Não é adeus… É um até logo!

| Sexualidade

Maria Helena Vilela. Crédito: André Menezes

A sexualidade diz respeito ao ser humano. E, portanto, está presente e se desenvolve na escola, por meio das relações entre professor e aluno e entre os próprios alunos. Isso fica claro no jeito de os alunos serem homens e mulheres, nas suas curiosidades e dúvidas, mas também, nas suas preocupações com a normalidade física, a autoestima e a aprendizagem da prevenção e fatores de riscos de gravidez e DST/Aids.

A Educação Sexual é uma função de todos nós que temos um papel importante na Educação das pessoas. Promover conhecimento sobre sexualidade fortalece o aluno e cria condições para tomadas de decisões assertivas, diminuindo a vulnerabilidade e melhorando o desempenho escolar.

Assim, o professor é fundamental também como educador sexual. Para muitos alunos esse profissional é a única pessoa com quem eles podem contar para ampliar seus conhecimentos sobre sexualidade e desenvolver uma nova visão sobre fatos que, às vezes no seu meio social, podem ser tratados como sem importância para a vida deles, como é o caso da decisão sobre a primeira vez ou a gravidez na adolescência. Um professor que está atento a importância desse papel faz toda a diferença na vida dos alunos. Ele se torna uma pessoa capaz de aumentar a bagagem da vida dessa criança ou adolescente.

Tenho consciência do quanto é difícil para muitos de vocês realizarem essa função. E por isso mesmo, a Nova Escola abriu esse espaço com o Blog Direto ao Ponto, com o qual por quase dois anos tive o privilégio de colaborar, buscando esclarecer dúvidas e encontrando algumas respostas para ajudá-los na compreensão da sexualidade na infância e na adolescência.

O Direto ao Ponto continuará disponível para vocês consultarem sempre que quiserem, mas infelizmente não será mais atualizado. Estamos encerrando esse blog hoje . Toda semana, tinha o compromisso de falar para vocês. Isso sempre foi muito importante para mim! Pensar no tema, pesquisar, criar um meio de chamar a atenção de vocês para essa causa e atender às suas necessidades tornou-se nesse período uma prioridade na minha vida profissional.

Encerro hoje essa atividade, triste por deixar de ter esse compromisso semanal com vocês, mas muito feliz, porque mesmo sendo uma profissional experiente, dedicada ao ensino da sexualidade nas escolas, essa experiência me fez crescer muito e perceber a importância de um trabalho como esse para os professores e as escolas no Brasil. Foi uma grande aprendizagem lidar com comentários deixados nos post, as polêmicas que vivenciamos, os agradecimentos a cada sugestão de como agir diante dos principais fatos sexuais que costumam ocorrer na escola, ou a que a escola precisa estar atenta e trabalhar com seus alunos.

Espero que o Blog Direto ao Ponto tenha de fato cumprido com seu propósito de ajudar a diminuir o medo de falar sobre sexo com os alunos e de promover insumos para desenvolver a convicção de cada educador sobre seu papel como educador sexual na sala de aula com seus alunos. Vejam quais foram os posts de destaque deste blog na página especial sobre Educação Sexual.

Mas como está no título, esse post não é um adeus. Se tudo der certo, estarei de volta em 2015, não mais com o Blog, mas com um grupo de estudos por meio da rede social Gente que educa. Por enquanto, cliquem aqui e me adicionem no novo site da Fundação Victor Civita.

Obrigada a Nova Escola pela oportunidade e a todos vocês que acompanharam as postagens do Direto ao Ponto.

Beijo a todos,
Maria Helena Vilela

Nota de Nova Escola:
Queremos agradecer a Maria Helena Vilela pela generosidade em compartilhar seus conhecimentos neste espaço e por ter nos ensinado tanto sobre Educação Sexual. Com certeza, nossa parceria não se encerra hoje e em 2015 teremos novidades para vocês! Desejamos a todos, e especialmente a Lena, um ano novo repleto de alegrias e aprendizados!



Deixe um comentário

Dúvidas sobre sexualidade

| Dúvidas dos leitores, Educação Infantil

Dúvidas de educadores. Imagem: Montagem

Queridos educadores, o post de hoje é um pouco diferente. Resolvi pegar algumas perguntas enviadas que podem ser de muitos vocês e estou compartilhando as respostas.

1) SEXUALIDADE NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Vivenciei uma situação em que uma criança queria colocar o pênis em outra criança, essa criança não tem histórico de abuso e uma estrutura familiar ótima, isso é comum nesta idade?

Resposta: Sim. Brincadeiras sexuais fazem parte do desenvolvimento da criança. O que varia são os tipos de brincadeira, de acordo com o repertório e curiosidade de cada um. Isso pode não ter nada a ver com a estrutura familiar ou caso de abuso. Quem nunca ouviu histórias sobre o “Troca, troca”? Alguém pode ter comentado que essa brincadeira existe, ele pode ter assistido a alguma cena parecida ou mesmo ter simplesmente descoberto ao explorar o corpo e perceber as sensações prazerosas. Não valorize tanto a forma como ele brincou, mas com quem ele brinca. Isso só é prejudicial ao desenvolvimento pessoal da criança quando a brincadeira ocorre com outra mais velha, cujos interesses sexuais podem ser muito diferentes e ele sair machucado. O post Brincadeiras sexuais: entender ou reprimir? pode lhe ajudar a entender melhor sua posição.

2) MASTURBAÇÃO E EDUCAÇÃO INFANTIL
Sou professora na Educação Infantil e estou vivendo uma situação em que meu aluno se toca em sala e nenhuma orientação ou redirecionamento funciona. Além disso, ele tem dificuldade em se relacionar com outras crianças, chora por situações simples, entre outras situações de frustração. Li muito e tomei a decisão de encaminhá-lo para a orientação pedagógica. Fui repreendida pelas pedagogas por usar o termo “masturbação”, pois isso não era motivo de encaminhamento. Usei o termo erroneamente? Estou errada no encaminhamento?

Resposta: Na minha opinião, o seu encaminhamento está correto. Uma criança com tantos episódios emocionais está precisando de ajuda nesse sentido. Quanto ao termo masturbação, suas colegas estão sendo muito rígidas com você. De fato, para a criança o termo não procede, é dito “tocar/acariciar os genitais”, pois o termo masturbação há uma intenção sexual e orgástica que a criança ainda não apresenta. Isso é natural no desenvolvimento infantil. No entanto, quando a criança se toca de forma insistente e compulsiva, é necessário estar atenta a questões que fogem da descoberta da sensação de prazer. Quando a criança deixa de fazer outras atividades para ficar se tocando, isso não é natural. Você observou muito bem. Esse fato, não era isolado. Havia outras atitudes que juntamente com o toque nos genitais gritavam por ajuda. Parabéns por sua conduta! Falo sobre masturbação em sala de aula no post Aluno com deficiência intelectual se masturba durante a aula. Como agir? Embora não seja o caso, acho que ele tem informações preciosas que podem lhe ajudar a ficar mais tranquila quanto a sua posição.

