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Tem muitas histórias do Brasil nas telas de Tarsila do Amaral

O estudo do quadro Operários, de autoria da primeira-dama do modernismo, permite observar como o país ingressou no mundo industrializado, no início do século 20

Paulo Araújo

Operários: destaque da fase social da pintora, a tela mostra os vários rostos dos trabalhadores da recém-inaugurada indústria brasileira. Foto: Reprodução
Operários: destaque da fase social da pintora, a tela
mostra os vários rostos dos trabalhadores da
recém-inaugurada indústria brasileira.
Foto: Reprodução

Peça de teatro, minissérie de TV, exposições bem cuidadas e um site oficial jogaram luzes este ano sobre a obra e a vida privada de Tarsila do Amaral (1886-1973). Tamanho destaque se justifica pela produção da artista, considerada a primeira-dama do modernismo brasileiro e uma das responsáveis pela criação de uma arte genuinamente verde-amarela. O trabalho da pintora passa por várias fases, como a pau-brasil, a antropofágica e a social. Desta última, que contribuiu para solidificar no nosso imaginário o início da industrialização do país, a tela Operários se destaca.

O quadro pintado em 1933 é um verdadeiro painel da nossa gente, a mesma que veio dos quatro cantos do país e do mundo para pegar pesado nas fábricas, que na época começavam a transformar a paisagem brasileira. "Trata-se de um marco histórico na obra de Tarsila, pois, se ela já fora no Brasil a precursora do cubismo e do surrealismo nas artes plásticas, detém-se agora na pintura de assunto eminentemente social", escreve Nádia Battella Gotlib, autora de uma das mais completas biografias da pintora.

Operários funciona como ponto de partida para você falar sobre o surgimento dos grandes centros urbanos brasileiros. Esse é o tema do roteiro indicado para turmas de 5ª a 8ª série que você verá a seguir. Ele contempla as disciplinas de Artes, História e Geografia e foi elaborado por Maria Lúcia Medeiros, professora da Escola Vera Cruz, em São Paulo; Roberto Giansanti, autor de livros didáticos de Geografia; e Marco Antônio Pasqualini, professor de Artes Plásticas da Universidade Federal de Uberlândia (MG). Depois, confira sugestão de atividades de Artes para classes de 1ª a 4ª série.

A nossa revolução industrial

Mostre para a classe a reprodução da tela que ilustra a página ao lado e aborde, inicialmente, a temática social. Pergunte o que os estudantes sabem sobre o funcionamento de uma fábrica e os processos de transformação de matérias-primas. Quais os setores industriais que mais prosperaram no Brasil? Ouça as opiniões e ensine que o conceito de fábrica foi criado pela Revolução Industrial, na Inglaterra do final do século 18. Ele sugere a divisão social do trabalho e a incorporação de novas tecnologias de energia. A indústria, de forma geral, transforma elementos da natureza em objetos fabricados por máquinas operadas pela mão do homem.

Conte à turma que as primeiras fábricas brasileiras dedicavam-se à produção de bens não-duráveis, como tecidos e alimentos. A partir dos anos 1930 e, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, o nosso parque industrial diversificou-se e passou a produzir os chamados bens duráveis automóveis e eletrodomésticos e produtos da indústria de base (cimento, petroquímica e siderurgia).

Instigue a curiosidade da garotada sobre outros aspectos históricos referentes a Operários: aponte os elementos de fundo e os detalhes sobre as figuras humanas. O que sugere o semblante das pessoas? Alguém arrisca dizer qual era a intenção da artista? O que a pintura está anunciando? Há nela alguma denúncia social? (Veja mais informações sobre a industrialização em São Paulo no quadro abaixo.) Hoje, como poderíamos retratar uma cena de trabalhadores?

Anote as hipóteses citadas, escolhendo as principais. Faça os esclarecimentos necessários e proponha uma pesquisa sobre urbanização, industrialização e imigração no início do século 20. Sugira que os alunos elaborem textos sobre o período eles podem ser ilustrados com fotos, gravuras e desenhos relativos à época.

De olho nos elementos visuais da tela

- De início, incentive comentários sobre os aspectos visuais do quadro por meio de algumas questões
- Como os personagens estão organizados?
- Há uma geometria que dá ordem aos elementos?
- Os personagens se agrupam ou são mostrados de forma isolada?
- Quais as cores usadas pela pintora?
- O que são os cilindros verticais no canto superior da tela?
- Que cidade é essa?
- Quem são as pessoas representadas? Elas pertencem a diferentes raças ou classes sociais?

