Os riscos do coito interrompido

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Um dos temas que não podem faltar na Educação Sexual são os métodos contraceptivos. Esse é um assunto que os jovens precisam conhecer para lidar com a vida sexual de maneira responsável. Falar sobre isso, em geral, é sempre muito tranquilo, principalmente quando utilizamos uma metodologia participativa. No entanto, quando chega a vez do coito interrompido, o barulho na sala é grande. E a questão é sempre a mesma: por que falar sobre esse método se ele não é indicado para adolescente?

Porque as pessoas usam! Um estudo americano revelou que até 60% das pessoas já usaram o método pelo menos uma vez na vida, embora seja um dos principais métodos associados ao risco de gravidez não planejada. O mesmo estudo avaliou que o uso do coito interrompido aumentar em até 75% o risco de uma garota engravidar comparado a casais que usaram outros métodos contraceptivos. A sua possibilidade de falha, mesmo quando utilizado corretamente, está em torno de 4%, enquanto a pílula anticoncepcional, por exemplo, é de 0,1%.

Só escolhemos um caminho, se estamos convencidos de que ele é o melhor. Por isso nossos alunos precisam aprender sobre esse método e o seu funcionamento para conhecer os riscos que estão correndo quando o elegem como estratégia para driblar o risco de engravidar e, assim, tomarem uma decisão consciente.

O método do coito interrompido
O coito interrompido é a prática de retirar o pênis da vagina momentos antes da ejaculação, para evitar a gravidez. É uma prática antiga, talvez o método contraceptivo mais antigo de que temos notícias. Para vocês terem uma ideia, o Velho Testamento já fazia menção a ele. Muito utilizada por jovens e adultos por sua praticidade, já que não necessita de uma consulta ao médico ou de uma “exposição para estranhos” na farmácia: ele pode ser usado a qualquer momento, sem custo nenhum.

O coito interrompido é considerado, sim, um método contraceptivo. Para ocorrer a gravidez é necessário que a ejaculação aconteça dentro ou próxima à entrada da vagina porque é secreção vaginal o conduz até as trompas. Logo, se a ejaculação ocorrer distante da vagina, a gravidez não acontece. Este método parece ser uma maravilha quando não são levadas em consideração algumas questões. E são exatamente essas questões que podemos trazer para os nossos alunos durante uma aula sobre métodos contraceptivos.

A conversa com o aluno
Explique para os alunos que o maior problema do coito interrompido é o controle da ejaculação. Retirar o pênis da vagina, justamente no momento em que a excitação está alta e prestes a levar o garoto ao orgasmo, não é uma tarefa fácil, muito menos na adolescência! Isso exige um autoconhecimento e muita disciplina, o que é difícil neste período da vida. Em geral, quando o garoto se dá conta de que precisa tirar o pênis, a ejaculação já aconteceu ou está acontecendo. E aí será tarde demais para evitar a gravidez, porque alguns espermatozoides já foram expelidos segundos antes da retirada completa do pênis.

A prática do coito interrompido também não evita o contágio de doenças sexualmente transmissíveis. O contato do pênis com a parede da vagina é o suficiente para a transmissão das DST, inclusive a Aids. Durante a relação sexual podem ocorrer microscópicas lesões nas paredes do pênis e da vagina que possibilitam a infecção, caso um dos parceiros esteja infectado.

As falhas deste método não param por aí! Faça os alunos refletirem sobre a qualidade da relação sexual, se em vez de haver um momento de entrega e desprendimento, eles só ficarem preocupados em controlar a ejaculação. O controle ejaculatório, a tensão de estar correndo risco de enfrentar uma gravidez e a sensação de ter a ejaculação e/ou orgasmo interrompidos durante a transa podem causar uma frustração sexual no casal, e em alguns casos, levar a problemas futuros de disfunção erétil e/ou ejaculatória.

Por fim, o educador pode concluir com a ajuda deles que as aparências enganam. O que parecia ser um método prático e fantástico, na realidade, se torna muito complicado, além de arriscado.

Esse é um tema que você já abordou com seus alunos? Compartilhe no Blog sua experiência.


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Ficar e namorar: o que isso significa?

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“Ai, como é difícil entender essa juventude! Eles não querem mais saber de namoro, só pensam em ficar…”. Essa é uma frase comum nos meus treinamentos com os professores quando começamos a abordar o tema relacionamento afetivo e sexual na adolescência. Mas difíceis, na verdade, são os adultos!

Nós temos muita dificuldade de sair da nossa zona de conforto para buscar entender as circunstâncias que levam o jovem de hoje a experimentar um relacionamento afetivo e sexual de forma diferente daquela que vivemos ou que não estão previstas nos nossos conceitos de amar, se apaixonar. Quando ouço comentários como o que abre este post, minha resposta é sempre a mesma: acredito que a gente pode estar enganado. Eles querem, sim, namorar. Mas para isso precisam respeitar o seu tempo e o seu amadurecimento.

No início da adolescência, ninguém é capaz de ter uma relação sexual ou um envolvimento duradouro de pronto! O jovem passa por um processo de aprendizagem do seu papel sexual até estar preparado para se relacionar com alguém. É fundamental que qualquer educador que resolva conversar sobre sexualidade com adolescentes saiba e compreenda como se dá esse desenvolvimento afetivo-sexual. É por isso que abordo o assunto em todos os treinamentos que realizo.