3) CRIANÇAS E ORIENTAÇÃO SEXUAL
Estou muito preocupada, pois aos 7 anos minha filha “brincou” com uma coleguinha, e a partir daí falou que queria casar-se com mulher. Até pelas mulheres em comerciais ela se sente atraída. Estou com muito medo de ela crescer homossexual. Será que devo procurar um psicólogo? Por favor me respondam

Resposta: Na infância, a criança ainda não tem desenvolvido o desejo afetivo-sexual. Isso vai acontecer na adolescência. Portanto, não se pode julgar as palavras ou comportamento das crianças como se elas tivessem nisso as mesmas intenções e referências do adulto. Uma garota de 8 anos tem como referência de namoro/marido alguém que se gosta muito e com quem deseja estar, brincar, conversar… Nessa idade, os garotos são “uns chatos” para elas e elas “umas chatas” para eles. Não se entendem, e seriam as pessoas menos desejadas para se brincar. Enquanto que a amiga, que pensa e gosta das mesmas coisas que ela seria a companhia ideal. Portanto, tire esse sofrimento de você e desconverse a escolha atual de sua filha. Quando ela falar, ouça, mas não julgue… Só o tempo vai dizer se ela será ou não homossexual. Que não é em hipótese alguma uma condição errada, mas apenas diferente! E não há o que se possa fazer para que as pessoas tenham a orientação afetivo-sexual de acordo com o que desejamos. Quanto mais se repreender, maior será o sofrimento das pessoas, e isso não mudará seu desejo afetivo-sexual. Falo bastante sobre o assunto nos posts: Sexo, identidade de gênero e orientação sexual: quais as diferenças?, Brincadeiras sexuais: entender ou reprimir e Surpreendi duas alunas se beijando. Como devo agir?

4) PORNOGRAFIA
Minha filha tem 10 anos e desde os 8 vê filme pornográfico. Descobri por acaso, pois, ela estava tão entretida que não ouviu e chegar do trabalho. Já conversei, coloquei de castigo, proibi a internet. Mas se ela tiver acesso, lá vai ela assistir a esses vídeos. Não sei mais o que argumentar. Tomei o celular e ela só acessa a internet com um adulto do lado, mas sei que essa medida é paliativa porque na escola é fácil ter acesso…

Resposta: Como você mesma já percebeu, é impossível impedir completamente a sua filha de ter acesso a internet e, consequentemente a sites indesejados como os pornográficos. O importante é deixar claro para ela que você discorda dessa atitude por razões que ela vai precisar achar que são justas. Portanto converse com sua filha, reconheça que essa novidade para ela pode parecer estimulante, mas procure saber a razão de tanto interesse e esclareça de acordo com a resposta dela as questões que ela trouxer, além de falar que isso pode ser nocivo a interpretação e visão da sexualidade.  O post Como falar sobre sobre pornografia pode lhe ajudar a ter uma conversa com sua filha.

5) EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS
Sou professora de Biologia e estou escrevendo minha dissertação do Mestrado, justamente sobre a prática e o discurso do Professor em relação a sexualidade. (…) Percebo no discurso de muitos professores de ciências e biologia uma perspectiva apenas médica-biologicista, sem levar em consideração o fato de a sexualidade ser uma construção histórico-cultural. Temas como gênero, identidade e diversidade sexual, ainda são pouco discutidos em sala de aula, acredito que pelo fato de o professor não ter tido acesso a essa perspectiva em sua formação. Como o professor pode transpor as orientações dos PCNs para sua sala de aula, rompendo assim alguns grandes dogmas da nossa sociedade?

Resposta: A sociedade não é uma entidade a parte, ela é formada por nós, e ninguém rompe com uma cultura, e muito menos com seus dogmas, do dia para noite. As pessoas precisam se sentir respaldadas e se convencerem de que podem desenvolver outra opinião. Para isso, a Educação é fundamental! É necessário que as pessoas aprendam a enxergar os fatos sob outro prisma. Portanto, os professores, de preferência na sua formação profissional, teriam uma grande oportunidade se a sexualidade e o trabalho de Educação Sexual fizessem parte de seu currículo. Como isso ainda não acontece, é necessário que os professores sejam preparados para essa função pela escola ou rede de ensino. Com um embasamento sobre sexualidade que seja compartilhado por todos que fazem a escola, os professores podem conseguir identificar e trabalhar na sua disciplina os temas que podem ajudar o aluno a ampliar sua bagagem pessoal para tomar decisões mais adequadas em relação às questões colocadas, como a prevenção de DST/Aids e gravidez na adolescência, relações de gênero, diversidade sexual… Eu escrevi neste blog alguns post que podem lhe ajudar: Como sistematizar o ensino da sexualidade? e Como trabalhar a Educação Sexual nas escolas

 


TAGS: , , ,

1 Comentário

Aids aumenta entre jovens brasileiros, pesquisa mostra que conversa sobre tema na escola não é suficiente

| Atitude Abril, Corpo e saúde

Atitude Abril - Aids Crédito: Eder Redder

Uma pesquisa realizada pelo projeto Atitude Abril – Aids descobriu que entre os jovens (até 21 anos), 81% referiram que ainda é um tabu falar sobre sexo em casa com os pais, e que, para 79% deles, é na escola que conversam sobre Aids, em geral, durante a aula de biologia sobre reprodução humana. O levantamento ouviu, via internet, 15.002 homens e mulheres acima de 16 anos de todo o Brasil — 20% deles se declararam virgens e 5%, portadores do HIV. O estudo investigou o conhecimento e comportamento sexual dos brasileiros em relação a Aids. Vejam a íntegra da pesquisa no site Brasil Post.

Fiquei muito feliz também em ver que 40% dos entrevistados disseram ter sido suficiente a conversa na escola sobre Aids. Isso é um grande avanço!!! No entanto, podemos e devemos melhorar esse índice, uma vez que a maioria, 60%, ainda coloca como insuficiente a aprendizagem sobre esse tema na escola. Precisamos estar atentos a esse dado, pois as estatísticas divulgadas no Dia Mundial de Luta contra a Aids, 1º de dezembro, são preocupantes: elas mostraram que o HIV avançou mais de 50% entre os jovens brasileiros, principalmente por descuido nas relações sexuais

Enquanto em todo o mundo a Aids teve uma redução de 32%, em dez anos, no Brasil, os casos de Aids entre os jovens brasileiros de 15 a 24 anos aumentaram 68% em uma década.


