Os riscos da masculinidade exagerada

| Sexualidade

Visão esterotipada da masculinidade pode levar garotos a assumirem comportamentos de risco

Quem nunca ouviu a frase “homem tem que ser forte!”? Ela é um clássico da nossa cultura. O garoto que tem algum comportamento passível de ser interpretado como sinal de fraqueza ou fragilidade é logo hostilizado. Tudo isso porque, para ter sua condição de homem reconhecida pelos demais, o menino desenvolve sua masculinidade de acordo com os diversos significados atribuídos pela sociedade à imagem de homem.

O garoto assimila modelos de comportamento que moldam boa parte de suas relações sociais, da sua autoimagem à forma como ele se relaciona com o sexo feminino e a família, passando ainda pela postura no grupo de amigos e na vida escolar e profissional.

Parte desse comportamento, associado ao vigor físico e a atitudes de coragem e desprendimento, vem das necessidades do homem ancestral, obrigado a matar um leão por dia, quase que literalmente, para cumprir seu papel de provedor, procriar e garantir a manutenção da espécie. Essas características ajudaram a humanidade a se perpetuar e foram assimiladas e ressignificadas pela cultura, chegando aos dias de hoje. Com isso, cristalizou-se a associação de características como fragilidade física e emocional ao comportamento feminino.

Essa visão secular – e muitas vezes anacrônica – da forma tradicional de ser homem pode levar os garotos a desenvolver valores que os predispõem a condutas de risco. Essa foi a conclusão a que chegou a Organização Mundial da Saúde, em parceria com a Organização Pan-americana da Saúde, após a condução de estudos com adolescentes latino-americanos. De acordo com a pesquisa, condutas problemáticas como violência, risco infecção por HIV, uso de drogas e paternidade na adolescência estão relacionadas a uma visão estereotipada da masculinidade.

As armadilhas do estereótipo
Acidentes de trânsito, homicídios e doenças cardiovasculares relacionadas ao abuso de álcool são situações em que a construção social da masculinidade tem grande peso. Segundo o documento, os jovens subestimam os riscos de determinadas atitudes para afirmarem sua masculinidade.

Por exemplo, o que um adolescente que não conhece bem seu corpo – e quase nada do corpo da garota – vai escolher na primeira transa: correr risco de pegar uma DST ou ser pai ou eventualmente perder a ereção no momento de colocar a camisinha? No nosso (pre)conceito social, ser pai ou pegar uma DST é coisa de homem, mas broxar não. O documento ainda frisa que os valores e os caminhos tradicionais da masculinidade entre os jovens latino-americanos estão relacionados, no âmbito da saúde reprodutiva, à atividade sexual sem proteção e à promiscuidade.

O estudo também aponta espaços de possível intervenção na construção da masculinidade. Vale a pena ressaltar que a sociedade mudou e os papeis tradicionais, por consequência, dão lugar a novas imagens de masculino e feminino. Um exemplo é a valorização da produtividade econômica, social e sexual da mulher. Para levar os jovens ao debate, uma sugestão é promover uma roda de conversa com os alunos sobre situações simples e questioná-los sobre como deveria ser a conduta do homem e da mulher diante de cada fato apresentado. Assim, poderemos levá-los a sugerir condutas alternativas e a refletir sobre os modelos, para que consigam identificar e adotar comportamentos responsáveis.

E você, com tem tratado esse assunto em sua sala?


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Perda do apetite sexual. Como isso afeta os alunos?

| Sexualidade

Pode parecer estranho falar em falta de libido em uma faixa etária em que os hormônios estão em ebulição e, muitas vezes, é difícil para a garotada conseguir contê-los. Mas não é! Costumamos receber dúvidas sobre esse assunto no SOSex, o serviço de orientação sexual a distância que mantemos na instituição em que trabalho.

A falta de desejo sexual é uma das disfunções sexuais mais comuns em nossa população e pode ocorrer também entre os adolescentes. Tudo começa muito bem, pois o casal está completamente apaixonado, e qualquer oportunidade de transar ou trocar carícias não é desperdiçada! Mas, depois de algum tempo, sem motivo aparente, vem a queixa: um dos parceiros perdeu a vontade de transar.

O desejo é uma condição indispensável para uma transa acontecer, porque ele é a motivação, o tesão, o que dá emoção. Aliás, tudo que a gente faz na vida, para ser prazeroso, precisa ser movido pelo desejo. No início de um relacionamento, a paixão garante o tesão. Mas, com o tempo, ela passa e fica o amor, a afetividade. É a hora de prestar atenção em si e no outro, para aprender a identificar na linguagem corporal – um olhar especial, um jeito de acariciar – a disposição de fazer sexo.

Mostre aos alunos como funciona o desejo sexual
O desejo sexual é uma necessidade que faz homens e mulheres procurarem, iniciarem e/ou responderem à estimulação sexual. É um estado de motivação, um impulso gerado no cérebro, da mesma forma que a fome, a sede, o calor, o frio. O centro regulador do sexo fica situado no hipotálamo e funciona sob o comando de duas forças: o motor erótico e o freio sexual.

Faça uma roda de conversa sobre o equilíbrio entre o motor erótico, que estimula a vontade de fazer sexo, e os freios sexuais, que mantêm sob controle nossas vontades sexuais, ajustando-as às oportunidades e riscos do meio ambiente. É muito importante que os jovens percebam que, quando esse mecanismo de controle sofrer qualquer alteração, a pessoa pode apresentar um aumento ou uma diminuição do desejo sexual. Os principais fatores que interferem nesse equilíbrio podem ser biológicos, como as alterações hormonais, ou psicossociais, como ter recebido uma educação sexual muito rígida, deixar de sentir atraído pelo parceiro ou ainda por pensamentos que provocam raiva ou ansiedade.

