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Aula de arte com cara nova

Universidades e museus oferecem cursos para os professores da área, que passam a enfatizar conteúdos de artes plásticas, música, teatro e dança em sala

Paulo Araújo

Liliane Santos e a busca por uma melhor formação: além das capacitações oferecidas pelo governo de Mato Grosso do Sul, a professora cursou pós-graduação em Imagem e Som. Foto: Alexis Prappas
Liliane Santos e a busca por uma melhor formação:
além das capacitações oferecidas pelo governo de
Mato Grosso do Sul, a professora cursou
pós-graduação em Imagem e Som.
Foto: Alexis Prappas

Nos últimos dois anos, a professora Liliane Oliveira dos Santos ocupou manhãs e tardes lecionando Arte para turmas de 1ª a 8ª série das EE Professora Izaura Higa e Arlindo de Sampaio Jorge, em Campo Grande. À noite, ela ainda tinha disposição para encarar quatro horas de estudo numa pós-graduação em Imagem e Som oferecida pelo Departamento de Artes da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), onde se formou em 2000. "Foi um período muito corrido, mas valeu a pena. Hoje, sinto que minhas aulas são mais produtivas. Tive a oportunidade de me aprofundar em temas só introduzidos na graduação e também conheci novos materiais didáticos para utilizar com a turma", conta.

A Arte, disciplina que, mesmo sendo indispensável para a formação estética, por muito tempo foi lembrada nas escolas só durante a organização das festas ou na hora de fazer lembrancinhas em datas comemorativas (leia o quadro abaixo). "A metodologia do ensino de arte livre, o chamado laissez-faire, nos anos 1950 e 1960, gerou um vazio de conteúdo muito grande, pois imaginava-se que o professor não precisava de formação nem de informação, pois a criança tinha de ser criativa sem orientação", lembra Evelyn Ioschpe, presidente do Instituto Arte na Escola, em São Paulo. Braço da Fundação Ioschpe, a instituição já capacitou 25 mil professores em 24 estados brasileiros. "Arte é uma disciplina plena e deve ser tratada com seriedade", reforça. Tanto é assim que NOVA ESCOLA preparou uma edição especial dedicada à disciplina (disponível também no site Nova Escola).

Ensino de arte no Brasil

Nos últimos 120 anos, a disciplina no Brasil evoluiu de acordo com o momento histórico e a corrente pedagógica vigente. Acompanhe as principais mudanças.

1890-1930

Visão acadêmica

A arte é estudada só nas academias de belas-artes e nos conservatórios de música. Nas escolas regulares, há apenas as cadeiras de Desenho (cópia e geometria voltada para a qualificação industrial), Ginástica (disciplina corporal e higiene) e Música (solfejo e decodificação de partituras).

1930-1947

Atividades manuais

Desenhos e pinturas são feitos para decorar cadernos e festas escolares. Trabalhos manuais como tricô, crochê e bordado são ensinados às mulheres. Nos liceus de artes e ofícios (destinados à formação de mão-de-obra para a indústria), o ensino assume funções utilitárias. Em música, Villa-Lobos institui o canto orfeônico, com predomínio da teoria e memorização de peças de caráter folclórico e cívico.

1948

Liberdade de criação

Surge o Movimento Escolinhas de Arte, influenciado pela Escola Nova. Elas desenvolvem a auto-expressão de crianças e adolescentes. A ênfase é dada à liberdade de criação. Qualquer orientação é considerada interferência na criatividade.

1960

Formação docente

O projeto pedagógico de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro na Universidade de Brasília estabelece o primeiro curso de formação de professores na área. A proposta é baseada na interdisciplinaridade, profundamente ligada ao trabalho nos ateliês de artes plásticas e à experimentações no campo da música. Artistas e titulares de qualquer matéria podem ensinar os conteúdos ligados à área.

1971

Currículo escolar

A Educação Artística passa a ser obrigatória em escolas primárias e secundárias, mas não tem o status de disciplina: é considerada atividade educativa. Aparentemente, é a única matéria que faz relações entre o trabalho criativo e as humanidades. Professores desenvolvem atividades musicais, plásticas e corporais, privilegiando a reprodução de modelos e técnicas e a execução de tarefas de acordo com um planejamento desvinculado da realidade do aluno.

1973

Polivalência polêmica

São criados os cursos de arte-educação nas universidades federais. O currículo é o mesmo para todo o país. O curso pretende formar em dois anos professores capazes de ensinar música, teatro, artes visuais, dança e desenho geométrico da 1ª a 8ª série e no antigo 2º grau.

1980

Tecnologia invade a sala

Entra em cena o uso de recursos tecnológicos (TV, videocassete, aparelho de som), de meios audiovisuais (projeções, transparências) e do livro didático nas aulas de Arte. Infelizmente, predomina o receituário de técnicas. O período é marcado pela organização política dos arte-educadores e pela criação e pelo fortalecimento das associações de professores e pesquisadores. Torna-se popular a Proposta Triangular, de Ana Mae Barbosa, que propõe o ensino baseado em ações de produção, apreciação e reflexão continuamente interligadas.

1990

Educação nos museus

Os museus investem na criação de setores educativos, coordenados por profissionais com habilitação em Arte. Nesses espaços, professores recebem formação em encontros com curadores, artistas, críticos de arte e mediadores (os guias) antes de levar seus alunos para visitar as exposições.

2000

Ações do Terceiro Setor

Cresce o desenvolvimento de projetos em arte-educação promovidos por associações, organizações não-governamentais e instituições privadas e mistas, como o Sesc, o Senai, o Senac e o Sebrae.

