Orgasmo feminino como motivação para a prevenção

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Em um treinamento para educadores sobre o trabalho de prevenção de gravidez e DST/Aids indiquei este blog e sugeri o post da semana passada, sobre ejaculação precoce, para ampliar a motivação dos jovens nas ações de prevenção, e que daria continuidade, falando do orgasmo feminino.

Foi um auê… Uns acharam muito interessante, mas percebi que outros ficaram incomodados… Até que uma professora me questionou:
– O que a prevenção tem a ver com o orgasmo feminino?

Respondi: – A prevenção em si, nada. Mas o orgasmo feminino tem tudo a ver com a prevenção! Se o casal não estiver se prevenindo, o medo de engravidar ou contrair uma DST/Aids pode tirar a concentração nas carícias e impedir que o orgasmo aconteça.

Outro professor em seguida retrucou: –Meu papel não é ensinar minhas alunas a sentir orgasmo. Continuei: – Pode ser, mas nosso papel é estimular a prevenção! Se abordarmos esse tema, as meninas e os meninos podem passar a olhar a prevenção com outros olhos, como algo diretamente ligado aos seus interesses no relacionamento sexual. Isso pode ser um elemento de motivação.

O conhecimento sobre o corpo 

A conquista do direito ao prazer pela mulher ainda é muito recente, mas já foi absorvido, principalmente pelos jovens. No entanto, para exercê-lo, é preciso conhecer melhor o próprio corpo.  E para isso , um bom momento é a aula sobre as funções do corpo reprodutivo.

É muito importante que os adolescentes saibam o que acontece quando uma garota recebe um estímulo sexual, que desperta o desejo.  O sangue, que pode invadir o rosto e a deixar roborizada, se espalha intensamente por todo o corpo. Os genitais recebem maior fluxo sanguíneo e respondem com a excitação.  A vulva, órgão genital externo da mulher, começa a sofrer modificações que irão prepará-la para a relação sexual. Os grandes lábios, situados bem à vista, afinam-se e ficam entreabertos. Os pequenos lábios, localizados mais internamente, aumentam de tamanho e se projetam para fora, assumindo uma cor mais avermelhada.

O clitóris, espécie de botão existente pouco acima do local onde os pequenos lábios se unem, fica mais sensível ao toque, capaz de provocar um grande prazer ao ser estimulado.  Logo abaixo está o canal da uretra, por onde a mulher urina, e descendo um pouco mais surge um outro orifício. Esta é a entrada da vagina, um canal formado por músculos, que liga as partes interna e externa do aparelho genital feminino.

A vagina começa a produzir uma secreção que irá lubrificá-la, com o objetivo de facilitar a penetração do pênis. Seu comprimento normal varia de 7 a 10 cm, mas durante a excitação ela pode se distender, adaptando-se aos mais diferentes tamanhos de pênis. Nas mulheres que nunca tiveram uma relação sexual, existe ali uma membrana, o hímen, a qual não foi atribuída, até o momento, nenhuma função fisiológica.

O orgasmo feminino

Para a mulher atingir a excitação máxima, e consequentemente, o orgasmo, ela precisa de uma excitação crescente e uma lubrificação adequada. O alto grau de excitação provoca contrações rítmicas que se iniciam ao redor da entrada da vagina e se expandem por toda a região pélvica. Dessas contrações advém uma sensação rápida, porém intensa, de prazer, relacionada à liberação de certas substâncias químicas no cérebro, as endorfinas, que proporcionam a sensação de bem-estar.

Ao contrário do homem, a maioria das mulheres não possui um sinal visível de ter atingido o orgasmo. Manifesta apenas reações como aumento da transpiração, batimentos cardíacos acelerados, respiração mais rápida, gemidos e contrações musculares, seguidas de relaxamento.

Além disso, o fato de uma mulher ter orgasmo não aumenta nem diminui as chances de uma gravidez. Se ela tiver uma relação sexual durante o seu período fértil e não tomar nenhuma medida contraceptiva, pode engravidar, ainda que não sinta qualquer prazer.

Como falar de prazer e prevenção

Sugiro usar a mesma pergunta da professora que me questionou e problematiza-la com seus alunos… Depois que der as explicações do aparelho reprodutor, você pode lançar a pergunta “O que a prevenção tem a ver com o orgasmo feminino?” Em seguida, peça para que eles escolham colegas com quem gostariam de conversar sobre o tema e formem grupos. Uma vez formados, peça que façam uma pesquisa para apresentar na próxima aula.

Durante a apresentação dos alunos, anote na lousa as informações que tenham a ver com a resposta da pergunta. Provavelmente, os alunos irão associar a prevenção a um fator de inibição do desejo, e não o contrário. Ao final das apresentações, destaque se algum grupo tiver mostrado a importância da prevenção relacionada ao desprendimento e à entrega do casal ao sexo.  Faça uma breve explicação sobre o impacto que o estímulo sexual provoca no organismo da garota e as condições necessárias para que ela alcance o orgasmo.

Nesse momento, enfatize a importância da prevenção para se chegar ao orgasmo. Mostre por meio do gráfico abaixo, que o envolvimento com as carícias recebidas é fundamental para que o orgasmo aconteça.

Blog Ciência do Estudo da Mulher

Fonte: Blog Ciência do Estudo da Mulher

Para tanto, é imprescindível que a mulher se entregue às sensações. Se alguma preocupação externa acontecer durante o ato sexual, como por exemplo o medo de ficar grávida ou pegar uma DST/Aids, a concentração e a excitação são interrompidas, diminuindo a intensidade das sensações sexuais e da lubrificação.  Resultado: a penetração pode se tornar desprazerosa ou até dolorosa e o orgasmo não acontece!