O desejo sexual é a etapa que define a qualidade da relação sexual. Devemos respeitar nosso desejo. Conhecer melhor a si e ao parceiro pode ajudar a manter o desejo em alta. Para isso, vale inovar, criar situações que surpreendam o parceiro, saber onde ele ou ela gosta de ser acariciado e, principalmente, conversar francamente sobre o relacionamento amoroso e sexual. Se o diálogo não for suficiente, isso pode ser um sinal de que eles precisam de ajuda profissional, seja de um médico, no caso de haver algum fator fisiológico, ou mesmo de um terapeuta sexual.

Você já bordou esse tema com sua turma? Compartilhe sua experiência com a gente.


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Como lidar com os novos modelos familiares?

| Família

Neste fim de semana surgiu, numa conversa com amigos, o tema das configurações familiares. A filha de uma amiga, de cinco anos, contou que um de seus coleguinhas tinha dois pais. Imediatamente, um dos presentes fez o seguinte comentário:

- Deve ser muito ruim ser filho de um casal gay! Comigo, que sou filho de pais heterossexuais, mas que não se casaram e nem moraram juntos, já foi complicado de lidar com o preconceito e a ignorância das pessoas.

Esse é o ponto: o preconceito.  Ainda há pessoas com grande dificuldade em aceitar as novas configurações familiares, como se com isso pudessem eliminar da sociedade o que é diferente do socialmente aceito por eles. Mas o caminho não é esse.

Segundo dados do último censo do IBGE, de 2010, já são mais de 60 mil os casais gays que moram juntos. Porém, as relações homo-afetivas são apenas mais um exemplo dos novos arranjos familiares no Brasil. O modelo de casal heterossexual com seus próprios filhos deixou de ser dominante no país. Pela primeira vez, o levantamento demográfico identificou 19 tipos de laços de parentesco, indicando que os outros tipos de arranjos familiares estão em 50,1% dos lares, entre eles: casais sem filhos, pessoas morando sozinhas, três gerações sob o mesmo teto, casais gays, mães ou pais sozinhos com filhos, amigos morando juntos, netos com avós, irmãos e irmãs, e ainda a nova e famosa família “mosaico”, compostas por pais divorciados que voltam a se casar e vivem com os filhos do antigo casamento na mesma casa. Dados como esse mostram como o conceito de família hoje é muito abrangente. Ficar discutindo com base em conceitos antigos não é apenas improdutivo, é um retrocesso.

Qual é o papel da escola nessa discussão?
A escola pode ajudar muito os alunos e pais a lidar com a diversidade das relações familiares e, principalmente, dar apoio para famílias com uma conformação diferente. Para isso, é fundamental que professores e funcionários estejam convencidos de que todas as relações amorosas são válidas e que qualquer criança quando é amada e cuidada pode ser feliz e saudável, independentemente do tipo de arranjo familiar que ela tenha.

Reações de rejeição e preconceito em virtude de um arranjo familiar pouco convencional pode causar isolamento social, revolta, agressividade e desatenção no aluno. Esses comportamentos dificultam a concentração e a aprendizagem e podem ser considerados um aviso para o professor intervir junto à turma, ou mesmo orientar os pais a buscar apoio especializado.

Para lidar com esse tema com os pais e alunos é preciso que professores e funcionários saibam como tratar a questão. É possível lançar um desafio pedagógico em que os diferentes tipos de família conhecidos pelos professores e funcionários sejam listados e solicitar que eles expliquem, em termos de configuração e modo de agir, o que há de diferente no comportamento dessa família. Essa é uma boa forma de desmistificar os tabus e mostrar que, se bem estruturado, qualquer um dos arranjos familiares apresentados pode contribuir para o desenvolvimento da criança ou jovem. Essa atividade também pode ser proposta para os alunos adolescentes, focando na apresentação das pesquisas realizadas e na valorização do que identificam como importante na convivência em casa, deixando claro que o apoio da família pode existir independentemente da forma como elas se configuram.

Para o trabalho com os familiares, sugiro que, após esse desafio com os professores, a escola faça uma palestra para falar sobre os novos arranjos familiares e fazer uma roda de conversa sobre o assunto, aproveitando, se o clima da conversa for de respeito à diversidade, para mostrar os tipos de família que existem na escola.

Já com os alunos pequenos, a melhor maneira é apresentar o assunto de forma natural e sem muitos detalhes. A criança consegue compreender que ele tem um pai e uma mãe, seu amigo tem dois pais, sua amiga duas mães, o outro coleguinha é criado pela vó, compreendendo que existem outras formas de família além da que ela participa.

Muitas escolas já incluem o tema “família” dentro de suas grades curriculares. Nesse caso, é só buscar uma forma dinâmica de conversar com os alunos: colagem de fotografias ou desenhos dos familiares para montar a árvore da família, além de outras formas de expressão em que as famílias sejam apresentadas e os alunos possam mostrar o que mais gostam na convivência familiar.

Gostei muito de um caso que encontrei na internet, em que a escola sugeriu a um aluno filho de pais gays que ele convidasse amiguinhos para frequentarem sua casa com o intuito de notarem que não existia diferença, a não ser o fato de que ele tinha dois pais. Para isso, a escola teve o cuidado de indicar uma família mais flexível e que lidava de forma aberta com o assunto. A conclusão da coordenadora pedagógica que trouxe a proposta foi de que, apesar de não ser uma questão fácil de ser trabalhada, é possível a escola ajudar a desenvolvê-la (veja aqui).

E na sua escola, como é trabalhada a questão da diversidade familiar?


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Devo falar sobre a pílula do dia seguinte com meus alunos?

| Sexualidade

A chamada pílula do dia seguinte é uma medicação de emergência que serve para impedir a gravidez quando há uma relação sexual de risco. Apesar de não ser nenhuma novidade, ela ainda é motivo de dúvidas e muita polêmica nos treinamentos que faço com professores.

É válido falar sobre esse método com os alunos? Eu não estaria incentivando um comportamento irresponsável? – perguntam-me, preocupados, alguns professores.

