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A hora certa de aprender

Especialistas recomendam que as escolas revejam os turnos de aula para ajustá-los ao relógio biológico da garotada

Anderson Moço

AGITAÇÃO PARA OS PEQUENOS...  Está na hora de começar a aula para Larissa Santana Perez, de 9 anos, da EE Francisco Brasiliense Fusco. A escola paulistana inverteu os turnos, colocando os pequenos de manhã e os maiores à tarde. A luz do início do dia faz com que o cérebro ordene a liberação, pelas glândulas supra-renais, do cortisol, hormônio que ajuda a despertar. Mas isso não funciona para os adolescentes. Foto: Emilia Brandão
AGITAÇÃO PARA OS PEQUENOS...  Está na hora de começar a aula para Larissa Santana Perez, de 9 anos, da EE Francisco Brasiliense Fusco. A escola paulistana inverteu os turnos, colocando os pequenos de manhã e os maiores à tarde. A luz do início do dia faz com que o cérebro ordene a liberação, pelas glândulas supra-renais, do cortisol, hormônio que ajuda a despertar. Mas isso não funciona para os adolescentes. Foto: Emilia Brandão

Em meados de 2006, quando Rosangela Macedo Moura assumiu a direção da EE Francisco Brasiliense Fusco, em São Paulo, ficou intrigada com uma reclamação dos professores: muitos adolescentes chegavam à escola sonolentos e cochilavam nas primeiras aulas. Sem contar os que só apareciam no meio do período e os que pediam para voltar para casa para dormir. Nosso índice de faltas era enorme. O motivo: os jovens não conseguem acordar cedo, conta ela. Como mãe, a diretora também conhece as dificuldades para tirar a moçada da cama. Preocupada em resolver o problema, ela pôs-se a investigar os motivos. Foi quando descobriu os estudos sobre o relógio biológico e decidiu mudar radicalmente a rotina da escola.

...E MOLEZA PARA OS MAIS VELHOS  Priscila Razon, de 15 anos, começa a se espreguiçar. Ela estuda na mesma escola que Larissa, mas suas aulas são à tarde. Só no meio da manhã o cérebro da jovem dá os comandos para o corpo pular da cama. Outros hormônios dessa fase do crescimento fazem com que seu relógio biológico se atrase em algumas horas. Por isso, o dia está apenas começando para ela. Foto: Emilia Brandão
...E MOLEZA PARA OS MAIS VELHOS  Priscila Razon, de 15 anos, começa a se espreguiçar. Ela estuda na mesma escola que Larissa, mas suas aulas são à tarde. Só no meio da manhã o cérebro da jovem dá os comandos para o corpo pular da cama. Outros hormônios dessa fase do crescimento fazem com que seu relógio biológico se atrase em algumas horas. Por isso, o dia está apenas começando para ela. Foto: Emilia Brandão

O sistema que controla a alternância entre o sono e a vigília é um complexo regulador que fica na base do cérebro, chamado pelos especialistas de núcleo supraquiasmático. É graças ao funcionamentod essa região que as pessoas sentem sono, fome, acordam sempre no mesmo horário e conseguem ter noção sobre se é dia ou noite mesmo sem saber que horas são. Mas esse sistema de percepção não é ajustado exatamente da mesma maneira para todas as pessoas nem para todas as faixas etárias. Sabe-se que mudanças hormonais e estímulos externos modificam o mecanismo do relógio biológico muitas vezes durante a vida.

Matutino e vespertino

COM DISPOSIÇÃO DE SOBRA...  A tarde é o melhor período para os adolescentes aprenderem. Priscila dormiu bem por uma noite inteira e está com pique total. Seu cérebro trabalha em atividade máxima, e fica bem mais fácil entrar em contato com as novidades da sala de aula. Já Larissa, que entrou de manhã, sente sono. Esse é o pior horário para ensinar algo novo a ela ou propor atividades que exijam movimento corporal. Foto: Emilia Brandão
COM DISPOSIÇÃO DE SOBRA...  A tarde é o melhor período para os adolescentes aprenderem. Priscila dormiu bem por uma noite inteira e está com pique total. Seu cérebro trabalha em atividade máxima, e fica bem mais fácil entrar em contato com as novidades da sala de aula. Já Larissa, que entrou de manhã, sente sono. Esse é o pior horário para ensinar algo novo a ela ou propor atividades que exijam movimento corporal. Foto: Emilia Brandão

Bebês e crianças até 8 ou 9 anos tendem a ter o pico de atividade pela manhã, e não é estranho um filho pequeno acordar os pais assim que o dia raia. Já na adolescência, o quadro se inverte. A explosão de hormônios que começa aos 10 ou 11 anos faz com que os ritmos biológicos se atrasem. Os jovens sentem sono tarde e, por isso, não querem levantar cedo. Alguns conseguem se adaptar melhor a essa situação. Outros apresentam grande dificuldade e são tratados como preguiçosos pelos professores e pela família. A falta de concentração também pode se manifestar em aulas mais longas e ser confundida com indisciplina. Mas o desligamento dos estudantes em alguns momentos também é explicado pelo relógio biológico.