Fonte: Parâmetros Curriculares Nacionais, do Ministério da Educação

Museus também ensinam

Outro tipo de formação apontada pelos especialistas como eficaz, além dos programas de graduação e de pós-graduação das universidades e das parcerias travadas entre fundações, estados e municípios, são os cursos oferecidos pelos setores educativos de diversos museus (leia mais abaixo). De duração variada - de um único fim de semana a dois anos -, eles dão aos professores a oportunidade de entrar em contato com curadores, montadores e artistas e de se preparar melhor para levar os alunos às exposições. "Freqüentar o educativo de um museu é fundamental para dar uma boa aula", diz Mirian Celeste Martins, do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista, responsável pela formação de dezenas de profissionais na área. "Mesmo depois de formado, o educador deve encarar essa atividade como uma capacitação constante", frisa Mirian.

Rotina do setor educativo de um museu: Lídice de Moura (de verde) explica a Ive (de branco) e colegas os segredos da mediação. Foto: Daniel Aratangy
Rotina do setor educativo de um museu: Lídice
de Moura (de verde) explica a Ive (de branco) e
colegas os segredos da mediação.
Foto: Daniel Aratangy

 

No Espaço Cultural da Universidade Santa Cecília (Unisanta), em Santos, litoral de São Paulo, Lídice Romano de Moura, professora do curso de Educação Artística, defende tanto essa prática que conseguiu transformar as atividades de mediação (momento em que o guia explica uma obra) em disciplina experimental do currículo no começo de 2006. Ela coloca os alunos - a maioria já leciona na rede pública local - para viver experiências de monitoria na galeria de arte que funciona dentro da universidade. Assim, o espaço acaba sendo rico tanto para o curso como para a cidade. "É uma alternativa para os municípios que não têm tantas opções de museus e espaços de exposição", justifica. Formada há dois anos, Ive Estrela Silva, que leciona para turmas de 1ª e 5ª série e EJA na EE Parque das Bandeiras Gleba II, na vizinha São Vicente, freqüenta regularmente o espaço da Unisanta e já tem programada uma visita com os alunos para o início do ano que vem. "Quando falamos sobre arte contemporânea, é quase obrigatório essa ponte feita pelos mediadores entre a obra e o visitante", teoriza Ive. "E ninguém deve ter vergonha de dizer que não entendeu determinado trabalho.A dúvida é o combustível das boas visitas."

Comparados às artes visuais, o teatro, a música e a dança - as outras três linguagens artísticas - ainda estão pouco articuladas em relação à formação de professores em espaços educativos. Nem por isso, no entanto, bons projetos deixam de ser realizados nessas áreas em todo o Brasil. "Precisamos nos aproximar da experiência dos museus para criar um tipo de capacitação que vá além do simples montar ou ver peças", comenta Arão Paranaguá de Santana, da Universidade Federal do Maranhão. Teatros, conservatórios musicais e estúdios de dança, portanto, precisam se abrir para os professores também fora dos horários de espetáculo. Há milhares deles, espalhados por todo o país, esperando por oportunidades de formação.

Capacitar-se nas linguagens artísticas...

• Possibilita conhecer novos recursos didáticos.

• Proporciona contato constante com a produção artística nacional e estrangeira.

• Permite trocar experiências com colegas sobre metodologias de ensino.

Preocupação antiga com a educação

Pesquisa feita por Lídice Romano de Moura, da Unisanta, revela que a idéia de um setor educativo dentro dos museus brasileiros surgiu em 1932, com a criação do primeiro curso de Museologia, idealizado pelo Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro. Após 16 anos, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) criou um espaço chamado Clube Infantil de Arte, que mesclava aulas de ateliê com visitas ao museu e acesso aos artistas expositores. Pietro Maria Bardi, fundador do Masp, se preocupava com o fato de o espaço não ter pessoas especializadas para receber os visitantes e, por isso, criou um curso de monitores que durou dois anos.

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o de São Paulo já nasceram no fim dos anos 1940 com uma preocupação educacional que ia além da mera exposição das obras. Conferências, cursos, exposições de caráter didático e textos explicativos sempre foram recursos empregados pelos dois para educar o olhar do visitante. De lá para cá, não houve a abertura de um grande espaço para a arte sem a presença do setor educativo que oriente professores, alunos e visitantes em geral. Lugares como o Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília, o Museu de Arte Moderna de Salvador e o Museu Emílio Goeldi, em Belém, têm essa preocupação.

A Bienal de São Paulo, maior evento de arte da América Latina, começou a oferecer o serviço educativo em 1985, mas foi em 1998 que aconteceu a grande virada: os trabalhos junto aos professores começaram a ser feitos com um ano de antecedência, coordenados por Evelyn Ioschpe. Este mês, o núcleo de Educação do Instituto Itaú Cultural, inaugurado em São Paulo há 19 anos, dá mais um passo rumo à capacitação de educadores também em dança, teatro e música. Para a exposição Primeira Pessoa, sobre narrativas biográficas (em cartaz até 28 de janeiro), foram montados cursos específicos para cada linguagem.

Quer saber mais?

Contatos
EE Parque das Bandeiras Gleba II
, R. Dr. Archimedes Bava, s/no, 11346-190, São Vicente, SP, tel. (13) 35661173

Intituto Arte na Escola, Al. Tietê, 618, casa 3, 01417- 000, São Paulo, SP, tel. (11) 3103-8080

Instituto de Artes (Unesp), R. Dom Luís Lasagna, 400, 04266-030, São Paulo, SP, tel. (11) 6166-6500

Instituto Itaú Cultural, Av. Paulista, 149, 01311-000, São Paulo, SP, tel. (11) 2168-1876

Universidade Santa Cecília, R. Oswaldo Cruz, 266, 11045-907, Santos, SP, tel. (13) 3202-7100

Bibliografia
Revista NOVA ESCOLA ARTE
, edição especial

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 198, Dezembro 2006,
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