Há quem acredite que o fato dessa pílula evitar a gravidez após uma relação sexual desprotegida levará os adolescentes a abandonarem o uso de outros métodos contraceptivos, principalmente a camisinha.

Minha experiência profissional diz que esse tema é fundamental num trabalho de prevenção da gravidez. A pílula do dia seguinte pode ser um importante aliado em uma situação de emergência, desde que os jovens tenham informações corretas sobre suas indicações e contraindicações. É importante, portanto, deixar claro para os alunos para que serve e como age esse medicamento.

Indicação para usar contracepção de emergência
• Quando nenhum método anticoncepcional foi usado;
• Quando a camisinha rompe, ou ocorre algum vazamento de esperma na retirada do pênis de dentro da vagina;
• Quando há o deslocamento ou ruptura do diafragma;
• Quando o coito interrompido não é bem sucedido;
• Quando há expulsão do DIU;
• Quando a relação sexual acontece no período fértil, sem o uso de camisinha;
• Quando a garota toma pílula anticoncepcional regular e esquece 2 ou mais comprimidos no mesmo ciclo menstrual.
• Quando a garota é vítima de estupro.

A ação da pílula do dia seguinte
• Interrupção ou inibição da ovulação;
• Alteração do endométrio, impedindo que o útero tenha condições de receber o ovo (óvulo fecundado).
 
Como e quando usar?
O nome pílula do dia seguinte pode confundir as garotas em relação ao uso do medicamento. Embora ela seja conhecido popularmente por esse nome, a pílula não deve ser usada apenas no dia seguinte. Caso ocorra uma das situações mencionadas acima, a pílula deve ser tomada o quanto antes. Quanto mais cedo ela for ingerida, maior sua eficácia.

O medicamento pode vir em uma embalagem com um ou dois comprimidos, dependendo do fabricante. O primeiro comprimido – ou a dose única -   deve ser tomado, preferencialmente,  em até 72 horas depois da relação sexual. Já o segundo comprimido pode ser tomado junto com o primeiro ou em até 12 horas após sua ingestão. Quando acontece de a pessoa vomitar no prazo de 2 horas após a ingestão de um dos comprimidos, uma outra dose deve ser tomada.

Eficácia
A pílula do dia seguinte é capaz de impedir a gravidez na maioria dos casos, mas não é 100% eficaz. Sua eficácia é maior quanto mais precocemente ela for tomada: 95% nas primeiras 24 horas, 85% entre 25 e 48 horas e 58% entre 49 e 72 horas.

Outro fator que diminui a eficácia da pílula do dia seguinte é usá-la mais de uma vez num mesmo ciclo. Por esse motivo, ela não deve substituir os métodos anticoncepcionais de uso regular.

Quando uma mulher tomar essa pílula depois que o ovo já iniciou o processo de implantação na parede uterina, o remédio não é capaz de induzir ao aborto. Portanto, não adianta tomá-lo depois que se está grávida.

Efeitos colaterais
Os efeitos colaterais mais comuns são náuseas e vômitos. Hoje, com pílulas a base de progesterona, esse efeito já foi bem atenuado. Algumas garotas podem apresentar um pequeno sangramento na primeira semana, mas a menstruação ocorrerá mais ou menos na data prevista, ao contrário do que imaginam muitas garotas. Observe a tabela a seguir.

13% A menstruação atrasará mais de 7 dias.
15% A menstruação atrasará de 3 a 7 dias.
57% A menstruação ocorre na data prevista, ou um pouco antes.
15% A menstruação pode adiantar uns 7 dias.

Indicação médica é importante, mas não é fundamental
A consulta ao médico para fazer um tratamento é importante. Mas isso nem sempre é possível, principalmente no caso da contracepção de emergência que precisa ser iniciada em até 72 horas após a relação de risco. Por isso, o Ministério da Saúde e os conselhos de Medicina e de Farmácia chegaram a um consenso de que a pílula do dia seguinte pode ser usada sem necessidade de consulta médica, já que os efeitos colaterais não põem em risco a vida da mulher, nem afetam de forma definitiva o funcionamento normal do corpo quando usado de forma esporádica.

Essa é uma solução paliativa
Respondendo a pergunta feita no início do post: informação é sempre melhor que a ignorância. Então, devemos conversar sobre todos os métodos contraceptivos conhecidos com os alunos. No caso da pílula do dia seguinte, devemos deixar claro que ela só deve ser usada em casos de emergência e nunca como um método anticoncepcional regular. Segundo a Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo (SOGESP), um comprimido dessa pílula equivale a sete comprimidos da pílula anticoncepcional convencional. Essa é uma dosagem hormonal muito alta para adotá-la como método preferencial de contracepção.

Para evitar a gravidez e garantir a prevenção das DSTs/Aids,  o Ministério da Saúde recomenda o uso de um método hormonal, como a pílula anticoncepcional, pela garota e a camisinha pelo garoto. Esse é o casamento perfeito!


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Meu aluno tem HIV. E agora?

| Atitude Abril

Criar espaços democráticos de discussão é fundamental para desfazer preconceitos e combater a discriminação

Na semana passada, em meio ao feriado e aos jogos da Copa, fizemos um encontro do projeto Quebra Tabu, voltado à prevenção das DSTs/Aids, que acontece em escolas do Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, e Maceió, além de outras cidades de Alagoas.

Durante nossa conversa, uma professora me contou, surpresa, ter descoberto que um aluno de sua turma é portador do vírus. A informação, no entanto, não tinha sido fornecida pela direção da escola, mas graças a um questionário de monitoramento aplicado aos alunos para verificar a eficácia do projeto. Indignada pela ocultação dessa informação, a professora me pergunta:

- Como podemos aprender e ensinar a não discriminar as pessoas que vivem com HIV se a gente é poupada de conviver com esse fato?