Você pode fechar a conversa questionando se vale a pena colocar em jogo o prazer sexual por causa do sexo sem proteção? A minha experiência diz que a maioria vai responder “não”. E aí surge um outro bom momento para trabalhar a prevenção em sexualidade com seus alunos.

Experimente e compartilhe aqui no blog a sua experiência!


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A aprendizagem do controle da ejaculação

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Trabalhar a ejaculação precoce com a turma também é uma estratégia para prevenção de gravidez e DSTs, pois permite aos alunos lidar de forma mais saudável com o sexo

Outro dia uma professora me confidenciou o seu desânimo com o trabalho de prevenção de DST/Aids na escola. Ela me disse, muito triste, que teve vontade de desistir quando um aluno lhe contou que, quando vai transar, a vontade de ejacular chega tão rápido que nem dá tempo de pensar em colocar a camisinha.

Na hora, eu me lembrei do quanto já vivi esse tipo de frustração ao longo da minha carreira como educadora sexual. De fato, por mais que a nossa aula promova o conhecimento sobre a importância da prevenção e ensine nossos alunos sobre as doenças sexualmente transmissíveis, suas formas de contágio e como colocar corretamente a camisinha, nem sempre isso é suficiente para que eles tenham uma postura responsável com relação a sua sexualidade. Há muitos fatores que podem interferir nesta conduta, como a ejaculação precoce. No entanto isso não pode ser um motivo para desistir desse trabalho.

Eu respondi a ela que a estratégia que transformou o meu desânimo em encanto por meu trabalho foi inserir na educação sexual temas que possam neutralizar fatores de vulnerabilidade dos jovens. Se uma das dificuldades de usar a camisinha é o controle da ejaculação, eu procuro trabalhar esse tema como uma nova forma de tocar os jovens para a prevenção de gravidez e DST/Aids. Por mais que o uso da camisinha seja recomendado desde o início da relação sexual e não somente quando o homem sente que vai ejacular, é importante trabalhar o tema da ejaculação precoce com os alunos, sempre reiterando que o uso da camisinha é fundamental, independentemente de qualquer coisa.

A relação sexual é o ato no qual a prevenção precisa acontecer. Entretanto, isso pode gerar insegurança e, consequentemente, ansiedade que, por sua vez, é a principal causa de ejaculação precoce. Esse é um fator, portanto, que o professor pode ajudar a eliminar se levar para a sala de aula esses temas, como a ejaculação e orgasmo masculino.

Isso pode ajudar tanto os meninos como as meninas a compreenderem melhor o processo e o funcionamento do corpo do garoto durante o ato sexual, além de ser um bom momento para ensinar a eles como podem controlar a ejaculação. Mais confiantes, poderão então abrir espaço mental para se concentrarem no uso da camisinha.

A ejaculação e o orgasmo masculino

Embora a ejaculação e o orgasmo sejam controlados por sistemas neurológicos diferentes (parassimpático e simpático, respectivamente), é comum que eles aconteçam ao mesmo tempo. É por isso que para muita gente, o sinal de que o homem teve orgasmo é a ejaculação. Isso é tão difundido que o sêmen é também chamado de gozo.

Um bom momento para falar na sala de aula da ejaculação e do orgasmo masculino é durante a aula sobre o aparelho reprodutor masculino. Depois de explicar sobre o funcionamento dos órgãos sexuais, o professor pode abrir um roda de conversa e perguntar para os alunos como se faz para que esses órgãos entrem em ação e cumpram a sua função reprodutiva? Quando eles responderem – receber estímulo sexual – Dê continuidade ao debate, voltando a questionar se sabem como ocorre a ejaculação.

Para dar essa explicação, faça com os alunos um levantamento sobre alguns estímulos sexuais que eles conhecem e em seguida explique que eles causam uma reação no corpo provocando a excitação, que é  responsável por ativar o processo ejaculatório. É muito importante que eles saibam que a ejaculação tem dois momentos. O primeiro vai do início da excitação até a fase de emissão, quando se dá a contração dos órgãos reprodutores internos: canal deferente, próstata, vesículas seminais. Eles lançam o sêmen no início da uretra. Este momento é chamado de inevitabilidade ejaculatória: o pênis está ereto e o sistema nervoso se encarrega de reter e acumular o sêmen na entrada da uretra. Imediatamente após, o homem entra na segunda fase, que é a ejaculação propriamente dita: consiste numa série de contração ritmadas da uretra e musculatura da base do pênis, que provocam a expulsão do sêmen pelo canal uretral.

Como controlar a ejaculação?

A ejaculação é um tipo de reflexo que pode ser controlado, de uma forma muito parecida com o controle do ato de urinar. Quando criança, as pessoas aprendem a identificar quando sua bexiga está cheia e os dois momentos que antecedem à eliminação da urina: aquele em que “dá para segurar” e o outro, quando a urina chega a um ponto em que é inevitável a sua saída. Na adolescência, quando o garoto começa a ejacular, ele precisa treinar segurar a saída do sêmen durante o tempo que ele julgar ser mais prazeroso. O segredo é desenvolver a capacidade de perceber que está a ponto de ejacular.

Basicamente, essa aprendizagem acontece por meio do treino do garoto em perceber as sensações e saber identificar o ponto da sua excitação, que antecede o momento da inevitabilidade ejaculatória. A aproximação deste momento é descrito pelos homens como uma sensação de que o pênis “está cheio” e desejoso de ser empurrado para frente para liberar a ejaculação. Diga aos alunos que a excitação sexual do homem pode ser controlada por ele até exatamente este ponto. Se ele não deseja ou não deve ejacular neste momento, a alternativa é interromper por alguns segundos a estimulação sexual direta, aquela que toca no corpo dele, principalmente no pênis ou em outro local muito sensível.

