publicidade

Cigarro: apague essa idéia

A escola tem papel fundamental em ajudar a acabar com o vício que mata 5 milhõesde pessoas por ano

Helena Fruet

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 90% dos fumantes se iniciam no vício entre 5 e 19 anos de idade, ou seja, em idade escolar. Isso demonstra a grande responsabilidade que a escola e você, professor, têm na luta contra o tabagismo, que causa cerca de 5 milhões de mortes anualmente no mundo.

Toda criança deve aprender desde cedo os males causados pelo consumo ou pelo contato com a fumaça do cigarro. O tabagismo é a principal causa de morte evitável do planeta. Mesmo assim, a OMS calcula que um terço da população mundial adulta, isto é, 1,2 bilhão de pessoas, seja fumante. No Brasil, 200 mil mortes por ano são causadas pelo cigarro, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Em maio deste ano a OMS aprovou um tratado mundial contra o fumo, que deverá ser assinado por todos os países-membros até junho de 2004. Os signatários assumem o compromisso de tomar medidas para impor limites à propaganda e ao comércio de cigarros.

Embora a indústria do tabaco gere muito dinheiro, o vício de fumar causa perdas à economia global estimadas em 200 bilhões de dólares por ano. Esse valor, calculado por um estudo do Banco Mundial, é o resultado da soma de fatores como tratamento de doenças, morte de cidadãos em idade produtiva, aposentadoria precoce, faltas e menor rendimento no trabalho.

 

A criança: fumante passiva

Mesmo os não-fumantes são atingidos diariamente pelos males que o cigarro causa, inalando a fumaça produzida por outras pessoas. São os fumantes passivos. A criança é a mais atingida. A fumaça de segunda mão causa doenças como bronquite, pneumonia, asma, infecções do ouvido e a chamada "orelha colada", causa mais comum de surdez infantil.

A escola deve não só transmitir informações aos alunos, mas também atingir os pais. "Crianças e jovens têm influência fundamental para fazer os familiares fumantes deixarem o vício", diz o pneumologista Sérgio Ricardo Santos, coordenador da Prevfumo, grupo da Universidade Federal de São Paulo que combate o tabagismo e atualmente prepara um programa de treinamento de professores. "Grande parte dos adultos que conseguem largar o cigarro o faz impulsionada pela pressão dos filhos. A escola tem um papel muito importante na formação dessa meninada."

A escola contra o cigarro

Educar sobre o tabagismo é o primeiro passo para evitar o vício. Com essa convicção, o Programa Saber Saúde, do Ministério da Saúde em parceria com o Inca, já levou treinamento a mais de 10 mil escolas públicas.

O assunto deve ser entendido como questão de saúde. A Escola Estadual Luiz Gonzaga da Costa, de Campinas, interior de São Paulo, desenvolveu no primeiro semestre um projeto interdisciplinar sobre o cigarro. A iniciativa partiu da professora de Língua Portuguesa da 8ª série, Gislene Maria Cardoso, que, depois de dar à classe um resumo sobre o vício e suas conseqüências, pediu aos alunos uma pesquisa sobre o tabagismo na escola e em casa. Eles desenvolveram um questionário com perguntas como "É fumante?", "Quando começou a fumar?" e "Quantos cigarros fuma?".

O passo seguinte foi incluir os professores de Matemática para tabular as respostas. Os de Arte ajudaram a montar cartazes, expostos nos corredores da escola. E os de Ciências deram aulas sobre como o tabaco age no organismo. "O projeto deu tão certo e foi tão comentado que vamos estendê-lo às outras séries", diz a coordenadora pedagógica Edna Marchesini.

Professores que fumam

Uma lei federal de 1996 proíbe o fumo em recintos coletivos. Assim, colégios, empresas, shopping centers e outros locais precisam reservar espaços específicos para tal atividade. São os chamados fumódromos. O objetivo principal é evitar que os não-fumantes sejam afetados pelo fumo passivo. No caso das escolas, a lei serve também para evitar que professores fumantes sirvam de (mau) exemplo para os estudantes.

No projeto da Escola Luiz Gonzaga, de Campinas, alguns alunos ficaram furiosos quando descobriram, durante a pesquisa, que três dos professores eram fumantes. A coordenação da escola decidiu usá-los como exemplo a não ser seguido pela garotada. "O depoimento sincero desses três profissionais sobre como é difícil largar o vício serviu como um alerta mais contundente do que se as mesmas explicações sobre o assunto tivessem sido dadas por alguém que não fuma ou por um médico", diz a coordenadora Edna Marchesini.

Os males do fumo
 

O fumo é responsável por 90% dos casos de câncer no pulmão; 85% das mortes causadas por bronquite e enfisema; 40% dos casos de bronquite crônica; 45% das mortes por infarto agudo do miocárdio; 30% das mortes decorrentes de outros tipos de câncer (de boca, laringe, faringe, esôfago, pâncreas, rim, bexiga e colo do útero) e 25% das doenças vasculares (entre elas derrame cerebral). Fumar um maço de cigarros por dia durante mais de dez anos rouba, em média, cinco anos de vida.

Plano de aula

Um tema multidisciplinar

O doutor Sérgio Ricardo Santos, do Prevfumo, aconselha os professores a não saturar os alunos com campanhas antitabagistas. "Quanto mais leve e bem-humorado for o tratamento dado ao tema, melhor." Outra constatação do Prevfumo é que não adianta tentar "assustar" as crianças com dados sobre doenças que podem surgir depois de 30 anos de vício. "Ninguém está preocupado com o futuro distante." Segundo ele, você obterá melhores resultados se usar dados sobre os prejuízos à capacidade física e à estética, como perda de fôlego e amarelamento dos dentes. Veja a seguir algumas dicas de como o assunto pode ser abordado em diversas disciplinas.

Em Língua Portuguesa, um bom exercício é pedir que os estudantes pesquisem sobre o assunto e escrevam um texto sobre os males do cigarro. Cada um pode escolher um personagem relacionado ao tema (fumante, ex-fumante, médico) e desenvolver um texto na forma de depoimento, entrevista, narrativa etc. Instigue-os com perguntas como: "De quem é o interesse em que as pessoas continuem fumando?" e "O que leva alguém a começar a fumar?"

Em Ciências, vale a pena demonstrar o caminho da fumaça e das substâncias químicas no organismo. Peça que todos pesquisem que doenças são originadas pelo uso do tabaco.

E em Matemática a dica é usar as estatísticas para fazer cálculos demonstrativos da gravidade dos problemas causados pelo cigarro. Por exemplo, se o fumo causa 5 milhões de mortes por ano, quantas serão as vítimas em dez anos, 15 e 20 anos.

Quer saber mais?

Disque Pare de Fumar, tel.0800-7037033 (ligação gratuita)

Instituto Nacional de Câncer, www.inca.org.br/tabagismo

Organização Mundial da Saúde, www.who.org (em inglês) e www.who.org/es (em espanhol)

Prevfumo, tel. (11) 5572-4301, www.prevfumo.med.br

Programa Saber Saúde, tel.(21) 3970-7414, e-mail: prevprim@inca.gov.br 

Gostou desta reportagem? Assine NOVA ESCOLA
e receba muito mais em sua casa todos os meses!

Comentários

 

Publicado em NOVA ESCOLAEdição 164, Agosto 2003,

Associação Nova Escola © 2016 – Todos os direitos reservados.