Edição 226 | Outubro 2009

Qual é o principal problema que você encontra na sala de aula? Toda vez que essa pergunta é feita (em pesquisas com professores), alguns temas sempre surgem entre os mais votados: falta de motivação dos alunos, falta de participação dos pais, falta de infraestrutura e, claro, a famosa indisciplina. Na escola pública ou na particular, nas séries iniciais do Ensino Fundamental ou nos últimos anos do Médio, ela pode até apresentar-se de forma diferente, mas nunca deixa de ser uma preocupação para os gestores e a equipe docente. Tanto é assim que já virou quase um chavão afirmar que a indisciplina é uma das causas (senão a principal) do fracasso escolar brasileiro.
Será mesmo? Sob a coordenação da redatora-chefe, Denise Pellegrini, e do editor Ricardo Falzetta, NOVA ESCOLA passou os últimos dois meses ouvindo especialistas para discutir essa questão. E a apuração realizada pela editora Beatriz Vichessi e pelos repórteres Anderson Moço e Thais Gurgel mostra claramente que, hoje, a indisciplina é muito mais um ref lexo dos problemas enfrentados por nosso sistema educacional – é sintoma, não causa.
O que a reportagem mostra, para ficar na metáfora da área médica, é que a indisciplina não é um problema pontual, que se resolve com um remédio já conhecido (algo como engessar o braço para fixar um osso quebrado). Ela está mais para uma doença crônica, que se manifesta de diversas maneiras e nem sempre pode ser totalmente curada, podendo voltar a aparecer a qualquer momento. Combatê-la, portanto, exige pensar além de fórmulas mágicas – exige mudar hábitos, rever posturas e, numa abordagem que tem um toque psicanalítico, colocar-se como parte da questão. O essencial é chegar às verdadeiras causas, que incluem enxergar o que a escola está oferecendo a todos os alunos, para fazer com que a indisciplina deixe de ser esse enorme fantasma que assombra nossas salas de aula e se torne o que de fato é: uma manifestação natural das crianças e jovens, que pode e deve ser controlada.
Um grande abraço,
Gabriel Pillar Grossi
Diretor de Redação
maria cristina ferraz silva - Postado em 24/10/2009 23:57:43
Sou professora de alfabetização de adultos e tenho recebido alunos adolescentes que muitas vezes chegam ao final do ensino fundamental sem saber escrever e a matematica fudamental. Porém, este não é o mais grave e sim o total descompromisso com a aprendizagem e a indisciplina que parece ser fruto de uma educação permissiva. Acredito que atualmente faltem parâmetros para a educação: família, escola e até mesmo a religião já não representam figuras de autoridade e o resultado disso é que valores como respeito e responsabilidade cairam em desuso. Maria Cristina, Álvares Machado - SP
Ana Maria Lellis Krupelis - Postado em 21/10/2009 21:40:10
Assinamos a revista e gosto dos artigos, em maioria, mas devo discordar de parte desse. Entendi que a responsabilidade do que anda acontecendo com tanta frequência foi praticamente "despejada" sobre os professores. As opiniões citadas são de pessoas em cargos importantes e provavelmente escolhidas por suas posições políticas. Também foi citada uma pessoa que estaria agora com quase um século de vida e o garotinho das tiras americanas - ambos longe da nossa realidade. Há uns 20 anos esse problema vem se agravando e ficando mais difícil de se enfrentar, especialmente em São Paulo. Não há como negar que os pais mimam os filhos ao máximo e os defendem mesmo se erram. Tenho visto conhecidos serem ameaçados e agredidos de várias formas por alunos e pelos "responsáveis", que não respeitam regras de convivência e interpretam o ECA com permissão para tudo. Aí, é só dizer que o professor fez isso ou aquilo, ainda que mentira. É muito bonito o que foi apontado como estratégia, mas ficou parecendo que o professor deve largar o restante dos talvez 30 ou 40 alunos para ensinar àquele o que deveria trazer de casa. Quem opinou faria isso? Tudo vira um blá-blá-blá se conhecermos a realidade do salário dos professores, condições precárias e tudo o que falta para um desempenho geral mais satisfatório. Vemos o sacrifício de suas vidas pessoais, quando devem viajar por estradas para dar aulas em outras cidades, sem ressarcimento da gasolina ou só com a metade da passagem de ônibus, com o vale de alimentos que é proporcional aos dias trabalhados e, quando total não passa de 50 reais, o cansaço, falta de infraestrutura, entre tantas péssimas outras. O governo estadual acaba de enfiar guela abaixo de todos uma lei, que sequer foi debatida - apenas votada e à qual a oposição trouxe 25 emendas, ignoradas pela base governista. Esse governo não constrói escolas e nem respeita o educador, só faz exigências. Acredito que essas são as principais razões que farão esse problema não ter fim - só tem os bodes expiatórios. Seria importante se as pessoas assistissem, de vez em quando, a alguma sessão da Assembléia Legislativa de SP, mesmo na tv. Ficaria mais fácil escolher em quem votar: alguém que dê o devido valor ao professor e ao aluno. Muito grata.