Assista a vídeo do projeto Atitude Abril – Aids

Jovens brasileiros estão se descuidando na prevenção da Aids. De quem é a culpa?
Os especialistas e o ministro da Saúde associaram este fato a um problema de comportamento sexual dos jovens. Segundo as palavras desses profissionais “eles acham que hoje ninguém mais morre de Aids, que se pegarem o vírus é só tomar remédio e está tudo bem”. Para eles, desde a chegada dos coquetéis antirretrovirais, criou-se uma falsa ideia de que a Aids não é mais motivo de preocupação. Será que os jovens pensam mesmo assim? Os remédios são um excelente avanço da Medicina contra a doença e na minha opinião não devem ser considerados o algoz da prevenção. Se isso de fato está acontecendo, é responsabilidade nossa, como educadores sexuais, identificar o que e como podemos fazer para mudar isso, já que, como vimos na pesquisa, a maioria dos jovens entende que a escola é fonte de informação sobre o assunto

Outra justificativa é o fato de os adolescentes não terem visto seus amigos e ídolos partirem. Isso faz com que não levem mais em conta a Aids e com isso estão relaxando na prevenção. De fato uma das formas de aprendizagem é a confirmação social: ver acontecer o que está sendo pregado ajuda as pessoas a acreditarem que esse fato é real e verdadeiro.

No entanto, incentivar as pessoas a se prevenir contra a Aids utilizando o medo como estratégia de motivação não funciona. É só dar uma olhada na pesquisa do Atitude Abril-Aids: o grupo de pessoas com mais de 50 anos são um dos mais vulneráveis a infecção pelo HIV. Esta geração viveu o período negro dessa doença, mas não adquiriu o hábito de usar a camisinha, que é o único método seguro de evitar a infecção. Principalmente as mulheres disseram não usar a camisinha porque confiam no parceiro(a).

Será que não temos que rever a posição das escolas e a forma de abordagem da Aids com os nossos alunos?

Terror assusta, mas não motiva
O que motiva é a tomada de consciência sobre a importância da prevenção, ou seja, a convicção de que isso é realmente importante faz o jovem buscar aprender os aspectos protetores e trabalhar as dificuldades para assumir e praticar a prevenção. Para isso acontecer, a conversa sobre Aids precisa estar inserida em um trabalho de Educação Sexual mais abrangente, em que essa aprendizagem vá além de saber que é preciso usar camisinha e como colocá-la corretamente. É fundamental que valores como “quem ama confia” sejam problematizados, o respeito pelo corpo trabalhado em detalhes para que o aluno também possa aprender sobre a resposta sexual e entender suas reações. Além disso, é impossível motivar alguém a fazer prevenção se há mitos sobre a Aids e a camisinha, e se o impacto da doença no projeto de vida não for dimensionado corretamente… Enfim, é indispensável que as escolas abram mais espaço para o trabalho de Educação Sexual. Nesse levantamento, apenas 17% dos jovens entrevistados referiu ter aulas específicas de Educação Sexual em sua escola!

O paradoxo da Educação Sexual na escola
Enquanto ouço depoimentos de professores apreensivos, com medo de estimular a prática sexual precoce com conversas sobre sexo, primeira vez e prevenção, os nossos jovens estão em plena atividade sexual, e muitos deles embarcando em situações de risco. Foram muitos os relatos que ouvi nesse último mês sobre o comportamento sexual de alunos das mais variadas escolas e cidades do Brasil. Entre eles o que mais me chamou atenção foi a exposição desnecessária de alunas na internet, as quais se fotografam nuas, e depois são avaliadas pelos colegas em um ranking das “Top 10 mais”… Outros me contaram que as alunas fazem combinações em redes sociais para constranger sexualmente colegas nas escolas ou conhecidos nas baladas, sem contar as histórias de ocorrências sexuais nos pancadões…

Se os jovens estão vivendo sua sexualidade e a sua bagagem é pouca para discernir e lidar com as adversidades da vida sexual, nosso papel como educadores é fornecer elementos para ampliar essa bagagem. É muito provável que um aluno equivocado quanto ao tratamento da Aids tenha mais motivação para aderir à prevenção se aprender que, por exemplo, o tratamento da Aids é muito penoso: portadores do HIV chegam a tomar mais de 20 comprimidos diários desse coquetel, com efeitos colaterais como vômitos, náuseas e diarreias que complicam muito a qualidade de vida – e que, depois de tudo, não cura. Mas, como diz a campanha do Atitude Abril – Aids: desinformação tem cura!

Você tem dúvidas ou comentários sobre Educação Sexual nas escolas?
Para o post da semana que vem, gostaria de trocar mais com você, educador. Se você tem dúvidas sobre como trabalhar determinado assunto ou lidar com certa situação na escola, deixe seu comentário. Os mais frequentes entrarão no post da semana que vem! Participe!


TAGS: , , ,

4 Comentários

Como falar sobre pornografia com seus alunos

| Sexualidade

Como falar sobre pornografia com seus alunos. Crédito: Shutterstock

A pornografia não é uma questão nova. Quando estudei no antigo ginásio e científico, bedéis e professores já tinham que lidar com o acesso dos alunos a esse material. As cartilhas pornográficas do “Dr. Buçu”, desenhadas à mão, com uma impressão de má qualidade e em papel muito simples, entravam clandestinamente na escola escondidas entre páginas de livros e cadernos e provocavam euforia e muita curiosidade durante os intervalos das aulas da Escola Estadual Moreira e Silva, em Maceió.

O que mudou recentemente é a facilidade de acesso a esse material, principalmente a partir da internet: crianças e jovens ficam a um clique de imagens e vídeos. Na União Europeia (UE), por exemplo, um estudo concluiu que 25% dos jovens com idade entre 9 e 16 anos já tinham visto imagens de cunho sexual. Em 2010, uma pesquisa na Grã-Bretanha revelou que quase um terço dos jovens com idade entre 16 e 18 anos havia visto fotos de natureza sexual em celulares, na escola, mais de uma vez por mês.

E aqui no Brasil, será que é muito diferente? Não consegui localizar nenhuma pesquisa brasileira nesse sentido, mas podemos inferir que o acesso a internet é muito fácil para grande parte de crianças e jovens brasileiros. E para compartilhar essas descobertas com um amigo, é só um clique e pronto! Já está na mão do outro e assim por diante…

As crianças estão crescendo em um mundo sexual totalmente livre e isso inclui acesso fácil à pornografia na internet. Nós educadores temos a obrigação de promover os recursos necessários para que elas aprendam a lidar com isso de forma saudável.