Se ele continuar a ser acariciado, a excitação vai aumentar ainda mais e, independente de sua vontade, o gatilho da ejaculação é acionado. Ele passa a ter as contrações que vão pressionar o pênis e a uretra e, então, expulsar o sêmen em jatos. Este movimento gera a ejaculação e provoca uma sensação sexual muito intensa levando o garoto ao orgasmo.

Para saber mais sobre ejaculação e outras formas de aprendizagem de seu controle acesse o meu artigo “O controle da ejaculação começa nas primeiras práticas sexuais”.

Vamos começar a falar sobre resposta sexual com os alunos? Em outro post, vamos falar sobre a mulher e aprofundar mais esse assunto .


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Unesco lança publicação para ajudar na Educação sexual nas escolas brasileiras

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Material foi adaptado à realidade brasileira e traz diretrizes para o planejamento do trabalho em sala de aula

Esta semana, ao refletir sobre o trabalho de Educação sexual nas escolas, percebi que progredimos muito nos últimos 30 anos. Mesmo assim, o tema ainda é abordado de forma tímida nas escolas, com o foco quase exclusivo na prevenção da gravidez e das DSTs/Aids, privilegiando aspectos biológicos e informações científicas. Isso é muito importante, mas acredito que as escolas podem dar um passo maior e mais eficaz nesse trabalho.

Para isso, é necessário abordar a Educação sexual de forma mais abrangente, incluindo outras temáticas que envolvem a sexualidade, como a relação de gênero, a diversidade sexual, os relacionamentos e, principalmente, a relação sexual em si, que é a situação em que os conhecimentos sobre prevenção são aplicados.

Nesse sentido é de grande valia a publicação recente, pela Unesco, das Orientações Técnicas de Educação para o Cenário Brasileiro: Tópicos e objetivos de aprendizagem. O material é resultado de uma adequação do material internacional desenvolvido pela entidade para o cenário brasileiro. Ele traz informações sobre os programas e atividades desenvolvidos pelo MEC, diretrizes para o trabalho em sexualidade e apresenta os objetivos de aprendizagem de acordo com conceitos-chave para nortear o trabalho em sala de aula.

Como usar o material
Com um viés bem prático e objetivo, a publicação aborda a Educação sexual baseada em princípios pedagógicos, com uma lista de tópicos ou temas para serem trabalhados de acordo com os objetivos de cada proposta. São sugeridas ainda uma série de ideias-chave para que cada escola possa selecionar o que interessa trabalhar com os seus alunos. As propostas são voltadas para alunos entre 5 e 18 anos, divididos em quatro níveis:

  • Nível I (5 a 8 anos)
  • Nível II (9 a 12 anos)
  • Nível III (12 a 15 anos)
  • Nível IV (15 a 18 anos)

Esse material pode ser um importante aliado para pensar o planejamento de atividades de Educação sexual articulada ao currículo escolar ou mesmo em uma proposta complementar às ações de prevenção já existentes na escola. Além disso, o relatório trás diretrizes que podem auxiliar na implantação, execução e avaliação do trabalho em Educação Sexual.

Vale a pena conferir!


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Aids aumenta no Brasil

| Atitude Abril, Corpo e saúde, Sexualidade
Número de novas infecções pelo HIV aumentou 11% no Brasil (Imagem: Vilmar Oliveira)

Número de novas infecções pelo HIV aumentou 11% no Brasil (Imagem: Vilmar Oliveira)

No início de julho, a UNAIDS (Programa das Nações Unidas para HIV e Aids) divulgou um relatório com notícias animadoras em relação a Aids no mundo: diminuíram em 13% as novas infecções por HIV nesse século e nos últimos três anos. Segundo o documento, estima-se que, em 2013, 35 milhões de pessoas viviam com HIV. As mortes relacionadas com o vírus apontam os menores números desde o pico, em 2005: caíram 35%. E não é só isso: as novas infecções entre crianças despencaram 58% desde 2001.

No entanto, para nossa tristeza, o mesmo documento revelou que o número de novas infecções pelo HIV aumentou 11% no Brasil e o índice de mortes no país atribuídas à doença subiu 7% entre 2005 e 2013. Aproximadamente um terço das novas infecções ocorre entre jovens de 15 a 24 anos.

Por quê? As causas ainda não foram estudadas, mas uma das hipóteses levantadas é a desinformação. Na minha opinião, mais do que isso: existe ainda uma dificuldade para aceitar a sexualidade na adolescência. É preciso vencer o desafio de querer modificar o comportamento dos indivíduos quando estes fazem parte da intimidade e envolvem valores ligados à afetividade.

A prevenção pela Educação é considerada chave para reduzir o índice de novas infecções pelo HIV. E a escola ainda é o principal espaço para se dedicar a este trabalho. Para tanto, queridos professores, precisamos deixar de olhar os nossos alunos, sob o ponto de vista da sexualidade, como gostaríamos que eles fossem, e passar a enxergá-los como de fato são. É preciso dar aos jovens a principal arma de proteção – a informação – mas também ouvir e atender a suas necessidades, interesses e ideias para o exercício de práticas preventivas.

Como iniciar essa conversa?
Um bom caminho para dar a partida no assunto é apresentar fatos, como estes resultados do relatório da UNAIDS (Programa das Nações Unidas para HIV e Aids). 

O vírus pode demorar vários anos até se manifestar em uma pessoa infectada e, com o tema aparecendo menos nas mídias, o jovem acha que a Aids é uma doença do passado ou de pessoas mais velhas e que usar camisinha é uma mão de obra desnecessária.

Problematize com seus alunos a questão e abra a discussão perguntando se essa também é a opinião deles e dos colegas. Durante o debate, anote na lousa as situações que exigiram que você complementasse as informações. E para ir mais fundo na questão, experimente orientar os alunos para que assumam o papel de educador sexual por um dia. Divida a turma e entregue a responsabilidade de um tema para cada grupo. Eles devem pesquisar sobre o assunto, conversar com outras pessoas e anotar a opinião delas, e por fim apresentar para os colegas a sua experiência. Ao final de cada apresentação, se for necessário, o professor complementa as informações importantes para a prática preventiva.

