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O barato do clube de Ciências

É fácil montar um. Basta juntar alunos, professores e pais e criar projetos que relacionem o conhecimento ao dia-a-dia

Ricardo Falzetta

Eunice Gavioli e os alunos, que construíram a maquete de um foguete: projeto para colonizar Marte deu origem ao clube da Escola Moppe, de São José dos Campos. Foto: Gustavo Lourenção
Eunice Gavioli e os alunos, que 
construíram a maquete de um foguete: 
projeto para colonizar Marte deu origem 
ao clube da Escola Moppe, de São José 
dos Campos. Foto: Gustavo Lourenção

Durante as décadas de 1960 e 1970, muitas escolas brasileiras montaram clubes de Ciências. Na época os professores estavam preocupados em mudar o ensino da disciplina para atender aos rápidos avanços tecnológicos. "O objetivo era formar pequenos cientistas e a ênfase era o trabalho no laboratório", lembra-se o professor Ivan Amorosino do Amaral, do grupo Formar Ciência, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas.

De lá para cá a realidade mudou muito — e os clubes de Ciências também. Hoje o que importa é relacionar os conteúdos ao cotidiano dos estudantes e às outras áreas do conhecimento. Assim funciona o clube da Escola Moppe, de São José dos Campos (SP). Lá o laboratório não é o centro das atenções. Mais vale estimular a criatividade, envolvendo professores de várias áreas, alunos e familiares dispostos a levar para a sala de aula um pouco de sua experiência de vida. "O ideal é que a iniciativa esteja prevista no projeto pedagógico, contendo objetivos, metodologia, cronograma e recursos necessários", acrescenta Jorge Machado, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Pará.

Se você se interessou pela idéia, não hesite em pedir ajuda. Há centros de estudo com os quais você pode se corresponder e pedir sugestões (veja indicações no final desta reportagem).

A escola vai a Marte

São José dos Campos, no interior de São Paulo, é a capital científica do Brasil. Na cidade funcionam o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a Embraer e outras empresas nas quais a tecnologia de ponta é marca. Esse ambiente privilegiado acabou "contaminando" a Escola Moppe, que há cinco anos mantém um clube de Ciências.

Os fundadores são alunos, professores e pais, como Carlos Alexandre Wuensche, cientista como vários outros. Todos se reuniram em torno do projeto Colonizando Marte. Na época, a Nasa, agência espacial norte-americana, desenvolvia programas de exploração do planeta vermelho.

A possibilidade de mesclar ficção e conhecimento seduziu um grupo de estudantes de 3ª a 8ª série. Como uma viagem tripulada a Marte é ainda pouco provável, o trabalho tinha tudo para não sair dos limites do laboratório — como nos antigos clubes de Ciências. Os aspectos humanos e sociais, no entanto, também foram privilegiados.
A garotada aprendeu conceitos científicos e matemáticos e avançou em discussões sobre a formação de uma nova sociedade. Quem seriam os primeiros a viajar para Marte? Quais deveriam ser as preocupações relativas à preservação do meio ambiente? Naturalmente apareceu a ligação com o cotidiano da turma. A coordenadora pedagógica Simone Estácio explica: "Os temas abordados fizeram os alunos pensar em como anda nossa sociedade aqui na Terra".

As atividades do Colonizando Marte duraram quase três anos. Divididos em cinco grupos, os alunos se embrenharam em conceitos matemáticos e científicos de ponta. A astronáutica entrou no cálculo da melhor data para o lançamento do foguete (por mais que ninguém tivesse a pretensão de viajar, de fato). As noções de empuxo foram aprendidas ao calibrar, em escala reduzida, a potência do propulsor do veículo. E vários conceitos de Biologia e Química entraram em cena para realizar a eletrólise da água (gerando oxigênio e hidrogênio). Por fim, todos tiveram noções de eletricidade com a montagem de um painel solar para fornecer energia à espaçonave.

Os resultados foram apresentados em feiras de Ciências na própria cidade e a Moppe acabou selecionada para as edições de 2000 e 2001 da SBPC Jovem, evento paralelo às reuniões anuais da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, realizadas em Brasília e Salvador.

Maquete da nave: projeto une conceitos científicos, matemáticos e humanos
Maquete da nave: projeto 
une conceitos científicos, 
matemáticos e humanos
Móbile: com o aparelho, se determina a melhor data para o início da viagem
Móbile: com o aparelho, se 
determina a melhor data 
para o início da viagem

Propulsor: na calibragem, noções de empuxo e do princípio de ação e reação
Propulsor: na calibragem, 
noções de empuxo e do 
princípio de ação e reação
Painel solar: a energia luminosa é transformada em energia elétrica
Painel solar: a energia 
luminosa é transformada 
em energia elétrica

Duas dicas

Nem só os pais que trabalham em empresas de tecnologia são bem-vindos no clube de Ciências. Agricultores podem contribuir com informações para conhecer as plantas ou a composição química do solo. Metalúrgicos trazem sua experiência sobre o funcionamento de máquinas ou robótica.

