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Um mundo de imagens para ler

Ao desvendar o universo visual de seu cotidiano, o aluno vai conhecer melhor a si mesmo, compreender sua cultura e ampli√°-la com a de outros tempos e lugares

Paola Gentile

Experimente contar quantas imagens voc√™ v√™ diariamente. S√£o constru√ß√Ķes em diversos estilos, carros de v√°rios modelos, pessoas vestidas cada uma a seu gosto. H√° ainda a polui√ß√£o visual das cidades, com propagandas e picha√ß√Ķes, a televis√£o, a internet, as fotos de jornais e revistas... Alunos e alunas usam adere√ßos nos cabelos e enfeitam cadernos com ilustra√ß√Ķes de todo tipo. Muitas vezes isso passa despercebido e parece n√£o ter sentido. Ledo engano. Esses elementos visuais est√£o carregados de informa√ß√Ķes sobre nossa cultura e o mundo em que vivemos. Portanto, t√™m muito a ensinar.

A cultura visual - nome desse novo campo de estudo - prop√Ķe que as atividades ligadas √† Arte passem a ir al√©m de pinturas e esculturas, incorporando publicidade, objetos de uso cotidiano, moda, arquitetura, videoclipes e tantas representa√ß√Ķes visuais quantas o homem √© capaz de produzir. Trata-se de levar o cotidiano para a sala de aula, explorando a experi√™ncia dos estudantes e sua realidade.

Essa "alfabetiza√ß√£o visual" dar√° ao aluno condi√ß√Ķes de conhecer melhor a sociedade em que vive, interpretar a cultura de sua √©poca e tomar contato com a de outros povos. Mais: ele vai descobrir as pr√≥prias concep√ß√Ķes e emo√ß√Ķes ao apreciar uma imagem. "O professor tem de despertar o olhar curioso, para o aluno desvendar, interrogar e produzir alternativas frente √†s representa√ß√Ķes do universo visual", afirma Fernando Hern√°ndez, professor da Faculdade de Belas Artes de Barcelona, na Espanha.

 

Teoria

O arte-educador e pesquisador norte-americano Elliot Eisner escreveu que o ensino se torna mais abrangente quando utiliza representa√ß√Ķes visuais, pois elas permitem a aprendizagem de tudo o que os textos escritos n√£o conseguem revelar. Com base nisso, um grupo de pesquisadores norte-americanos passou, nos anos 1990, a estudar a liga√ß√£o da Arte com a Antropologia. Ganhou o nome de cultura visual e hoje envolve tamb√©m Arquitetura, Sociologia, Psicologia, Filosofia, Est√©tica, Semi√≥tica, Religi√£o e Hist√≥ria. Fernando Hern√°ndez √© hoje um dos principais pesquisadores do assunto. Ele destaca que estamos imersos numa avalanche de imagens e que √© preciso aprender a l√™-las e interpret√°-las para compreender e dar sentido ao mundo em que vivemos. Assim, crian√ßas e adolescentes ser√£o capazes de analisar os significados da imagem, os motivos que levaram √† sua realiza√ß√£o, como ela se insere na cultura da √©poca, como √© consumida pela sociedade e as t√©cnicas utilizadas pelo autor. Na escola, isso significa que o ensino de Arte ganha uma perspectiva mais profunda. De conhecedor de artistas e estilos, o aluno passar a ser leitor, int√©rprete e cr√≠tico de todas imagens presentes em seu cotidiano

 

 


 

 

Observar, produzir, avaliar

O ponto de partida para quem quer trabalhar a cultura visual √© ficar atento no mundo √† sua volta. Conhecer os objetos que fazem parte da realidade dos alunos e perceber quais s√£o importantes para eles. E, claro, planejar as atividades conforme o projeto pedag√≥gico da escola. Ao escolher os temas de estudo, d√™ prefer√™ncia √†s imagens que fa√ßam sentido para os estudantes. O espanhol Fernando Hern√°ndez prop√Ķe alguns crit√©rios. As representa√ß√Ķes devem ser inquietantes, estar relacionadas com valores comuns a outras culturas, refletir o anseio da comunidade, estar abertas a v√°rias interpreta√ß√Ķes, ter sentido para a vida das pessoas, expressar valores est√©ticos, fazer com que o espectador pense, n√£o apenas ser a express√£o do narcisismo do artista, olhar para o futuro e n√£o estar obcecadas pela id√©ia de novidade.

"Antes de apresentar determinada imagem √† turma, observe-a atentamente e pergunte a si mesmo quais as possibilidades de ensino que ela oferece", ressalta Teresinha Franz, professora de Arte e Design da Universidade do Estado de Santa Catarina e da Funda√ß√£o Catarinense de Cultura. Na sala de aula, abra o leque de op√ß√Ķes. Levante quest√Ķes para toda a classe. √Č prov√°vel que surjam outras abordagens, igualmente ricas para o aprendizado (leia mais abaixo no texto Representa√ß√£o da √©poca e da cultura).