O argumento da professora faz sentido, mas a questão não é tão simples como parece. A escola deve aceitar a criança portadora do vírus HIV e manter total sigilo sobre essa informação. Além disso, a Portaria Interministerial número 796/92 proíbe a realização de teste sorológico compulsório e a exigência de teste para manutenção da matrícula nas redes públicas e privadas de ensino, em todos os níveis. Não há nenhuma negligência ou situação de risco no fato de omitir essa informação para proteger e respeitar os direitos do aluno. A escola, portanto, estava cumprindo o seu dever.

Ainda assim, a linha de raciocínio da professora se mostra coerente. Só quando a gente se depara de forma real com um fato é que podemos avaliar nossos preconceitos e quebrar as predisposições afetivas negativas. Mas podemos testar e aprender a lidar com os fatos mesmo sem sermos exposto a eles. Por isso, a escola precisa criar espaços de vivência verdadeiramente democráticos, que desmontem  qualquer forma de preconceito e discriminação.

É preciso reforçar, com toda a comunidade escolar, que o convívio social com pessoas portadoras do HIV não oferece o menor risco. De acordo com dados fornecidos pela Coordenação Nacional de DST e Aids, órgão ligado ao Ministério da Saúde, não se tem conhecimento sobre a transmissão do vírus durante brincadeiras ou em outras situações comuns ao cotidiano escolar. Não se pega HIV pelo ar, pelo contato ao beijar ou abraçar e, muito menos, pela convivência em sala de aula.  Por isso, não há a menor necessidade da criação de escolas especiais voltadas para essas crianças o que, além de ser ilegal, reforçaria ainda mais o preconceito e a exclusão social.

Como o professor deve agir? 
O desafio de ter na escola alunos portadores do HIV tem que ser enfrentado com muita informação sobre a doença e seu tratamento, além da busca de ajuda desfazer os equívocos que os alunos possam ter sobre a doença, garantindo os direitos da criança ou adolescente soropositivo. O Ministério da Saúde mantém um site bem completo sobre o assunto. Veja aqui.

A escola precisa criar condições e oferecer alternativas para que o aluno portador do vírus não interrompa seu processo educativo, sempre tomando cuidado para não expor sua situação. O professor não precisa – nem deve – adotar uma postura superprotetora, mas deve conversar com o aluno e seus responsáveis sobre como proceder em relação ao uso de medicamentos no ambiente escolar ou o que será necessário para justificar suas faltas por imposição do tratamento médico, além de assegurar que ele obtenha os conteúdos das disciplinas em caso de ausência e possa realizar as provas.

A escola não pode exigir que as crianças soronegativas deixem de frequentar o espaço escolar quando apresentarem infecções, como gripe e outras doenças comuns na infância e adolescência. Nesses casos, é importante, deslocar, com discrição, o aluno que está com gripe para o mais distante possível do aluno que tem HIV/Aids, pois, por conta de sua imunidade estar eventualmente debilitada, uma simples gripe pode trazer consequências mais graves para um soropositivo.

No blog Coordenadoras em ação, minhas colegas Eduarda Diniz Mairynk e Leninha Ruiz dão orientações sobre os cuidados necessários em caso de acidentes que envolvam ferimentos em alunos com o vírus. Vale a pena a leitura.

Uma criança igual às outras

Foco no combate ao preconceito e à discriminação
O preconceito e a discriminação estão arraigados em nossa sociedade. Nossas crianças e adolescentes – assim como muitos de nós – os reproduzem em diferentes âmbitos da vida: preconceito étnico-racial, de gênero, de grupos socioeconômicos, de orientação sexual, em relação a portadores de necessidades especiais… Este reconhecimento é o ponto inicial para trabalhar a temática com os alunos.

As crianças também aprendem por meio da imitação das pessoas que são significativas em sua vida, e o professor é uma delas. Aproveite isso assumindo uma conduta despretensiosa e justa frente aos seus alunos, e nunca perca uma oportunidade de informar para corrigir qualquer comportamento preconceituoso ou alguma situação de discriminação por parte deles.

Já os adolescentes têm perfeita condição de entender os significados do preconceito e da discriminação. O professor pode falar da hipótese de eles terem um colega portador do HIV e perguntar como seria a reação deles, identificando equívocos causados por falta de informação. É muito importante que eles entendam que, quando descriminam alguém, estão negando a dignidade daquela pessoa, diferenciando-a das demais por conta de estereótipos construídos culturalmente.

Antes de conduzir essa conversa, é muito importante que o professor reavalie seus próprios preconceitos e se certifique de que está munido de informações corretas para transmitir aos alunos. O Portal do professor tem uma coleção de aulas sobre preconceito e discriminação que podem ser de grande valia para desenvolver esse trabalho com os alunos (veja aqui).

E na sua escola, você já viveu uma experiência como essa? Conte-nos nos comentários como você lidou com ela.

Campanha Atitude Abril Aids - Desinformação Tem Cura!


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Como falar sobre aborto com os alunos?

| Corpo e saúde, Sexualidade

Ao ser questionado sobre aborto, o educador deve procurar descobrir qual é a real motivação da pergunta

Há algum tempo, uma professora me contou que uma vez havia sido questionada por uma aluna sobre sua opinião em relação ao aborto. No momento ela desconversou, mas depois, preocupada, me procurou para saber como proceder.

Uma pergunta como essa dificilmente ocorre fora de contexto, apenas por curiosidade. Por isso, é muito importante acolher a aluna e buscar descobrir a verdadeira intenção da pergunta. Às vezes, pode haver um problema por trás dessa curiosidade aparentemente despretensiosa, como a gravidez da garota ou de uma amiga que ela esteja tentando ajudar.

Por isso, a orientei a perguntar para a garota “por quê” ela queria ouvir sua opinião. Dessa forma, é possível se aproximar da verdadeira intenção da pergunta e perceber que a resposta mais adequada, não é a posição pessoal sobre o aborto, mas sim, fornecer informações que mostrem os prós e os contras sobre o tema.