Por que eles ficam e não namoram?
A chegada do ficar bagunçou muito a nossa referência de relacionamento. Para muita gente ele ainda soa como uma prática que precisa ser combatida. Mas não é bem assim. Trata-se de uma prática necessária ao desenvolvimento psicossexual dos jovens, que os prepara para aprender a lidar com o outro.

Além disso, os atuais conceitos de masculinidade e feminilidade privilegiam a conduta sexual dos jovens. Portanto, ser homem não é mais “fingir” que sabe tudo de sexo e se dedicar a ser um bom provedor. O homem também deve agradar sexualmente e o garoto é valorizado quando “tem pegada”.

Ser mulher não é mais apenas ser capaz de cuidar de filhos e de uma casa. A mulher também é sensual e a garota é apreciada na sua desenvoltura com as carícias sexuais, como no mínimo saber beijar.

É no ficar que eles treinam tudo isso. É também nele que têm a oportunidade de fazer só o que dão conta e ousam a experimentar, gradativamente, as práticas sexuais de acordo com a maturidade e vivência de cada um. Eles aprendem a beijar e a trocar carícias, mas também a seduzir, conversar, dar atenção, negociar, perceber o outro… até que se sintam seguros para viver isso de forma mais intensa, íntima e com compromisso – o namorar.

Todos querem namorar, principalmente as meninas, como bem diz a música do Luiz Gonzaga, o Xote das Meninas:

“Mandacaru quando fulora da seca
é sinal que a chuva chega no sertão
Toda menina que enjoa da boneca
é sinal que o amor já chegou no coração…
Ela só quer, só pensa em namorar…”

O que acontece hoje é que “enjoar da boneca” não é mais uma referência para se sentir pronta para encarar um namoro, mas para estabelecer outras relações. Quando se namora a convivência é grande… É preciso se ter uma certa desenvoltura com relação ao seu papel sexual, se sentir em condições de lidar afetiva e sexualmente com alguém. Além disso, também é importante perceber certas afinidades, como gostar de determinada atividade esportiva, de estudar, de tipo de diversão ou interesse de projeto de vida. Tanto em meninas quanto em meninos, essa fase chega mais tarde, depois do “ficar”.

Ao conversar com os alunos, é importante ter em mente esses aspectos. Não podemos instruí-los e ajudá-los se não compreendermos como eles costumam se relacionar. Mais informações sobre o processo de desenvolvimento afetivo e sexual estão disponíveis na aula 4 do projeto Quebra Tabu, desenvolvido pelo Instituto Kaplan.

Compartilhe aqui nos comentários suas percepções e dúvidas sobre as maneiras como os adolescentes se relacionam hoje!

Dica para os moradores de São Paulo
Na próxima semana, o Instituto Kaplan organiza uma exposição chamada “Por Dentro da Camisinha”. O evento acontece nos dias 24 e 25 de setembro, no Ibirapuera, e pode ser uma boa oportunidade para seus alunos conhecerem e discutirem sobre esse método de prevenção. Mais informações no link: http://www.kaplan.org.br/institucional/sec/exposicao-por-dentro-da-camisinha.


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A vacinação contra HPV é segura?

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Crédito: Shutterstock

Eu fiquei muito preocupada quando ouvi a notícia sobre as alunas da escola de Bertioga que foram internadas no hospital por causa de sintomas como a perda de movimentos e sensibilidade das pernas causados, supostamente, pela vacina contra o HPV.

Para quem ainda não sabe, desde março, a vacina contra o HPV passou a ser distribuída gratuitamente pelo SUS para meninas entre 11 e 13 anos e a segunda fase da campanha começou no dia 1o de setembro. Obviamente, minha primeira reação ao saber do acontecido foi querer saber sobre as meninas.   Mas, depois,  o impacto que uma notícia como essa pode causar na população ocupou os meus pensamentos como educadora sexual. Fui saber o que as pessoas estavam pensando.

Não deu outra! Como diz o ditado, notícia ruim chega logo. São inúmeros os sites, blogs e canais de notícias que divulgaram o acontecido, e os comentários são exatamente aqueles que eu suspeitava: “e agora, devo vacinar minha filha?”

As escolas serão bastante questionadas por muitos pais até que se esclareça de fato o que aconteceu com a essas garotas. Procurei me assessorar com médicos ginecologistas, neurologistas e imunologistas, e todos foram unânimes: não há nenhum motivo para pânico ou medo de vacinar as meninas.

Segundo a Folha de S. Paulo, a Secretaria Estadual de Saúde está acompanhando de perto os casos das 11 jovens e já descartou qualquer problema com o lote de vacinas utilizado em Bertioga. De acordo com a responsável pelo setor de Imunizações da Secretaria, Helena Sato, a vacinação contra o HPV vai continuar em todo o estado. Ela disse que não há nenhuma associação dos sintomas apresentados pelas adolescentes de Bertioga com a aplicação da vacina, uma vez que o mesmo lote, composto por 320 mil doses, vem sendo aplicado desde o início do mês em estudantes de todo o estado de São Paulo.

O suporte do educador

Quando se fala na prevenção de doenças como hipertensão ou diabetes, as pessoas conversam, buscam informações, trocam receitas de comidas saudáveis, dão dicas de formas de se exercitarem etc. Mas quando a doença está ligada ao sexo, geralmente não há diálogo, há julgamento. A vacinação gratuita contra HPV é uma grande conquista e é triste vê-la posta em risco.