Outra causa importante
Quando se considera a prevenção, é natural pensar na primária, aquela que se utiliza para não se infectar. Mas também é igualmente importante a prevenção secundária, que deve ser adotada pelos portadores do vírus. O documento da UNAIDS revela um dado importante: 54% das pessoas infectadas no mundo todo não têm consciência de que são portadoras do vírus. Isso representa 19 milhões das 35 milhões de pessoas que atualmente vivem com HIV.

No entanto, segundo a médica infectologista e pesquisadora do Laboratório de Pesquisas Clínicas DST/AIDS da Fiocruz Brenda Hoagland, o diagnóstico tardio aumenta o risco de transmissão e também de óbitos. Ela explica que o tratamento é importante na política de prevenção, uma vez que “estudos mostram que quando a pessoa realiza o tratamento corretamente, o vírus pode se tornar indetectável e ter sua capacidade de transmissão reduzida em até 96%”.

Portanto, outro tema para se conversar com os alunos é a importância do diagnóstico precoce e da adesão ao tratamento. No Brasil, ele é gratuito, e já existem testes rápidos e gratuitos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Para mais informações e locais para fazer o teste, entre no site do Ministério da Saúde http://www.aids.gov.br/pagina/onde-fazer

Os seus alunos estão conscientes da importância da prevenção a Aids? Compartilhe conosco sua experiência.

Campanha Atitude Abril Aids - Desinformação Tem Cura!


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Os riscos da masculinidade exagerada

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Visão esterotipada da masculinidade pode levar garotos a assumirem comportamentos de risco

Quem nunca ouviu a frase “homem tem que ser forte!”? Ela é um clássico da nossa cultura. O garoto que tem algum comportamento passível de ser interpretado como sinal de fraqueza ou fragilidade é logo hostilizado. Tudo isso porque, para ter sua condição de homem reconhecida pelos demais, o menino desenvolve sua masculinidade de acordo com os diversos significados atribuídos pela sociedade à imagem de homem.

O garoto assimila modelos de comportamento que moldam boa parte de suas relações sociais, da sua autoimagem à forma como ele se relaciona com o sexo feminino e a família, passando ainda pela postura no grupo de amigos e na vida escolar e profissional.

Parte desse comportamento, associado ao vigor físico e a atitudes de coragem e desprendimento, vem das necessidades do homem ancestral, obrigado a matar um leão por dia, quase que literalmente, para cumprir seu papel de provedor, procriar e garantir a manutenção da espécie. Essas características ajudaram a humanidade a se perpetuar e foram assimiladas e ressignificadas pela cultura, chegando aos dias de hoje. Com isso, cristalizou-se a associação de características como fragilidade física e emocional ao comportamento feminino.

Essa visão secular – e muitas vezes anacrônica – da forma tradicional de ser homem pode levar os garotos a desenvolver valores que os predispõem a condutas de risco. Essa foi a conclusão a que chegou a Organização Mundial da Saúde, em parceria com a Organização Pan-americana da Saúde, após a condução de estudos com adolescentes latino-americanos. De acordo com a pesquisa, condutas problemáticas como violência, risco infecção por HIV, uso de drogas e paternidade na adolescência estão relacionadas a uma visão estereotipada da masculinidade.

As armadilhas do estereótipo
Acidentes de trânsito, homicídios e doenças cardiovasculares relacionadas ao abuso de álcool são situações em que a construção social da masculinidade tem grande peso. Segundo o documento, os jovens subestimam os riscos de determinadas atitudes para afirmarem sua masculinidade.

Por exemplo, o que um adolescente que não conhece bem seu corpo – e quase nada do corpo da garota – vai escolher na primeira transa: correr risco de pegar uma DST ou ser pai ou eventualmente perder a ereção no momento de colocar a camisinha? No nosso (pre)conceito social, ser pai ou pegar uma DST é coisa de homem, mas broxar não. O documento ainda frisa que os valores e os caminhos tradicionais da masculinidade entre os jovens latino-americanos estão relacionados, no âmbito da saúde reprodutiva, à atividade sexual sem proteção e à promiscuidade.

O estudo também aponta espaços de possível intervenção na construção da masculinidade. Vale a pena ressaltar que a sociedade mudou e os papeis tradicionais, por consequência, dão lugar a novas imagens de masculino e feminino. Um exemplo é a valorização da produtividade econômica, social e sexual da mulher. Para levar os jovens ao debate, uma sugestão é promover uma roda de conversa com os alunos sobre situações simples e questioná-los sobre como deveria ser a conduta do homem e da mulher diante de cada fato apresentado. Assim, poderemos levá-los a sugerir condutas alternativas e a refletir sobre os modelos, para que consigam identificar e adotar comportamentos responsáveis.

E você, com tem tratado esse assunto em sua sala?


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Perda do apetite sexual. Como isso afeta os alunos?

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Pode parecer estranho falar em falta de libido em uma faixa etária em que os hormônios estão em ebulição e, muitas vezes, é difícil para a garotada conseguir contê-los. Mas não é! Costumamos receber dúvidas sobre esse assunto no SOSex, o serviço de orientação sexual a distância que mantemos na instituição em que trabalho.

A falta de desejo sexual é uma das disfunções sexuais mais comuns em nossa população e pode ocorrer também entre os adolescentes. Tudo começa muito bem, pois o casal está completamente apaixonado, e qualquer oportunidade de transar ou trocar carícias não é desperdiçada! Mas, depois de algum tempo, sem motivo aparente, vem a queixa: um dos parceiros perdeu a vontade de transar.