Se preferir estudar um objeto, ressalte que aquela pe√ßa cont√©m v√°rias informa√ß√Ķes, pode revelar novas culturas e estabelecer rela√ß√Ķes entre povos, lugares e tempos. Mirian Celeste Martins, professora do Instituto de Arte da Universidade Estadual Paulista e do Espa√ßo
Pedag√≥gico, sugere criar uma expectativa na turma "lan√ßando quest√Ķes provocativas ou apresentando representa√ß√Ķes diversas do tema que ser√° trabalhado". Uma p√°gina de publicidade de revista pode levar a um passeio pelos quatro cantos do planeta (leia o texto Grande viagem cultural na pr√≥xima p√°gina).

Um bom jeito de trabalhar √© pedir que cada aluno monte uma pasta, tipo portf√≥lio, para registrar os passos do projeto - as impress√Ķes sobre cada tarefa s√£o essenciais. No in√≠cio todos podem escrever uma reda√ß√£o ou um relat√≥rio contando o que j√° sabem sobre o tema. Ao longo das aulas, coment√°rios devem acompanhar a produ√ß√£o di√°ria (que podem ser desenhos, textos, esculturas...). No final os alunos podem comparar o que sabiam no in√≠cio do trabalho com o que aprenderam. Voc√™ tamb√©m vai ter uma vis√£o geral do aprendizado na hora de avaliar.

Imagens efêmere

As imagens em movimento (televis√£o, videoclipe, videogame, internet, cinema etc.) s√£o chamadas de "ef√™meras". Por isso, devem ser trabalhadas de maneira especial na escola. Gisa Picosque, especialista em Artes C√™nicas e consultora de cursos de forma√ß√£o de professores, sugere que o professor analise e interprete as informa√ß√Ķes que os alunos memorizaram. Essa sele√ß√£o mental j√° revela muito. "√Č um momento rico para conhecer os estudantes - e eles a si mesmos - por meio das sensa√ß√Ķes que as imagens provocaram", ressalta.

Cabe ao professor conhecer os filmes, programas, sites e jogos preferidos dos jovens - e lev√°-los a abandonar a posi√ß√£o de espectadores passivos. Pergunte sobre as emo√ß√Ķes e sensa√ß√Ķes provocadas; com quais personagens ou situa√ß√Ķes a garotada se identifica (e quais provocam estranhamento). Que objetos, personagens e situa√ß√Ķes s√£o mais marcantes? Por qu√™?

Em seguida organize as respostas, localize essa produção visual no tempo e no espaço e oriente a classe a realizar as pesquisas necessárias.

 

O visual da escola

Os estudos sobre cultura visual mostram que as imagens presentes em nosso cotidiano s√£o fundamentais na forma√ß√£o de uma cultura cr√≠tica nas crian√ßas e nos jovens. Como a escola √©, desde cedo, um dos principais espa√ßos freq√ľentados por eles, ela ajuda (ou atrapalha) no processo de alfabetiza√ß√£o visual. Por isso, antes de colar algo na parede de sala, pense: o que esse desenho, foto, mural ou cartaz vai representar para meus alunos? "O educador precisa evitar oferecer aos estudantes um espa√ßo carregado de significados preestabelecidos", afirma Fernando Hern√°ndez.

O alerta vale principalmente para as classes de Educa√ß√£o Infantil. A pretexto de oferecer um ambiente "familiar", √© comum ver as salas decoradas com personagens de hist√≥rias infantis e de desenhos animados. Os especialistas garantem que isso s√≥ ajuda a cristalizar estere√≥tipos nos pequenos - e n√£o auxilia em nada no trabalho de educar o olhar. "O ideal √© que os espa√ßos sejam preenchidos com representa√ß√Ķes criadas pelas pr√≥prias crian√ßas", diz Irene Tourinho, vice-coordenadora do curso de p√≥s-gradu√ß√£o em Cultura Visual da Universidade Federal de Goi√°s. Uma id√©ia: professores e alunos podem levar objetos importantes para eles (brinquedos, objetos de uso pessoal ou da decora√ß√£o de casa etc.) e montar uma exposi√ß√£o para que todos observem e troquem informa√ß√Ķes sobre a import√Ęncia de cada pe√ßa para seu dono, um trabalho ao mesmo tempo √ļnico e enriquecedor.

