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Ana Maria Espinoza: "É essencial ensinar a ler textos de Ciências"

Para a pesquisadora argentina, pedir apenas que a turma leia e responda questões sobre um tema não contribui para a aprendizagem

Roberta Bencini

Ana Maria Espinoza. Foto: Raquel Espírito Santo
Ana Maria Espinoza

Os estudos dessa química argentina que se especializou em Educação têm chamado a atenção de professores de diferentes áreas. Ana Maria Espinoza articula conhecimentos de didática da leitura e de Ciências Naturais para explicar que é possível melhorar a aprendizagem dos alunos na disciplina ao oferecer-lhes textos expositivos. Há mais de 15 anos, ela deixou as salas de aula em Buenos Aires para se dedicar à pesquisa científica ao lado de sua compatriota Delia Lerner, conhecida internacionalmente pelos estudos em didática da leitura, escrita e Matemática. Em 1996, Ana Maria foi chamada ao Brasil para ser consultora dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Ciências, lançados no ano seguinte. E, há dois meses, foi convidada a abrir a Semana Victor Civita de Educação, que foi realizada de 16 a 18 de outubro em São Paulo. Nesta entrevista, concedida a NOVA ESCOLA durante o evento, ela explica algumas das conclusões do estudo A Leitura em Ciências Sociais e Naturais: Objeto de Ensinamento e Ferramenta de Aprendizagem, realizado na Universidade de Buenos Aires por uma equipe interdisciplinar. A principal delas é que é essencial ter um propósito leitor antes de sugerir uma leitura à turma. Outra: os estudantes nem sempre entendem aquilo que os professores supõem que estejam ensinando. "É preciso investigar em diferentes situações didáticas os conceitos elaborados pelos alunos e como eles estão construindo o conhecimento. Só assim se consegue avançar na aprendizagem e nas leituras", afirma a pesquisadora.

Por que os textos científicos são considerados difíceis?
Ana Maria Espinoza A interpretação de um texto está condicionada ao conhecimento prévio do leitor. E ele o considera difícil se não tem familiaridade com o tema. Independentemente do grau de dificuldade, os textos científicos trazem novas idéias e conhecimentos que precisam ser tratados em sala de aula.

Seus estudos se baseiam na resistência de estudantes e educadores em lidar com escritos da área. Por que você acredita que isso ocorre?
Ana Maria A interpretação não é uma tarefa simples. Os escritos abordam mais de um conteúdo e muitas vezes não se conhecem e se dominam todos. Diante da dificuldade, não podemos afirmar que os estudantes e os mestres sejam burros ou os textos ruins. A complexidade está diretamente relacionada às situações de leitura a que eles estiveram expostos ao longo da vida. Sempre que se apresenta um conteúdo novo, é natural que haja dificuldade em entender não porque o texto seja complexo, mas porque o conteúdo é desconhecido. É preciso renovar as situações de leitura em sala de aula. Pedir à turma que leia um texto em casa e em seguida responda a algumas perguntas não ajuda na aprendizagem.

Mas é isso o que grande parte dos professores faz...
Ana Maria Porque esse procedimento está enraizado na escola. Questionários não ajudam a interpretar nem favorecem a construção de um leitor crítico e autônomo. Outras intervenções didáticas, principalmente as que envolvam problematizações, são mais adequadas.

Qual a melhor maneira de utilizar os textos científicos em sala de aula?
Ana Maria Digo sempre: só se aprende a ler lendo! Para formar um leitor crítico, o docente tem de ser um leitor crítico, e isso não é o que se vê. Não se pode generalizar, mas muitos professores dão por entendidas coisas que não estão claras para os alunos e utilizam perguntas e respostas para avaliar a aprendizagem: "De que é constituída a matéria?" A criança busca a resposta no texto e escreve que ela é formada por partículas. Parece que entendeu! Mas de que forma? Ela será capaz de utilizar essa informação em uma situação real se for instigada a pensar criticamente e a buscar representações existentes sobre aquele assunto.

É preciso preparar os alunos antes de apresentar uma leitura?
Ana Maria É necessário criar situações-problema que gerem dúvidas instigantes sobre o tema a estudar e permitam que os estudantes revelem suas concepções por meio de conversas, desenhos e textos próprios. O resultado é que no momento da leitura eles já terão uma concepção mínima do assunto, diferente da que tinham no início dos trabalhos.

De que maneira se facilita a leitura de textos expositivos em Ciências?
Ana Maria
Ensinar demanda limitar os assuntos, recortar conteúdos e torná-los independentes de outros conceitos que estão amarrados em um texto. Assim, fica fácil abordar a idéia central e todas as outras subsidiárias de maneira tal que, ao fim das atividades, a turma tenha compreendido o objeto de estudo.

As analogias são muito utilizadas nos textos científicos. As crianças conseguem interpretá-las bem?
Ana Maria Não. Elas as entendem como algo similar. A analogia é uma ferramenta para comunicar, porém também para fazer pensar, imaginar algo novo, desconhecido, de que não se tem referências. É legítima a intenção do autor. Ele quer promover o pensamento crítico, proporcionar ao leitor a recuperação de uma representação interna sobre algo que exige abstração para se tornar mais familiar, compreensível. Um exemplo: para explicar o sentido de homogeneidade, um autor comparou as partículas de um líquido a grãos de areia na praia. Algumas crianças entenderam que as partículas correspondiam ao mesmo tamanho dos grãos de areia. Cabe ao docente investigar a maneira como a turma está entendendo essas proposições.