O papel da escola

De clique em clique os jovens vão acessando o mundo da pornografia, saciam suas curiosidades e aprendem até mesmo a fazer sexo. Há jovens, aliás, que usam a pornografia como uma referência para iniciar a vida sexual, como foi o caso de alguns usuários do SOSex, plantão de dúvidas que atendi no Instituto Kaplan.

O problema é que em vez de ensinar, a pornografia pode causar insegurança, ansiedade e ainda distorcer as ideias dos jovens sobre as relações e as práticas sexuais: os pênis são sempre enormes e dispostos ao sexo sem nunca perder a dureza, as mulheres são submissas a qualquer experiência sexual, a aparente preferência de posições e práticas sexuais como a de cachorrinho e o sexo anal, sem contar os absurdos de pedofilia, zoofilia e a impressão de naturalidade e aceitação dos casais em relação ao sexo grupal.

Numa única navegada um jovem pode descobrir coisas e entrar em contato com cenas sexuais que nem poderiam imaginar que existiam ou que seriam possíveis de existir, ou, pior, de se admitir. Esse é o perigo da pornografia: um sexo virtual que pode está bem longe da realidade.

Nós, especialistas em Educação Sexual, acreditamos que um bom trabalho de Educação Sexual na escola pode diminuir a curiosidade sexual de crianças e adolescentes e esvaziar a busca por sites de pornografia, além, é claro, de melhorar a qualidade de vida sexual de nossos jovens.

Minha experiência me faz acreditar muito nisso, mas o trabalho de Educação Sexual precisa ir além dos aspectos fisiológicos reprodutivos e das Doenças Sexualmente Transmissíveis: precisamos falar sobre as curiosidades e mitos que estimulam as buscas na internet. Já tratamos de alguns desses temas neste blog: resposta sexual, práticas e dificuldades sexuais, valores e expectativas no relacionamento afetivo e sexual, dentro muitos outros.Veja os posts: O que falar sobre DSTs de um jeito não chato, Primeira vez: quando é chegada a hora, O perigo da exposição nas redes sociais, Perda do apetite sexual: como isso afeta os alunos.

Nosso papel como educadores, além de trabalhar temas que deem respostas às dúvidas sexuais dos jovens, e alertar para os riscos dos sites pornográficos, é também ajudar nossos alunos a perceber que na pornografia, nem tudo é real e que há muitos truques para chamar a atenção dos consumidores. Os empresários do sexo pornô apelam para situações e ações extremamente raras ou fictícias, usando, inclusive, recursos fotográficos como a montagem.

Uma boa forma de discutir o tema é a metodologia da problematização, que, vocês, professores, dominam muito bem. Abra uma roda de conversa sobre pornografia e internet e vocês se surpreenderão com a quantidade de informação que os alunos podem nos dar. Em seguida, peça para que escrevam de forma anônima uma situação que visualizaram ou ouviram de amigos e que geraram dúvidas. Pegue todas as dúvidas e coloque num saco ou caixa e vá lendo uma por uma. Após cada leitura, faça a problematização da situação para eles e peça que lhes ajudem a desvendar a resposta.  Acho que pode ser uma experiência e tanto!!!

E você, já conversou sobre pornografia com seus alunos? Compartilhe conosco!


TAGS: , ,

1 Comentário

Violência contra a mulher: quem ama não maltrata

| Corpo e saúde, Ensino Médio, Sexualidade

O tema da violência contra mulher deve ser abordado em sala. Foto: Shutterstock

Sete em cada dez mulheres sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo de suas vidas, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Diferentemente do que se pode imaginar, a violência de gênero, não é exclusiva dos adultos. Estudos do Banco Mundial mostram que é muito mais provável, em todo o mundo, uma mulher entre 15 e 44 anos sofrer esse tipo de violência do que de ter câncer, malária, ou se envolver em acidentes de trânsito.

A violência contra mulher origina-se na desigualdade de gêneros, de que tratei na semana passada. A ideia machista de que as mulheres são seres com menos direitos fundamentaria a submissão delas às vontades e desejos dos homens. Infelizmente, este debate é mais atual do que nunca. Nesta semana, uma petição ganhou notoriedade na internet ao pedir que a Polícia Federal brasileira negue a entrada do suiço Julien Blanc, que vem ao Brasil em 2015 para ministrar palestras sobre “como pegar mulheres”. Apertar os pescoços das mulheres ou colocar seus rostos à força em direção à virilha dele são algumas das “táticas” ensinadas. É por essas e tantas outras razões que esse tema precisa ser abordado na Educação Sexual.

Tudo pode começar de forma muito sutil: o namorado demonstra ciúmes, marca em cima…  São atitudes que aos olhos de quem está apaixonada podem parecer grosserias à toa ou até mesmo provas de amor. Até que um dia ele puxa o braço da garota com mais força e a machuca. Será que a menina não precisa ficar esperta e cair fora desse relacionamento?

Se uma aluna chega à escola com uma mancha roxa no braço, o educador deve intervir e conversar em particular com a aluna para descobrir o que houve e, caso se confirme a violência, analisar juntos os prós e contras desse relacionamento e como a menina pode buscar ajuda. A Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres colocou à disposição da população um canal de telefone para denunciar a violência doméstica e receber atendimento - número é o 180.

No entanto, mais importante do que oferecer assistência às alunas que sofrem esse tipo de violência é fazer um trabalho de prevenção com todos os alunos, meninas e meninos. Não precisamos esperar acontecer uma tragédia para trazer esse tema à sala de aula. É fundamental que os alunos entendam que quem ama não maltrata.

Meninos e meninas precisam saber que ninguém é propriedade de ninguém. Nós estamos em pleno século 21, a mulher já conquistou vários direitos, entre eles o de não ser tratada como propriedade de alguém. É inadmissível que em nome do amor, ou desse sentimento de propriedade, um homem agrida uma mulher. Desde 2010 a Lei Maria da Penha garante esse direito às mulheres. Isso precisa ser divulgado, trabalhado e analisado desde a adolescência.

Lei Maria da Penha

Essa lei homenageia a biofarmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, que ficou paraplégica depois de levar um tiro do próprio marido enquanto dormia e conseguiu, depois de lutar por 20 anos, que ele fosse condenado. Além de criar em todos os estados um juizado especial de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, a Lei Maria da Penha alterou o Código Penal, permitindo, principalmente, que agressores sejam presos em flagrante ou tenham a prisão preventiva decretada. A lei também traz uma série de medidas para proteger a mulher agredida, que está em situação de agressão ou cuja vida corre riscos. Essa lei protege as mulheres em relacionamentos estáveis ou eventuais, como o namoro e o ficar.