 

Representação da época e da cultura

Loris Gruginski, de Florian√≥polis, decidiu mostrar a seus alunos de 8¬™ s√©rie da Escola Estadual de Ensino B√°sico Padre Anchieta como a cultura visual pode ser um instrumento de cidadania e uma forma de express√£o est√©tica. Escolheu um quadro do conterr√Ęneo Victor Meirelles e definiu um objetivo: estudar a cidade pelos olhos do pintor. "Os artistas representam sua √©poca e sua cultura. N√≥s tamb√©m podemos ser representantes de nossa √©poca e de nossa cultura", diz. Ao iniciar o trabalho, por√©m, os estudantes se interessaram tamb√©m pela moda do s√©culo 19, revelando um olhar surpreendente (e mais detalhado) sobre o tema.

Antes de visitar o museu dedicado a Meirelles, Loris levou gravuras para a sala de aula e mergulhou com a turma na obra do pintor. Conhecer como era a cidade 200 anos antes fez a garotada abrir os olhos para a realidade. "Todos passaram e se preocupar com o bairro em que vivem e seu entorno." A professora, ent√£o, selecionou imagens da cidade e pediu que os jovens fizessem novos quadros dos mesmos locais. Os desenhos e guaches produzidos foram colocados num grande painel, na escola. Como a moda era tamb√©m tema de estudos do artista, muitos quiseram se aprofundar nesse aspecto. Uma parceria com uma universidade local permitiu criar oficinas de confec√ß√£o de roupas e deu origem a uma s√©rie de pesquisas sobre a import√Ęncia da ind√ļstria t√™xtil para a economia de Santa Catarina - ontem e hoje.

Roteiro para o olhar

O pesquisador norte-americano Robert William Ott, da Penn State University, criou o seguinte roteiro para treinar o olhar sobre obras de arte, mas ele pode ser adaptado a atividades ligadas à cultura visual. O diferencial é fazer sempre a relação com a realidade do aluno:

1) Descrever

Para aproveitar tudo o que uma imagem pode oferecer, os olhos precisam percorrer o objeto de estudo com atenção. Dê um tempo para a obra se "hospedar" no cérebro. Em sala de aula, peça que todos descrevam o que vêem e elaborem um inventário.

2) Analisar

√Č hora de perceber os detalhes. As perguntas feitas pelo professor devem ter por objetivo estimular o aluno a prestar aten√ß√£o na linguagem visual, com seus elementos, texturas, dimens√Ķes, materiais, suportes e t√©cnicas.

3) Interpretar

Um turbilhão de idéias vai invadir a classe e você precisa estar atento a todas elas, para
aproveitar as diversas possibilidades pedagógicas. Liste-as e eleja com a turma as que
correspondam aos objetivos de ensino. Meninos e meninas devem ter espa√ßo para expressar as pr√≥prias interpreta√ß√Ķes, bem como sentimentos e emo√ß√Ķes. Mostre outras manifesta√ß√Ķes visuais que tratem do mesmo tema e estimule-os a fazer compara√ß√Ķes (cores, formas, linhas, organiza√ß√£o espacial etc.).

4) Fundamentar

Levantadas as quest√Ķes que balizar√£o o trabalho, √© tarefa dos estudantes buscar respostas.
Elabore junto com eles uma lista com os aspectos que provocam curiosidade sobre a obra, o autor, o processo de criação, a época etc. Ofereça textos de diversas áreas do conhecimento para pesquisa e indique bibliografia e sites para consulta, selecionando os textos de acordo com os interesses e o nível de conhecimento da classe.

5) Revelar

Com tantas novidades e aprendizados, a turma certamente estar√° estimulada a produzir.
Discuta com todos como gostariam de expor as id√©ias que agora t√™m. Quais s√£o essas id√©ias e como comunic√°-las? √Č hora criar, desenhar, escrever, fazer esculturas, colagens...

 

Exercício

 

 

A consultora Mirian Celeste Martins mostra, a seguir, como observar objetos do cotidiano e aprender com eles. Neste exemplo ela usou x√≠caras. Se voc√™ escolher outros materiais para explorar com seus alunos, √© preciso adaptar as quest√Ķes. O primeiro passo √© fazer uma descri√ß√£o detalhada, para conhecer as caracter√≠sticas e fun√ß√Ķes. Em seguida passe √†s perguntas.

· Em sua casa as pessoas têm o hábito de tomar café e/ou oferecê-lo às visitas?

· Quais as semelhanças e diferenças entre as xícaras ao lado? Descreva-as.

· Para que serve cada um de seus elementos? Por que foram desenhados assim?

· Todas estas xícaras são utilizadas hoje? Onde? Por quem?

¬∑ √Č poss√≠vel estimar em que √©poca elas foram feitas? Quais elementos levam a essas hip√≥teses? Por quem foram produzidas? Em que √©poca?

¬∑ O que essas imagens provocam em voc√™? Perceba suas emo√ß√Ķes e sensa√ß√Ķes.