A aids, por exemplo, foi descoberta nos anos 80 e até hoje há quem julgue que ensinar os jovens a se prevenir contra essa doença incurável é incentivá-los a ter relações sexuais. Isso é negar o benefício da informação. O conhecimento é uma das maiores virtudes para evitar os riscos a que todos nós estamos sujeitos na vida sexual. Ah! Como eu ficarei feliz no dia em que me defrontar com amigos trocando receitas de como colocar a camisinha de um jeito mais prazeroso ou dando dicas de práticas sexuais que evitam a possibilidade de infecção… Imaginem que atitude saudável a família dar camisinhas de lembrancinha do aniversário!!! Uma verdadeira festa para os meus olhos!

A vacina contra o HPV está por um triz de cair no conceito popular como algo nocivo. Nós, educadores, temos a obrigação de não deixar que isso aconteça! Como disse, a vacina contra o HPV (papiloma vírus humano) foi uma grande conquista para a prevenção dessa doença, que é uma das principais responsáveis pelos casos de câncer de colo do útero, um tumor frequente na população feminina e a segunda causa de morte de mulheres por câncer no Brasil.

Conseguimos incluir a vacina no calendário nacional de imunizações, mas é preciso continuar falando sobre ela. Não ignore o assunto em sua escola, ao contrário! Converse com os pais e com seus alunos. Traga o tema à tona, perguntando suas opiniões e esclarecendo as dúvidas que aparecerem.

Em outros posts desse blog, trago informações sobre a vacina e formas de abordá-la em sala de aula e com os pais. Dê uma olhada! Eles podem lhe ajudar a introduzir e trabalhar o tema em sua escola:

Vacina contra o HPV: Mais um aliado no combate às DSTs

Quer que suas alunas se vacinem contra o HPV? Envolva pais e escola

 A vacina do HPV: proposta de abordagem com os alunos

Como educadores, é nosso papel tranquilizar os pais e as alunas sobre a vacinação!

Conte aqui no Blog Direto ao Ponto sobre a aceitação da vacina em sua escola.

 

 


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Quando nossos alunos precisam ir ao ginecologista ou urologista?

| Corpo e saúde, Sexualidade

Fotos Shutterstock / Montagem Jacqueline Hamine

Durante a puberdade o desenvolvimento do corpo acontece em momentos e ritmos diferentes para cada adolescente. Tudo isso pode abalar a autoestima de nossos alunos e gerar dúvidas, angústia, timidez, insegurança, agressividade e até falta de concentração durante as aulas.

Imagine uma garota cujos seios parecem estar crescendo e, de repente, o inchaço desaparece… Ou a única menina da turma que ainda não menstruou… Dá para prestarem atenção à aula de geografia, sem saber se o que acontece com elas é normal? E um garoto que tem dúvidas quanto ao tamanho e formato do pênis, se precisa de cirurgia de fimose, o que fazer com o freio curto… Dá para se concentrar no problema de matemática?

Mil dúvidas sobre o corpo

O organismo da mulher é muito complexo. Num único mês, uma garota produz diferentes tipos de hormônios, que interferem em seu desenvolvimento físico, no humor e até nas atitudes.  Ela passa por uma série de desconfortos como cólicas menstruais e ainda sofre com incertezas, sem saber se sua men struação é adequada ou se uma possível secreção vaginal está indicando que algo está errado.

Para o homem, falar, pensar e fazer sexo sempre foram consideradas atividades do cotidiano masculino. Mas a ele nunca foi dado o direito de ter dúvidas, de tomar alguns cuidados, de aprender sobre seu corpo, e, principalmente, de respeitar as etapas de seu desenvolvimento. Quando, por algum motivo, desconfia que algo possa estar diferente em seus genitais, ele sofre muito. Ainda mais quando não tem coragem de pedir ajuda ou não sabe como e onde buscá-la.

Já não era sem tempo trazer esse assunto para a sala de aula. A visita ao ginecologista para as meninas e ao urologista/andrologista, no caso dos meninos, é fundamental para ensinar o adolescente a cuidar de seu corpo, acompanhar o seu desenvolvimento físico, esclarecer as dúvidas e indicar tratamentos, quando necessário. Tanto que o estatuto do adolescente estabelece o direito de fazer a consulta sem necessitar de autorização ou acompanhamento dos pais.

A visita ao ginecologista

É preciso acabar com o mito de que a primeira consulta com o ginecologista deve ocorrer quando a garota já teve sua primeira relação sexual. Isso criou um estigma para a menina, que tem receio de procurar uma consulta médica, porque a mãe ainda não sabe que está transando ou, pior, porque a mãe pode imaginar erroneamente que a filha está transando e brigar com ela.

Informe para os pais e suas alunas que a consulta ao ginecologista pode ocorrer a partir do momento em que a garota entra na puberdade, para avaliar se o crescimento e desenvolvimento estão ocorrendo no ritmo esperado e também para esclarecer as dúvidas a respeito desse momento.

Quando uma garota está planejando ter sua primeira relação sexual ou já está transando, a consulta com o ginecologista torna-se imprescindível. Principalmente para o controle das DST/Aids e indicação do método contraceptivo. Ressalte para as meninas que uma garota é diferente da outra e, portanto, o método adequado para uma pode não ser para a outra.

A visita ao ginecologista deve acontecer sempre que se percebe algum problema nos seios e genitais, ou a cada seis meses, para exames de rotina, como o de Papanicolau (que previne o câncer de colo de útero) e o exame de mamas.