Aborto é um assunto extremamente polêmico e cheio de armadilhas. A legislação brasileira o permite somente em casos de estupro, de gravidez com risco à vida da mãe ou se o feto for anencefálico (uma má-formação rara do tubo neural caracterizada pela ausência parcial do encéfalo e da calota craniana). Em qualquer outra circunstância, a interrupção da gravidez é proibida no país. Mas não podemos fingir que isso não acontece.

Cálculos do Ministério da Saúde revelam que 3,7 milhões de mulheres entre 15 e 49 anos induziram aborto – 7,2% do total de mulheres em idade reprodutiva.  Isso faz do aborto a quarta maior causa de óbito materno no país, vitimando 9,4 de cada 100 mil gestantes, especialmente as de menor poder econômico.

As mulheres decidem interromper a gravidez hoje, decidiram ontem e vão decidir sempre. Mesmo que o custo dessa decisão traga risco de morte. E isso é sério! Contudo, ainda estamos longe de uma solução definitiva para essa questão. Enquanto para os favoráveis à proposta, o aborto é um direito da mulher; os contrários defendem que o feto não é parte do corpo dela, mas sim outro organismo que depende temporariamente do útero da mãe para se desenvolver. Abortar, portanto, seria cometer um crime. E isso nos leva necessariamente para o foco da polêmica: o conceito de vida humana.

Quando começa a vida?
A questão fundamental do aborto está no conceito de vida. E é aí que a coisa complica.

De forma sucinta, podemos dizer que há quatro diferentes interpretações para o fenômeno. Há o grupo que defende que a vida surge no momento da fertilização do óvulo. Outros acreditam que o marco inicial da vida é a implantação do óvulo fecundado no útero, chamada cientificamente de nidação. Um terceiro grupo afirma que a vida se inicia a partir do momento em que o feto começa a ter atividade cerebral. E, por fim, há o grupo baseado na postura filosófica existencialista, segundo a qual só há vida quando a pessoa se põe no mundo e toma consciência de sua existência.

Como se vê, da fecundação ao nascimento, não há um instante biológico privilegiado, com o qual todos concordem. Na maioria dos países em que o aborto é permitido, o prazo limite para a interrupção da gestação é definido pelo conceito da viabilidade, ou seja, o momento a partir do qual o feto, com o auxílio de aparato médico, é capaz de viver fora do útero. Isso geralmente se dá por volta da 24ª semana de gestação.

Promova um debate com a turma
Essa polêmica não é nova, e vale a pena ser debatida em sala de aula. Nosso papel como educadores é incentivar o conhecimento e ajudar os alunos a interpretarem os fatos para poderem formar suas opiniões de acordo com suas visões de mundo. Para isso, sugiro a seguir um breve encaminhamento do assunto com a turma:

1a etapa
Inicie a conversa mostrando que gerar uma vida é da natureza da mulher e do homem, mas ser mãe ou pai pode ser uma escolha. Para isso, o melhor caminho é usar os métodos contraceptivos para prevenir a gravidez. Infelizmente, nem todo mundo tem informação adequada e motivação para se prevenir, ou acesso a métodos contraceptivos, o que  leva muitas mulheres a se depararem com o dilema de interromper ou continuar a gravidez. Problematize o assunto com a turma perguntando: O aborto pode ser uma solução menos penosa entre duas alternativas difíceis? Ou a lei deve permanecer como está?

2ª etapa
Divida os alunos em grupo e peça para pesquisarem os argumentos a favor e contra a legalização do aborto. Depois, peça que cada grupo apresente suas considerações e conclusões. O professor pode sistematizar no quadro os principais argumentos e instigar os alunos a defendê-los ou refutá-los.

Você já abordou esse assunto com seus alunos? Quais foram as questões levantadas por eles?

Até a próxima!


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Futebol é “coisa de menina”?

| Sexualidade

Pronto! A copa começou… mesmo com todos os prós e contras, este evento mexe com a população brasileira e promove uma comoção nacional. As crianças são as que mais se envolvem no clima do esporte. Chutar a bola, driblar, fazer embaixadinhas, defender no gol… passa a ser a brincadeira predileta tanto de meninos como de meninas. É certo que os meninos costumam ser maioria na prática do jogo, mas muitas garotas já compartilham o desejo e o prazer em jogar futebol. E aí vem a pergunta que não cala nunca: futebol é brincadeira pras meninas?

Houve uma época em que a resposta era não. O senso comum dizia que futebol era  jogo pra menino, assim como brincar de boneca e de casinha eram “coisas de menina”. Contudo, esse é um mecanismo social que serve para desenvolver e moldar homens e mulheres a seguirem determinados comportamentos, habilidades e traços de personalidade considerados adequados para cada gênero. O papel de gênero não é estabelecido somente pelo fato de se nascer com um determinado sexo. Ele é construído cumulativamente por meio das experiências ao longo da vida, entre elas as brincadeiras.

Para os homens, estavam destinadas as atividades que contribuíssem para o desenvolvimento de sua masculinidade, que em nossa cultura significa serem reconhecidos como provedores, protetores, competitivos, fortes e viris. O futebol é um excelente “treino” para estimular essas características, enquanto a brincadeira de boneca seria perfeita para o que se espera de uma mulher: que sejam zelosas, meigas, sensíveis, frágeis… Essas atribuições psico-socioculturais, aliadas às atitudes envolvidas em brincadeiras infantis, artísticas e esportivas, acabam modelando como são enxergados os comportamentos masculino e o feminino em cada sociedade.

Brincadeiras e sexualidade
Recebemos aqui no blog um bom exemplo para falar sobre esse assunto.  Uma professora nos conta sobre dois meninos que possuem trejeitos femininos, gostam de brincar somente com as meninas, participam das danças e teatros que a escola promove, mas não participam dos esportes ditos masculinos e, por isso, são constantemente perseguidos pelos colegas.

