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Os impactos da extinção de espécies na cadeia alimentar

Mostrar a interdependência entre os seres vivos é o primeiro passo para ajudar a classe a entender o desequilíbrio ambiental causado pela extinção de espécies

Fernanda Salla

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=== PARTE 1 ====
OBSERVAÇÃO ATENTA Alunos da EMEF Laura Suriani Barbuio analisam durante a aula um lobo-guará empalhado Foto: Raoni Madalena
OBSERVAÇÃO ATENTA Alunos da EMEF Laura Suriani Barbuio analisam durante a aula um lobo-guará empalhado

Nos primeiros anos escolares, as crianças aprendem sobre o ciclo de vida dos animais. Nessa fase, o professor deve começar a ampliar a visão dos alunos sobre a relação entre as espécies, mostrando que há uma ligação entre elas e com o meio ambiente. "É importante mostrar do que se constituem os seres vivos e que eles dependem uns dos outros para realizar suas funções vitais", explica Priscila Melo, psicóloga educacional especialista no Ensino Fundamental 1 e coordenadora da Sangari Brasil.

Uma das formas de fazer isso é apresentar o conceito de cadeia alimentar e os impactos de qualquer alteração nela, como a extinção de uma espécie (veja sequência didática). No Brasil, há pelo menos 627 animais ameaçados de extinção, segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA).

Atualmente, 16.119 espécies são consideradas em perigo em todo o mundo. Diferentemente da extinção dos dinossauros, 65 milhões de anos atrás, o desaparecimento das espécies atuais é provocada essencialmente pela ação humana. A atual taxa de extinção das espécies, causada pelo homem, é estimada como mil a dez mil vezes maior do que a taxa natural de amortização, ou seja, a morte de uma espécie causada exclusivamente por fatores naturais.

As espécies deixam de existir por diversos motivos, mas sobretudo devido à fragmentação do habitat, ou seja, quando a devastação das florestas e matas acaba criando bolsões isolados de fauna e flora. "A mata Atlântica original, por exemplo, era uma linha contínua do Norte ao Sul do Brasil. Com a ocupação humana, tiramos muito dessa floresta e o que restou hoje está dividido. Os bichos ficam isolados em bolsões de mata e, com isso, não há reprodução entre os animais de regiões diferentes. Isso faz com que os mais sensíveis acabem desaparecendo", diz José Sabino, doutor em Ecologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo, e biólogo da Universidade Anhanguera, em Mato Grosso do Sul. Além disso, temos caça, poluição, tráfico de bichos silvestres e a introdução de animais exóticos pelo homem, que não pertencem originalmente ao habitat.

=== PARTE 2 ====

As consequências extrapolam o simples desaparecimento de uma espécie

TRABALHO EM ETAPAS Pesquisa, visita de campo, estudo em sala e produção <i>(da esq. para a dir.)</i> são eixos do projeto Foto: Raoni Madalena
TRABALHO EM ETAPAS Pesquisa, visita de campo, estudo em sala e produção (da esq. para a dir.) são eixos do projeto

Há exemplos de espécies ameaçadas em diversos biomas brasileiros e as consequências da extinção extrapolam o simples desaparecimento. Quando ocorre a diminuição ou extinção de uma determinada população, geralmente temos a diminuição de indivíduos que se alimentam dessa população e o aumento do número de organismos que serviam de alimento para ela.

Outros desdobramentos podem ser mencionados. Muitos pássaros e insetos contribuem para a polinização de plantas, garantindo a reprodução desses vegetais até mesmo em outros continentes. Caso eles sejam extintos, o processo será interrompido. "Por isso, a degradação de um ambiente a quilômetros de distância de outro preservado pode acarretar no desaparecimento dos dois ecossistemas", explica Fátima Roberti, bióloga chefe da Divisão de Ensino e Divulgação do Zoológico de São Paulo.

Na mata Atlântica, a dispersão de sementes do jatobá é feita por roedores, que conseguem romper a casca do fruto. Esse processo permite a germinação e a continuidade da espécie. Caso esses roedores diminuam, alguns morcegos, que se alimentam do néctar do jatobá, também podem desaparecer. Já no cerrado existe uma ave chamada curicaca, que come gafanhotos, aranhas, centopeias e ratos, entre outros animais. Se as curicacas desaparecerem, haverá um descontrole biológico, já que pequenas espécies nocivas poderão destruir plantações. Devido ao manejo inadequado dos habitats, a quantidade de manduvi (ou amendoim-de-bugre), árvore do Pantanal, vem diminuindo. Isso afeta a população de araras-azuis, pois quase todos os ninhos da ave são abrigados nas cavidades existentes nessa árvore.

=== PARTE 3 ====

Animais ameaçados são o ponto de partida para o aprendizado

Conhecer diferentes espécies e aprender sobre a relação de interdependência entre elas são conhecimentos importantes nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Esse aprendizado também facilita, mais tarde, a compreensão sobre biomas, conteúdos ensinados do 6º ao 9º ano (veja série especial de sequências didáticas sobre Biomas Brasileiro). "Esse trabalho com os alunos tem como objetivo principal fazer com que eles relacionem o respeito pelo ser vivo com a preservação de seu habitat. Uma forma de promover essa compreensão é reconhecendo o impacto da interferência humana na sobrevivência de espécies", diz a especialista Pricila Melo.

Na EMEF Laura Suriani Barbuio, em Santa Rita do Passa Quatro, a 249 quilômetros de São Paulo, a professora Olga Garcia desenvolveu com suas turmas de 3º ano um projeto de trabalho em três etapas, que começou com uma sondagem sobre as espécies mais conhecidas pelas crianças. "Percebi que era importante mostrar a fauna brasileira, que a maioria não conhecia. Muitos desses animais estão em risco de extinção", diz Olga. A turma leu materiais sobre o desaparecimento das espécies em sala e na biblioteca, tudo selecionado pela professora. Também pesquisou sobre o tema em livros, revistas e jornais.

Em seguida, visitou o Parque Estadual da Vassununga, nos arredores da cidade, onde Olga mostrou animais que correm risco de extinção, como a onça-parda, o lobo-guará e o macaco-prego. Ela também explicou sobre os hábitos alimentares desses animais e o conceito de cadeia alimentar. De volta à classe, a docente retomou os temas abordados na visita e as crianças produziram fichas informativas sobre os animais em extinção que tinham conhecido. O material foi compilado e se transformou em um guia para os visitantes do parque. "Assim, a turma entendeu a relação de interdependência entre as espécies existentes."

Reportagem sugerida por uma leitora: Karla Andrea Cândido Rego Soares, Ji-Paraná, RO

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 237, Novembro 2010. Título original: Relação em cadeia
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