· Como seu corpo reage às três xícaras e à obra de Regina Silveira?

· O que podemos pensar sobre os hábitos de nossa cultura?

· Outros povos têm costume de tomar café? Eles produzem outros tipos de xícara?

· Por que os americanos tomam a bebida em xícaras grandes? Por que os árabes costumam ler a borra do café que fica no fundo da xícara?

· Como seria nosso auto-retrato como xícara? Que tipo de xícara seríamos?

¬∑ O que se pode criar com base nas imagens acima? √Č poss√≠vel inventar hist√≥rias para cada uma, criar personagens com as mesmas caracter√≠sticas das x√≠caras? Escrever, desenhar, dramatizar, dan√ßar, esculpir uma cena dessa hist√≥ria? Criar um novo desenho de x√≠cara, pensando em quem tem um grande bigode ou um enorme nariz?

 

Grande viagem cultural

No in√≠cio do ano passado, C√©lia Maria Meirelles come√ßou a estudar a forma√ß√£o do povo brasileiro por meio da arte com suas turmas de 7¬™ s√©rie na Escola Municipal Governador Ildo Meneghetti, em Porto Alegre. Ningu√©m imaginava que o trabalho se estenderia por mais de um ano - s√≥ est√° previsto para terminar em junho. Tudo come√ßou com um an√ļncio que a professora viu numa revista. A p√°gina, dividida em quatro faixas horizontais (nas cores vermelha, amarela, branca e preta), tinha os dizeres: "Quando voc√™ mistura as cores das quatro ra√ßas, voc√™ tem a cor da Terra". Ela usou o material para cutucar a garotada e convidar todos para uma longa viagem cultural.

Antes do embarque, uma reflex√£o sobre a palavra viagem, ilustrada com imagens de jornais e revistas. Os alunos descreveram e justificaram suas escolhas, falaram sobre as sensa√ß√Ķes ao apreciar os trabalhos - que foram usados para encapar o "di√°rio de bordo", portf√≥lio que registra os passos do aprendizado. A primeira escala foi no Brasil antes da chegada dos portugueses. Os jovens estudaram o significado das formas geom√©tricas presentes nas pinturas corporais e em cestas e potes. Em seguida produziram pe√ßas de cer√Ęmica e madeira.

Aproveitando o interesse provocado pela Copa do Mundo na Cor√©ia do Sul e no Jap√£o, a √Āsia virou foco de estudo. Durante uma semana, todos anotaram o que viram nos jornais e ouviram na televis√£o sobre o Oriente, para compartilhar d√ļvidas em classe. Depois os alunos participaram de oficinas de orig√Ęmis e chap√©us t√≠picos de papel-mach√™ e, junto com outros professores, tomaram ch√° verde em sil√™ncio, como num t√≠pico ritual oriental.

A cultura negra rendeu estudos sobre tecidos e jóias, com direito a reprodução de estamparias e adereços - devidamente acompanhados de textos explicativos. Neste ano o trabalho recomeçou com os europeus. Mas o grande barato é mesmo o produto final bolado por Célia e seus alunos: a montagem de malas que revelassem todas as culturas estudadas, tal qual um turista que guarda objetos dos lugares que visitou para nunca se esquecer do que aprendeu na viagem.

 

Quer saber mais?

Contatos
Escola Estadual Padre Anchieta
, R. Rui Barbosa, 525, Florianópolis, SC, 88025-301, tel. (48) 228-0005

Escola Municipal Governador Ildo Meneghetti, R. C, 250, 91160-060, Porto Alegre, RS, tel. (51) 3365-3118
BIBLIOGRAFIA

Cultura Visual, Mudança Educativa e Projeto de Trabalho, Fernando Hernández, 261 págs., Ed.
Artmed, tel. 0800-7033444, 38 reais

Educa√ß√£o para uma Compreens√£o Cr√≠tica da Arte, Teresinha Sueli Franz, 318 p√°gs., Ed. Letras Contempor√Ęneas, tel. (48) 223-0945, 30 reais

Imagens Que Falam, Maria Helena Wagner Rossi, 140 págs., Ed. Mediação, tel. (51) 3311-7177, 24 reais

A Língua do Mundo - Poetizar, Fruir e Conhecer Arte, Mirian Celeste Martins, Gisa Picosque e M. Terezinha Telles Guerra, 197 págs. Ed. FTD, tel. (11) 3253-5011, 37,90 reais

Olhos Que Pintam - A Leitura da Imagem e o Ensino da Arte, Anamelia Bueno Buoro, 252 p√°gs., Ed. Cortez, tel. (11) 3864-0111, 28 reais

 

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Coment√°rios

 

Publicado em Abril 2003,
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