Sugestão de trabalho na sala de aula

1a etapa

Inicie o trabalho dizendo aos alunos que fará um trabalho muito especial para ambos os sexos, embora aparentemente, pareça favorecer apenas as mulheres. E anuncie o tema: violência contra a mulher.

Pergunte se eles já ouviram falar de alguma situação em que essa violência aconteceu, e pede que contem as formas de violência de que já ouviram falar.

Em seguida, complemente que as formas de violência mais comuns variam da agressão física mais branda (tapas e empurrões), seguida pela violência psíquica (xingamentos, ofensas à conduta moral da mulher) e a ameaça (coisas quebradas, roupas rasgadas, objetos atirados e outras formas indiretas de agressão).

2a etapa

Divida os alunos em quatro grupos, distribua uma folha de papel sulfite para cada e peça que eles criem uma história sobre uma situação que eles julguem ter havido uma violência por parte do namorado contra sua namorada, relatando o contexto em que tudo aconteceu.

Em seguida, recolha as histórias e passe para o grupo seguinte, de tal forma que nenhum grupo fique com sua própria história. Diga aos alunos que eles serão advogados e receberão o caso para analisar e julgar se houve uma violência contra a mulher e quais as medidas que deveriam ser tomadas.

3a etapa

Depois que o trabalho estiver pronto, os grupos devem apresentar para a classe. Faça as complementações necessárias para a compreensão de que essas atitudes são consideradas crime e então apresente a Lei Maria da Penha. Mostre aos alunos que, além de não praticarem essa violência, é muito importante que os meninos se unam às meninas para apoiá-las na prevenção dessas situações.. E que as meninas precisam aprender a não serem condescendentes.

Explique que quando a garota perceber que está sendo agredida, mesmo que seja um “mau jeito”, ela não deve aceitar e precisa fazer algo a respeito. Qualquer tipo de violência deve ser repudiado!  Ninguém deve aceitar ou tentar justificar o ato do outro  que lhe traz dor, sofrimento ou constrangimento. Muito menos, quando isso ocorre por que o homem quer demonstrar sua superioridade.

Várias culturas estimulam e confirmam essa violência no seu dia a dia como uma forma natural de comportamento, o que torna mais difícil o seu combate e a gravidade deste problema. Alerte suas alunas! Diga claramente e sem medo para elas: isto não é amor, é violação dos direitos humanos.

Você já conversou sobre esse tema? Experimente falar com seus alunos e compartilhe aqui no blog.


TAGS: , , ,

Deixe um comentário

Relações de gênero – um tema que não pode ficar fora da sala de aula

| Sexualidade
Foto: Shutterstock

Igualdade de gênero: direitos, oportunidades e respeito.

Homens que se relacionam com muitas mulheres são “garanhões”.
Mulheres que se relacionam com muitos homens são “fáceis”.
Homens não choram.
Mulheres são menos eficientes.

Como seus alunos percebem os papéis que os homens e as mulheres desempenham na sociedade? A Organização das Nações Unidas (ONU) lançou em Nova York a campanha HeForShe (ElePorEla), um movimento para promover a igualdade de gênero e nomeou a atriz Emma Watson, que ficou famosa ao viver a personagem Hermione na franquia Harry Potter, como embaixadora da boa vontade.

Em seu discurso, ela prega o reconhecimento dos direitos e da autonomia da mulher. “Acho certo que me paguem o mesmo tanto que os meus colegas do sexo masculino recebem… Que mulheres estejam envolvidas nas políticas e tomadas de decisão de seu país… Que eu seja capaz de tomar decisões sobre o meu próprio corpo… E que socialmente eu receba o mesmo respeito que os homens.”

Assista ao discurso da atriz na íntegra:

Como ela diz, nenhum país do mundo pode dizer que alcançou a igualdade de gênero. E eu completo: alguns países estão muito distantes disso, como o Paquistão, em que milícias extremistas tentam impedir as meninas de estudarem e até tentam assassiná-las por isso, como foi o caso da Malala, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz. O Irã também foi manchete nos jornais dessa semana com o caso absurdo da advogada que foi presa e condenada a um ano de prisão por querer assistir a um jogo de vôlei.

O que não se noticia e a gente não percebe é que o descompasso entre gêneros, que produz tanta violência, é construído no dia a dia, durante todo o desenvolvimento de meninos e meninas, como parte daquilo que chamamos de Educação Sexual.

Ser Homem ou Mulher

A natureza não define o gênero de uma pessoa, apenas o sexo: nascemos do sexo masculino ou feminino. As crianças não nascem acompanhadas de uma “bula da natureza” que mostra como homens e mulheres devem se portar: isso é aprendido e estabelecido nas relações sociais e varia de acordo com a cultura, valores e conceitos. Logo depois que um indivíduo nasce, inicia-se um longo processo social que influencia a construção de sua identidade, do seu papel sexual e de como se porta nas relações entre os sexos. A absorção desses estereótipos de gênero depende de como cada um aprende, entende e interpreta seus direitos e deveres em relação a si mesmo, ao outro e ao seu grupo social. E isso é uma questão de cidadania de que a escola participa ativamente, seja de forma intencional e sistematizada, seja no simples fato de transmitir, por meio do vínculo que criam com os alunos, valores, crenças e atitudes dos seus profissionais.

Sugestão de como trabalhar a relação de gênero

Trabalhar a relação de gênero significa educar sexualmente meninas e meninos dentro de uma perspectiva de igualdade de relações e direitos. Independentemente do sexo, homens e mulheres podem ser fortes e fracos, emotivos e racionais, autônomos e dependentes, inteligentes e capazes. Os sujeitos são constituídos de acordo com suas experiências em função de sua história e cultura e não como um fato da natureza humana.

Durante a infância isso pode ser trabalhado nas histórias que são contadas para as crianças, nas brincadeiras adotadas pela escola, na igualdade de oportunidades, nas atividades desenvolvidas em sala de aula, e principalmente, pela tomada de consciência do professor sobre as suas atitudes e valores em relação ao sexo feminino e masculino. Os educadores precisam rever seus conceitos e sua atuação junto às crianças, para não passar adiante modelos que contribuem para o descompasso entre os gêneros. As historinhas infantis mostram que a submissão de uma princesa é motivo para o príncipe se apaixonar por ela? Os meninos são recriminados quando choram ou ficam tristes? Apenas as meninas são chamadas para ajudar a professora, por serem naturalmente mais “organizadas” e “prendadas”? Essas são algumas reflexões que educadores precisam fazer  para avaliar se sua postura em sala está reforçando estereótipos.