O desejo é uma condição indispensável para uma transa acontecer, porque ele é a motivação, o tesão, o que dá emoção. Aliás, tudo que a gente faz na vida, para ser prazeroso, precisa ser movido pelo desejo. No início de um relacionamento, a paixão garante o tesão. Mas, com o tempo, ela passa e fica o amor, a afetividade. É a hora de prestar atenção em si e no outro, para aprender a identificar na linguagem corporal – um olhar especial, um jeito de acariciar – a disposição de fazer sexo.

Mostre aos alunos como funciona o desejo sexual
O desejo sexual é uma necessidade que faz homens e mulheres procurarem, iniciarem e/ou responderem à estimulação sexual. É um estado de motivação, um impulso gerado no cérebro, da mesma forma que a fome, a sede, o calor, o frio. O centro regulador do sexo fica situado no hipotálamo e funciona sob o comando de duas forças: o motor erótico e o freio sexual.

Faça uma roda de conversa sobre o equilíbrio entre o motor erótico, que estimula a vontade de fazer sexo, e os freios sexuais, que mantêm sob controle nossas vontades sexuais, ajustando-as às oportunidades e riscos do meio ambiente. É muito importante que os jovens percebam que, quando esse mecanismo de controle sofrer qualquer alteração, a pessoa pode apresentar um aumento ou uma diminuição do desejo sexual. Os principais fatores que interferem nesse equilíbrio podem ser biológicos, como as alterações hormonais, ou psicossociais, como ter recebido uma educação sexual muito rígida, deixar de sentir atraído pelo parceiro ou ainda por pensamentos que provocam raiva ou ansiedade.

O desejo sexual é a etapa que define a qualidade da relação sexual. Devemos respeitar nosso desejo. Conhecer melhor a si e ao parceiro pode ajudar a manter o desejo em alta. Para isso, vale inovar, criar situações que surpreendam o parceiro, saber onde ele ou ela gosta de ser acariciado e, principalmente, conversar francamente sobre o relacionamento amoroso e sexual. Se o diálogo não for suficiente, isso pode ser um sinal de que eles precisam de ajuda profissional, seja de um médico, no caso de haver algum fator fisiológico, ou mesmo de um terapeuta sexual.

Você já bordou esse tema com sua turma? Compartilhe sua experiência com a gente.


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Como lidar com os novos modelos familiares?

| Família

Neste fim de semana surgiu, numa conversa com amigos, o tema das configurações familiares. A filha de uma amiga, de cinco anos, contou que um de seus coleguinhas tinha dois pais. Imediatamente, um dos presentes fez o seguinte comentário:

- Deve ser muito ruim ser filho de um casal gay! Comigo, que sou filho de pais heterossexuais, mas que não se casaram e nem moraram juntos, já foi complicado de lidar com o preconceito e a ignorância das pessoas.

Esse é o ponto: o preconceito.  Ainda há pessoas com grande dificuldade em aceitar as novas configurações familiares, como se com isso pudessem eliminar da sociedade o que é diferente do socialmente aceito por eles. Mas o caminho não é esse.

Segundo dados do último censo do IBGE, de 2010, já são mais de 60 mil os casais gays que moram juntos. Porém, as relações homo-afetivas são apenas mais um exemplo dos novos arranjos familiares no Brasil. O modelo de casal heterossexual com seus próprios filhos deixou de ser dominante no país. Pela primeira vez, o levantamento demográfico identificou 19 tipos de laços de parentesco, indicando que os outros tipos de arranjos familiares estão em 50,1% dos lares, entre eles: casais sem filhos, pessoas morando sozinhas, três gerações sob o mesmo teto, casais gays, mães ou pais sozinhos com filhos, amigos morando juntos, netos com avós, irmãos e irmãs, e ainda a nova e famosa família “mosaico”, compostas por pais divorciados que voltam a se casar e vivem com os filhos do antigo casamento na mesma casa. Dados como esse mostram como o conceito de família hoje é muito abrangente. Ficar discutindo com base em conceitos antigos não é apenas improdutivo, é um retrocesso.

Qual é o papel da escola nessa discussão?
A escola pode ajudar muito os alunos e pais a lidar com a diversidade das relações familiares e, principalmente, dar apoio para famílias com uma conformação diferente. Para isso, é fundamental que professores e funcionários estejam convencidos de que todas as relações amorosas são válidas e que qualquer criança quando é amada e cuidada pode ser feliz e saudável, independentemente do tipo de arranjo familiar que ela tenha.

Reações de rejeição e preconceito em virtude de um arranjo familiar pouco convencional pode causar isolamento social, revolta, agressividade e desatenção no aluno. Esses comportamentos dificultam a concentração e a aprendizagem e podem ser considerados um aviso para o professor intervir junto à turma, ou mesmo orientar os pais a buscar apoio especializado.

Para lidar com esse tema com os pais e alunos é preciso que professores e funcionários saibam como tratar a questão. É possível lançar um desafio pedagógico em que os diferentes tipos de família conhecidos pelos professores e funcionários sejam listados e solicitar que eles expliquem, em termos de configuração e modo de agir, o que há de diferente no comportamento dessa família. Essa é uma boa forma de desmistificar os tabus e mostrar que, se bem estruturado, qualquer um dos arranjos familiares apresentados pode contribuir para o desenvolvimento da criança ou jovem. Essa atividade também pode ser proposta para os alunos adolescentes, focando na apresentação das pesquisas realizadas e na valorização do que identificam como importante na convivência em casa, deixando claro que o apoio da família pode existir independentemente da forma como elas se configuram.

Para o trabalho com os familiares, sugiro que, após esse desafio com os professores, a escola faça uma palestra para falar sobre os novos arranjos familiares e fazer uma roda de conversa sobre o assunto, aproveitando, se o clima da conversa for de respeito à diversidade, para mostrar os tipos de família que existem na escola.