...E COM VONTADEDE IR PARA A CAMA  No início da noite, Larissa começa a bocejar. Para relaxar, lê uma história. Sua temperatura cai, e o cérebro ordena que a glândula pineal, localizada na base desse órgão, libere a melatonina, o hormônio do sono. Priscila, por sua vez, ainda tem energia para enfrentar qualquer parada. Boa hora para estudar para a prova, pois ela vai pegar no sono bem mais tarde. Foto: Emilia Brandão
...E COM VONTADEDE IR PARA A CAMA  No início da noite, Larissa começa a bocejar. Para relaxar, lê uma história. Sua temperatura cai, e o cérebro ordena que a glândula pineal, localizada na base desse órgão, libere a melatonina, o hormônio do sono. Priscila, por sua vez, ainda tem energia para enfrentar qualquer parada. Boa hora para estudar para a prova, pois ela vai pegar no sono bem mais tarde. Foto: Emilia Brandão

Pesquisas comprovam que a sonolência dos adolescentes nas primeiras horas da manhã não é culpa exclusiva da televisão, do computador ou da teimosia, afirma o neurocientista Fernando Louzada, professor da Universidade Federal do Paraná, que há mais de dez anos investiga a relação entre sono e aprendizagem. Queremos conscientizar os educadores sobre a importância do repouso para o desenvolvimento do estudante e quanto o ambiente escolar pode melhorar se o horário das aulas e as atividades propostas forem ajustados ao ritmo do corpo, explica Louzada. Com essas informações, a diretora Rosangela questionou uma prática comum à quase totalidade das escolas brasileiras, na qual os jovens a partir do 6º ano (justamente os que sentem mais sono) têm aulas de manhã e os pequenos (mais ativos logo cedo), à tarde. Percebi que o planejamento estava na contramão das necessidades do aluno, conta ela. Tendo de acordar todo dia de madrugada e não conseguindo ir para a cama no início da noite, os adolescentes descansam menos do que precisam. E noites maldormidas causam dificuldade em prestar atenção, alterações de humor e problemas para reter o que foi ensinado. A redução da quantidade de horas de sono também dificulta o controle das emoções e a consolidação de memórias, fundamental no processo de aprendizagem. Estudantes que não acompanham o ritmo da turma podem estar com alguma dificuldade de adaptar o relógio interno aos horários da escola, acredita Louzada. A solução para esse problema é inverter os turnos de aula, sugere.

Para diminuir o sono nas aulas

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte fez, no início do ano, uma pesquisa no Centro de Educação Integrada, em Natal. Os resultados indicam algumas medidas para driblar o relógio biológico dos adolescentes:

• Exposição à luz solar Deixar as janelas das salas de aula sempre abertas para que tenham boa luminosidade ou propor atividades na área externa nos primeiros horários do dia faz com que os adolescentes espantem o sono e diminuam o atraso do relógio biológico.

• Atividades físicas logo cedo Programar aulas de Educação Física nos primeiros horários, pois o esporte ajuda a reduzir a sonolência.

• Aulas dinâmicas Ir ao laboratório, discutir em grupo ou participar de atividades que saem da rotina ajuda a manter a atenção.

• Conversa franca Incluir o sono nos debates em sala de aula faz com que o aluno dê mais atenção à qualidade do descanso e tente adaptar seu organismo aos horários da escola.

Mudanças radicais

LUZ DA MANHÃ  No Centro de Educação Integrada, em Natal, as primeiras aulas são em locais bem iluminados. Foto: Caninde Soares
LUZ DA MANHà No Centro de Educação Integrada, em Natal, as primeiras aulas são em locais bem iluminados. Foto: Caninde Soares

Foi o que fez a EE Francisco Brasiliense Fusco ao apostar nessa nova organização do tempo. Antes, porém, muitas conversas foram necessárias com professores e pais. A princípio, a maioria era contra. Ninguém queria alterar a rotina, lembra Rosangela, que por meses divulgou informações científicas para mostrar que a medida seria benéfica para os alunos. Até os superiores da diretoria de ensino achavam que não ia dar certo, conta ela. Para resolver o impasse, um plebiscito fez a proposta ser aprovada, mas com pequena margem de vantagem.

