Ocimara Balmant e Frances Jones

Se você trabalha em uma creche, é bem provável que já tenha visto uma cena como esta: um bebê tenta pegar a ilustração de um gato da mesma forma como o faria com um bicho de verdade. Isso não ocorre por acaso. Os pequenos demoram certo tempo para descobrir que a foto de uma boneca não é um brinquedo de plástico ou de pano, mas a representação dele. "Isso é comum com fotos de alimentos, que eles levam à boca, e de pessoas conhecidas, às quais mandam beijos", atesta Leila Oliveira de Lima, coordenadora pedagógica do CEI Neide Ketelhut, em São Paulo.
Estudos indicam que crianças com menos de 1,5 ano são capazes de reconhecer rostos e coisas em imagens. Com essa idade, elas diferenciam o objeto da representação dele, mas não sabem muito bem a natureza dessa diferença. Não é difícil uma criança de 2 anos achar que o desenho de um sorvete, por exemplo, seja gelado ou que da imagem de uma flor emane um aroma agradável. As pesquisadoras norte-americanas Judy S. DeLoache e Nancy M. Burns, da Universidade de Illinois, verificaram que um grande salto no desenvolvimento se dá entre os 2 e os 2,5 anos. A partir daí, os pequenos aprendem melhor o significado das imagens e que elas são objetos de "contemplação", e não de "ação".
As estudiosas defendem que, por meio da experiência com as imagens - como em sessões de leitura de livros infantis com adultos ou crianças maiores --, os bebês protagonizam duas conquistas: passam a entender as peculiaridades e limitações dos objetos bidimensionais e começam a aprender como as imagens são usadas. Com a leitura, os pequenos são apresentados a diversas formas de representação, em que o grau de realismo varia bastante. O desenho de um cachorro, por exemplo, pode ser muito parecido com o de um bicho que a criança já viu, mas também pode aparecer verde, com pernas de madeira e grandes olhos de bola de gude.
A literatura é o lugar do imaginário e não tem problema o cachorro ou o pássaro do livro apresentado não ser semelhante aos animais de verdade. "Mesmo porque, até na representação bidimensional que segue o conceito real e convencional, o desenho não é igual. É interessante que se mesclem as duas formas", afirma a pedagoga Ana Flávia Alonço Castanho, formadora de professores da rede municipal de São Paulo.
A leitura não deve ser feita sem intencionalidade. "É importante o professor saber do conceito de bidimensionalidade porque ele precisa apresentar aos pequenos diferentes formas de representação. Assim, eles estabelecem o máximo de relações possíveis com base na imagem de um livro", diz Cisele Ortiz, coordenadora adjunta do instituto Avisa Lá.
A imagem do livro infantil tem peso igual ao do texto, segundo a assessora pedagógica de formação docente de redes municipais Denise Guilherme. "O texto visual não deve ganhar importância maior nem menor do que o escrito", diz a especialista. "Nos bons livros, um está a serviço do outro."
A linguagem visual das publicações pode ser trabalhada nas creches de diversas formas. Denise recomenda aos educadores que primeiro procurem conhecer o universo da literatura infantil para que possam fazer boas escolhas. Apenas imagens bonitas não bastam. "É preciso analisar o que e como está desenhado e a intenção do ilustrador."
Para os bebês, que estão iniciando seu contato com o universo da literatura, as ilustrações permitem uma interação mais direta. "A imagem é fundamental porque contextualiza a história. O bebê enxerga o enredo com base nela", diz Creuza Prates Soares, coordenadora pedagógica do Berçário Municipal Mãe Cristina, em Marília, a 426 quilômetros de São Paulo. Lá, ela criou uma bebeteca para as 107 crianças entre 4 meses e 2 anos que frequentam o local. Cada aluno tem sua carteirinha e, nos fins de semana, leva um livro para casa. O objetivo é que também os pais se habituem à leitura.
Os erros mais comuns
Deixar os livros inacessíveis às crianças. Os bebês precisam de tempo para apreciar as ilustrações das publicações disponíveis em sala. Deixe que eles manuseiem pelo menos alguns dos exemplares.
Atrelar a leitura a outras atividades. Não é necessário vincular a observação das imagens a atividades como o desenho.
Banalizar a riqueza das imagens. Evite identificar, nomear e comentar cada um dos elementos da imagem para não simplificar a apreciação da ilustração como um todo.
Fonte Maria Slemenson, assistente de coordenação pedagógica da Fundação Victor Civita (FVC)
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