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Edição 219 |

Retrato - A Educação por outro foco - Estimado Lobato

Escrevo esta carta para lhe contar que descobri outro lado de seu universo literário

Ilustração Eduardo Nunes
Ilustração Eduardo Nunes

Fiquei de olhos arregalados, meio parados, feito uma boba – tal qual a boneca Emília antes da pílula falante –, quando descobri que o senhor, mesmo com a atarefada vida de escritor e batalhador das causas nacionalistas, fazia questão de reservar um tempo para se corresponder com os pequenos leitores da mesma maneira que fazia com Mário de Andrade e Erico Verissimo. Meu pensamento correu solto ao imaginar o rumo que as missivas tomavam – porque hoje em dia, meu caro, o contato entre autores e leitores mirins cai quase sempre numa burocracia escolar desanimadora, numa prosa que não rende mais que dois ou três parágrafos...

Curiosa, pesquisei na internet (uma maravilha eletrônica da atualidade que o deixaria boquiaberto) e descobri um arquivo com parte dessa correspondência, à disposição de visitantes, no Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulalio (Cedae), na Universidade Estadual de Campinas. Agendei uma visita e, em uma sexta-feira, lá estava eu.

Seguindo uma frase que Marisa Lajolo, professora que participou da organização do acervo, me disse – “O leitor infantil se sente respeitado por Lobato” –, comecei buscando notícias do passado. Com as mãos devidamente enluvadas – seus escritos são tratados como obras históricas –, alcancei uma carta enviada à garota Maria Luiza, em 1936, que comprova a afirmação. “Está aqui uma menina que bem merecia morar no sítio de dona Benta e tomar parte de nossas aventuras. Sabe alemão e tem ‘personality’.”

Minha pesquisa seguiu e percebi que na sua opinião essa escrita tem de ser mesmo inteligente e sem caráter de dever de casa. “Tem valor a opinião das crianças; mas não tem valor nenhum, nenhum, a de uma criança ‘assoprada’ por um adulto”, revela um trecho da correspondência enviada em 1947 para a então menina Josette. Aposto que ficou curioso para saber notícias dela. A “patriciazinha de Piracicaba”, como costumava chamar a pequena com quem trocou cartas durante dois anos, hoje tem 75 anos, e é escritora e professora de Música.

Antes de me despedir, mais notícias do presente. Tem muita gente bisbilhotando a sua correspondência, como Raquel Afonso. A pesquisadora me contou que leu 246 cartas suas trocadas com crianças e organizou uma tese de doutorado, comprovando que seu contato com os pequenos era intenso, além de rico, pois o universo das obras era transposto para a vida real naturalmente. Pela dedicação e pelo esforço, bem que ela merecia uma visita sua a bordo de um condor, como a prometida em correspondência também para Maria Luiza. O que acha da ideia?

Com saudades, me despeço,
RITA TREVISAN, de Campinas, SP

Quer saber mais?

INTERNET 
Em www.unicamp.br/iel/monteirolobato, cartas enviadas e escritas pelo autor. Em www.lobato.com.br, informações sobre a vida e a obra de Monteiro Lobato.

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