Na adolescência, as atitudes do dia a dia e a postura do professor também são muito importantes. Mas se na sua escola você dispõe da oportunidade de falar sobre gênero com seus alunos, esse é um excelente tema para se trabalhar. Para isso, é fundamental desenvolver uma atividade dinâmica em que os jovens possam expressar suas ideias, refletir sobre elas e desenvolver uma postura ética sobre as desigualdades sociais entre homens e mulheres. Uma boa sugestão é usar a dinâmica que trabalha as vantagens e desvantagens de ser homem ou mulher na nossa sociedade. Ela está disponível na página 30, do Manual do Multiplicador do Ministério da Saúde.

Na minha experiência esse trabalho permite refletir com os jovens os diferentes papeis que homens e mulheres exercem na sociedade e como estes são construídos por meio da cultura, expressos em diferentes veículos de comunicação e na imagem que cada um tem de si e da outra pessoa. O debate provocado é muito rico e pode desenvolver uma educação menos preconceituosa e mais humana.

Experimente, você vai ter uma agradável surpresa!


TAGS: , , ,

5 Comentários

Ansiedade e nervosismo nas primeiras relações sexuais

| Sexualidade

Ansiedade e nervosismo nas primeiras relações sexuais. Crédito: Montaegm

A inexperiência sexual quase sempre gera ansiedade nos garotos e garotas que estão pensando em iniciar sua vida sexual. Na adolescência, eles estão aprendendo a lidar consigo mesmos, e ainda não sabem o que fazer com o outro.  O medo do desconhecido, de não corresponder às expectativas, de não saber o que fazer… Tudo isso pode comprometer a qualidade da relação sexual. Tanto é assim que a ansiedade está ligada à dificuldade sexual mais comum entre os adolescentes: a ejaculação precoce, que frustra o casal, pois impede que haja um ritmo sexual adequado a ambos.

É preciso esclarecer as dúvidas que alimentam o nervosismo e a insegurança. Os jovens precisam saber que sexo se aprende com a experiência e que é necessário “baixar a guarda” para poder aprender a brincar e se divertir com o seu corpo e o do outro.  O educador deve, por exemplo, desconstruir o mito de que homens já nascem sabendo fazer sexo ou que o orgasmo deve ser uma meta no sexo, tema sobre o qual falei no post Fingir orgasmo: motivos e problemas.

Além disso, é importante oferecer informações sobre diferentes aspectos relacionados: a própria decisão de iniciar a vida sexual, quais são e como funcionam os métodos contraceptivos indicados para essa fase, como funcionam a camisinha e os métodos hormonais, os riscos de práticas sexuais como o coito interrompido, as doenças sexualmente transmissíveis, como funciona o próprio corpo, como funciona o corpo do outro… Em suma: uma boa Educação Sexual.

Desmistificando a ejaculação precoce

Vamos falar sobre a ejaculação precoce, tão comum nessa fase. Desconhecimento e falta de treino no controle ejaculatório são as principais causas da dificuldade. Nesse sentido, o educador pode esclarecer durante a aula sobre o aparelho reprodutivo masculino. Veja passo a passo no post Aprendizagem do controle da ejaculação.

Para os meninos, é importante explicar que essa dificuldade não significa um “defeito de fábrica” e não deve ser motivo de vergonha. Se acreditam nisso, eles podem sofrer e deixar de buscar ajuda, o que afeta diretamente a autoestima e a concentração nas aulas.

Já as meninas geralmente relacionam a ejaculação rápida ao desejo do garoto de “terminar logo” e se sentem rejeitadas. Isso se deve ao desconhecimento sobre a sexualidade masculina: é exatamente por querer agradar tanto que o garoto fica ansioso e perde a capacidade de controlar a ejaculação.

Experiências apressadas

As primeiras experiências sexuais geralmente são acompanhadas pela sensação de urgência. A ejaculação precoce também pode ser decorrência dessas experiências em que tudo é feito às pressas.

A masturbação, primeira prática sexual da maioria dos adolescentes, é feita, ainda hoje, às escondidas, acompanhada de culpa e medo de que alguém flagre esse momento íntimo.

Por diversos motivos, os primeiros encontros sexuais também acontecem geralmente sem o conhecimento do pais e a mesma coisa acontece: o casal fica com medo de que alguém chegue a qualquer momento e o jovem tenta alcançar o orgasmo o mais rápido possível.

Quando isso ocorre com muita frequência, o garoto deixa de se aperceber das sensações do corpo, desenvolvendo uma forma de desempenho sexual insatisfatória tanto para si quanto para a garota.

O que deveria ser prazer, alegria e satisfação se transforma em ansiedade, medo, sofrimento ou desprazer, gerando a perda ou diminuição da capacidade de manter uma relação sexual prazerosa. A ejaculação precoce pode estar associada a aspectos mais profundos e inconscientes do garoto, por isso os jovens precisam saber buscar ajuda especializada, como a terapia sexual, capaz de tratar a ejaculação precoce de forma eficaz.

É por isso que defendo uma Educação Sexual que vá além do ensino de métodos contraceptivos: nossos garotos e garotas merecem uma vida sexual saudável, responsável e prazerosa. Isso só acontecerá se oferecermos a eles informações, acolhimento, diálogo franco, e se apoiarmos o desenvolvimento de sua capacidade de discernir, respeitar seus limites e enfrentar os seus direitos. Vamos conversar sobre isso no próximo post.


TAGS: , , ,

1 Comentário

Fingir orgasmo: motivos e problemas

| Corpo e saúde, Ensino Médio, Sexualidade

Homens e mulheres fingem orgasmo: por que abordar esse tema na Educação Sexual? Crédito: Shutterstock/ montagem

“O que eu faço quando uma aluna me diz que finge orgasmo?”, me perguntou uma colega dia desses. Ela contou que sua aluna havia lhe dito que achava sexo muito sem graça e que sempre fingia para o namorado “ter chegado lá”.

O mais importante é ouvir as razões dela sem julgar e fazê-la refletir sobre o impacto desse comportamento para a sua saúde sexual. De acordo com o rumo da conversa, se o educador achar necessário, ele deve sugerir a consulta ao médico ou uma avaliação psicológica, já que, em geral, a anorgasmia feminina está ligada a aspectos psicoemocionais.

Por se tratar de uma questão pessoal, o educador deve conversar a sós com a aluna, mas esse assunto pode ser abordado com as alunas e os alunos do Ensino Médio na aula de Educação Sexual, para prevenção de disfunções sexuais.