Os estudantes devem perceber que há negros, brancos, japoneses, mestiços, homens, mulheres e crianças de várias idades formando a cena. Ressalte a postura das pessoas: elas estão todas de frente, tendo apenas a cabeça e parte do colo aparecendo. Essa pose sugere padronização e anonimato, apesar dos acessórios individuais. Será que os alunos conseguem distinguir alguém famoso? Mário de Andrade (1893-1945), autor de Macunaíma, é o homem de óculos no meio das pessoas; Oswald de Andrade (1890-1954), o poeta que foi casado com Tarsila, está no canto superior da pintura. Mostre assim que há tanto pessoas humildes, do povo, quanto intelectuais e artistas naquela "multidão" representada.

Conte que Nádia Battella Gotlib aponta em seu livro que os rostos, surreais, levitam, suspensos, tal como o próprio rosto da artista no seu famoso Auto-Retrato. A mensagem, porém, não é mais de beleza radiante. É de miséria e dor. Cada um deles exibe, de modo marcante, a sua própria fisionomia. Algumas delas a artista constrói, inclusive, com base nos traços de pessoas conhecidas. Há força em cada uma dessas expressões que fitam, de frente e corajosamente, o espectador.

É hora de comparar as figuras

Depois dessa análise, teça comentários sobre a formação da pintora e contextualize sua produção. É hora então de aproveitar Operários para trabalhar semelhança e diferença com a garotada de 1ª a 4ª série. O aluno vai fazer composições próprias, no plano ou no espaço, e notar como cada elemento do conjunto possui um caráter especial, individual, único.

Peça às crianças que reúnam objetos variados (latinhas, tampinhas, roupas, canetas, folhas de árvores etc.). Ensine a turma a juntar o que é semelhante, ou seja, constituir uma série, e o que apresenta pequenas alterações (de cor, forma, tamanho, rótulo, características), formando subgrupos. Pergunte o que é igual e o que é diferente em cada grupo. Faça uma reflexão sobre o mundo industrial, a produção em série e a multiplicidade das coisas na natureza e na cultura. As crianças devem criar colagens ou objetos artísticos inspirados em figuras geométricas conhecidas, como triângulos, círculos, ou mesmo estrelas, figuras humanas etc. Observe a forma poligonal de Operários.

Proponha ainda a montagem de um painel com fotos dos alunos e de seus parentes, criando uma discussão sobre a diversidade e a convivência de tipos, comportamentos, características, sexos e raças. Volte a Operários. Procure construir o significado da pintura: a proposta de união e de construção social de vários tipos e classes, em que todos serão os "operários" de uma nova sociedade brasileira. Ajude as crianças a montar uma linha do tempo com as obras da artista, distinguindo o que caracteriza a geométrica fase pau-brasil e a surrealista antropofágica.

Retrato de uma paulicéia trabalhadora

Refinações de Milho Brasil, em 1930: setor alimentício é uma das pontas da industrialização em São Paulo. Foto: Reprodução/ Sommer Andrey
Refinações de Milho Brasil, em 1930: setor
alimentício é uma das pontas da
industrialização em São Paulo. Foto:
Reprodução/ Sommer Andrey

Em 1933, quando Tarsila pintou Operários, São Paulo já havia se consolidado como o principal centro urbano e industrial do país. O acúmulo de riquezas originadas pelos negócios do café, as importações e exportações e a presença de imigrantes possibilitaram o crescimento da cidade.

O desenvolvimento industrial deu-se com a instalação de fábricas de tecidos, alimentos e vestuário. Até 1920, entre 6% e 10% da população morava em cidades. Nos 20 anos seguintes, esse porcentual aumentou para 31%. A maior parte dos trabalhadores que vieram de outros países e de regiões brasileiras chegava em São Paulo. Hoje, mais de 10 milhões de pessoas vivem em pouco mais de 1500 quilômetros quadrados na capital paulista, a maior cidade da América do Sul. 

A ARTISTA E SUA ÉPOCA

Abaporu: a tela, pintada em 1928, inaugura o movimento antropofágico. Foto: Reprodução
Abaporu: a tela, pintada em
1928, inaugura o
movimento antropofágico.
Foto: Reprodução

Tarsila do Amaral nasceu numa fazenda em Capivari, no interior de São Paulo, e sempre manteve relação estreita com o mundo rural. Chegou a ganhar dos amigos o apelido carinhoso de "caipirinha". Apesar disso, talvez ela tenha sido a mais globalizada das artistas de sua época. Iniciou-se nas artes em Barcelona, em 1902, onde copiava imagens religiosas. Dois anos depois, já no Brasil, se casou com André Teixeira Pinto e teve sua única filha, Dulce. Separada, mudou-se para São Paulo em 1913. Aprendeu piano, copiou pinturas clássicas e acompanhou algumas discussões literárias. Também aprendeu a fazer modelagem, escultura e continuou a estudar desenho com Pedro Alexandrino, quando conheceu Anita Malfatti (1889-1964), sua grande amiga.

