120, Osasco, SP, tel. (11) 3686-9501

EM Dom Pedro I, Praça Soldado Geraldo Crus, 50, 22620-230, Rio de Janeiro, RJ. tel. (21) 2494-2281

Bibliografia

Mídia e Educação, Vera Lúcia Follain, 172 págs., Ed. Gryphus, tel. (21) 2533-2508, 33 reais

Revista Comunicação e Educação/ECA-USP, Ed. Paulinas, tel. (11) 3106-4418, 14 reais

Televisão e Escola: Conflito e Cooperação?, Heloísa Penteado, 175 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3864-0404, 21 reais


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