A visita ao Uro/Andrologista

Andrologista, em outras palavras, é o ginecologista dos homens. Com os meninos o tabu é ainda maior – acredita-se que um homem só deve consultar o uro/andrologista depois dos 40 anos ou quando está com alguma suspeita de doença. Os garotos também devem adquirir o hábito de consultar seu médico para tirar dúvidas, ganhar confiança e cuidar de seus genitais.

A consulta ao uro/andrologista também é importante para fazer o diagnóstico precoce de algumas doenças. Embora raro, o câncer de testículo é o segundo tipo de câncer que mais aparece na adolescência e, quando detectado no início, pode ser curado. Além disso, existe um tipo de variz que pode surgir nos testículos, chamado de varicocele, que atinge 20% da população masculina, e 40% dos homens com este problema podem se tornar estéreis, caso o tratamento não seja realizado. Por fim, existem as doenças sexualmente transmissíveis, com seus agravos e sequelas para a vida sexual e reprodutiva do homem.

Embora o acesso a médicos pela maioria de nossos adolescentes ainda seja muito precário, não podemos nos acomodar negando a eles o direito de saber e usar os recursos de sua comunidade. Identifique a UBS (Unidade Básica de Saúde) ou Posto de Saúde mais próximo da escola para informá-los.

Além disso, você pode favorecer a aproximação deles com o serviço de saúde convidando um profissional desse estabelecimento para fazer uma palestra ou uma conversa com seus alunos sobre o atendimento. Aproveite a vinda do profissional para antes problematizar com eles sobre esse tema. Isso pode ser um bom aquecimento para a palestra.

Compartilhe com a gente a sua experiência!


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Orgasmo feminino como motivação para a prevenção

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Em um treinamento para educadores sobre o trabalho de prevenção de gravidez e DST/Aids indiquei este blog e sugeri o post da semana passada, sobre ejaculação precoce, para ampliar a motivação dos jovens nas ações de prevenção, e que daria continuidade, falando do orgasmo feminino.

Foi um auê… Uns acharam muito interessante, mas percebi que outros ficaram incomodados… Até que uma professora me questionou:
– O que a prevenção tem a ver com o orgasmo feminino?

Respondi: – A prevenção em si, nada. Mas o orgasmo feminino tem tudo a ver com a prevenção! Se o casal não estiver se prevenindo, o medo de engravidar ou contrair uma DST/Aids pode tirar a concentração nas carícias e impedir que o orgasmo aconteça.

Outro professor em seguida retrucou: –Meu papel não é ensinar minhas alunas a sentir orgasmo. Continuei: – Pode ser, mas nosso papel é estimular a prevenção! Se abordarmos esse tema, as meninas e os meninos podem passar a olhar a prevenção com outros olhos, como algo diretamente ligado aos seus interesses no relacionamento sexual. Isso pode ser um elemento de motivação.

O conhecimento sobre o corpo 

A conquista do direito ao prazer pela mulher ainda é muito recente, mas já foi absorvido, principalmente pelos jovens. No entanto, para exercê-lo, é preciso conhecer melhor o próprio corpo.  E para isso , um bom momento é a aula sobre as funções do corpo reprodutivo.

É muito importante que os adolescentes saibam o que acontece quando uma garota recebe um estímulo sexual, que desperta o desejo.  O sangue, que pode invadir o rosto e a deixar roborizada, se espalha intensamente por todo o corpo. Os genitais recebem maior fluxo sanguíneo e respondem com a excitação.  A vulva, órgão genital externo da mulher, começa a sofrer modificações que irão prepará-la para a relação sexual. Os grandes lábios, situados bem à vista, afinam-se e ficam entreabertos. Os pequenos lábios, localizados mais internamente, aumentam de tamanho e se projetam para fora, assumindo uma cor mais avermelhada.

O clitóris, espécie de botão existente pouco acima do local onde os pequenos lábios se unem, fica mais sensível ao toque, capaz de provocar um grande prazer ao ser estimulado.  Logo abaixo está o canal da uretra, por onde a mulher urina, e descendo um pouco mais surge um outro orifício. Esta é a entrada da vagina, um canal formado por músculos, que liga as partes interna e externa do aparelho genital feminino.

A vagina começa a produzir uma secreção que irá lubrificá-la, com o objetivo de facilitar a penetração do pênis. Seu comprimento normal varia de 7 a 10 cm, mas durante a excitação ela pode se distender, adaptando-se aos mais diferentes tamanhos de pênis. Nas mulheres que nunca tiveram uma relação sexual, existe ali uma membrana, o hímen, a qual não foi atribuída, até o momento, nenhuma função fisiológica.

O orgasmo feminino

Para a mulher atingir a excitação máxima, e consequentemente, o orgasmo, ela precisa de uma excitação crescente e uma lubrificação adequada. O alto grau de excitação provoca contrações rítmicas que se iniciam ao redor da entrada da vagina e se expandem por toda a região pélvica. Dessas contrações advém uma sensação rápida, porém intensa, de prazer, relacionada à liberação de certas substâncias químicas no cérebro, as endorfinas, que proporcionam a sensação de bem-estar.

Ao contrário do homem, a maioria das mulheres não possui um sinal visível de ter atingido o orgasmo. Manifesta apenas reações como aumento da transpiração, batimentos cardíacos acelerados, respiração mais rápida, gemidos e contrações musculares, seguidas de relaxamento.