Fingir é sempre ruim

Toda vez que se fala em fingir orgasmo, só se pensa na mulher. O filme Harry e Sally, com Billy Crystal e Meg Ryan tem uma cena emblemática, na qual a atriz mostra como é fácil para uma mulher fingir orgasmo. Mas, os homens, com a ajuda da camisinha, também “aderiram” à pratica de fingir orgasmo. Uma pesquisa americana revelou recentemente que mais de 30% dos homens admitiram já ter fingido orgasmo.

Homens e mulheres dizem fingir pelas mesmas razões: não magoar ou decepcionar os parceiros ou não expor sua dificuldade sexual. Ah! Os meninos ainda podem ter mais uma motivação para fingir: poupar-se para continuar o sexo. Assim, ele pensa impressionar, fingindo que está pronto para uma segunda transa na sequência. Qualquer que seja o motivo, os especialistas são unânimes em dizer que fingir orgasmo sempre será algo negativo. Quem age assim está violentando a si mesmo.

Proposta de trabalho

O orgasmo não é uma meta a ser atingida no sexo, mas consequência natural de uma relação em que há desejo, sintonia, cumplicidade e desprendimento. Na realização de um trabalho em sala de aula, o objetivo é mostrar para os alunos que, no sexo, o mais importante não é o quanto “se pega”, a quantidade de aventuras, mas o como “se pega”, os momentos de felicidade e satisfação, aqueles que realmente deixam a pessoa gratificada.

Para tanto, uma boa intervenção é a problematização. Apresente o fato para os alunos e pergunte “pra que se finge um orgasmo?”. Deixe que eles falem o que lhes vier à cabeça e em seguida divida os alunos em grupos de meninos e de meninas. Entregue uma folha de papel sulfite e peça para que listem as vantagens e as desvantagens desse comportamento. Depois de um tempo, convide os grupos a apresentarem suas produções: Após a exposição dos meninos, peça para as meninas opinarem sobre as razões colocadas e vice-versa. Esse exercício pode ser muito rico para os jovens perceberem que é fundamental cuidar do sexo, dando a ele a atenção e o valor positivo que ele merece. Quando um dos parceiros deseja que a transa acabe logo, é mais honesto e saudável nem começar. O sexo só é prazeroso para os dois se houver interesse e empenho mútuos.

A química do prazer

Em outros posts, expliquei como funcionam o orgasmo feminino e o orgasmo masculino. A Declaração dos Direitos Sexuais diz que o “prazer sexual, incluindo autoerotismo, é uma fonte de bem estar físico, psicológico, intelectual e espiritual”. O prazer é gerado por substâncias naturais produzidas pelo cérebro que nos relaxam, nos preservam da dor e dão enorme prazer: as endorfinas. Outros hormônios são produzidos pelo corpo antes, durante e após o ato sexual: há uma intensa produção de adrenalina, testosterona, estrogênio e hormônio do crescimento, entre vários outros. Este caldeirão químico, associado a uma cadeia de processos físicos e psicoemocionais que interagem logo no despertar do desejo sexual, produzem no indivíduo uma especial sensação de bem-estar que torna a atividade sexual fundamental para a saúde e para a qualidade vida.

É normal não sentir orgasmo?

O fato de não sentir orgasmo em todas as vezes que se transa não é patológico. Mas, quando o garoto ou a garota demora mais tempo do que gostaria e prefere dizer que já chegou ao orgasmo em vez de enfrentar a causa da dificuldade, pode estar plantando um problema sexual futuro. Isso ocorre porque o ser humano, em sua memória emocional,  passa a relacionar sexo como algo sem graça, aborrecido e tal fenômeno pode de fato levar a uma disfunção sexual. No caso dos meninos, a disfunção erétil e a ejaculação tardia, e, no caso das meninas, a inibição do desejo, a anorgasmia e a dispareunia (dor na relação).

A qualidade das experiências sexuais é fundamental para se adquirir confiança pessoal e viver o relacionamento sexual de forma espontânea e prazerosa.

Prêmio Educador Nota 10

Não poderia deixar de comentar o evento Prêmio Educador Nota 10, realizado pela Fundação Victor Civita. Foi uma festa muito bonita! Fiquei muito emocionada ao ver o empenho e o compromisso dos professores contemplados. Ah! Como é gratificante ver nos rostinhos de nossos alunos a alegria do saber, e em sua postura altiva, o orgulho de quem descobriu que agora detém o poder de um conhecimento. Isso foi possível porque cada um desses professores saiu da zona de conforto e foi buscar e ousar ensinar com muita competência profissional… Parabéns a todos os vencedores!!!


TAGS: , ,

1 Comentário

Qual é a importância do sexo na conquista amorosa entre os jovens?

| Sexualidade
Quais atributos estão envolvidos na conquista amorosa. Crédito: Shutterstock

Será que a atração sexual é o único fator que desperta interesse dos jovens pelo outro?

Eu me surpreendi com a quantidade de comentários no facebook sobre o último post Devemos proteger crianças e adolescentes de assuntos “inadequados”? Fiquei feliz em saber que há crianças e jovens que já podem contar com adultos conscientes sobre a importância da sexualidade.

É um engano perigoso achar que negar a sexualidade ou não conversar sobre sexo faz com que os adolescentes percam o interesse sexual – que corre nas veias e na mente deles! A sociedade está mais liberal e isso propicia aos jovens muitas oportunidades sexuais.

É por isso que insisto na importância da Educação Sexual na escola, não só para falar sobre prevenção às DST e da gravidez, mas também sobre a qualidade de vida sexual dos jovens… Vocês dirão que estou sonhando muito alto… Mas é verdade! Os jovens precisam ser informados e refletir sobre mais temas, por exemplo, o uso do sexo na conquista amorosa.

Os atributos que interferem numa conquista é uma boa temática para trabalhar na sala de aula com os alunos do 9o ano e do Ensino Médio.

Conquista e sexo

No conceito de muitas garotas, a arma principal para se conquistar “o cara” é o sexo. De fato, a atração física e sexual é um motivo muito forte para despertar o interesse de um garoto. Mas, só o tesão não sustenta um relacionamento. Conquistar alguém é despertar no outro o encantamento e isso nem sempre depende da nossa desenvoltura sexual. O que decide mesmo nosso interesse por alguém é um conjunto mais amplo de fatores. O sexólogo americano John Money acredita que um dos mecanismos que explica a atração por alguém específico são os “mapas amorosos”.

O mapa amoroso funciona como um álbum de fotografias mental que é consultado sempre que surge alguém interessante a nossa volta. Quando ocorre o encontro com pessoas que possuem características parecidas com aquelas que temos registradas nesse álbum como significativas, a paixão pode acontecer. Assim, o ideal que temos em mente é muito mais poderoso no processo de conquista do que a sensualidade e disponibilidade sexual.