Hoje, a gente sabe que nenhuma brincadeira ou atividade é da natureza dos meninos ou meninas. Ela faz parte da diversão e do desenvolvimento de ambos os sexos, de acordo com a aptidão e a identificação de cada um.

Brincar é fundamental para o desenvolvimento da criança. Por meio da brincadeira, ela treina ações futuras, aprende novos papéis, ensaia os comportamentos esperados para o seu gênero, elaborando as informações que foram transmitidas para ela. E isso pode acontecer, mesmo que essas brincadeiras não sejam exatamente aquelas que se instituiu como adequadas para determinado sexo.

O fato de um garoto preferir a dança ao futebol pode fazer com que ele não desenvolva a competitividade, mas pode fazer com que ele aprenda a lidar com uma garota, além de se tornar um grande parceiro na dança, um namorado atencioso e um homem gentil. A forma como cada um decide se portar como homem ou mulher não é determinante para a orientação sexual. Portanto, não faz sentido associar homossexualidade ou heterossexualidade com obediência aos comportamentos esperados para o gênero.

Como a escola pode lidar com esta situação
No caso que acabo de citar, o professor deve conversar com as crianças para tentar descobrir as razões pelas quais elas se negam a fazer determinadas atividades. O objetivo não é encontrar um jeito de fazer a criança brincar do que não gosta, mas de identificar se há algo por trás dessa rejeição, como não considerar positivo ser daquele gênero.

Geralmente, a criança tende a imitar as atividades realizadas tanto pelo pai e pela mãe como pelo professor. Esse comportamento é uma resposta ao processo de identificação pelo qual toda criança passa: no início, imita as pessoas que têm para ela grande valor afetivo. Depois, ao se perceber do sexo feminino ou masculino, ela passa a repetir comportamentos de pessoas do mesmo gênero.

Por meio dessas vivências, a criança incorpora aspectos de seu cotidiano que vão reforçar ou inibir sua identificação com pessoas do mesmo sexo. Nesse processo, é importante que ela veja características positivas no pai e na mãe. E mais: que o progenitor do mesmo sexo que ela seja valorizado pelo sexo oposto. Portanto, os comentários depreciativos sobre qualquer um – homem ou mulher – devem ser evitados por parte dos adultos e mesmo por outras crianças.

Uma boa forma de encaminhar essa questão é estimular o processo de identificação para que se aceite o próprio sexo, desenvolvendo trabalhos de valorização dos papéis masculino e feminino. Uma sugestão é elaborar atividades em que todas as crianças falem sobre os aspectos positivos de ser menino ou menina, buscando exemplos ilustrativos (recortes de revistas ou fotografias) de homens e mulheres que eles admiram.

Como você lida com situações como essa na sua escola? Deixe sua opinião nos comentários.


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Como falar sobre Aids com as crianças?

| Atitude Abril

Nas próximas semanas, todos os blogs de Nova Escola e Gestão Escolar falarão sobre a prevenção da Aids. Esta iniciativa faz parte da campanha Atitude Abril, lançada em fevereiro para tratar do assunto em diversas publicações (saiba mais aqui). Coube ao Direto ao Ponto iniciar essa rodada de debate sobre o tema com professores e gestores.

Recentemente, durante uma capacitação sobre Educação sexual, uma professora me questionou sobre como falar com crianças sobre Aids, uma vez que seus alunos não têm ideia do que seja uma doença sexualmente transmissível (DST).

De fato, há certos termos e conteúdos que, dependendo da idade, da maturidade cognitiva e do interesse dos alunos, não faz sentido trabalhar com eles. Mas isso não quer dizer que a conversa sobre Aids deva ficar restrita ao trabalho com os adolescentes. A criança pode, desde cedo, incorporar conceitos e atitudes muito valiosos para fazer dela um jovem responsável e bem informado sexualmente.

Por isso, sugiro a seguir alguns conteúdos que podem ser trabalhados com os alunos da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental.

O que ensinar na Educação Infantil
Desde a infância devemos fomentar comportamentos e atitudes de prevenção que serão aprendidos e aplicados na adolescência. Como esse período é um momento de exploração e conhecimento do próprio corpo, as conversas com a turminha podem ir nessa direção.

Converse sobre os conceitos de saúde e doença.

  • Ensine que elas têm um corpo e que ele precisa receber alguns cuidados, como boa alimentação, higiene e exercícios físicos, para se manter saudável.
  • Conte que muitas doenças são causadas por vírus e bactérias – “bichinhos invisíveis” muito atrevidos que conseguem entrar em nosso corpo. Pergunte que doenças eles conhecem e se a Aids não aparecer entre elas, cite-a para que eles tomem conhecimento de sua existência.

Fale sobre o contágio de doenças pelo sangue.

  • Nessa faixa etária (de 3 a 6 anos), não faz sentido falar sobre o HIV ou formas de contaminação da Aids, mas é muito importante conversar sobre a transmissão pelo sangue e o quanto é importante não tocar no machucado de um coleguinha que estiver sangrando. Encontrei um vídeo na internet muito interessante para trabalhar essa forma de transmissão e a prevenção do HIV com as crianças. (Veja aqui)

A relação de gênero também pode estar presente nessa conversa.

  • A partir dos 3 anos de idade, a criança começa a tomar consciência de que existe o sexo masculino e o feminino. Esse é um momento importante para introduzir no repertório das crianças condutas positivas para sua vida, que a ajudarão a lidar com sua sexualidade. É uma boa hora para desconstruir estereótipos como: homem não pode chorar e ter medo, ou a mulher deve ser obediente. Isso poderá ter um impacto positivo para o futuro das crianças, diminuindo sua exposição a situações de vulnerabilidade.

O que ensinar no Ensino Fundamental 1
Este período abrange a faixa etária dos 7 aos 10 anos, fase em que a criança está ávida por informações e tem maior consciência e autonomia sobre o seu corpo.

É o momento ideal para introduzir as primeiras noções de prevenção.