Além disso, o fato de uma mulher ter orgasmo não aumenta nem diminui as chances de uma gravidez. Se ela tiver uma relação sexual durante o seu período fértil e não tomar nenhuma medida contraceptiva, pode engravidar, ainda que não sinta qualquer prazer.

Como falar de prazer e prevenção

Sugiro usar a mesma pergunta da professora que me questionou e problematiza-la com seus alunos… Depois que der as explicações do aparelho reprodutor, você pode lançar a pergunta “O que a prevenção tem a ver com o orgasmo feminino?” Em seguida, peça para que eles escolham colegas com quem gostariam de conversar sobre o tema e formem grupos. Uma vez formados, peça que façam uma pesquisa para apresentar na próxima aula.

Durante a apresentação dos alunos, anote na lousa as informações que tenham a ver com a resposta da pergunta. Provavelmente, os alunos irão associar a prevenção a um fator de inibição do desejo, e não o contrário. Ao final das apresentações, destaque se algum grupo tiver mostrado a importância da prevenção relacionada ao desprendimento e à entrega do casal ao sexo.  Faça uma breve explicação sobre o impacto que o estímulo sexual provoca no organismo da garota e as condições necessárias para que ela alcance o orgasmo.

Nesse momento, enfatize a importância da prevenção para se chegar ao orgasmo. Mostre por meio do gráfico abaixo, que o envolvimento com as carícias recebidas é fundamental para que o orgasmo aconteça.

Blog Ciência do Estudo da Mulher

Fonte: Blog Ciência do Estudo da Mulher

Para tanto, é imprescindível que a mulher se entregue às sensações. Se alguma preocupação externa acontecer durante o ato sexual, como por exemplo o medo de ficar grávida ou pegar uma DST/Aids, a concentração e a excitação são interrompidas, diminuindo a intensidade das sensações sexuais e da lubrificação.  Resultado: a penetração pode se tornar desprazerosa ou até dolorosa e o orgasmo não acontece!

Você pode fechar a conversa questionando se vale a pena colocar em jogo o prazer sexual por causa do sexo sem proteção? A minha experiência diz que a maioria vai responder “não”. E aí surge um outro bom momento para trabalhar a prevenção em sexualidade com seus alunos.

Experimente e compartilhe aqui no blog a sua experiência!


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A aprendizagem do controle da ejaculação

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Trabalhar a ejaculação precoce com a turma também é uma estratégia para prevenção de gravidez e DSTs, pois permite aos alunos lidar de forma mais saudável com o sexo

Outro dia uma professora me confidenciou o seu desânimo com o trabalho de prevenção de DST/Aids na escola. Ela me disse, muito triste, que teve vontade de desistir quando um aluno lhe contou que, quando vai transar, a vontade de ejacular chega tão rápido que nem dá tempo de pensar em colocar a camisinha.

Na hora, eu me lembrei do quanto já vivi esse tipo de frustração ao longo da minha carreira como educadora sexual. De fato, por mais que a nossa aula promova o conhecimento sobre a importância da prevenção e ensine nossos alunos sobre as doenças sexualmente transmissíveis, suas formas de contágio e como colocar corretamente a camisinha, nem sempre isso é suficiente para que eles tenham uma postura responsável com relação a sua sexualidade. Há muitos fatores que podem interferir nesta conduta, como a ejaculação precoce. No entanto isso não pode ser um motivo para desistir desse trabalho.

Eu respondi a ela que a estratégia que transformou o meu desânimo em encanto por meu trabalho foi inserir na educação sexual temas que possam neutralizar fatores de vulnerabilidade dos jovens. Se uma das dificuldades de usar a camisinha é o controle da ejaculação, eu procuro trabalhar esse tema como uma nova forma de tocar os jovens para a prevenção de gravidez e DST/Aids. Por mais que o uso da camisinha seja recomendado desde o início da relação sexual e não somente quando o homem sente que vai ejacular, é importante trabalhar o tema da ejaculação precoce com os alunos, sempre reiterando que o uso da camisinha é fundamental, independentemente de qualquer coisa.

A relação sexual é o ato no qual a prevenção precisa acontecer. Entretanto, isso pode gerar insegurança e, consequentemente, ansiedade que, por sua vez, é a principal causa de ejaculação precoce. Esse é um fator, portanto, que o professor pode ajudar a eliminar se levar para a sala de aula esses temas, como a ejaculação e orgasmo masculino.

Isso pode ajudar tanto os meninos como as meninas a compreenderem melhor o processo e o funcionamento do corpo do garoto durante o ato sexual, além de ser um bom momento para ensinar a eles como podem controlar a ejaculação. Mais confiantes, poderão então abrir espaço mental para se concentrarem no uso da camisinha.

A ejaculação e o orgasmo masculino

Embora a ejaculação e o orgasmo sejam controlados por sistemas neurológicos diferentes (parassimpático e simpático, respectivamente), é comum que eles aconteçam ao mesmo tempo. É por isso que para muita gente, o sinal de que o homem teve orgasmo é a ejaculação. Isso é tão difundido que o sêmen é também chamado de gozo.

Um bom momento para falar na sala de aula da ejaculação e do orgasmo masculino é durante a aula sobre o aparelho reprodutor masculino. Depois de explicar sobre o funcionamento dos órgãos sexuais, o professor pode abrir um roda de conversa e perguntar para os alunos como se faz para que esses órgãos entrem em ação e cumpram a sua função reprodutiva? Quando eles responderem – receber estímulo sexual – Dê continuidade ao debate, voltando a questionar se sabem como ocorre a ejaculação.