Já com os alunos pequenos, a melhor maneira é apresentar o assunto de forma natural e sem muitos detalhes. A criança consegue compreender que ele tem um pai e uma mãe, seu amigo tem dois pais, sua amiga duas mães, o outro coleguinha é criado pela vó, compreendendo que existem outras formas de família além da que ela participa.

Muitas escolas já incluem o tema “família” dentro de suas grades curriculares. Nesse caso, é só buscar uma forma dinâmica de conversar com os alunos: colagem de fotografias ou desenhos dos familiares para montar a árvore da família, além de outras formas de expressão em que as famílias sejam apresentadas e os alunos possam mostrar o que mais gostam na convivência familiar.

Gostei muito de um caso que encontrei na internet, em que a escola sugeriu a um aluno filho de pais gays que ele convidasse amiguinhos para frequentarem sua casa com o intuito de notarem que não existia diferença, a não ser o fato de que ele tinha dois pais. Para isso, a escola teve o cuidado de indicar uma família mais flexível e que lidava de forma aberta com o assunto. A conclusão da coordenadora pedagógica que trouxe a proposta foi de que, apesar de não ser uma questão fácil de ser trabalhada, é possível a escola ajudar a desenvolvê-la (veja aqui).

E na sua escola, como é trabalhada a questão da diversidade familiar?


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Devo falar sobre a pílula do dia seguinte com meus alunos?

| Sexualidade

A chamada pílula do dia seguinte é uma medicação de emergência que serve para impedir a gravidez quando há uma relação sexual de risco. Apesar de não ser nenhuma novidade, ela ainda é motivo de dúvidas e muita polêmica nos treinamentos que faço com professores.

É válido falar sobre esse método com os alunos? Eu não estaria incentivando um comportamento irresponsável? – perguntam-me, preocupados, alguns professores.

Há quem acredite que o fato dessa pílula evitar a gravidez após uma relação sexual desprotegida levará os adolescentes a abandonarem o uso de outros métodos contraceptivos, principalmente a camisinha.

Minha experiência profissional diz que esse tema é fundamental num trabalho de prevenção da gravidez. A pílula do dia seguinte pode ser um importante aliado em uma situação de emergência, desde que os jovens tenham informações corretas sobre suas indicações e contraindicações. É importante, portanto, deixar claro para os alunos para que serve e como age esse medicamento.

Indicação para usar contracepção de emergência
• Quando nenhum método anticoncepcional foi usado;
• Quando a camisinha rompe, ou ocorre algum vazamento de esperma na retirada do pênis de dentro da vagina;
• Quando há o deslocamento ou ruptura do diafragma;
• Quando o coito interrompido não é bem sucedido;
• Quando há expulsão do DIU;
• Quando a relação sexual acontece no período fértil, sem o uso de camisinha;
• Quando a garota toma pílula anticoncepcional regular e esquece 2 ou mais comprimidos no mesmo ciclo menstrual.
• Quando a garota é vítima de estupro.

A ação da pílula do dia seguinte
• Interrupção ou inibição da ovulação;
• Alteração do endométrio, impedindo que o útero tenha condições de receber o ovo (óvulo fecundado).
 
Como e quando usar?
O nome pílula do dia seguinte pode confundir as garotas em relação ao uso do medicamento. Embora ela seja conhecido popularmente por esse nome, a pílula não deve ser usada apenas no dia seguinte. Caso ocorra uma das situações mencionadas acima, a pílula deve ser tomada o quanto antes. Quanto mais cedo ela for ingerida, maior sua eficácia.

O medicamento pode vir em uma embalagem com um ou dois comprimidos, dependendo do fabricante. O primeiro comprimido – ou a dose única -   deve ser tomado, preferencialmente,  em até 72 horas depois da relação sexual. Já o segundo comprimido pode ser tomado junto com o primeiro ou em até 12 horas após sua ingestão. Quando acontece de a pessoa vomitar no prazo de 2 horas após a ingestão de um dos comprimidos, uma outra dose deve ser tomada.

Eficácia
A pílula do dia seguinte é capaz de impedir a gravidez na maioria dos casos, mas não é 100% eficaz. Sua eficácia é maior quanto mais precocemente ela for tomada: 95% nas primeiras 24 horas, 85% entre 25 e 48 horas e 58% entre 49 e 72 horas.

Outro fator que diminui a eficácia da pílula do dia seguinte é usá-la mais de uma vez num mesmo ciclo. Por esse motivo, ela não deve substituir os métodos anticoncepcionais de uso regular.

Quando uma mulher tomar essa pílula depois que o ovo já iniciou o processo de implantação na parede uterina, o remédio não é capaz de induzir ao aborto. Portanto, não adianta tomá-lo depois que se está grávida.

Efeitos colaterais
Os efeitos colaterais mais comuns são náuseas e vômitos. Hoje, com pílulas a base de progesterona, esse efeito já foi bem atenuado. Algumas garotas podem apresentar um pequeno sangramento na primeira semana, mas a menstruação ocorrerá mais ou menos na data prevista, ao contrário do que imaginam muitas garotas. Observe a tabela a seguir.

13% A menstruação atrasará mais de 7 dias.
15% A menstruação atrasará de 3 a 7 dias.
57% A menstruação ocorre na data prevista, ou um pouco antes.
15% A menstruação pode adiantar uns 7 dias.

Indicação médica é importante, mas não é fundamental
A consulta ao médico para fazer um tratamento é importante. Mas isso nem sempre é possível, principalmente no caso da contracepção de emergência que precisa ser iniciada em até 72 horas após a relação de risco. Por isso, o Ministério da Saúde e os conselhos de Medicina e de Farmácia chegaram a um consenso de que a pílula do dia seguinte pode ser usada sem necessidade de consulta médica, já que os efeitos colaterais não põem em risco a vida da mulher, nem afetam de forma definitiva o funcionamento normal do corpo quando usado de forma esporádica.

