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Preto no branco: desenhos com o lápis grafite

O lápis grafite é um excelente material para trabalhar o desenho com a turma e apresentar uma nova forma de enxergar o fazer artístico

Luís Souza

RMN (Musée D'Orsay) Thierry Le Mage/Acervo do Museu Lasar Segall - IBRAM Minc/Foto: Carlos Fadon/Divulgação - Ilustrações: Eduardo Nunes
Femme Nue, Debout, de Dos, Tournée Vers la Droite EDGAR DEGAS (1834-1937)
Grande Sinagoga de Vilna LASAR SEGALL (1891-1957)
Sem título EDITH DERDYK
Imbaúba FRANCISCO FARIA
RMN (Musée D'Orsay) Thierry Le Mage/Acervo do Museu Lasar Segall - IBRAM Minc/Foto: Carlos Fadon/Divulgação - Ilustrações: Eduardo Nunes

O artista francês Henri Matisse (1869-1954), um dos mais importantes pintores do século 20, disse certa vez que um desenho pode ser intensamente colorido sem que seja necessário introduzir nele a cor. Sua citação pode parecer enigmática, mas se pensarmos que, ao observar uma obra feita com grafite, podemos encontrar diferentes tonalidades, o pensamento faz sentido. E essa ideia é um bom começo para pensar em formas de diversificar e aprofundar o trabalho com desenho em sala.

Geralmente, quando são convidadas a desenhar, algumas crianças elegem poucas cores, enquanto outras usam várias. Mas é fato que sempre optam pelo lápis de cor: desconhecem que o grafite também é uma opção válida para desenhar e pintar. O resultado é que ele acaba sendo reservado somente para a escrita.

Ao empregá-lo na disciplina de Arte, o professor proporciona a ampliação do horizonte dos alunos: apresenta um novo jeito de pensar e de fazer arte e chama a atenção para as infinitas possibilidades de produzir diferentes tonalidades, texturas e linhas usando a mesma cor (alterando somente o modo de segurar o lápis e de pressioná-lo no papel). Sem falar que formas e profundidade são mais bem percebidas em preto e branco (e isso ajuda a apurar e definir melhor o jeito de olhar e analisar as imagens).

Explorar o desenho com grafite também colabora para desmontar alguns paradigmas que habitam a mente dos próprios educadores. Um deles é a necessidade de ter material caro e diversificado para desenvolver um projeto significativo na disciplina de Arte. "O fundamental são o conteúdo, a estratégia e as propostas de ação", afirma Karen Greif Amar, professora de Arte da Escola da Vila, em São Paulo. Tanto que é possível desenhar também usando materiais simples, como o carvão e até mesmo a tradicional caneta esferográfica.

O conteúdo do 6º ao 9º ano

"Retomar a prática do desenho com grafite nos anos finais do Ensino Fundamental é interessante para ampliar o repertório de nuances e texturas que é possível obter com o material", diz Karen Greif Amar. Maria José Spiteri, da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul) e da Universidade São Judas, ambas em São Paulo, sugere propor outros suportes e materiais para trabalhar com o lápis. Que tal desenhar em tela? E misturar grafite à parafina? Com espaço para prestar atenção nos detalhes, outra proposta é convidar os alunos a desenhar as sombras produzidas pelos objetos de acordo com a incidência da luz. Outro bom motivo para não abandonar o grafite é chamar a atenção para o ato de desenhar em si, pois é comum que os estudantes, com o passar do tempo, percam o interesse por ele.

Obras de profissionais ajudam a ampliar o repertório

Além de usar o lápis grafite para esboçar seus trabalhos, alguns artistas profissionais escolhem o material para compor a obra final. É o caso de Edgar Degas (1834-1937), Tarsila do Amaral (1886-1973), Matisse, Lasar Segall (1891-1957), Maurits Cornelis Escher (1898-1972), Candido Portinari (1903-1962), Edith Derdyk e Francisco Faria (os trabalhos de alguns deles ilustram esta reportagem).

Ao entrar em contato com esse material e com os artistas que lançam mão dele, os estudantes não só percebem que ele tem um papel relevante para a arte como também ganham subsídios para criar as próprias produções e discorrer sobre elas. "Eles devem ser capazes de relacionar o que fazem na escola com a produção do meio artístico. A produção em sala de aula não pode ser alienada", diz Rosa Iavelberg, diretora do Centro Universitário Maria Antonia, em São Paulo, e coautora dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Arte (leia no quadro anterior como trabalhar com o material com turmas do 6º ao 9º ano).

Reprodução autorizada por João Candido Portinari Imagem do acervo Projeto Portinari/Tarsila do Amaral Empreendimentos Foto Base 7 Romulo Fialdini - Ilustrações: Eduardo Nunes
Cabeça de Criança CANDIDO PORTINARI (1903-1962)
Bicho com Triângulo TARSILA DO AMARAL (1886-1973)
Reprodução autorizada por João Candido Portinari Imagem do acervo Projeto Portinari/Tarsila do Amaral Empreendimentos Foto Base 7 Romulo Fialdini

Desenhar é uma maneira de reapresentar o que se vê

Embora o lápis HB - também chamado de número 2 e usado para escrever - sirva para desenhar, os mais indicados para a atividade são o 4B e o 6B, mais macios. Com eles, fica mais fácil fazer gradações de acordo com a pressão e a inclinação em relação ao papel e preencher superfícies maiores com menos esforço. "É importante levar isso em consideração para que desenhar não se torne um ato cansativo para as crianças", explica Marisa Szpigel, coordenadora de Arte na Escola da Vila, em São Paulo.

Na EE Luiz Simionato, em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, o professor Marcos Pamplona trabalha o desenho com grafite com turmas de 3º e 4º anos. Ele convida as crianças a riscar quadrados no papel e preenchê-los com traços de diferentes pressões. A experiência também engloba a produção de texturas. "Depois, socializamos as descobertas para que todos contem o que fizeram e as experiências que não julgaram bem-sucedidas", diz Pamplona. É nessa etapa de reflexão que você pode apresentar outras técnicas, como a frotagem (leia o projeto didático).

É também papel do educador administrar o uso da borracha. Ela deve ser empregada pelos estudantes sem exagero. "Ela permite o fazer e o desfazer até que se chegue ao que se deseja, mas não deve ser associada ao erro", explica Rosa Iavelberg. Enfatize que não há certo ou errado e é possível aproveitar os traços para tomar outros rumos e seguir fazendo o desenho. E é importante o professor atentar para as propostas que apresenta à turma. Exercícios mecânicos e cópias não são adequados: eles fazem com que as crianças fixem modelos pela repetição e não permitem que elas soltem a imaginação e desenvolvam a criatividade. Mais importante é ajudar a turma a buscar um olhar próprio sobre as coisas e observar as características dos autores profissionais para aprender com eles tanto no processo de apreciação de obras como na reflexão do que é produzido no ambiente escolar.

Quer saber mais?

CONTATOS
EE Luiz Simionato, Av. Pacaembu, 11, Franco da Rocha, SP, 07810-000, tel. (11) 4449-2007
Karen Greif Amar
Maria José Spiteri
Marisa Szpigel
Rosa Iavelberg

BIBLIOGRAFIA
Inquietações e Mudanças no Ensino da Arte, Ana Mae Barbosa (org.), 184 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3611-9616, 31 reais

INTERNET 
Trabalhos de Francisco Faria com grafite
Trabalhos de Candido Portinari com grafite
Trabalhos de Tarsila do Amaral com grafite.

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 229, Janeiro/Fevereiro 2010,
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