Para dar essa explicação, faça com os alunos um levantamento sobre alguns estímulos sexuais que eles conhecem e em seguida explique que eles causam uma reação no corpo provocando a excitação, que é  responsável por ativar o processo ejaculatório. É muito importante que eles saibam que a ejaculação tem dois momentos. O primeiro vai do início da excitação até a fase de emissão, quando se dá a contração dos órgãos reprodutores internos: canal deferente, próstata, vesículas seminais. Eles lançam o sêmen no início da uretra. Este momento é chamado de inevitabilidade ejaculatória: o pênis está ereto e o sistema nervoso se encarrega de reter e acumular o sêmen na entrada da uretra. Imediatamente após, o homem entra na segunda fase, que é a ejaculação propriamente dita: consiste numa série de contração ritmadas da uretra e musculatura da base do pênis, que provocam a expulsão do sêmen pelo canal uretral.

Como controlar a ejaculação?

A ejaculação é um tipo de reflexo que pode ser controlado, de uma forma muito parecida com o controle do ato de urinar. Quando criança, as pessoas aprendem a identificar quando sua bexiga está cheia e os dois momentos que antecedem à eliminação da urina: aquele em que “dá para segurar” e o outro, quando a urina chega a um ponto em que é inevitável a sua saída. Na adolescência, quando o garoto começa a ejacular, ele precisa treinar segurar a saída do sêmen durante o tempo que ele julgar ser mais prazeroso. O segredo é desenvolver a capacidade de perceber que está a ponto de ejacular.

Basicamente, essa aprendizagem acontece por meio do treino do garoto em perceber as sensações e saber identificar o ponto da sua excitação, que antecede o momento da inevitabilidade ejaculatória. A aproximação deste momento é descrito pelos homens como uma sensação de que o pênis “está cheio” e desejoso de ser empurrado para frente para liberar a ejaculação. Diga aos alunos que a excitação sexual do homem pode ser controlada por ele até exatamente este ponto. Se ele não deseja ou não deve ejacular neste momento, a alternativa é interromper por alguns segundos a estimulação sexual direta, aquela que toca no corpo dele, principalmente no pênis ou em outro local muito sensível.

Se ele continuar a ser acariciado, a excitação vai aumentar ainda mais e, independente de sua vontade, o gatilho da ejaculação é acionado. Ele passa a ter as contrações que vão pressionar o pênis e a uretra e, então, expulsar o sêmen em jatos. Este movimento gera a ejaculação e provoca uma sensação sexual muito intensa levando o garoto ao orgasmo.

Para saber mais sobre ejaculação e outras formas de aprendizagem de seu controle acesse o meu artigo “O controle da ejaculação começa nas primeiras práticas sexuais”.

Vamos começar a falar sobre resposta sexual com os alunos? Em outro post, vamos falar sobre a mulher e aprofundar mais esse assunto .


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Unesco lança publicação para ajudar na Educação sexual nas escolas brasileiras

| Sexualidade

Material foi adaptado à realidade brasileira e traz diretrizes para o planejamento do trabalho em sala de aula

Esta semana, ao refletir sobre o trabalho de Educação sexual nas escolas, percebi que progredimos muito nos últimos 30 anos. Mesmo assim, o tema ainda é abordado de forma tímida nas escolas, com o foco quase exclusivo na prevenção da gravidez e das DSTs/Aids, privilegiando aspectos biológicos e informações científicas. Isso é muito importante, mas acredito que as escolas podem dar um passo maior e mais eficaz nesse trabalho.

Para isso, é necessário abordar a Educação sexual de forma mais abrangente, incluindo outras temáticas que envolvem a sexualidade, como a relação de gênero, a diversidade sexual, os relacionamentos e, principalmente, a relação sexual em si, que é a situação em que os conhecimentos sobre prevenção são aplicados.

Nesse sentido é de grande valia a publicação recente, pela Unesco, das Orientações Técnicas de Educação para o Cenário Brasileiro: Tópicos e objetivos de aprendizagem. O material é resultado de uma adequação do material internacional desenvolvido pela entidade para o cenário brasileiro. Ele traz informações sobre os programas e atividades desenvolvidos pelo MEC, diretrizes para o trabalho em sexualidade e apresenta os objetivos de aprendizagem de acordo com conceitos-chave para nortear o trabalho em sala de aula.

Como usar o material
Com um viés bem prático e objetivo, a publicação aborda a Educação sexual baseada em princípios pedagógicos, com uma lista de tópicos ou temas para serem trabalhados de acordo com os objetivos de cada proposta. São sugeridas ainda uma série de ideias-chave para que cada escola possa selecionar o que interessa trabalhar com os seus alunos. As propostas são voltadas para alunos entre 5 e 18 anos, divididos em quatro níveis:

  • Nível I (5 a 8 anos)
  • Nível II (9 a 12 anos)
  • Nível III (12 a 15 anos)
  • Nível IV (15 a 18 anos)

Esse material pode ser um importante aliado para pensar o planejamento de atividades de Educação sexual articulada ao currículo escolar ou mesmo em uma proposta complementar às ações de prevenção já existentes na escola. Além disso, o relatório trás diretrizes que podem auxiliar na implantação, execução e avaliação do trabalho em Educação Sexual.

Vale a pena conferir!