Essa é uma solução paliativa
Respondendo a pergunta feita no início do post: informação é sempre melhor que a ignorância. Então, devemos conversar sobre todos os métodos contraceptivos conhecidos com os alunos. No caso da pílula do dia seguinte, devemos deixar claro que ela só deve ser usada em casos de emergência e nunca como um método anticoncepcional regular. Segundo a Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo (SOGESP), um comprimido dessa pílula equivale a sete comprimidos da pílula anticoncepcional convencional. Essa é uma dosagem hormonal muito alta para adotá-la como método preferencial de contracepção.

Para evitar a gravidez e garantir a prevenção das DSTs/Aids,  o Ministério da Saúde recomenda o uso de um método hormonal, como a pílula anticoncepcional, pela garota e a camisinha pelo garoto. Esse é o casamento perfeito!


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Meu aluno tem HIV. E agora?

| Atitude Abril

Criar espaços democráticos de discussão é fundamental para desfazer preconceitos e combater a discriminação

Na semana passada, em meio ao feriado e aos jogos da Copa, fizemos um encontro do projeto Quebra Tabu, voltado à prevenção das DSTs/Aids, que acontece em escolas do Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, e Maceió, além de outras cidades de Alagoas.

Durante nossa conversa, uma professora me contou, surpresa, ter descoberto que um aluno de sua turma é portador do vírus. A informação, no entanto, não tinha sido fornecida pela direção da escola, mas graças a um questionário de monitoramento aplicado aos alunos para verificar a eficácia do projeto. Indignada pela ocultação dessa informação, a professora me pergunta:

- Como podemos aprender e ensinar a não discriminar as pessoas que vivem com HIV se a gente é poupada de conviver com esse fato?

O argumento da professora faz sentido, mas a questão não é tão simples como parece. A escola deve aceitar a criança portadora do vírus HIV e manter total sigilo sobre essa informação. Além disso, a Portaria Interministerial número 796/92 proíbe a realização de teste sorológico compulsório e a exigência de teste para manutenção da matrícula nas redes públicas e privadas de ensino, em todos os níveis. Não há nenhuma negligência ou situação de risco no fato de omitir essa informação para proteger e respeitar os direitos do aluno. A escola, portanto, estava cumprindo o seu dever.

Ainda assim, a linha de raciocínio da professora se mostra coerente. Só quando a gente se depara de forma real com um fato é que podemos avaliar nossos preconceitos e quebrar as predisposições afetivas negativas. Mas podemos testar e aprender a lidar com os fatos mesmo sem sermos exposto a eles. Por isso, a escola precisa criar espaços de vivência verdadeiramente democráticos, que desmontem  qualquer forma de preconceito e discriminação.

É preciso reforçar, com toda a comunidade escolar, que o convívio social com pessoas portadoras do HIV não oferece o menor risco. De acordo com dados fornecidos pela Coordenação Nacional de DST e Aids, órgão ligado ao Ministério da Saúde, não se tem conhecimento sobre a transmissão do vírus durante brincadeiras ou em outras situações comuns ao cotidiano escolar. Não se pega HIV pelo ar, pelo contato ao beijar ou abraçar e, muito menos, pela convivência em sala de aula.  Por isso, não há a menor necessidade da criação de escolas especiais voltadas para essas crianças o que, além de ser ilegal, reforçaria ainda mais o preconceito e a exclusão social.

Como o professor deve agir? 
O desafio de ter na escola alunos portadores do HIV tem que ser enfrentado com muita informação sobre a doença e seu tratamento, além da busca de ajuda desfazer os equívocos que os alunos possam ter sobre a doença, garantindo os direitos da criança ou adolescente soropositivo. O Ministério da Saúde mantém um site bem completo sobre o assunto. Veja aqui.

A escola precisa criar condições e oferecer alternativas para que o aluno portador do vírus não interrompa seu processo educativo, sempre tomando cuidado para não expor sua situação. O professor não precisa – nem deve – adotar uma postura superprotetora, mas deve conversar com o aluno e seus responsáveis sobre como proceder em relação ao uso de medicamentos no ambiente escolar ou o que será necessário para justificar suas faltas por imposição do tratamento médico, além de assegurar que ele obtenha os conteúdos das disciplinas em caso de ausência e possa realizar as provas.

A escola não pode exigir que as crianças soronegativas deixem de frequentar o espaço escolar quando apresentarem infecções, como gripe e outras doenças comuns na infância e adolescência. Nesses casos, é importante, deslocar, com discrição, o aluno que está com gripe para o mais distante possível do aluno que tem HIV/Aids, pois, por conta de sua imunidade estar eventualmente debilitada, uma simples gripe pode trazer consequências mais graves para um soropositivo.

No blog Coordenadoras em ação, minhas colegas Eduarda Diniz Mairynk e Leninha Ruiz dão orientações sobre os cuidados necessários em caso de acidentes que envolvam ferimentos em alunos com o vírus. Vale a pena a leitura.

Uma criança igual às outras

Foco no combate ao preconceito e à discriminação
O preconceito e a discriminação estão arraigados em nossa sociedade. Nossas crianças e adolescentes – assim como muitos de nós – os reproduzem em diferentes âmbitos da vida: preconceito étnico-racial, de gênero, de grupos socioeconômicos, de orientação sexual, em relação a portadores de necessidades especiais… Este reconhecimento é o ponto inicial para trabalhar a temática com os alunos.

As crianças também aprendem por meio da imitação das pessoas que são significativas em sua vida, e o professor é uma delas. Aproveite isso assumindo uma conduta despretensiosa e justa frente aos seus alunos, e nunca perca uma oportunidade de informar para corrigir qualquer comportamento preconceituoso ou alguma situação de discriminação por parte deles.