E é aí que o trabalho de Educação Sexual pode ser muito proveitoso! Numa roda de conversa com seus alunos, levante a questão: Qual tipo de pessoa atrai você?

Antigamente, uma menina sabia como preencher o modelo de mulher para conquistar um namorado. Bastava ser discreta, dengosa e prendada (saber costurar, cozinhar, cuidar de uma casa e lidar com crianças). Hoje, ainda bem, a mulher tem mais opções, principalmente na sua vida profissional. O parâmetro generalizado de “menina preferida” não existe mais.

Por outro lado, esse processo é muito recente e há casos em que ser estudiosa, ousada e independente pode amedrontar o garoto, ou não parecer atraentes à primeira vista. A atração sexual parece ser a única certeza sobre o mecanismo de atrair o outro. Por isso é muito importante que os alunos identifiquem outros tipos de atração, além da sexual: a atração afetiva, aquela em que o adolescente gosta do “jeito de ser” do  outro – seus gestos, suas atitudes, sua forma de se expressar, de fazer as coisas, de se vestir, de se posicionar nas situações… E a atração intelectual, quando se aprecia o jeito de pensar do outro: a forma de ver a vida, as expectativas, os valores morais, religiosos, a forma de se comportar na vida em relação a si, aos outros e ao mundo.

O conhecimento sobre o processo amoroso pode ajudar os jovens a encontrarem o seu próprio jeito de conquistar sem que para isso precisem extrapolar seus limites, atropelar seus valores e deixar de respeitar o seu tempo. 

Você já conversou alguma vez com seus alunos sobre isso? Compartilhe conosco!


TAGS: , , ,

1 Comentário

Devemos proteger crianças e adolescentes de assuntos “inadequados”?

| Família, Sexualidade

Releitura da capa de

Não posso deixar de compartilhar com vocês uma notícia que me incomodou muito:

… o livro “A Culpa é das Estrelas”, de John Green, foi proibido em escolas públicas em Riverside, na Califórnia, por falar de morte e sexo. A proposta de proibição veio de uma mãe, Karen Krueger, que convenceu uma comissão de professores, pais, diretor e bibliotecários a retirar as cópias dos livros das bibliotecas do distrito. “Eu não acho que o conteúdo seja apropriado para crianças de 11, 12, 13 anos de idade”, disse ela. (Fonte: UOL)

O best-seller “A culpa é das estrelas“, do autor norte-americano John Green, conta de maneira espirituosa e sensível a história de um casal de adolescentes diagnosticados com câncer. Recentemente adaptado para o cinema, o livro trata de sexo e morte, dois temas tabu na nossa sociedade. A protagonista tem uma vida amorosa (e sexual) ao mesmo tempo em que lida com a doença e a iminência da morte. Não é o caso de avaliar se essa história é a melhor para abordar essas questões, mas quero discutir a postura superprotetora, que, oferece ao jovem silêncio e negação no lugar de uma oportunidade para o diálogo e a aprendizagem sobre questões inerentes à vida. Será que isolar crianças e jovens de temas como a morte e o sexo é positivo para seu desenvolvimento?

Isso me remeteu a minha adolescência…  Sem ter mais o poder de me proteger da vida, meu sábio e saudoso pai admitiu em uma de nossas conversas:

“Se pudesse, colocava você e seus irmãos num pedestal para que não precisassem passar por nenhum tipo de sofrimento, tristeza ou dificuldade. Mas não posso. Filha, o que posso lhe dizer é que a lei da física se aplica a lei da humanidade. Quando a gente se deixa levar pela força centrípeta ou pela centrífuga… Perde o controle sobre a própria vida e passa a ser comandado pelos outros. É preciso encontrar o equilíbrio! E, para isso, você tem que aprender a subir a sua escada da vida sozinha.”

A coragem e a humildade contidas nessas palavras são uma grande referência para mim. Até hoje pauto minhas atitudes por elas, mesmo tendo mais idade do que meu pai tinha quando as proferiu.

Desejo e realidade

Precisamos separar a nossa expectativa em relação à vida dos nossos jovens da realidade com que eles têm de lidar e vivenciar com suas próprias pernas e atitudes. Muitos pais e educadores ainda acreditam erroneamente que as aulas de Educação Sexual são uma apologia ao sexo. Eles têm a ideia – ou a esperança – de que seus filhos/alunos nem sequer pensem nisso. Será? Uma pesquisa recente mostrou que a primeira relação sexual dos brasileiros está ocorrendo por volta dos 13 anos, mesma idade registrada nos Estados Unidos e Austrália.

Hoje um casal de adolescentes pode passar um longo tempo juntos, em sua própria casa, na casa de amigos, em uma balada, em um shopping ou mesmo no cinema.

O que os jovens fazem ou não com o seu interesse sexual – que, como vimos na pesquisa, existe! – depende da Educação Sexual que tiveram, isto é, dos valores, da capacidade de tomar decisões e lidar com os desejos, da aprendizagem sobre prevenção, da sua autoestima…

Ouço muito que as crianças e jovens “não estão preparados” para lidar com esse tema. Concordo, afinal, quem já nasce preparado para alguma coisa nessa vida? Nosso papel é justamente prepará-los para lidar com questões da sexualidade, de acordo com o seu interesse e com sua capacidade de compreensão dos fatos. Eles anseiam saber! Precisamos respeitar a fase de cada um, e não impedir o conhecimento.

Muitas vezes, o sexo é reduzido ao prazer do corpo e às manifestações genitais. No entanto, a sexualidade é um instrumento que propicia experiências indispensáveis ao crescimento pessoal, à autonomia e ao desenvolvimento da individualidade e, até mesmo da cidadania, uma vez que envolve o modo como cada um entende e interpreta seus direitos e deveres para consigo e com os outros, em relação à condição de gênero, a função reprodutiva e a capacidade de se relacionar afetivo e sexualmente.

Quando se nega o trabalho de Educação Sexual ou se adere ao discurso de que esse tema é “inadequado” aos alunos, é preciso refletir: será que o educador não está deixando de ser um elemento transformador para se tornar um instrumento de atrofia pessoal e social?

Para caminharem sozinhos, os jovens precisam abastecer a bagagem da vida com conhecimentos. Sejam eles adquiridos nas experiências familiares, seja na vivência pessoal, mas também por meio de ensinamentos formais da escola e da emoção de um livro. Se houver alguma dificuldade de compreensão do livro, ela vai precisar de um adulto próximo para conversar. E aí, quem é que não está preparado para o tema?

Compartilhe nos comentários a sua opinião!


TAGS: , , , , ,

7 Comentários