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Aids aumenta no Brasil

| Atitude Abril, Corpo e saúde, Sexualidade
Número de novas infecções pelo HIV aumentou 11% no Brasil (Imagem: Vilmar Oliveira)

Número de novas infecções pelo HIV aumentou 11% no Brasil (Imagem: Vilmar Oliveira)

No início de julho, a UNAIDS (Programa das Nações Unidas para HIV e Aids) divulgou um relatório com notícias animadoras em relação a Aids no mundo: diminuíram em 13% as novas infecções por HIV nesse século e nos últimos três anos. Segundo o documento, estima-se que, em 2013, 35 milhões de pessoas viviam com HIV. As mortes relacionadas com o vírus apontam os menores números desde o pico, em 2005: caíram 35%. E não é só isso: as novas infecções entre crianças despencaram 58% desde 2001.

No entanto, para nossa tristeza, o mesmo documento revelou que o número de novas infecções pelo HIV aumentou 11% no Brasil e o índice de mortes no país atribuídas à doença subiu 7% entre 2005 e 2013. Aproximadamente um terço das novas infecções ocorre entre jovens de 15 a 24 anos.

Por quê? As causas ainda não foram estudadas, mas uma das hipóteses levantadas é a desinformação. Na minha opinião, mais do que isso: existe ainda uma dificuldade para aceitar a sexualidade na adolescência. É preciso vencer o desafio de querer modificar o comportamento dos indivíduos quando estes fazem parte da intimidade e envolvem valores ligados à afetividade.

A prevenção pela Educação é considerada chave para reduzir o índice de novas infecções pelo HIV. E a escola ainda é o principal espaço para se dedicar a este trabalho. Para tanto, queridos professores, precisamos deixar de olhar os nossos alunos, sob o ponto de vista da sexualidade, como gostaríamos que eles fossem, e passar a enxergá-los como de fato são. É preciso dar aos jovens a principal arma de proteção – a informação – mas também ouvir e atender a suas necessidades, interesses e ideias para o exercício de práticas preventivas.

Como iniciar essa conversa?
Um bom caminho para dar a partida no assunto é apresentar fatos, como estes resultados do relatório da UNAIDS (Programa das Nações Unidas para HIV e Aids). 

O vírus pode demorar vários anos até se manifestar em uma pessoa infectada e, com o tema aparecendo menos nas mídias, o jovem acha que a Aids é uma doença do passado ou de pessoas mais velhas e que usar camisinha é uma mão de obra desnecessária.

Problematize com seus alunos a questão e abra a discussão perguntando se essa também é a opinião deles e dos colegas. Durante o debate, anote na lousa as situações que exigiram que você complementasse as informações. E para ir mais fundo na questão, experimente orientar os alunos para que assumam o papel de educador sexual por um dia. Divida a turma e entregue a responsabilidade de um tema para cada grupo. Eles devem pesquisar sobre o assunto, conversar com outras pessoas e anotar a opinião delas, e por fim apresentar para os colegas a sua experiência. Ao final de cada apresentação, se for necessário, o professor complementa as informações importantes para a prática preventiva.

Outra causa importante
Quando se considera a prevenção, é natural pensar na primária, aquela que se utiliza para não se infectar. Mas também é igualmente importante a prevenção secundária, que deve ser adotada pelos portadores do vírus. O documento da UNAIDS revela um dado importante: 54% das pessoas infectadas no mundo todo não têm consciência de que são portadoras do vírus. Isso representa 19 milhões das 35 milhões de pessoas que atualmente vivem com HIV.

No entanto, segundo a médica infectologista e pesquisadora do Laboratório de Pesquisas Clínicas DST/AIDS da Fiocruz Brenda Hoagland, o diagnóstico tardio aumenta o risco de transmissão e também de óbitos. Ela explica que o tratamento é importante na política de prevenção, uma vez que “estudos mostram que quando a pessoa realiza o tratamento corretamente, o vírus pode se tornar indetectável e ter sua capacidade de transmissão reduzida em até 96%”.

Portanto, outro tema para se conversar com os alunos é a importância do diagnóstico precoce e da adesão ao tratamento. No Brasil, ele é gratuito, e já existem testes rápidos e gratuitos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Para mais informações e locais para fazer o teste, entre no site do Ministério da Saúde http://www.aids.gov.br/pagina/onde-fazer

Os seus alunos estão conscientes da importância da prevenção a Aids? Compartilhe conosco sua experiência.

Campanha Atitude Abril Aids - Desinformação Tem Cura!


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Os riscos da masculinidade exagerada

| Sexualidade

Visão esterotipada da masculinidade pode levar garotos a assumirem comportamentos de risco

Quem nunca ouviu a frase “homem tem que ser forte!”? Ela é um clássico da nossa cultura. O garoto que tem algum comportamento passível de ser interpretado como sinal de fraqueza ou fragilidade é logo hostilizado. Tudo isso porque, para ter sua condição de homem reconhecida pelos demais, o menino desenvolve sua masculinidade de acordo com os diversos significados atribuídos pela sociedade à imagem de homem.

O garoto assimila modelos de comportamento que moldam boa parte de suas relações sociais, da sua autoimagem à forma como ele se relaciona com o sexo feminino e a família, passando ainda pela postura no grupo de amigos e na vida escolar e profissional.

