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O percurso do desenho livre de estereótipos

Para que os alunos percebam o valor de seus trabalhos e deixem de lado figuras-padrão, é preciso mostrar que não existe uma única forma de representar um objeto

Anderson Moço

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Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Cena comum na maioria das turmas dos anos iniciais do Ensino Fundamental: quando convidados a desenhar, os alunos dizem que não sabem e algumas vezes até se recusam a começar a atividade. Quando desenham, acabam entregando trabalhos que apenas reproduzem modelos prontos: se traçam uma casa, por exemplo, eles todos usam a mesma forma. É difícil até descobrir qual desenho foi feito por quem.

Foi isso que provocou Paula Regina de Vargas, professora da EMEF Adolfo Schüler, em Montenegro, a 55 quilômetros de Porto Alegre, a desenvolver um projeto para acabar com o mito do "não sei desenhar". O trabalho rendeu a ela o Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 no ano passado. De acordo com Rosa Iavelberg, selecionadora de Arte, ela mereceu o título porque enfrentou o medo de desenhar dos estudantes e orientou o trabalho com experiências de aprendizagens significativas (leia o quadro na última página).

Para compreender por que esse problema surge e é tão comum, é válido saber um pouco sobre como se desenvolve o percurso das crianças no desenho. A princípio, quando elas começam a fazer seus primeiros traços, as produções se parecem com o que se convencionou chamar de boneco girino, uma figura humana constituída por um círculo de onde sai um traço representando o tronco, dois riscos para os braços e outros dois para as pernas. Depois, entre 5 e 8 anos, essa imagem incorpora cada vez mais detalhes, conforme os pequenos refinam seu esquema corporal e ganham um repertório de imagens ao ver desenhos de sua cultura e dos próprios colegas.

É nessa faixa etária também que elas começam a perceber o desenho como uma representação do real e se interessam em registrar no papel algo que seja reconhecido pelos outros. Ao mesmo tempo, a garotada está aprendendo a escrever e descobre que as letras querem dizer algo (e têm uma forma correta para transmitir a mensagem). É justamente aí que a turma começa a afirmar que não sabe como desenhar.

Mas, afinal, por que isso ocorre? O fato pode ser resultado de comparação dos próprios desenhos com os dos colegas e também a percepção de haver uma distância entre suas intenções ao desenhar e a capacidade de realização. "É como se eles dissessem: 'Me ensine, por favor, porque eu preciso saber como representar exatamente o que estou pensando'", diz Karen Amar, professora da Escola da Vila, em São Paulo.

Essa frustração faz as crianças tentarem criar imagens perfeitas. Daí o primeiro motivos de eles reproduzirem estereótipos, repetindo padrões, como uma forma segura de se expressar. O segundo se dá pelo fato de grande parte das imagens com que os pequenos têm contato ser ilustrativa e passar mensagens claras. Ao folhear um livro, por exemplo, eles conseguem deduzir que parte da história é contada com ilustrações. Mas com suas próprias produções não costuma funcionar bem assim! Os adultos perguntam o que o desenho mostra antes mesmo de tentar entendê-lo. É possível ainda que o aluno tenha sofrido julgamentos negativos sobre suas atividades, ficando com sua confiança abalada para desenhar. Isso ocorre quando ele não contou com referências de alguém que valide ou oriente seus trabalhos.

E, afinal, o que é o desenho? É uma das expressões mais fortes e reconhecidas da cultura humana, um vasto campo de conhecimento. Ainda assim, o que é saber desenhar? É fazer alguém em proporção? É rabiscar? É reproduzir? Na verdade, é tudo isso: essa arte tem muitos campos de linguagem. O chargista, por exemplo, não necessariamente sabe como desenhar um quadro de paisagem. Fica claro então que cada autor desenvolve mais uma linguagem. Por isso, o mais importante é fazer as crianças experimentarem - e não necessariamente uma só técnica (leia o projeto didático).

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 240, Março 2011,
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