  • Nessa idade, as crianças têm autonomia para desempenhar algumas tarefas sem precisar muito da ajuda de um adulto. É fundamental trabalhar com eles os cuidados de higiene para cada parte do corpo. Com isso, o professor estará ajudando o aluno a construir a noção de que seu bem-estar físico passa pelos cuidados com seu organismo.

Em um trabalho conjunto com a disciplina de Ciências, as crianças têm condições de aprender que existem vírus e bactérias causadores de doenças e que uma delas é a Aids.

  • O professor pode explicar para os alunos, de acordo com as expectativas de aprendizagem desses anos, o que é a Aids e o que o HIV faz no organismo. Os professores podem adaptar a história criada pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo para ensinar a melhor forma de falar aos pacientes infantis sobre o vírus HIV/AIDS (veja aqui).
  • Para as crianças do 4o ano, essa abordagem pode ser mais direta e dinâmica, com perguntas que verifiquem o que eles sabem sobre Aids. É importante também que, dentro das possibilidades e do contexto adequado para isso, a camisinha seja apresentada para os alunos.  Quanto mais cedo a criança entra em contato com o preservativo, mais rápido ela estabelece intimidade com essa ferramenta imprescindível na prevenção da Aids e outras DSTs.

Também é o momento de mostrar aos pequenos a importância da solidariedade e de quebrar preconceitos.

  • Embora não seja muito comum as crianças saberem quem é ou não portador do HIV, é muito importante que eles entendam que essa pessoa não irá infectá-la, a não ser que se entre em contato com seu sangue. Portanto, eles devem aprender que está tudo bem em brincar e interagir com pessoas que tenham a doença e que não precisam tratá-las de forma diferente.

Existe, na sua escola, um programa para falar de Aids com as crianças? Conte sua experiência nos comentários. Tenho muito interesse em conhecer as experiências de professores e gestores nessa área.

Acompanhe a série de posts sobre a prevenção do HIV nos sites de Nova Escola e Gestão Escolar. No próximo post da série, a formadora de professores Flávia Vivaldi, do blog Aluno em Foco, irá falar sobre como a equipe gestora pode se articular para trazer campanhas preventivas e de diagnóstico para a escola e também sobre como fazer o trabalho de formação continuada dos professores para abordar esse tema em sala de aula. Fique ligado!

Campanha Atitude Abril Aids - Desinformação Tem Cura!


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Como quebrar o silêncio dos alunos em casos de abuso sexual?

| Abuso sexual

A abordagem aos alunos vítimas desse tipo de violência deve se apoiar no acolhimento, sigilo e encaminhamento do caso às autoridades. (Fotos: montagem – Shutterstock e Lucas Landau)

Durante um período de minha atividade profissional como educadora sexual, mantive no instituto em que trabalho um serviço de orientação sexual por telefone. Certo dia, atendo a uma das ligações e, do outro lado, está um garoto profundamente triste, decepcionado e magoado com a postura de sua mãe.

Ele me contou que, por várias vezes, acordava no meio da noite com a sensação de estar sendo observado e percebia que sua mãe havia baixado seu pijama para olhar seu pênis. Segundo ele, ela o observava por um bom tempo e ele, constrangido e amedrontado, fingia continuar dormindo.

Esse garoto foi profundamente violentado, não fisicamente, mas de forma psicoemocional. Como imaginar que uma mãe seja capaz de uma atitude como essa? Como um garoto pode lidar com tamanho constrangimento?

Fiz questão de trazer este exemplo para desmistificar algumas ideias sobre abuso sexual e provocar uma reflexão sobre as formas de violência vividas por nossas crianças e adolescentes. Algumas dessas ideias equivocadas são preconceituosas, e podem contaminar a percepção do educador, fazendo com que ele não dê ouvidos a um aluno por confundir o relato de uma agressão com fantasias próprias da idade. Isso dificulta o enfrentamento da questão e a atenção às vítimas ao mesmo tempo que aumenta a vulnerabilidade da criança e encobre o agressor.

Principais mitos sobre o abuso sexual
- Meninos não sofrem abuso sexual;
- Quem abusa sexualmente é sempre o padrasto;
- Mulheres não cometem abuso sexual, muito menos mães;
- Crianças pequenas não sofrem abuso sexual;
- Casos de abuso sexual só ocorrem em classes sociais pobres.

O que pode ser considerado abuso sexual?
Qualquer forma de exposição da criança ou do adolescente a estímulos sexuais que ultrapassem os direitos humanos ou o respeito ao seu desenvolvimento físico, emocional e psicossexual pode ser considerado abuso sexual.

O abuso sexual ocorre quando uma pessoa subjuga outra por meio da violência, do abuso de poder, da autoridade ou da diferença de idade para obter prazer sexual. O abuso pode incluir carícias, manipulação dos órgãos genitais, voyeurismo, pornografia e atividade sexual com ou sem penetração vaginal, anal ou oral, com ou sem uso de violência.

As vítimas de abuso sexual se sentem aterrorizadas, confusas e muito temerosas e, não raro, têm muita dificuldade em contar para alguém que foram vítimas desse tipo de violência, mesmo para pessoas de sua completa confiança. Em geral, elas se calam por não quererem prejudicar o abusador ou provocar uma discórdia familiar. Ou pior: temem ser consideradas culpadas ou castigadas pelo agressor.

O bem-estar da criança ou do adolescente deve ser sempre a nossa prioridade. Portanto, a escuta ativa (quando se ouve de fato o que o outro diz), o acolhimento e a proteção do aluno são muito importantes. O professor pode ser, em muitos casos, o único adulto com quem ele ou ela podem contar.

Como conduzir uma conversa sobre casos de abuso?
Converse com o aluno num ambiente tranquilo e sem interrupções, incentivando-o a falar abertamente. Não emita opiniões ou faça julgamentos. Depois de ouvir todo o relato, manifeste seu apoio fazendo o aluno perceber que o que aconteceu não foi culpa dele. Esse fortalecimento é muito importante para ele conseguir falar sobre o incidente com a família e diminuir seu sofrimento emocional.