Parte desse comportamento, associado ao vigor físico e a atitudes de coragem e desprendimento, vem das necessidades do homem ancestral, obrigado a matar um leão por dia, quase que literalmente, para cumprir seu papel de provedor, procriar e garantir a manutenção da espécie. Essas características ajudaram a humanidade a se perpetuar e foram assimiladas e ressignificadas pela cultura, chegando aos dias de hoje. Com isso, cristalizou-se a associação de características como fragilidade física e emocional ao comportamento feminino.

Essa visão secular – e muitas vezes anacrônica – da forma tradicional de ser homem pode levar os garotos a desenvolver valores que os predispõem a condutas de risco. Essa foi a conclusão a que chegou a Organização Mundial da Saúde, em parceria com a Organização Pan-americana da Saúde, após a condução de estudos com adolescentes latino-americanos. De acordo com a pesquisa, condutas problemáticas como violência, risco infecção por HIV, uso de drogas e paternidade na adolescência estão relacionadas a uma visão estereotipada da masculinidade.

As armadilhas do estereótipo
Acidentes de trânsito, homicídios e doenças cardiovasculares relacionadas ao abuso de álcool são situações em que a construção social da masculinidade tem grande peso. Segundo o documento, os jovens subestimam os riscos de determinadas atitudes para afirmarem sua masculinidade.

Por exemplo, o que um adolescente que não conhece bem seu corpo – e quase nada do corpo da garota – vai escolher na primeira transa: correr risco de pegar uma DST ou ser pai ou eventualmente perder a ereção no momento de colocar a camisinha? No nosso (pre)conceito social, ser pai ou pegar uma DST é coisa de homem, mas broxar não. O documento ainda frisa que os valores e os caminhos tradicionais da masculinidade entre os jovens latino-americanos estão relacionados, no âmbito da saúde reprodutiva, à atividade sexual sem proteção e à promiscuidade.

O estudo também aponta espaços de possível intervenção na construção da masculinidade. Vale a pena ressaltar que a sociedade mudou e os papeis tradicionais, por consequência, dão lugar a novas imagens de masculino e feminino. Um exemplo é a valorização da produtividade econômica, social e sexual da mulher. Para levar os jovens ao debate, uma sugestão é promover uma roda de conversa com os alunos sobre situações simples e questioná-los sobre como deveria ser a conduta do homem e da mulher diante de cada fato apresentado. Assim, poderemos levá-los a sugerir condutas alternativas e a refletir sobre os modelos, para que consigam identificar e adotar comportamentos responsáveis.

E você, com tem tratado esse assunto em sua sala?


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Perda do apetite sexual. Como isso afeta os alunos?

| Sexualidade

Pode parecer estranho falar em falta de libido em uma faixa etária em que os hormônios estão em ebulição e, muitas vezes, é difícil para a garotada conseguir contê-los. Mas não é! Costumamos receber dúvidas sobre esse assunto no SOSex, o serviço de orientação sexual a distância que mantemos na instituição em que trabalho.

A falta de desejo sexual é uma das disfunções sexuais mais comuns em nossa população e pode ocorrer também entre os adolescentes. Tudo começa muito bem, pois o casal está completamente apaixonado, e qualquer oportunidade de transar ou trocar carícias não é desperdiçada! Mas, depois de algum tempo, sem motivo aparente, vem a queixa: um dos parceiros perdeu a vontade de transar.

O desejo é uma condição indispensável para uma transa acontecer, porque ele é a motivação, o tesão, o que dá emoção. Aliás, tudo que a gente faz na vida, para ser prazeroso, precisa ser movido pelo desejo. No início de um relacionamento, a paixão garante o tesão. Mas, com o tempo, ela passa e fica o amor, a afetividade. É a hora de prestar atenção em si e no outro, para aprender a identificar na linguagem corporal – um olhar especial, um jeito de acariciar – a disposição de fazer sexo.

Mostre aos alunos como funciona o desejo sexual
O desejo sexual é uma necessidade que faz homens e mulheres procurarem, iniciarem e/ou responderem à estimulação sexual. É um estado de motivação, um impulso gerado no cérebro, da mesma forma que a fome, a sede, o calor, o frio. O centro regulador do sexo fica situado no hipotálamo e funciona sob o comando de duas forças: o motor erótico e o freio sexual.

Faça uma roda de conversa sobre o equilíbrio entre o motor erótico, que estimula a vontade de fazer sexo, e os freios sexuais, que mantêm sob controle nossas vontades sexuais, ajustando-as às oportunidades e riscos do meio ambiente. É muito importante que os jovens percebam que, quando esse mecanismo de controle sofrer qualquer alteração, a pessoa pode apresentar um aumento ou uma diminuição do desejo sexual. Os principais fatores que interferem nesse equilíbrio podem ser biológicos, como as alterações hormonais, ou psicossociais, como ter recebido uma educação sexual muito rígida, deixar de sentir atraído pelo parceiro ou ainda por pensamentos que provocam raiva ou ansiedade.

O desejo sexual é a etapa que define a qualidade da relação sexual. Devemos respeitar nosso desejo. Conhecer melhor a si e ao parceiro pode ajudar a manter o desejo em alta. Para isso, vale inovar, criar situações que surpreendam o parceiro, saber onde ele ou ela gosta de ser acariciado e, principalmente, conversar francamente sobre o relacionamento amoroso e sexual. Se o diálogo não for suficiente, isso pode ser um sinal de que eles precisam de ajuda profissional, seja de um médico, no caso de haver algum fator fisiológico, ou mesmo de um terapeuta sexual.

Você já bordou esse tema com sua turma? Compartilhe sua experiência com a gente.


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