Na hora de escolher os temas de estudo, o próprio ambiente em torno da escola é uma boa fonte de idéias. A transformação do lixo em adubo, por exemplo, pode virar um curso de Química.

Projetos variados

Na Escola Moppe, o tecnicismo é evitado a todo custo nos projetos. O barato é criar situações que tenham ligação com a realidade da turma e sejam ao mesmo tempo curiosas e estimulantes. Confira aqui exemplos de como fazer do clube de Ciências um espaço de experimentação e diversão.

1. Enquanto descobriam o poder dos ventos como forma de energia alternativa, os sócios do clube construíram um carro movido a vela.

2. Para estudar formas alternativas de transporte, os alunos montaram o protótipo de um veículo flutuante (em inglês, hovercraft). 

3. Uma estação meteorológica (fotos) está sendo construída na escola. "Queremos mostrar a relação entre as ações do homem na natureza e o clima", diz Eunice Gavioli, que coordena o grupo.

Pluviômetro: indica a intensidade da chuva
Pluviômetro: indica a 
intensidade da chuva
Biruta: determina a direção dos ventos
Biruta: determina a direção 
dos ventos
Barômetro: mede a pressão atmosférica
Barômetro: mede a pressão atmosférica

Como montar um clube

Geralmente o clube de Ciências funciona em horários alternativos e reúne estudantes de várias classes. Temas de estudo precisam ser claramente definidos para que os interessados se habilitem. Por mais informal que seja o clube, é bom manter um mínimo de organização. Uma ficha de inscrição dá conta do "quadro social". As atividades devem ser abertas a todos, mas recomenda-se a divisão por grupos: 1ª a 4ª série e 5ª a 8ª. "No nosso primeiro ano as crianças trabalhavam todas juntas e logo percebemos que as expectativas são diferentes", relata a professora Eunice Gavioli, da Escola Moppe, em São José dos Campos. "As mais novas têm menos paciência, querem projetos de resposta mais rápida." O ideal é que os conteúdos não sejam completamente independentes do que é ensinado em sala de aula, o que pode significar alguma adaptação do currículo. "A simples discussão de um novo projeto gera um tititi muito saudável na turma toda", garante Eunice. Ou seja, é uma boa chance de estimular a troca de informação entre os sócios do clube e os demais colegas.

Mito

Para montar um clube de Ciências, a escola precisa ter um bom laboratório, certo? Errado. Durante anos essa foi uma crença difundida. A realidade mostra que ela não é verdadeira. De que adianta ter equipamentos e não relacionar os conteúdos aos temas do cotidiano? Por isso, o que realmente importa é o foco na criação de projetos que interessem aos alunos.

O professor Jorge Machado classifica esse trabalho de educação científica. "Ao montar um clube, tome como base o trinômio ciência-tecnologia-sociedade. Não faz diferença ter acesso a um laboratório, porque as questões científicas não estão isoladas do contexto social, político e econômico dos estudantes." Ou seja, muito mais importantes do que a infra-estrutura são os objetivos de uma atividade como essa.

Quer saber mais?

CONTATOS
Escola Moppe
, Av. Lineu de Moura, 1655, 12244-380, São José dos Campos, SP, tel. (12) 3949-1404
Estação Ciência da Universidade de São Paulo, R. Guaicurus, 1394, 05033-002, São Paulo, SP, tel. (11) 3673 7022, fax (11) 3673-2798, agendamento de visitas pelos tels. (11) 3672-5364 e 3675-6889
Grupo de Pesquisas Formar Ciências da Universidade Estadual de Campinas, Cidade Universitária Zeferino Vaz, Barão Geraldo, cx. p. 6120, 13083-970, Campinas, SP, tel. (19) 3788-5582, e-mail: formar@unicamp.br
Jorge Machado, e-mail: jmachado@ufpa.br, internet: www.ufpa.br/eduquim
Núcleo de Apoio Pedagógico ao Desenvolvimento Científico da Universidade Federal do Pará, Campus Universitário do Guamá, Av. Augusto Corrêa, 1, 66075-110, Belém, PA, tels. (91) 211-1487/1642, e-mail: npadc@ufpa.br 

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 162, Maio 2003,
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