Em 1920, Tarsila foi a Paris, onde teve o primeiro contato com a arte moderna européia. Conheceu os trabalhos de Pablo Picasso (1881-1973) e a vasta produção de dadaístas e futuristas. Em abril de 1922, dois meses depois da Semana de Arte Moderna, ela voltou ao Brasil para "descobrir" o modernismo. Conheceu Menotti del Picchia (1892-1945), Mário e Oswald de Andrade e, junto com Anita, fundou o Grupo dos Cinco. Nessa fase, a artista pinta com pinceladas mais ousadas. Em 1923, ela regressou a Paris e retomou as aulas de artes em outras bases, distantes da educação convencional e acadêmica.Ao retornar para o Brasil, seu interesse voltou-se para as coisas daqui. Foi conhecer o Carnaval carioca e as cidades históricas de Minas Gerais, retratados no que originaria a pintura da fase pau-brasil, em 1924. Em 1928, Tarsila criou a tela Abaporu (aba: homem; poru: que come carne humana, em tupi-guarani) e deu-a de presente a seu marido, Oswald de Andrade, fato que estimulou o escritor a criar o movimento antropofágico.

Em 1930, ela se tornou, por pouco tempo, diretora da Pinacoteca do Estado, um museu paulistano. No ano seguinte, deixou o cargo e ligou-se ao psiquiatra socialista Osório César, com quem viajou para a União Soviética. Lá realizou uma exposição no Museu de Arte Moderna Ocidental de Moscou, que incorporou ao acervo a tela O Pescador, hoje sob os cuidados do Museu Hermitage, de São Petesburgo.

De volta ao Brasil, após um período em Paris, onde trabalhou como operária, Tarsila foi detida por um mês, em São Paulo, por seu engajamento político na Revolução Constitucionalista de 1932. No ano seguinte, fez uma conferência sobre os cartazes soviéticos no Clube dos Artistas Modernos. Nessa fase ela pintou Operários e Segunda Classe, marcos da chamada fase social, que não sobreviveu ao fim do romance com Osório César.

A partir de 1935, Tarsila fixou-se no Rio de Janeiro, passando a viver com o poeta Luis Martins. Escreveu artigos para o Diário de São Paulo e pintou pouco. Sua produção só foi retomada com o retorno à São Paulo. A partir de 1950, retomou os temas e cores da fase pau-brasil e, aos poucos, seu trabalho foi reconhecido e valorizado como fundamental para o modernismo brasileiro. Faleceu em São Paulo em 1973.

O QUE É O MODERNISMO
Estudar a tela Operários é uma boa oportunidade para despertar a curiosidade da turma sobre o modernismo, movimento estético que sacudiu as artes plásticas, a literatura, a música e outras manifestações artísticas mundiais no final do século 19. Tudo começou na Europa, como resposta dos artistas de vários países às mudanças de comportamento trazidas pela industrialização. O movimento chegou ao Brasil somente nos anos 1920.

Ironicamente, artistas brasileiros que haviam estudado na Europa perceberam, ao voltar, como os elementos de nossa terra (índios, frutas, culinária, danças etc.) eram ricos. Assim, renegaram os valores europeus até mesmo por meio de manifestos e reinventaram técnicas para criar o que muitos críticos consideram uma arte genuinamente brasileira. As telas de Anita Malfatti e Lasar Segall, as esculturas de Victor Brecheret, os textos de Mário e Oswald de Andrade e, finalmente, toda a efervescência cultural que foi a Semana de Arte Moderna de 1922 transformaram-se nos grandes ícones da produção modernista brasileira.

Quer saber mais?

Escola Vera Cruz, R. Da Elisa de Moraes Mendes, 784, 05449-001, São Paulo, SP, tel. (11) 3021-2050

Universidade Federal de Uberlândia, Av. João Naves de Ávila, 2160, Bloco 1I, Sala 29, 38408-100, Uberlândia, MG, tel. (34) 3239-4129

Bibliografia
Tarsila do Amaral, A Modernista
, Nádia Battella Gotlib, 213 págs., Ed. Senac, tel. (11) 3284-4322, 60 reais

Internet
No site www.tarsiladoamaral.com.br você conhece mais obras da pintora

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Publicado em Dezembro 2004.
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