É possível deixar claro que um análogo não é um igual?
Ana Maria Quem tem dificuldades para interpretar a analogia pode se valer de descrições objetivas e problematizações para assimilar corretamente os conceitos. É essencial explicar que na analogia utilizamos apenas um aspecto para comparar objetos. Nunca é o todo e é por isso que eles não são iguais.

O que difere a metáfora em textos literários e científicos?
Ana Maria Na literatura, ela tem um sentido estético e serve como um recurso de sensibilização. Em obras de Ciências, ajuda o autor a aclarar um assunto, a explicar melhor um conceito, sem nenhum caráter artístico. É importante reconhecer esse aspecto da língua. Como distinguir a linguagem dos textos científicos e didáticos? Ana Maria Para começar, eles pertencem a gêneros distintos e têm objetivos diferentes. Quando uma equipe de cientistas pesquisa um assunto, ela está em fase de investigação de novos dados e de outras produções científicas. Em uma etapa seguinte, a da divulgação, ela utiliza uma linguagem interpretativa, com metáforas e analogias, para facilitar a comunicação. Para isso, todo o trabalho é reordenado e seleciona-se o que é mais importante, ficando de fora várias etapas do estudo. Esse material é que, depois, vai ser editado para outro fim: a Educação. Portanto, textos científicos e didáticos são baseados em linguagens diferentes: o primeiro tem como objetivo comunicar o público especializado, e o segundo, os leigos no assunto.

O livro didático simplifica muito o texto científico?
Ana Maria Sim, a maioria exagera na simplificação, banaliza os conceitos e torna o assunto pouco interessante. De qualquer maneira, os alunos precisam aprender a dar conta do livro didático - a interpretá-lo - e a encontrar nele marcas que possibilitem promover o conhecimento de que necessitam. Mas isso só acontece se o professor desenvolver discussões com eles e aprofundar os conceitos. Infelizmente, nem todas as escolas têm disponível outros materiais.

É imprescindível o contato com diferentes fontes de leitura em Ciências?
Ana Maria Sim, isso é importante, mas sem dúvida apenas um entre muitos caminhos. É a intervenção do docente, fundamentalmente, que ajuda a compreensão de um conceito-padrão em Ciências. Ele tem de ampliar as informações e o conhecimento que leva para a classe e os textos são uma de suas opções. Veja o caso, por exemplo, de uma experiência que visa estudar os estados da matéria. É comum as crianças entenderem que uma substância sólida se transforma em líquida pelo efeito do calor. Porém, para algumas delas, o líquido pesa mais do que o sólido porque outorgam ao calor as mesmas características da matéria e consideram que as partículas "incorporadas" formam o líquido. Sem uma intervenção imediata e eficiente do professor nesse momento, não há resultado algum no que se refere à aprendizagem.

Qual o papel das experimentações?
Ana Maria Muitas vezes, se pensa que o experimento fala por si mesmo, que com base na observação a garotada pode tirar conclusões e entender determinados fenômenos. Parece tudo muito fácil e simples. Assim como nos textos, o problema não está na complexidade dos escritos, mas na intervenção docente durante as atividades pedagógicas.

Há um momento exato para a utilização de textos em um projeto, atividade ou seqüência didática?
Ana Maria Não. Depende do tema, da idade da turma e de outras variáveis. O professor sabe a melhor hora dentro de seus esquemas, mas o texto tem sempre de estar incluído numa rede de referências que façam sentido para o leitor.

Leitura é um conteúdo a ensinar também em Ciências?
Ana Maria É essencial saber ler as especificidades da disciplina. A interpretação incorreta de termos científicos compromete o entendimento dos conceitos da área. Por exemplo, a utilização do verbo supor ("a teoria supõe que...") é entendida por alguns, de acordo com os estudos realizados, como a falta de domínio do autor. Eles pensam que se ele supõe é porque não sabe o suficiente.

Quais critérios devem se considerar na seleção do material didático?
Ana Maria Quanto mais o texto apresenta uma visão interpretativa do conhecimento, não apenas baseado em descrições, melhor. É importante também que ele tenha caráter histórico, que dê margem a discussões entre as turmas. Outro ponto essencial: que não seja muito denso, que desenvolva idéias e que apresente situações para pensar e buscar referências. Só assim a criança consegue pensar sobre ele e não imaginar que se trata apenas de definições. Por fim, os gráficos e as ilustrações não podem ser decorativos.

Como ler as imagens em Ciências?
Ana Maria As ilustrações e os gráficos completam as informações de um texto ou trazem novos dados a serem lidos. Esses elementos em Química, Física e Biologia têm características próprias que devem ser reconhecidas pelos estudantes e também interpretadas, assim como as palavras. Espera-se que eles cheguem ao nível de questionar qual o sentido daquele desenho para determinada explicação. Ao docente cabe relacionar as informações gráficas com a linguagem escrita, expressa no texto, assim como no título e nas legendas da imagem.

Para desenvolver um bom trabalho de leitura e de escrita, o professor de Ciências necessita de parceiros de outras disciplinas?
Ana Maria Eu não acredito que seja indispensável virar um especialista em leitura. Mas, em qualquer situação didática, o ideal é que o docente não trabalhe sozinho. Meu trabalho de investigação na universidade depende de uma equipe multidisciplinar para avançar. Acredito que uma escola também deva funcionar assim. Todos ganham com isso.

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Contato
Ana Maria Espinoza
, anamariaespinoza@arnet.com.ar 

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 208, Dezembro 2007,
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