Já os adolescentes têm perfeita condição de entender os significados do preconceito e da discriminação. O professor pode falar da hipótese de eles terem um colega portador do HIV e perguntar como seria a reação deles, identificando equívocos causados por falta de informação. É muito importante que eles entendam que, quando descriminam alguém, estão negando a dignidade daquela pessoa, diferenciando-a das demais por conta de estereótipos construídos culturalmente.

Antes de conduzir essa conversa, é muito importante que o professor reavalie seus próprios preconceitos e se certifique de que está munido de informações corretas para transmitir aos alunos. O Portal do professor tem uma coleção de aulas sobre preconceito e discriminação que podem ser de grande valia para desenvolver esse trabalho com os alunos (veja aqui).

E na sua escola, você já viveu uma experiência como essa? Conte-nos nos comentários como você lidou com ela.

Campanha Atitude Abril Aids - Desinformação Tem Cura!


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Como falar sobre aborto com os alunos?

| Corpo e saúde, Sexualidade

Ao ser questionado sobre aborto, o educador deve procurar descobrir qual é a real motivação da pergunta

Há algum tempo, uma professora me contou que uma vez havia sido questionada por uma aluna sobre sua opinião em relação ao aborto. No momento ela desconversou, mas depois, preocupada, me procurou para saber como proceder.

Uma pergunta como essa dificilmente ocorre fora de contexto, apenas por curiosidade. Por isso, é muito importante acolher a aluna e buscar descobrir a verdadeira intenção da pergunta. Às vezes, pode haver um problema por trás dessa curiosidade aparentemente despretensiosa, como a gravidez da garota ou de uma amiga que ela esteja tentando ajudar.

Por isso, a orientei a perguntar para a garota “por quê” ela queria ouvir sua opinião. Dessa forma, é possível se aproximar da verdadeira intenção da pergunta e perceber que a resposta mais adequada, não é a posição pessoal sobre o aborto, mas sim, fornecer informações que mostrem os prós e os contras sobre o tema.

Aborto é um assunto extremamente polêmico e cheio de armadilhas. A legislação brasileira o permite somente em casos de estupro, de gravidez com risco à vida da mãe ou se o feto for anencefálico (uma má-formação rara do tubo neural caracterizada pela ausência parcial do encéfalo e da calota craniana). Em qualquer outra circunstância, a interrupção da gravidez é proibida no país. Mas não podemos fingir que isso não acontece.

Cálculos do Ministério da Saúde revelam que 3,7 milhões de mulheres entre 15 e 49 anos induziram aborto – 7,2% do total de mulheres em idade reprodutiva.  Isso faz do aborto a quarta maior causa de óbito materno no país, vitimando 9,4 de cada 100 mil gestantes, especialmente as de menor poder econômico.

As mulheres decidem interromper a gravidez hoje, decidiram ontem e vão decidir sempre. Mesmo que o custo dessa decisão traga risco de morte. E isso é sério! Contudo, ainda estamos longe de uma solução definitiva para essa questão. Enquanto para os favoráveis à proposta, o aborto é um direito da mulher; os contrários defendem que o feto não é parte do corpo dela, mas sim outro organismo que depende temporariamente do útero da mãe para se desenvolver. Abortar, portanto, seria cometer um crime. E isso nos leva necessariamente para o foco da polêmica: o conceito de vida humana.

Quando começa a vida?
A questão fundamental do aborto está no conceito de vida. E é aí que a coisa complica.

De forma sucinta, podemos dizer que há quatro diferentes interpretações para o fenômeno. Há o grupo que defende que a vida surge no momento da fertilização do óvulo. Outros acreditam que o marco inicial da vida é a implantação do óvulo fecundado no útero, chamada cientificamente de nidação. Um terceiro grupo afirma que a vida se inicia a partir do momento em que o feto começa a ter atividade cerebral. E, por fim, há o grupo baseado na postura filosófica existencialista, segundo a qual só há vida quando a pessoa se põe no mundo e toma consciência de sua existência.

Como se vê, da fecundação ao nascimento, não há um instante biológico privilegiado, com o qual todos concordem. Na maioria dos países em que o aborto é permitido, o prazo limite para a interrupção da gestação é definido pelo conceito da viabilidade, ou seja, o momento a partir do qual o feto, com o auxílio de aparato médico, é capaz de viver fora do útero. Isso geralmente se dá por volta da 24ª semana de gestação.

Promova um debate com a turma
Essa polêmica não é nova, e vale a pena ser debatida em sala de aula. Nosso papel como educadores é incentivar o conhecimento e ajudar os alunos a interpretarem os fatos para poderem formar suas opiniões de acordo com suas visões de mundo. Para isso, sugiro a seguir um breve encaminhamento do assunto com a turma:

1a etapa
Inicie a conversa mostrando que gerar uma vida é da natureza da mulher e do homem, mas ser mãe ou pai pode ser uma escolha. Para isso, o melhor caminho é usar os métodos contraceptivos para prevenir a gravidez. Infelizmente, nem todo mundo tem informação adequada e motivação para se prevenir, ou acesso a métodos contraceptivos, o que  leva muitas mulheres a se depararem com o dilema de interromper ou continuar a gravidez. Problematize o assunto com a turma perguntando: O aborto pode ser uma solução menos penosa entre duas alternativas difíceis? Ou a lei deve permanecer como está?

2ª etapa
Divida os alunos em grupo e peça para pesquisarem os argumentos a favor e contra a legalização do aborto. Depois, peça que cada grupo apresente suas considerações e conclusões. O professor pode sistematizar no quadro os principais argumentos e instigar os alunos a defendê-los ou refutá-los.

Você já abordou esse assunto com seus alunos? Quais foram as questões levantadas por eles?

Até a próxima!


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