As mudanças foram implementadas no ano passado. Os alunos de 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental passaram a freqüentar a escola de manhã e os de 5ª a 8ª e do Ensino Médio, depois do almoço. As diferenças de comportamento foram imediatas. O número de faltas caiu drasticamente nos primeiros meses, e o rendimento subiu a cada avaliação. Gente dormindo na sala de aula virou exceção, assim como as brigas entre colegas. O efeito positivo sobre o humor, a atenção e a participação dos estudantes animou os professores, que também começaram a faltar menos, ressalta Rosangela. Com pouco mais de um ano na nova rotina, a comunidade não tem dúvidas de que a decisão foi acertada. Até a procura por vagas na escola cresceu cerca de 20%, fazendo com que a direção aumentasse o número de turmas de 40 para 46.

Planejamento alterado

Uma guinada como essa da Braziliense Fusco não é nada fácil de ser implantada. Em alguns países, como os Estados Unidos e Israel, nos quais são comuns os períodos integral e semi-integral nas escolas, optouse por atrasar o início das aulas dos mais velhos. Uma hora a mais na cama pode fazer toda a diferença na rotina dos adolescentes, destaca Fernando Louzada. Mas no Brasil não é essa a regra. Por isso, os pesquisadores também sugerem medidas mais simples . Uma delas é discutir abertamente o assunto com os estudantes. Sabendo da relação do sono o desenvolvimento do corpo e sua influência sobre a aprendizagem, a garotada dará mais atenção à qualidade do descanso, se adaptará melhor aos horários da escola e tentará driblar as influências do relógio biológico, recomenda Carolina Azevedo, do Laboratório de Cronobiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O período ideal para ter esse debate é na volta às aulas. Geralmente, durante as férias não há rigor em relação aos horários de dormir e de acordar e, sem precisar levantar cedo, o mecanismo biológico do adolescente atrasa ainda mais, podendo chegar a dez horas de defasagem. Nas primeiras semanas de aula, levantar-se da cama vira um martírio e a sonolência é geral, ressalta Carolina, que investiga o que a escola pode fazer para ajudar o jovem a voltar ao ritmo normal.

Aula simples ou dobrada?

Manter o aluno concentrado nas explicações por mais de uma hora não é tarefa fácil. Nas escolas que adotaram o sistema de dobradinha (com aulas que duram 75 ou 90 minutos), esse desafio é constante. A explicação para a desatenção com hora marcada também está no relógio biológico. Os cientistas descobriram que o cérebro passa por um pico e um vale de atenção a cada 90 minutos, ou seja, vai da concentração total à distração absoluta. A manutenção da motivação varia de acordo com as atividades oferecidas à turma, explica a bióloga Carolina Azevedo, do Laboratório de Cronobiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Em aulas de 50 minutos, a troca de professores ou de sala de aula transforma-se em estímulo que ajuda a zerar o ciclo de atenção. Com isso, a próxima aula começa com mais fluidez. Já nas dobradinhas isso não ocorre. Por isso, quem dá aulas nesse esquema deve fazer propostas mais dinâmicas quando perceber que a atenção dos estudantes cai.

As crianças de até 7 anos também têm um horário do dia em que há aumento da sonolência. Ele ocorre entre 13 e 15 horas, quando a temperatura corporal cai e a vontade de dormir é quase irresistível. Em creches e pré-escolas, o planejamento prevê uma soneca no início da tarde, principalmente para os que ficam em período integral, respeitando assim o relógio biológico dos alunos. O problema é quando os pequenos passam para o 1º ano do Ensino Fundamental e o período de sono é abolido da rotina. No início da escolaridade, as escolas deveriam estar preparadas para oferecer um tempo de descanso aos menores e, com isso, garantir mais atenção e menos bagunça na sala de aula, recomenda Louzada. Se por motivos técnicos e operacionais isso não for possível, uma opção é evitar fazer avaliações ou atividades agitadas que exijam muito das crianças, já que o sono prejudica o raciocínio e a agilidade corporal. Atividades mais calmas e leitura são ideais para esse período, completa.

Quer saber mais?

CONTATOS
Carolina Azeve
do, Centro de Educação Integrada, R. Cel. João Medeiros, 1976, 59077-000, Natal, RN, tel. (84) 3089-5620
EE Francisco Brasiliense Fusco, R. Jaracataia, 941, 05754-071, São Paulo, SP, tel. (11) 5845-0833 Fernando Louzada,

BIBLIOGRAFIA
O Sono na Sala de Aula Tempo Escolar e Tempo Biológico
,
Fernando Louzada e Luiz Menna-Barreto, 144 págs., Ed. Vieira&Lent,tel. (21) 2262-8314 , 20 reais

INTERNET
Informações sobre relógio biológico e aprendizagem
Resultados de trabalhos científicos sobre o sono (em inglês)

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 212, Maio 2008,
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