O próximo passo é entrar em contato com a família, mas, antes de fazer isso, pergunte ao aluno quais são as pessoas com quem ele aceita conversar sobre o assunto e chame esse familiar para ir à escola.  Como esta não é uma conversa fácil, se você sentir necessidade, peça ajuda à equipe gestora ou o acompanhamento de uma psicóloga, caso a escola tenha acesso a esse profissional. Como disse no post anterior (confira aqui), às vezes, a reação do  familiar pode ser a de negar o ocorrido. Nesses casos, a decisão mais sábia é não criar conflito e encaminhar a questão diretamente às autoridades (veja no final deste post onde fazer a denúncia).

Assegure o sigilo absoluto em relação ao assunto dentro da escola. É fundamental respeitar a privacidade do aluno e respeitar o tempo dessa criança ou adolescente para que ele se sinta capaz de continuar na escola e interagir normalmente com seus colegas.

É importante também deixar claro para os alunos, durante o trabalho de Educação sexual, que o corpo é propriedade de cada indivíduo e que qualquer tentativa de contato indesejado ou exposição a situações em que o aluno sinta sua privacidade invadida deve ser rechaçada e comunicada para um adulto de confiança. E vale sempre lembrar que a escola é um lugar onde eles poderão encontrar pessoas de confiança.

Você já teve que lidar com casos de abuso sexual em alguma turma? Qual foi sua estratégia para lidar com esse assunto tão delicado? Compartilhe sua experiência com conosco.


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Abuso sexual: o que a escola pode fazer?

| Abuso sexual

No dia 18 de maio, várias cidades do país promoveram uma série de atividades para lembrar o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Aproveito a data para tratar desse assunto tão importante e delicado aqui no blog também. E a pergunta inevitável é: O que a escola e os professores podem fazer para combater esse crime tão odioso?

O cotidiano escolar geralmente fortalece os vínculos dos alunos com o professor e faz dele, muitas vezes, o interlocutor preferencial quando a criança ou o adolescente sofre algum tipo abuso sexual. Mesmo quando o aluno não conta nada, o professor geralmente percebe alterações no comportamento que podem sinalizar que algo de muito errado está acontecendo.

Durante um curso sobre o papel do professor na Educação sexual, fui questionada por um professora que viveu uma situação assim. Ela me disse:

– A minha aluna de sete anos de idade estava sofrendo abuso sexual por parte de seu padrasto. Chamei a mãe para conversar, e ela se manteve fria durante meu relato, tendo a cara de pau de me dizer: “Não é possível! Ele é um homem trabalhador, colocou a gente dentro da casa dele, não bebe, bota comida dentro de casa… No fundo ele é um homem bom, só tem esse pequeno defeito”. Eu fiquei chocada e não me contive. Disse coisas muito duras a essa mulher e ameacei denunciá-los à polícia se ela não tomasse uma providência. Sabe o que ela fez? Tirou a menina da escola. O que a gente pode fazer em casos como esse? Como proceder diante do abuso sexual?

Não podemos nos calar ou fingir que o problema não é nosso, encobrindo as situações de abuso e exploração contra crianças. Mas isso precisa ser feito com alguns cuidados para não perder a pessoa mais importante para a segurança da criança, a mãe ou responsável direto.

Nesse caso em específico, a professora criou um confronto com a mãe da menina, e isso é tudo o que precisamos evitar. Sei que é difícil ouvir o que essa mãe disse e ainda ser cordial e compreensiva com ela. Mas, em casos como esse, temos de nos manter frios e saber que a mãe tem um papel fundamental na vida da criança. Precisamos ter muito tato e visão estratégica para sensibilizar a mãe, para que ela fique ao lado de seu filho ou filha.

Quando uma mãe recebe a notícia de que sua filha está sendo abusada sexualmente, uma das reações possíveis é a incredulidade e a negação. Essa postura tende a ser mais frequente em situações em que a família não tem garantido os direitos básicos de um cidadão, como ter onde morar, dormir ou o que comer, dependendo para isso do suspeito de agressão. Portanto, temos de agir com calma, ouvir o que essa professora ouviu e, mesmo assim, buscar a cumplicidade da mãe para garantir a segurança da filha, encorajando-a a dar um fim nessa situação e denunciar o agressor.

Em casos como esse, uma abordagem inteligente do professor seria inicialmente mostrar que entende a situação em que essa mãe se encontra e ressaltar que, ainda assim, a segurança da criança é fundamental. A partir daí, é preciso ajudar a mãe a pensar com quem a criança pode ficar para evitar o contato com o agressor. Caso o comprometimento da mãe não aconteça, o caminho é seguir as recomendações dos órgãos competentes para realizar a denúncia, que pode ser feita de forma anônima.

A quem recorrer?
Em caso de suspeita de violência sexual, o Unicef Brasil recomenda acionar o Conselho Tutelar, a Vara da Infância e da Juventude ou as Delegacias de Proteção à Criança e ao Adolescente e as Delegacias da Mulher. É possível ainda fazer denuncias anônimas pelo Disque 100. O serviço funciona diariamente das 8h às 22h, inclusive nos finais de semana e feriados. As denúncias recebidas são analisadas e encaminhadas aos órgãos de defesa e responsabilização, conforme a competência, em um prazo de 24 horas. A identidade do denunciante é mantida em absoluto sigilo.

Por fim, compartilho com vocês o vídeo de lançamento da campanha Brasil na Defesa da Infância, da ONG de direitos humanos Childhood Brasil, estrelado pelos craques do futebol Neymar e Daniel Alves (veja aqui).

No próximo post abordaremos como tratar este assunto diretamente com os alunos.

Vamos todos nos unir contra a violência sexual!

Até a próxima.


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